018 – Introdução ao Livro de Provérbios – A aliança aplicada no cotidiano

Introdução ao Livro de Provérbios – A aliança aplicada no cotidiano

O povo hebreu era regido pelo código da Aliança. Embora o livro de Provérbios não cite claramente este tema, isso fica evidente na maneira como o autor aplica os fundamentos da fé em uma grande variedade de situações do dia a dia do israelita. O livro de Provérbios se aplica como um comentário estendido das leis as aliança, cuja ênfase era o amor (Lv. 19:18; Dt. 6:5).

A lei da aliança exigia obediência irrestrita aos seus termos, e Provérbios chama esta obediência de “o temor do Senhor” (Pv. 1:7; 2:5; 9:10). O livro de Provérbios destaca a reverência, a gratidão e o compromisso com Javé nas atitudes corriqueiras do povo hebreu.

O sábio, no antigo oriente médio, e também na sociedade israelita, junto com o Rei, sacerdotes e profetas, formava a corte real. O livro de Provérbios representa o legado destes sábios, produzido pela observação e reflexão das coisas simples da vida.

O termo hebraico para provérbio (מָשַׁלMashal) significa, entre outros conceitos, comparação, código de conduta ou descoberta da verdade.

Salomão é tido como o grande autor do livro de Provérbios e isso pode ser atestado pelo relato em I Reis 4:29-34. Ele escreveu por volta de 3 mil provérbios e 1005 cânticos. Porém ele não é o único autor dos adágios que formam o livro de Provérbios, pois são citados também os nomes de Agur e Lemuel. Não se tem muitas informações acerca destes homens, mas é provável que fossem de alguma tribo no norte da Arábia, se traduzirmos o termo massa’ (משא) em Pv. 30:1 como nome próprio do lugar e não como “oráculo”. Esta teoria é plausível, pois reforça a abrangência internacional de Salomão e da sua sabedoria.

A compilação final do livro de Provérbios é datado do século VI a.C., pois o capítulo 25 menciona a edição dos provérbios de Salomão pelos servos do rei Ezequias, que reinou entre os séculos VIII e VII a.C., indicando que o livro não estava pronto neste período.

A composição dos provérbios não sofreram interferência da história hebraica, pois seu valor prático ultrapassa o conceito temporal de história. A função de Israel de ser benção para todas as famílias da Terra dependia de uma liderança obediente à aliança, firmada sobre os pilares da família (ou clã/tribo), a corte real e as escolas de sabedoria. Estes sábios eram os responsáveis por instruírem os jovens a uma conduta de caráter em seu dia a dia.

Os provérbios eram responsáveis também pela manutenção econômico-social da comunidade hebraica, assegurando o direito dos pobres e necessitados (Pv. 31:8-9). Ademais, o rei era desafiado a executar princípios de justiça e integridade (Pv. 20:28; 24:21; 25:2-7).

Estrutura de Provérbios

O livro de Provérbios pode ser dividido da seguinte maneira:

  • Parte I: A sabedoria deve ser a filosofia de vida do discípulo em virtude de sua essência e excelentes resultados –  1:1 – 9:18
  • Parte II: Provérbios de Salomão – 10:1 – 22:16
  • Parte III: Provérbios dos sábios – 22:17 – 24:34
  • Parte IV: Provérbios de Salomão organizados pelos servos de Ezequias – 25:1 – 29:27
  • Parte V: Provérbios de Agur (organizados por Salomão?) – 30:1-33
  • Parte VI: Provérbios do rei Lemuel (organizados por Salomão?) – 31:1-8
  • Parte VII: Personificação dos provérbios na esposa ideal – 31:10-31

Em virtude do livro de Provérbios ser formado por coleções de adágios ao longo de três séculos, não é possível dividir seu conteúdo de forma sistemática. Contudo, podemos identificar ao menos três grandes blocos em Provérbios:

  • Os discursos de sabedoria – 1 a 9
  • Coleções de provérbios (Salomão e sábios) – 10 a 29
  • Apêndice de provérbios de Massá – 30 a 31

A introdução em 1:1-7 serve de chave interpretativa para todo o livro de Provérbios, pois apresenta o objetivo dos ensinamentos contidos em toda compilação. Os discursos, em geral, desenvolvem o tema apresentado na Introdução. Quem deseja a verdadeira sabedoria deve temer a Deus, que está implicitamente relacionada com a aliança de Javé com Israel (6:16-19). Estes discursos utilizam figuras de comparação da conduta do sábio  com o destino dos ímpios (4:10-19).

As coleções de provérbios explicam como Javé forma a conduta do justo, ou sábio,  a partir de uma exposição da Torá aplicada no cotidiano.

Os apêndices ao fim do livro (capítulos 30 e 31) repetem alguns temas tratados anteriormente e apresenta os resultados do temor do Senhor de forma prática ao mostrar o exemplo da esposa ideal. Além disso, estes adágios apresentam a dimensão social da sabedoria ao destacar o direito dos pobres e marginalizados (31:8-9).

Com relação à forma dos provérbios são elaborados em sua maioria com dois e quatro versos alternando entre as figuras de linguagem comparativa e de oposição, especialmente nas coleções de provérbios (10 a 29). A forma de provérbios numéricos é encontrada na seção 30:18-28 e o livro termina com um poema em forma de acróstico alfabético em 31:10-31.

Propósito e conteúdo

Com relação ao seu conteúdo, o livro de Provérbios trata dos seguintes temas:

  • A sabedoria vem do temor do Senhor
  • Os provérbios instruem acerca de preceitos básicos da vida e não se constituem em promessas
  • O caminho da sabedoria conduz à vida

O livro de Provérbios transmite a ideia de que a sabedoria é mais valiosa do que os tesouros da Terra.  E, justamente por esta razão, ela deve ser absorvida pelos ensinos dos mais velhos e dos pais (Pv. 1:8-9). Portanto, a sabedoria se torna hereditária (Pv. 4:1-9). A essência de Provérbios é o desejo de aplicar o “temor do Senhor”, fruto da Aliança, ao dia a dia.

A introdução ao livro de Provérbios expõe, em linhas gerais, seus objetivos conforme quadro abaixo:

Compreensão da sabedoria 1:2
Recebimento da instrução sobre sensatez, integridade, justiça e equidade 1:3
Ajuda ao humilde na obtenção de prudência e ao jovem conhecimento 1:4
Ampliação do aprendizado e habilidade no entendimento 1:5
Entendimento dos provérbios, parábolas e enigmas 1:6
Aprendizado do temor do Senhor 1:7

O temor do Senhor é a submissão reverente aos mandamentos da Aliança ao construir o relacionamento de obediência no dia a dia por meio da conduta e do pensamento corretos.

O temor do Senhor

O livro de Provérbios compara o temor do Senhor com o conhecimento de Deus (Pv. 2:5-6) e o conhecimento de Deus, no Antigo Testamento está aliado ao relacionamento com Javé, o Deus da Aliança (Os. 6:1-3). Apenas aqueles que se relacionam com Javé, por meio da lealdade à Aliança, encontrarão os tesouros da sabedoria.

A ideia de “temor do Senhor” impede que a fé se torne um sistema mecânico de causa e efeito, onde as pessoas simplificam as complexidades da vida dando respostas decoradas a perguntas difíceis. O temor do Senhor preserva o caráter incompreensível de Deus e o mistério profundo da vida.

O principio da retribuição: Terceira Parte

No livro de Provérbios a espera pela recompensa está associada ao indivíduo hebreu que teme ao Senhor. Os benefícios ao andar pela trilha da sabedoria incluem:

  • A lealdade à Aliança no relacionamento diário com Javé é o padrão de vida.
  • A prática da justiça e do direito com o próximo como efeitos do caminhar pela trilha da sabedoria.

O padrão de obediência ao trilhar o caminho da sabedoria leva em consideração o pecado humano e a desonestidade do mundo. É importante ressaltar que os adágios de Provérbios não são promessas, mas se tratam de princípios gerais baseados na experiência humana.

O livro de Provérbios também trata do desenvolvimento do caráter ao trilhar o caminho da sabedoria, que é mais vantajoso do que a prosperidade material. Qualidades como prudência, bom senso, boa conduta, justiça e integridade são traduções mais apropriadas do que “prosperidade”, pois o texto original traz a ideia de bem-estar ao invés de progresso material.

A sexualidade humana

O relacionamento entre homem e mulher, e suas complexidades, também é um tema  no livro de Provérbios. Por esta razão, os sábios hebreus exaltavam o casamento monogâmico e informam sobre os perigos de uma vida desregrada sexualmente.

A tabela abaixo demonstra os princípios bíblicos para o relacionamento homem- mulher:

A instrução da sabedoria como antídoto contra o pecado sexual 2:16
O amor erótico dentro dos limites conjugais 5:15-23; 18:22
A disciplina dos olhos e boca para evitar a tentação 5:1-6; 7:21-23
O ciúme que brota do adultério 6:20-35
O perigo do ócio 7:6-9
A educação sexual na família 7:1-5, 24-27
A sutileza dos pecados sexuais 23:26-28
A racionalização dos pecados sexuais e o endurecimento do coração 7:14-20; 30:20
A escolha do cônjuge pelos padrões de caráter e não da aparência física 31:10-31
A prevenção das discussões e comunicação aberta entre os cônjuges 19:13; 27:15

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017 – Introdução ao Livro dos Salmos – Canta Israel

Introdução ao Livro dos Salmos – Canta Israel

 

Salmos é um dos livros mais apreciados pelos cristãos. Quem nunca encontrou conforto e consolo em tempos de necessidade em suas páginas? Porém, sua autoria, teologia, interpretação e aplicação são temas que geram muitos debates que o tornam um dos livros mais complexos do cânon.

Com relação à sua composição temos que distinguir dois aspectos:

  • a autoria de um Salmo específico
  • a composição do livro todo

Alguns Salmos parecem ser datados do segundo milênio  a.C. enquanto outros foram produzidos no período pós-exílico. Porém, a composição do livro de modo completo ocorreu apenas no período pós-exílico, isto é, após o ano 539 a.C.

A autoria de cada um dos Salmos é deduzida a partir do seu título. Apenas 34 Salmos não possuem título. Dentro do grupo de Salmos que possuem título 100 apontam seu autor. Dos 100 títulos que indicam o autor 73 são atribuídos a Davi. Outros autores são: Moisés – Salmo 90; Salomão – Salmos 72, 127; Asafe – Salmos 50, 73, 83; Hemã – Salmo 88; Etã – Salmo 89; Filhos de Coré – Salmos 42, 44 a 49, 84, 85, 87.

O nome Salmos vem do grego Psalmoi, derivado da palavra psallo, que significa dedilhar, aludindo a um instrumento de cordas. Em hebraico o livro recebe o nome de Tehillîm, que significa cânticos de louvor.

Os salmos estão organizados em cinco grandes livros, a saber:

  • Livro I: 1 a 41
  • Livro II: 42 a 72
  • Livro III: 73 a 89
  • Livro IV: 90 a 106
  • Livro V: 107 a 150

Esta divisão está contida nos manuscritos mais antigos, porém os estudiosos têm descoberto pequenas coleções de Salmos:

  • Coleção davídica I: 3 a 41
  • Coleção dos filhos de Coré I: 42 a 49
  • Coleção davídica II: 51 a 65
  • Coleção de Asafe: 73 a 83
  • Coleção dos filhos de Coré: II: 84 a 88 (exceto o 86)
  • Coleção de louvor congregacional I: 95 a 100
  • Coleção Aleluia: 111 a 117
  • Coleção Salmos dos Degraus (subida a Jerusalém): 120 a 134
  • Coleção davídica III: 138 a 145
  • Coleção de louvor congregacional II: 146 a 150

Estas coleções menores foram organizadas nos cinco livros vistos acima para compor o livro completo dos Salmos. Alguns especulam que o organizador realizou este trabalho para destacar a transição de um livro para outro para o leitor entender o assunto principal de um livro. Nesta organização os Salmos 1 e 2 formam a introdução do livro. Cada um dos livros que compõem os Salmos termina com uma doxologia, cujo propósito é dar louvor a Javé pelo que foi revelado sobre si em cada livro. Observe o padrão que se repete em Sl. 41:13; 72:18ss; 89:52; 106:48 e 150, que serve como fechamento geral da composição dos Salmos.

O livro de Salmos, segundo os estudiosos, pode seguir o mesmo conceito aplicado no livro dos Reis, isto é, alguém coleta e organiza materiais de diversas fontes de acordo com um propósito teológico, desta forma a mensagem geral do livro transcende a mensagem particular de cada Salmo.

Estudos comprovam que o livro de Salmos não foi completado de uma vez, pois suas partes I a III, encontradas nos manuscritos do Mar Morto (cerca de 150 a.C.), estão dispostas na mesma ordem que conhecemos hoje. Entretanto, os livros IV e V estão dispostos em outra ordem, o que pode significar que os livros I a III já estavam com sua ordem definida no fim do século II a.C., enquanto que os livros IV e V ainda estavam em processo de organização, concluído plenamente pouco antes do período de Cristo. Portanto, ao longo de quase mil anos, vários escritores compuseram suas poesias que foram organizadas em pequenas coleções em diferentes períodos da história com um propósito teológico.

Com relação à forma os Salmos podem ser classificados em: louvor, lamento e sabedoria. Cada Salmo possui uma única forma, exceto o Salmo 22, onde os versos 1 a 21 são de lamento e os versos 22 a 31 são de louvor.

Os Salmos não eram exclusivos do povo hebreu, pois os povos mesopotâmicos também se utilizavam deste recurso literário para expressar suas emoções à divindade. A semelhança dos Salmos hebraicos com os mesopotâmicos se encontra na forma dos Salmos: o louvor e o lamento. Contudo existem diferenças consideráveis entre os Salmos hebraicos e mesopotâmicos, e uma delas é a abordagem do adorador mesopotâmico. Os Salmos de lamento mesopotâmicos tem a intenção de manipular a divindade, e para isto recorre a rituais de magia, pois entende que é culpado em todas as situações, mesmo que não saiba a razão. Como entende que a divindade mesopotâmica não seja justa e coerente o adorador apenas se propõe a aplacar a ira divina.

O adorador hebreu pressupõe sua inocência e não tenta manipular a Deus com rituais de magia e encantamentos. Quando os Salmos indicam claramente a culpa do autor, como é o caso do Salmo 51, a ofensa a Deus é sempre de caráter ético, enquanto o lamento mesopotâmico é relativo ao sacrifício impróprio no culto.

Estrutura de Salmos

 

Seguindo a teoria da organização teológica do livro dos Salmos, a seguinte estrutura é proposta:

Introdução                      Salmo 1 – No final Deus justifica os justosSalmos 1 e 2                  Salmo 2 – Escolha e proteção divina do rei israelita
Livro Transição Tema Conteúdo
Livro 1 Salmo 41 Conflito entre Davi e Saul Muitos lamentos individuais; a maioria dos salmos menciona inimigos
Livro 2 Salmo 72 Dinastia de Davi Salmos principais:45, 48, 51, 54 a 64; em geral , salmos de lamento e “inimigos”.
Livro 3 Salmo 89 Crise assíria do século VIII Coleções de Asafe e dos filhos de Coré; salmo principal:78
Livro 4 Salmo 106 Introspecção sobre a destruição do templo e o exílio Coleção de louvor: 95 a 100; salmos principais: 90, 103 a 105.
Livro 5 Salmo 145 Louvor/reflexão sobre o retorno do exílio e início de nova era Coleção de aleluia: 111 a 117; cânticos de subida: 120 a 134; repetição davídica: 138 a 145; salmos principais: 107, 110, 119.
Conclusão: 146 a 150 – Louvor culminante a Deus.

HILL, Andrew & WALTON, J. H. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2007. p. 379.

  • I. Introdução – 1 e 2
  • II. Conflito de Davi com Saul – 3 a 41
  • III. Reinado de Davi – 42 a 72
  • IV. Crise assíria – 73 a 89
  • V. Introspecção sobre a destruição do templo e o exílio – 90 a 106
  • VI. Louvor e reflexão sobre o retorno e a nova era – 107 a 145
  • VII. Louvor final – 146 a 150

O livro de Salmos segue o padrão interpretativo da história narrada no livro de Reis e Crônicas, e sua organização não foi feita levando-se em consideração as circunstâncias na data de composição, mas de acordo com o propósito teológico da coleção. Por exemplo, os salmos 138 a 145 são davídicos, porém estão organizados na divisão pós-exílica do Livro dos Salmos. Ainda outros Salmos estão dispostos de forma a atingir o objetivo teológico do organizador, tais como:

  • 45 – Hino da coroação de Davi
  • 48 – Relação com a conquista de Jerusalém por Davi
  • 51 – Arrependimento de Davi
  • 78 – Reflexão sobre a queda do Reino do Norte
  • 90 – Salmo de Moisés no início da divisão exílica
  • 103 – Debate sobre o perdão de Deus dos pecados da Nação
  • 110 – Soberania divina com ênfase escatológica
  • 119 – Relação com a Lei como ênfase no período pós-exílico

Outro exemplo da organização de acordo com o objetivo teológico é a coleção Aleluia (Salmos 111 a 117) que segue o Salmo 110 com os temas da fidelidade e governo divinos. A coleção Cântico dos Degraus (Salmos 120 a 134) remete à peregrinação de todo hebreu a Jerusalém. Esta coleção faz parte da seção do exílio no livro de Salmos, portanto os leitores refletiriam sobre o retorno a Jerusalém após o cativeiro babilônico.

De modo geral, de acordo com esta teoria, podemos explicar as coleções do Livro de Salmos da seguinte maneira:

Livro I
  • Mencionam lamentos e inimigos
  • Autor clama pela ajuda de Deus
  • Salmos 3 a 13 – relacionados com I Samuel 19 a 23 – Conflitos de Davi com Saul
  • Salmo 18 – relacionado com I Samuel 24 – Davi poupa a Saul e este interrompe a perseguição
  • Salmos 23 e 24 – relacionados com I Samuel 25 – Davi tem suas necessidades supridas pela sabedoria de Abigail
Livro II
  • Relacionados com o reinado de Davi narrado em II Samuel
  • Lamento dos Salmos 54 a 64 relacionados ao conflito de Davi com seu filho Absalão
Livro III
  • Pode remeter ao conflito do Reino do Norte com a Assíria
  • Salmo 78 – Possível ligação com a Queda de Samaria (Reino do Norte)
  • Salmo 89 apresenta uma crise com sua possível solução
Livro IV
  • Começa com Salmo de Moisés (90)
  • Termina com a recapitulação da rebelião (106)
  • Aponta para esperança e restauração
  • Coleção de Salmos de louvor (95 a 100)
  • Afirmações de esperança e fé mantidas no exílio
  • Destacam a fidelidade de Javé, livramento, julgamento das nações e soberania de Javé
  • Termina com uma coleção sobre o poder e misericórdia de Javé (104 a 106)
Livro V
  • Gratidão dos israelitas por reuni-los após o exílio
  • A lei como fundamento da comunidade pós-exílica

Propósito e conteúdo

Com relação ao conteúdo, o livro de Salmos aborda os seguintes temas:

  • Reconhecimento da soberania de Deus
  • As formas variadas de louvor em todas as situações
  • Vindicação dos justos e castigo dos ímpios
  • A natureza e a criação de Javé
  • O consolo de misericórdia de Javé em tempos de crise

O propósito de Salmos não está relacionado tanto com cada autor, pois cada um tinha suas razões e motivos para compor sua poesia. Antes está relacionado com a sua organização final, que tinha como objetivo mostrar a historia de Israel sob a perspectiva da aliança de Javé com o povo hebreu.

O principio da retribuição: Segunda Parte

O princípio da retribuição pode ser declarado em duas sentenças:

  1. O justo prosperará e o ímpio será castigado com sofrimento
  2. Os que prosperam são justos e os que sofrem são ímpios

A primeira sentença é confirmada em todo o livro dos Salmos, porém a exceção à esta regra também é ensinada. A segunda sentença, embora não receba apoio bíblico, era senso comum entre os israelitas, pois entendia-se que, se Deus é justo como pode um justo sofrer ou um ímpio prosperar? Esta era uma questão muito delicada para o israelita no Antigo Testamento, pois não havia o conceito escatológico da esperança do céu.

Nos salmos de lamento o autor se queixa da prosperidade dos ímpios e pede que Deus humilhe seus inimigos. Embora o salmista não se considere plenamente justo, ele se considera mais justo do que aquele que não temia a Javé. Por isso existem muitos salmos chamados imprecatórios (3, 28, 58, 109, 137). Nestes salmos vemos como o autor entendia o modo de Deus agir, pois, para que a justiça de Deus se confirmasse, o ímpio deveria ser castigado. Posto de outra forma, o pedido de castigo para o ímpio era a forma do salmista declarar o pecado daqueles que não andavam conforme a lei de Javé.

O livro de Salmos mostra que os justos podem esperar uma retribuição de Deus por sua justiça, mas em nenhum lugar está mencionado que não haviam exceções a esta regra. A vida nem sempre é simples e a Bíblia não apresenta uma regra de justiça que sempre funciona em todos os casos.

Reino

 

Nove salmos mencionam especificamente o rei: 2, 18, 21, 45, 72, 89, 110, 132, 144. Destes nove, quatro falam sobre Davi. Estes salmos são frequentemente considerados messiânicos, isto é, sinalizam o reino eterno de um rei ideal da linhagem davídica. Porém, estes salmos também podem se aplicar a qualquer rei, pois citam o livramento, vitória e bênção para o rei que confia em Deus e segue os padrões estabelecidos pela aliança. Este padrão foi verificado nos reis da dinastia davídica que confiaram no Senhor, conforme relatado no livro dos Reis. O Messias, em comparação com estes reis, seria perfeitamente justo e desfrutaria de todas as bênçãos de Deus no seu reinado.

Criação

 

O povo hebreu era basicamente agrícola, e por isso dependia muito das condições climáticas para assegurar sua produção de alimentos. As bênçãos e maldições de Javé estavam ligadas à terra, que fazia parte da aliança. Os deuses dos povos pagãos estavam ligados ao clima e era necessário que o Deus dos hebreus estivesse fora desta regra teológica. Javé não estava preso às forças da natureza, por isso, nos salmos que tratam sobre a criação (8, 19, 29, 65, 104) Deus sustenta toda a criação (104), que revela a glória de Deus (19). As forças da natureza são instrumentos de Deus (29, 65) e por isso ele é glorificado acima da natureza, algo não possível nos sistemas religiosos dos antigos povos pagãos.

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016 – Introdução ao Livro de Jó – Haja paciência

Introdução ao Livro de Jó – Haja paciência.

 

O livro de Jó, traduz para a vida prática uma das mais antigas perguntas filosóficas da humanidade: Por que sofremos? A busca racional pela compreensão do sofrimento na vida do ser humano não sofreu modificações nos últimos 5 mil anos e, além disso, tem sido um dos pilares sobre os quais os teólogos desenvolvem seus pensamentos.

O livro de Jó modifica a visão que temos da soberania divina, da arrogância humana quando não sabe o quadro completo da situação e da perspectiva bíblica do sofrimento.

É possível que haja um trocadilho do nome do personagem principal do livro (‘iyyôb no original hebraico) com o lamento de Jó em ser “inimigo” (‘ôyeb em hebraico) de Deus (Jo 13:24).

Se o livro de Jó é classificado como literatura de sabedoria é possível, segundo os estudiosos, que os diálogos não tenham sido citações literais, mas um ambiente criado para explicar as razões do sofrimento humano e a soberania divina na história.

Apesar de não haver um consenso sobre a data dos acontecimentos, a narrativa de Jó é uma das mais antigas do Oriente Médio pelos seguintes fatores:

  • A forma literária do prólogo – 1:1 – 2:13
  • A forma literária do epílogo – 42:7-17
  • Não há menção de santuário ou sacerdócio – Jó executava seu próprio sacrifício (1:5)
  • As posses de Jó são medidas por bois, ovelhas, jumentos e servos (1:3; compare com Gn. 12:16 e Gn. 32:5)
  • Sua terra era ameaçada por ataques de tribos nômades – 1:15-17
  • Não há menção da Lei ou da Aliança
  • Deus não é mencionado como Javé, El Shaddai é mais frequente

Embora a narrativa do livro seja contemporânea ao período dos patriarcas (ver semelhanças com Gênesis), a maioria dos estudiosos concordam que a composição do livro tenha sido por volta do século VII, ou seja, antes do exílio babilônico, durante a monarquia dividida. Isto não representa um problema, pois a mensagem do livro de Jó ultrapassada as barreiras do tempo.

Estrutura de Jó

 

O livro, embora esteja incluído na seção dos poéticos, possui diversas formas literárias:

  • Diálogos – Caps. 4 a 27
  • Monólogo – Cap. 3
  • Discursos – Caps. 29 a 41
  • Narrativas – Caps. 1 e 2
  • Hino – Cap. 28

O livro de Jó pode ser dividido da seguinte forma:

  • Prólogo (prosa) – 1 – 2
  • Discursos (poesia) – 3 – 42:6
    • Diálogo – 3 – 28

●        Lamento de Jó – 3

●        Diálogo entre Jó e seus amigos – 4 – 27

●        Poema da sabedoria – 28

  • Monólogo 29 – 42:6

●        Jó se diz inocente – 29 – 31

●        Discurso de Eliú – 32 – 37

●        Discursos de Javé – 38 – 42:6

  • Epílogo (prosa) – 42:7-17

O livro de Jó é estruturado para que o leitor conheça os personagens e alguns detalhes que eles mesmos desconhecem, como por exemplo, o desafio de Satanás a Javé. Desta forma, o leitor sabe de antemão que os amigos de Jó estão equivocados a seu respeito.

O lamento de Jó no capítulo 3 dá início ao ciclo de diálogos que vai do Cap. 4 ao 27. Nestes diálogos os amigos de Jó tornam-se cada vez mais contrários a ele, e, embora a teologia desses amigos não esteja incorreta, é fato que seu papel como consolador fica muito aquém do esperado. A teologia tradicional da época dizia que o justo prospera e o ímpio sofre. Este é a chamada  Justiça Retirbutiva, muito afirmada nos livros de Salmos e Provérbios. Os amigos de Jó utilizam-se da dedução deste princípio para o acusarem.

Jó afirma que este Princípio pode ter sua exceção, com a prosperidade do ímpio e o sofrimento do justo, mas desconfia da justiça divina e passa a colocar Deus no banco dos réus. As respostas dos amigos de Jó apresentam a filosofia da época, isto é, desistir de entender a vida e confessar crimes não cometidos para acalmar a divindade. O trecho de 27:1-6 mostra que a integridade de Jó se manteve justamente por se recusar a fazer isso. Ao agir desta maneira Jó recusou o tratamento que outros povos davam às divindades pagãs, que faziam falsas confissões para obter favores e bençãos.

O diálogo é quebrado pelo hino à Sabedoria no capítulo 28, que sugere que a verdadeira sabedoria ainda não se manigestou. Este hino mostra Deus como criador da Sabedoria  e ensina que a sabedoria humana só pode vir do temor do Senhor. Isso introduz o trecho dos discursos, ou monólogos e indica a conclusão do dilema.

O primeiro discurso apresenta o lamento de Jó ao recordar sua antiga posição e ver sua situação atual. O juramento que ele faz tem a intenção de forçar Deus a agir, isto é, se ele for culpado de qualquer coisa citada no juramento Deus deveria executar seu juízo contra ele, portanto o silêncio de Deus serviria com sua justificação.

O segundo discurso mantém o suspense em relação à resposta de Deus a Jó. Aqui Eliú expoe de forma mais filosófica a questão do sofrimento humano, que pode, além de punitivo, ser preventivo, isto é, Deus, por meio do sofrimento, fazia Jó manter-se no caminho correto. Desta forma, o sofrimento pode ser uma maneira de Deus demonstrar sua misericórdia.

O terceiro discurso, quando Deus toma a palavra, é caracterizado pela ausência das respostas esperadas. Desconsidera a queixa de Jó, e não responde ao juramento de inocência. Deus muda o rumo do discurso de sua justiça para sua sabedoria, pois Deus é responsável pela criação do mundo e sua sustentação soberana. Deus diz que o mundo não foi criado pelo principio da retribuição (38:26), inclusive desafia Jó a criar um mundo com este princípio como fundamento (40:10-14). A conclusão é que as causas do sofrimento não são coerentes e ninguém é sábio o suficiente para questionar a justiça divina.

No epílogo a prosperidade de Jó não se dá de forma gratuita, mas é uma resposta a Satanás de que Deus continuará intervindo em favor do justo. Os amigos de Jó são repreendidos, não por se posicionarem contra Jó, mas por não falar corretamente a respeito de Deus (42:7-8). Mesmo tendo sua vida restaurada, Jó não tem a explicação do seu sofrimento, pois, para o livro o mais importante não é o motivo do sofrimento, mas as ações e os procedimentos de Deus. Para o leitor, Jó não é culpado de nada, e foi justificado não por causa do seu sofrimento, mas pela demonstração de grande sabedoria.

Propósito e conteúdo

O livro de Jó trata  dos seguintes princípios:

  • Não são apenas os ímpios que sofrem
  • A justiça pode ser conhecida por meio da sabedoria de Deus
  • A justiça de Deus vai além de sentenças simples como o princípio da retribuição

O propósito do livro de Jó é analisar o tratamento que Deus dá aos justos e ímpios. De acordo com o desafio de Satanás, as bençãos não produzem verdadeiros justos, pois esses só são íntegros por causa das recompensas que recebem, ou seja, não existe amor à integridade por si mesma. Outro aspecto é o julgamento que Jó faz de Deus ao permitir que o justo sofra, isto é, o procedimento de Deus está sendo criticado.

Para cumprir este propósito o livro descarta a tentativa de manipulação da divindade dos antigos povos pagãos do Oriente Médio e a filosofia rasa dos amigos de Jó. Uma vez que o leitor estava ciente da inocência de Jó desde o início não importa muito o fato de Deus te-lo inocentado. O importante é que Jó manteve sua integridade para com Deus, mesmo quando não foi abençoado por isso.

A mensagem do livro é que Deus não está obrigado a abençoar o justo, mas a justiça divina é deduzida de sua sabedoria, que está além de todo conhecimento humano.

O principio da retribuição: Primeira Parte

 

O princípio da retribuição foi o fundamento para os debates e diálogos na história de Jó. Era um sistema de pensamento muito simplificado que determinava que o justo sempre prosperaria e o ímpio sempre sofreria.

Este sistema de pensamento dominava a cultura israelita, mas na prática, a teoria era outra. Basta lermos os primeiros versos do Salmo 37 para verificarmos que nem sempre este sistema de pensamento funcionava adequadamente. Para o israelita isso era particularmente embaraçoso, pois, se havia um único Deus soberano, toda justiça, bem como todo sofrimento, só poderia vir dele. Além disso, Deus era plenamente justo, portanto o sofrimento deveria ter uma explicação lógica e válida. E Deus, sendo plenamente justo, o sofrimento deveria ser proporcional à injustiça do homem, e a prosperidade proporcional à sua virtude.

No livro de Jó todos os personagens vivem sob este sistema e não há outra maneira de viver. O livro de Jó pretende mostrar que a conclusão absolutamente certa do princípio da retribuição está equivocado, pois não é possível saber com exatidão quando acontecerá. Portanto, a conclusão de que o justo sempre prosperará e o ímpio sempre sofrerá deve ser rejeitada.

O princípio da retribuição deve ser entendido a partir de Deus e não do homem. A Teologia do Antigo Testamento afirma inúmeras vezes que Deus fará prosperar o justo e punirá o ímpio, entretanto este princípio não deve ser usado para exigir a ação imediata de Deus, e nem deve ser usada como fundamento para entender o sucesso ou sofrimento individuais. Nosso consolo está fundamentado na soberania e sabedoria de Deus.

A soberania de Deus, sua justiça e sabedoria

 

Na literatura de sabedoria em geral, e também no livro de Jó, a sabedoria, justiça e soberania de Deus são amplamente discutidas. Embora o livro de Jó não esteja intimamente ligado com a Aliança podemos estabelecer um paralelo com os conceitos teológicos da Aliança já apresentados em outras ocasiões tais como: a lealdade, a compaixão e a bondade (Êx. 34:6; Jl. 2:13; Jn. 4:2; Ne. 9:17; Sl. 86:15; 103:8; 145:8).

O livro de Jó nos mostra que a onisciência de Deus é apenas uma parte de sua sabedoria infinita, a onipotência é somente um aspecto de sua soberania ilimitada e a misericórdia é entendida como a sua justiça. Estas categorias maiores nos ajudam a entender quem Deus é, do que somente aquilo que ele pode fazer por alguém.

O mediador

 

Em vários momentos do livro, Jó parece crer na intervenção de um advogado, um redentor (5:1; 9:33; 16:18-22; 19:25-27; 33:23). Alguns acreditam que se trata da crença na ressurreição, outros entendem que Jó terá a justiça aplicada após a morte, e outros ainda creem que se trata de uma previsão messiânica.

Independente das variadas posições, o papel do mediador parece claro. A maioria cre que Jó espera pelo próprio Deus, porém, algumas definições parecem apontar para algum parente distante que viria ajudá-lo (tal qual o remidor estudado em Rute).

Entretanto, o tema do redentor aparece somente nos diálogos, e parece não ter um papel fundamental no fim da trama, quando Jó, diante da sabedoria de Deus tem a necessidade de um redentor eliminada diante da restauração que Deus promovera.

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015 – Introdução à literatura poética e sapiencial hebraica

Introdução à literatura poética e sapiencial hebraica

 

Determinar a forma poética na literatura hebraica não é uma tarefa simples. Ao contrário da poesia da língua portuguesa, caracterizada pelas rimas, separação em versos, pontuação própria e linguagem metafórica, a poesia hebraica não tem pontuação, métrica ou ritmo que a distinga da prosa.

Ainda hoje há muita pesquisa em torno das características literárias da poesia hebraica, portanto podemos esperar novidades sobre os métodos de interpretação deste gênero literário que ocupa grande parte das páginas da Bíblia.

Livros como Salmos, Provérbios, Cântico dos cânticos e Lamentações de Jeremias são completamente poéticos quanto à sua forma literária. Grande parte de Jó e Eclesiastes são poéticos. Gênesis, Êxodo, Números, Deuteronômio, Juízes e Samuel contêm muitos trechos poéticos, principalmente os cânticos de vitórias sobre os inimigos dos israelitas.

Alguns livros proféticos, apesar do seu conteúdo exortativo, são produzidos, quanto à forma, de maneira poética. À exceção do cabeçalho e título, Obadias, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias estão estruturados desta forma. Apenas os livros de Rute, Esdras, Neemias, Ester, Ageu e Malaquias não contém nenhum trecho poético.

Apesar dos livros de sabedoria estarem na forma poética, eles são classificados de forma independente, pois os antigo hebreus consideravam sabedoria como observações cotidianas que formavam um conjunto de boas práticas para a vida.

A literatura sapiencial buscava, por meio de ditados curtos, regras da felicidade e bem-estar pessoal, além da especulação em torno da existência humana e seus problemas.

Classificamos os livros de Provérbios e Cântico dos Cânticos no primeiro grupo e os livros de Jó e Eclesiastes no segundo grupo. Alguns Salmos (1, 37, 49, 112) podem ser considerados como sabedoria especulativa e educacional bem como trechos de livros proféticos tais como: Is. 40:12-17; 21-26; Am. 3:10; 5:4,6,14.

Poesia e sabedoria no Antigo Oriente Próximo

 

Os hebreus herdaram dos povos vizinhos uma rica tradição na literatura de sabedoria e poética. Os escritos poéticos dos povos mesopotâmicos e egípcio são muito mais antigos do que os hebraicos. A literatura poética egípcia aparece por volta de 3200 a.C. e a Mesopotâmia possui registros sapienciais muito antes da época de Abraão. A poesia e literatura sapiencial hebraica tem início por volta dos séculos XIII ou XII a.C.

A influência da literatura mesopotâmica e egípcia nos escritos poéticos e sapienciais hebraicos é reconhecida por eruditos de todas as vertentes teológicas. O quadro abaixo demonstra as semelhanças entre o hino do Sol de Aquenaton e o Salmo 104:

Hino de Aquenaton Salmo 104:25-26
Os navios rumam para o norte e também para o sul,Pois todos os caminhos se abrem com tua manifestação.Portanto, os peixes do rio fogem diante de tua face,

Teus raios estão no meio do grande mar verde.

Eis o mar, imenso e vasto e nele vivem inúmeras criaturas, seres vivos, pequenos e grandes.Nele passam os navios, e também o Leviatã, que formaste para com ele brincar.

HILL, WALTON. Panorama do Antigo Testamento. p. 337.

 

Outras semelhanças se observam na literatura suméria antiga (1900 – 1600 a.C.) em seus hinos e orações poéticas:

Por ignorância comi o que era proibido por meu deus,

Por ignorância pisei o que era protegido por minha deusa.

 

Mesmo as narrativas de fatos mais antigos, como a Criação e o Dilúvio, tem seus pares na literatura babilônica tal qual o Enuma Elish e o épico Gilgamés respectivamente.

Ademais, a literatura poética cananéia, anterior à hebraica, possuia cabeçalho, subtítulo e também anotações musicais. Portanto conclui-se que a poesia hebraica também herdou elementos cananeus em sua estrutura literária.

Inclusive podemos perceber nos textos hebraicos elogios à tradição poética do Antigo Oriente Próximo:

  • Egípcios – Êx. 7:22; 1 Rs. 4:30
  • Edomitas e árabes – Jr. 49:7; Ob. 8
  • Babilônios – Is. 47:10; Dn. 1:4

Percebemos na literatura sapiencial do Antigo Oriente Próximo um grande interesse em temas existenciais, tais como:

  • Sentido da vida
  • Mistério da vida e morte
  • Realidade do sofrimento, dor, injustiça e mal

Estes interesses em comum levaram ao intercâmbio das estruturas literárias entre os povos que viviam nessa região. Porém, contrariamente aos demais povos que adoravam outros deuses a literatura de sabedoria hebraica incluia os seguintes elementos em seus textos:

  • Negação de outros deuses e reconhecimento apenas de Javé (Pv. 22:17-19)
  • Negação do materialismo (a matéria era criação divina)
  • Negação do panteísmo (pois Javé estava acima da Criação)
  • Negação do dualismo (a criação de Deus era boa no início)

Estrutura literária da poesia hebraica

 

1. Estrutura de pensamento:

Paralelismo de palavras 1. Sinônimos:Salmos 24:2 – pois foi ele quem fundiu-a sobre os marese firmou-a sobre as águas.

2. Opostos:

Salmos 37:16 – Melhor é o pouco do justo

do que a riqueza de muitos ímpios.

Paralelismo de sequência lógica 1. Causa e efeito:Salmos 37:4 – Deleite-se no Senhore ele atenderá os desejos do seu coração.

2. Explicação:

Salmos 5:10b – Expulsa-os por causa dos seus muitos crimes

pois se rebelaram contra ti.

2. Sonoridade da poesia hebriaca

Acróstico As letras iniciais de cada verso começam com cada uma das letras do alfabeto hebraico. O Antigo Testamento contém treze poemas acrósticos:

  • Salmos 9, 10, 25, 34, 37, 111, 112, 119, 145
  • Provérbios 31:10-31
  • Lamentações 1 a 4

Este método servia de instrumento de fácil memorização na antiguidade.

Uniformidade sonora A poesia se utiliza de palavras com sons semelhantes para expressar uma idéia completa. A tradução não consegue transpor este obstáculo literárioTransliteração: sha‘lû shelôm yerûshalayimTradução: Orem pela paz de Jerusalém
Jogo de palavras (trocadilhos) Os escritores bíblicos se aproveitam de palavras com som parecido, mas sentidos diferentes e até opostos.Amós viu um cesto de frutas (qayits) e anunciou o fim (qets) da nação de Israel. Am. 8:2Jacó previu que Judá (yehûdâ) seria louvado (yôdukâ). Gn. 49:8

Isaías concluiu de forma magistral a “canção da vinha” (5:7b)

Ele esperava justiça [mishpat]

Mas houve derramamento de sangue [mispah]

Esperava retidão [tsedaqâ]

Mas ouviu gritos de aflição [tse`aqâ]

Onomatopéia São palavras que imitam os sons e ruídos naturais. A poesia hebriaca usou este recurso literário em Salmos 68:8 para registrar o som do “trovão” (ra’am) e o galopar dos cavalos em Juízes 5:22 (dahaarot dahaarot)

A concepção de sabedoria dos hebreus

 

A sabedoria hebraica, e do oriente em geral, vem da observação da vida e a necessidade de lidar com seus diversos problemas e situações humanas.

A idéia é que a experiência, trazida pelos muitos anos vividos, pode servir de guia para as gerações seguintes. Por isso, grande parte da literatura hebraica é produzida sob a forma de instruções práticas.

Porém, a sabedoria hebraica diferenciava-se das demais por partir do princípio que a sabedoria provém de Deus (Jó 12:13; Pv. 2:5-6; Is. 31:1-2). Esta sabedoria manifestava-se de duas formas na vida dos hebreus:

  • na vida emocional e espiritual – representada pela poesia no Antigo Testamento
  • na vida corporal e prática – representada pela sabedoria no Antigo Testamento

O termo sabedoria também é empregado no Antigo Testamento para habilidades manuais e intelectuais diversas:

  • Bezalel e Oliabe  receberam sabedoria artística para fazerem os utensílios do tabernáculo (Ex. 31:1-11)
  • O trabalho arquitetônico de Salomão também é chamado de sabedoria (1 Rs. 5:9-18)
  • O trabalho manual de artesãos também são classificados de sabedoria (1 Rs. 7:14)
  • O lado filosófico e intelectual, também como sinônimo de “capacidade mental superior”  (1 Rs. 4:29-34)
  • A forma neutra do termo sabedoria na conspiração de Jonadabe e Absalão (2 Sm. 13)
  • Como sinônimo de experiência e bom senso (Jó 32:7; Pv. 1:7)

Forma literária

 

O sábio era um personagem importante no período da monarquia em Israel. Junto com o profeta e o sacerdote compunha a fonte de orientação dos reis (Jr. 18:18; Ez. 7:26)  e faziam parte da corte real (2 Sm. 8:16-18; 20:23-26; 1 Rs. 4:1-6).

Há dois tipos básicos de sabedoria do ponto de vista literário no Antigo Testamento:

  • Sabedoria didática –  o livro de Provérbios é o melhor exemplo, pois representa instruções práticas.
  • Sabedoria filosófica – representada pelo livro de Eclesiastes e em certa medida pelo livro de Jó, pois propõe críticas e reflexões interrogativas e por vezes pessimista.

Quanto ao tipo de discurso podem ter as seguintes variações:

  • Parábola –  um discurso preventivo – Pv. 6:20-35
  • Preceito – regras e valores com princípios religiosos e éticos – Pv. 3:27
  • Enigma – pergunta que exige raciocínio e discernimento – Jz. 14:14
  • Fábula – breve conto com personagens da natureza que contém uma verdade moral – Jz. 9:7-20
  • Provérbio numérico – apresenta progressão numérica com clímax – Pv. 6:16-19; 30:18-31
  • Pergunta retórica – uma pergunta que não necessariamente exige uma resposta – Pv. 5:16; 8:1
  • Alegoria – a personificação da sabedoria, com existência própria – Pv. 8 e 9; Ec. 12:1-8
  • Sátira – uso do sarcasmo para atacar algum comportamento humano – Pv. 11:22
  • Ironia – dizer o contrário do realmente significa para enfatizar uma verdade – Ec. 5:13-17

Conteúdo teológico da sabedoria

 

Teodicéia

 

Os livros de sabedoria enfatizam muitos aspectos corriqueiros do ser humano, porém Eclesiastes e Jó focalizam principamente a teocdicéia, que é o problema do mal no mundo e a ação de Deus diante deste. Alguns temas são:

O sofrimento, pobreza e injustiça social – Jó 21:7-26

A prosperidade dos ímpios – Ec. 8:14-15; 9:11-12

A realidade do mal e da morte – Ec. 9:1-6

A vida após a morte – Ec. 3:16-22

O propósito desta vida – Ec. 4:1-3

Justiça retributiva

 

A justiça retributiva, isto é, recompensas ou castigos divinos de acordo com a obediência ou desobediência do ser humano, é um tema comum nos livros poéticos e de sabedoria no Antigo Testamento.

São baseados em Deuteronômio 28 e fazem parte do tratado da Aliança de javé com o povo hebreu. Este tema será estudado oportunamente nos livros poéticos e de sabedoria do Antigo Testamento (Jó – Salmos – Provérbios – Eclesiastes).

Didática

 

A instrução didática contida nos livros de sabedoria são baseadas na ética da Aliança (Lei, Torá) firmada entre Javé e o povo hebreu. Portanto, principalmente no livro de Provérbios os assuntos tratados abrangem o conteúdo da Lei, tais como: relacionamentos familiares (23:22-25), retribuição e disciplina (3:12; 28:10), amizade (17:17); controle da língua (26:18-28), casamento e adultério (5:1-23), pobres e necessitados (14:21-31), o sábio e o insensato (18:1-16), o diligente e o preguiçoso (26:13-16), embriaguez (23:29-35), vida e morte (13:14), ira (29:22), soberania (20:28), etiqueta (25:2-7), dívidas (11:15), sabedoria (1:7) e o temor do Senhor (2:5-6).

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014 – Introdução ao Livro de Ester – Nos bastidores da aliança

Introdução ao Livro de Ester – Nos bastidores da aliança.

 

O livro de Ester, devido ao seu estilo literário e trama cinematográfica, gerou muitos debates acerca de sua canonização na Bíblia Hebraica.

A narração está ambientada em Susã, capital do Império Persa, e não utiliza em nenhum momento o termo Deus ou Javé. De fato, a história descrita neste livro foi e continua sendo o enredo básico de muitos filmes e séries de televisão em consequência da estrutura de sua narrativa e construção dos personagens. Este livro retrata a jovem estrangeira órfã que se casa com o rei, vítima da manipulação de todos e sempre contrariado por sua rainha. Esta jovem descobre o plano do vilão para matar seu povo e arquiteta um contra golpe para salva-lo. Ao final da trama o vilão morre na própria armadilha que construíra, e seu tutor é elevado ao cargo de grande responsabilidade no reino, tomando o antigo lugar do vilão. Após longo debate sobre sua canonicidade, o livro passou a constar na lista dos livros inspirados divinamente.

Alguns estudiosos consideram esta trama espetacular demais para ser real, muito embora a realidade possa ser, por vezes, muito mais espetacular. A maioria aceita que, embora o livro tenha realmente uma trama novelesca, ele está repleto de elementos históricos, difíceis de negar. Ademais, o livro contém detalhes do sistema administrativo persa, que apenas Mardoqueu e Estar poderiam saber. Outros aspectos administrativos citados são os seguintes:

  • conselho de sete nobres – 1:14
  • sistema postal do império – 3:13; 8:10
  • crença em dias grandiosos – 3:7
  • manutenção de registros reais – 2:23; 6:1

O verso 10:2 deixa bem claro a intenção do livro de Ester, que foi registrar, por meio da bravura de Mardoqueu, o livramento e permenência do povo judeu. Para narrar estes fatos o autor recorreu a registros históricos de fontes extra canônicas, ou seja, mesmo que o livro não tenha intenção de ser um relato histórico per si, ele está baseado em fatos históricos registrados em outras fontes e aponta para a precisão de dados que o autor se preocupou em pesquisar.

Mardoqueu foi um dos nomes cogitados como possíveis autores do livro, entretanto há poucas evidências que sustentem esta posição, por isso a autoria anônima é unanimidade entre os especialistas.

A história narrada no livro se passa na Pérsia durante o século V a.C., portanto durante o exílio babilônico e alguns anos antes da viagem de Esdras e Neemias a Jerusalém. Esta informação nos leva à conclusão de que provavelmente o livro foi escrito num período posterior a esta época. Podemos datar a produção do livro antes século II a.C., devido à análise do hebraico usado em sua escrita.

Estrutura de Ester

 

O livro de Ester pode ser estruturado da seguinte maneira:

  • Ester é feita rainha da Pérsia – 1:1 – 2:20
  • Hamã conspira o extermínio dos judeus – 2:21 – 3:15
  • Ester lidera a defesa do seu povo – 4:1 – 5:8
  • A queda de Hamã – 5:9 – 7:10
  • O triunfo dos judeus sobre seus inimigos – 8:1 – 10:3

Os especialistas em literatura bíblica concordam que o livro está estruturado sob o formato literário de reversão, isto é, a trama evolui no sentido contrário ao esperado e, no seu clímax, há a inversão da situação presente. Este padrão é verificado na exaltação de Mardoqueu, a queda de Hamã e a vitória final dos judeus contra os persas.

O livro de Ester também contém uma dose de ironia. A ironia acontece quando o leitor possui informações que um dos personagens da trama não tem. Este recurso literário é empregado, por exemplo, quando Hamã vai ao palácio do rei pedir permissão para executar Mardoqueu, porém, o rei pede uma opinião sobre um modo de lhe conceder grande honra. Hamã pensa que o rei queria honrá-lo, quando na verdade estava se referindo a Mardoqueu. O recurso da ironia chega ao seu ponto mais elevado quando Hamã concede tal honra a Mardoqueu, a quem queria assassinar e acaba morrendo na própria armadilha que preparara para Mardoqueu.

O recurso da ironia e reversão no livro de Ester ressaltam o controle de Javé sobre a história e ensina que o plano da sua aliança não pode ser detido.

Propósito e conteúdo

Basicamente o livro de Ester trata dos seguintes assuntos:

  • Javé age em prol da aliança mesmo nos bastidores da história
  • O plano de Javé para o povo da aliança não pode ser detido
  • As conspirações dos ímpios são condenadas

Durante a história, Israel havia recebido de Javé diversos livramentos miraculosos, tais como os dez sinais, a libertação da Egito, a abertura do Mar Vermelho, a queda dos muros de Jericó e até mesmo o retorno dos judeus exilados na Babiblônia. Contudo, no enredo de Ester, a mão miraculosa de Javé parece estar encolhida. Porém, não pode ser apenas coincidência a insônia de um rei e a descoberta quase acidental da trama para eliminar os judeus.

No desenrolar da narrativa a esperança, fundamentada nas profecias de libertação e julgamento dos inimigos (Zc. 1:21), ainda permeava a vida e o pensamento do povo judeu, mesmo que não visse tão claramente a mão de Javé como nas ocasiões anteriores.

Portanto, mesmo que os métodos de Javé mudem na história, seu propósito continua o mesmo, e seu povo reconhece sua soberania no livramento do extermínio e preservação da aliança que fizera com seus antepassados.

Purim

O purim é uma festa de comemoração ao livramento dado por Javé aos judeus que habitavam a Pérsia no período de retorno a Jerusalém. Alguns especialistas afirmam que o livro de Ester foi escrito para legitimar uma festa que não nasceu em solo palestino.

O nome “Purim” é adequado, pois significa sorte, indicando que o oivramento do Senhor não aconteceu por algum modo visivelmente miraculoso, mas de uma forma que muitos considerariam um acaso, porém esta festa legitima o ensino da Providência divina, indicando que Deus age tanto de modo visivelmente miraculoso quanto de modo aparentemente casual.

O povo de Deus

 

Nós estudamos em Gênesis a escolha de Abraão e sua descendência para o propósito do anúncio do nome de Javé entre as nações. Porém, conforme observamos, o povo hebreu falhou neste intento.

No livro de Ester o livramento de Javé não foi dado para que as nações o conhecessem, mas a intenção foi fortalecer a fé de quem cria na soberania de Deus, em detrimento do ceticismo de alguns.

Embora Deus quisesse que seu povo mantivesse um relacionamento com ele, no período pós-exílio, a atribuição do povo judeu de revelar Javé ao mundo perdeu sua importância e, aqui, temos um desvio de paradigma, quando o povo judeu passa a ser um povo exclusivista.

Entretanto, mesmo diante desta mudança de paradigma, o livro de Ester mostra que, indiretamente, o nome de Javé foi anunciado, conforme observamos em 6:13, onde a esposa de Hamã reconheceu que os planos do seu marido não seriam concretizados em virtude da origem judaica de Mardoqueu.

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013 – Introdução ao Livro de Esdras-Neemias – De volta para o futuro

Introdução aos Livros de Esdras e Neemias – De volta para o futuro.

 

Esdras e Neemias pertencem à história pós-exílica de Judá. Eles aparecem na história de Judá cerca de 50 anos após os profetas Ageu e Zacarias, e tiveram ofícios complementares em Jerusalém nesta época de reorganização social e religiosa.

Na Bíblia hebraica estes livros formavam um só volume, e apesar do seu conteúdo “histórico” eles estão inseridos na terceira divisão do cânon hebraico,  os “Escritos”. A maioria dos estudiosos atribui a autoria do volume Esdras-Neemias ao mesmo redator-editor do livro de Crônicas. Creem alguns que este cronista seja o próprio Esdras, por ser escriba, outros ainda atribuem uma autoria anônima a estes livros.

A produção de Esdras-Neemias ocorre em épocas distintas e conta com a coleção de partes também distintas para compor o volume todo. Isto é verificável nos capítulos 1 a 6 de Esdras e nos seus grandes trechos escritos em aramaico (Ed. 4:8 a 6:18; 6:12-26). Estas partes em aramaico reproduzem trechos de documentos oficiais do governo persa; portanto o cronista-redator deveria ter acesso a estes documentos, esta evidência dá suporte à autoria de Esdras.

Esdras é reconhecido pelo zelo religioso com o qual inspirou, com a leitura da Torá, todos os judeus que retornaram do exílio para reconstruirem Jerusalém, que ficara arrasada por causa da invasão babilônica em 586 a.C. Neemias foi o administrador habilidoso que organizou os judeus para a reconstrução dos muros de Jerusalém.

Esdras e Neemias eram judeus de muito prestígio em Susã (Ed. 7:1-6; Ne. 1:11), na Pérsia, de onde sairam para a reforma social e religiosa em Jerusalém. Neste tempo quem governava a Babilônia, agora sob domínio persa, era o rei Artaxerxes (464 – 424 a.C.).

A esta altura uma parte da população já voltara para Jerusalém sob o comando de Zorobabel, porém, a reestruturação de Judá e a reconstrução do Templo não correram bem, pois todos aguardavam com muita espectativa o despertar nacional profetizado por Ezequiel (Ez. 37:1-14), que até aquele momento não havia acontecido. Por isso o ânimo dos judeus estava muito abalado.

Além disso muitos judeus estavam passadno por grandes dificuldades financeiras, que se agravaram em consequência da carga de trabalho para a reforma dos muros de Jerusalém. A decisão de Neemias em não cobrar juros dos empréstimos tomados por judeus nessa situação foi uma das medidas da reforma sócio-econômica promovida no pós-exílio.

O zelo para com as tradições judaicas e com o nome de Javé (Ne. 2:3; Ed. 9:1-15), fizeram com que Esdras e Neemias voltassem para liderar a reforma social e religiosa que Judá precisava naquele momento, duas gerações após o profeta Malaquias.

Para fins didáticos, podemos dividir os livros de Esdras-Neemias em dois momentos distintos da repratriação dos judeus após o exílio:

  • o retorno dos exilados e a reconstrução do templo entre 538-516 a.C. (Ed. 1-6)
  • reorganização religiosa com Esdras e a reorganização social com Neemias entre 458 e 420 a.C. (Ed. 7 – Ne. 13)

Estrutura de Esdras-Neemias

 

Os livros de Esdras-Neemias podem ser estruturados da seguinte maneira:

  1. Esdras
  1. Decreto de Ciro até a reconstrução do Templo – Caps.1 a 6
  2. Primeira parte das narrativas de Esdras – Caps. 7 a 10
  3. Chegada de Neemias até as reformas sociais – Caps. 1 a 7
  4. Segunda parte das narrativas de Esdras – Caps. 8 a 10
  5. Repovoamento de Jerusalém até as reformas religiosas de Neemias – Caps. 11 a 13
  1. Neemias

Os dois livros cobrem aproximadamente 100 anos de história, de 538 a.C. até 433 a.C. As narrativas começam pelo decreto de Ciro para a recostrução de Jerusalém (Ed. 1:1-4) até as reformas efetivadas no segundo mandato de Neemias como governador, de acordo com as ordens persas (Ne. 13:6-30).

O conteúdo do livro pode ser resumido da seguinte maneira:

  • O retorno dos judeus do exílio babilônico para Jerusalém com a restauração do templo e do altar
  • A chegada de Esdras e a reforma religiosa baseada na lei de Moisés (provavelmente Deuteronômio)
  • A chegada de Neemias e a reforma social e econômica e a reconstrução dos muros de Jerusalém

O autor dos livros redigiu e coletou material de diversas fontes e gêneros literários, onde podemos perceber 3 grandes blocos de narração:

  • Sesbazar e Zorobabel – Ed. 1-6
  • Os relatos de Esdras – Ed. 7-10; Ne. 7:73 – 10:39
  • Os relatos de Neemias – Ne 1:1 – 7:73; 11:1 – 13:31

Podemos concluir que o autor agiu de forma proposital ao dispor destes materiais conforme o esboço acima, pois tinha uma intenção teológica  relacionada à renovação da aliança de Javé com o povo judeu. Todos estes relatos unidos comprovam a renovação física e espiritual de Jerusalém.

Quanto aos gêneros literários podemos encontrar:

  • Relatos de Esdras e Neemias em primeira pessoa e relatos em terceira pessoa (Ed. 8:35-36)
  • Documentos históricos e correspondência oficial (Ed. 6:3-5; Ed. 5:7-17)
  • Discursos e orações (Ne. 9:5-37)
  • Cânticos (Ed. 3:11)
  • Listas de nomes (Ed. 2:2-70)
  • Inventário de utensílios do templo (Ed. 1:9-11)

Apesar destes materiais estarem reunidos em um só volume, é muito dificil estabelecer o ministério concomitante de Esdras e Neemias, pois, em suas memórias, nenhum deles menciona o outro como cooperador, exceto numa breve nota em Neemias 8:9. Este padrão se repete no ministério de Zacarias e Ageu, onde embora não mencionem um ao outro, profetizaram em Jerusalém no mesmo período de 2 anos.

Propósito e conteúdo

Basicamente o livro de Esdras-Neemias trata dos seguintes assuntos:

  • A restauração de Jerusalém
  • As reformas sociais, econômicas e religiosas no pós-exílio
  • Javé, o Deus que cumpre a aliança
  • A continuidade da comunidade judaica no pós-exílio
  • O templo e a lei como bases de identidade da nova comunidade judaica

O propósito do ponto de vista histórico dos livros de Esdras-Neemias é narrar o retorno dos judeus da Babilônia e preservar a memória do povo da aliança. Estes registros mostram a fidelidade de Javé ao preservar os judeus no decorrer dos diversos governos humanos na história. Estas narrativas também visavam informar ao rei persa as atividades realizadas por ambos como uma espécie de prestação de contas pela confiança depositada no retorno deles ao governo persa.

Sob o ponto de vista teológico os livros de Esdras-Neemias focaliza a renovação da aliança de Javé com o povo judeu no pós-exílio. Javé não havia se esquecido de sua promessa com o povo judeu, e mesmo agora, neste período de incertezas e reconstrução, tanto social quanto espiritual, ele deseja renovar sua aliança com o povo escolhido. Neste momento de reestruturação era importante que o povo soubesse que a obediência às leis da aliança eram o pré-requisito para as bênçãos de Javé. Teologicamente o retorno da Babilônia representa um novo Êxodo para o povo judeu.

Javé como cumpridor da aliança

A fidelidade de Javé à sua aliança (Ne. 9:32) era o motivo principal que levou Esdras e Neemias a executarem as reformas empreendidas por ambos. Esta fidelidade era a causa da esperança de Israel (Ed. 10:2), mesmo em um período tão atribulado.

Os profetas pós-exílicos sustentaram-se neste mesmo fundamento para sua mensagem de estímulo à nova comunidade (Zc. 1:3; Ml. 1:2).

As reformas e as origens do farisaísmo

 

Nas reformas do período pós-exílico houve duas inquietudes importantes:

  • Evitar um novo exílio
  • Preservar a identidade étnica

As medidas abaixo visaram proteger os judeus contra estas preocupações:

  • Cerimônia de renovação da aliança para garantir a posse da terra – Ne. 9:38 – 10:27
  • Restituir o ministério sacerdotal – Ed. 10:18-44
  • Recomeço dos rituais do templo e guarda do sábado – Ne. 8:13-18; 13:15-22
  • Estabelecimento da Lei de Moisés como padrão de vida comunitário – Ne. 8:1-12
  • Reformas sociais e econômicas fundamentadas na lei da aliança – Ne. 11:1-2
  • Pureza cerimonial da população de Jerusalém – Ne. 10:28-39
  • Divórcio e expulsão de estrangeiros dentre o povo –  Ed. 10:1-8; Ne. 9:1-5; 13:1-3

Estas medidas, a longo prazo, remoldaram a sociedade israelita e definiu o que conhecemos como a sociedade judaica do Novo Testamento. O templo e o sacerdócio substituíram o Estado e o rei como instituições fundamentais para a ordem e identidade social, sendo a lei de Moisés a constituição reguladora da comunidade. Com o passar do tempo estas medidas ocasionaram o exclusivismo judaico diante dos povos gentios, que eram vistos como moralmente impuros e corrompidos.

Ademais, Esdras reconfigurou as funções de escriba e sacerdote, fundindo-as numa única atividade: o estudo e a exposição das escrituras hebraicas. Com o fim dos sacrifícios no templo os sacerdotes se tornaram os únicos autorizados a ler e interpretar as leis mosaicas.

Para confirmar a obediência correta à lei da aliança, estes sacerdotes, com o passar do tempo, criaram complementos a esta lei, que foram chamados de tradição dos líderes religiosos (Mt. 15:1-9). Estes acréscimos, feitos por estes sacerdotes à lei primária,  passaram a exercer um papel cada vez maior na sociedade substituindo a lei mosaica.

A fixação com a exclusividade do povo judeu cegou-os quanto à verdadeira missão que tinham de ser luz para as nações (Is. 42:6; Lc. 2:32) sendo duramente criticados por Jesus, que ensinava com autoridade a verdadeira Lei de Moisés (Mc. 1:22).

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012 – Introdução ao Livro das Crônicas – Paz no futuro e glória no passado

Introdução ao Livro das Crônicas – Paz no futuro e glória no passado.

 

Os livros de 1 e 2 Crônicas, assim como os livros de Samuel e Reis, formavam um único volume, e, na Bíblia hebraica vinha logo após os livros de Esdras e Neemias. Isto sugere ao menos 2 coisas:

  • Aceitação posterior no cânon hebraico
  • Crônicas seria considerado um apêndice, ou um complemento das histórias de Samuel e Reis

Nossa Bíblia segue o padrão do AT grego (a Septuaginta), colocando Crônicas após o livro de Reis, antes de Esdras-Neemias.

Quando passamos de Reis diretamente para Crônicas, sentimos certa familiaridade, mas a ênfase dada pelo cronista (chamaremos seu autor desta forma) na história de Judá torna este livro único, e desta maneira, justifica seu estudo separadamente do livro dos Reis.

O cronista não é um historiador no sentido pleno do termo, pois ele entendia que a história dos reinos de Israel e Judá estava carregada de lições morais e espirituais, por isso ele toma como fontes primárias de informação os livros de Samuel e Reis, e não se preocupa com os dados em si mesmos mas com o seu significado. Logo, podemos dizer que este livro tem um conteúdo histórico altamente interpretativo.

E, para interpretar esta história, o cronista abrange os momentos históricos de Israel desde os patriarcas (usando genealogias) até a derrocada do reino do Sul, Judá, pelas mãos da Babilônia.

O cronista registra a história do povo de Israel na monarquia unida desde Adão até Davi com o foco na Aliança de Javé com o povo hebreu, com atenção especial nos patriarcas. Ainda na monarquia unida o autor destaca os acontecimentos ligados à arca da aliança e ao templo, construído por Salomão. Durante a monarquia dividida os relatos de Crônicas praticamente desprezam o Reino do Norte, Israel.

Na época da produção de Crônicas, o povo de Judá estava no período pós-exílico, e era importante reafirmar a fé em Javé. Portanto, o cronista interpreta a história de Israel permitindo que o judeu percebesse que Javé estava no governo da história e que sua aliança ainda era válida.

O fracasso de Zorobabel em instaurar o reino messiânico previsto por Zacarias e Ageu, aliado às breves reformas religiosas propostas por Esdras e Neemias, desafiaram o autor de Crônicas a enxergar esperança para os judeus tomando por base a própria história de Israel. A restauração estava a caminho, e, o segundo êxodo previsto por Zacarias, inaugurando o reino do Messias em Jerusalém, invadiria a história humana (Zc. 8:1-8)

Para reconstruir a história, e dar ao povo judeu a esperança no futuro, o autor de Crônicas selecionou apenas os fatos positivos dos reis de Judá, praticamente excluiu as narrativas do reino do Norte e os pecados de Davi e a apostasia de Salomão. O autor também se utilizou de fatos não narrados em Samuel e Reis (2 Cr. 33:18-20).

O nome do livro em hebraico, tirado dos primeiros versículos, é “as palavras dos dias” e seu nome “Crônicas” vem da sugestão abreviada de Jerônimo que o chamou de “crônica de toda história divina”.

Houve tempo que os estudiosos consideravam Crônicas uma obra do mesmo autor de Esdras-Neemias, mas atualmente esta teoria não encontra mais adeptos. Entretanto, a maioria dos eruditos concordam quanto à data de sua produção em torno do ano 400 a.C., um pouco depois da composição dos livros de Esdras-Neemias e cerca de 100 anos após o profeta Malaquias. O registro cronológico da genealogia de Zorobabel em 1 Cr 3:17-21 apoia este teoria.

Além de recorrer aos livros de Samuel e Reis para compor a história cronista, seu autor também reuniu outras fontes históricas tais como:

  • Registros genealógicos (1 Cr. 4:33; 5:17; 7:9,40; 9:1,22; 2 Cr. 12:15)
  • Cartas e documentos oficiais (1 Cr. 28:11-12; 2 Cr. 32:17-20; 2 Cr. 36:22-23)
  • Poemas, orações, discursos e cânticos (1 Cr. 16:8-36; 1 Cr. 29:10-22; 2 Cr. 29:30; 2 Cr. 35:25)
  • Registros históricos dos reis de Israel e Judá (2 Cr. 16:11; 2 Cr. 25:26; 2 Cr. 27:7; 2 Cr. 28:26; 2 Cr. 32:32; 2 Cr. 36:8)
  • Registros históricos de do rei Davi (1 Cr. 27:24)
  • Comentários sobre dos livros dos reis (2 Cr. 24:27)
  • Literatura profética primitiva, tais como os registros de Samuel, Natã, Gade (1 Cr. 29:29)
  • Literatura profética posterior, tais como os registros de Aías, Ido, Semaías, Jeú e Isaías (2 Cr. 12:15; 20:34; 32:32)

Andrew Hill & J. H. Walton, Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2007.

Estrutura de Crônicas

 

O livro de Crônicas pode ser dividido literariamente da seguinte forma:

  • Genealogia desde Adão até os exilados que retornaram (1 Cr. 1 – 9)
  • Monarquia unida de Davi e Salomão (1 Cr. 10 – 2 Cr. 9)
  • Monarquia dividida de Judá (2 Cr. 10 – 36:16)
  • Exílio de Judá na Babilônia (2 Cr. 36:17-23)

Nesta divisão fica claro que o objetivo do cronista é mostrar o ideal monárquico de Davi e Salomão, afinal são dedicados vinte e nove capítulos a estes reis. Para reanimar a fé do povo judeu que retornara do exílio o cronista compara o apogeu vivido nestes reinados com a realização da Aliança de Javé com seu povo. Do começo ao fim do livro são citadas as intervenções divinas neste período (1 Cr. 10:14; 2 Cr. 10:15).

A estrutura literária do livro também destaca a centralidade do templo como local de adoração único de Javé ao começar o segundo livro com a construção do primeiro templo e terminá-lo com o édito do rei Ciro para a reconstrução deste templo.

As genealogias, longe de serem apenas um enchimento literário, realça a unidade de todo Israel, um assunto primordial em virtude da separação dos reinos e retorno do exílio babilônico. O foco das genealogias são principalmente as tribos de Judá e Levi, isto é, a realeza e o sacerdócio respectivamente.

O incentivo e desafio é amplamente visto durante a exposição da narrativa do cronista. A coroação de Davi (1 Cr. 11 – 12) e as circunstâncias que a envolveram destacam a unidade e o ideal davídico da aliança. O tema fé e confiança foi bem explorado em 2 Cr. 13 a 16, enquanto os capítulos 21 a 23 evidenciam a preservação da dinastia davídica.

A desobediência de Saul é contrastada com a obediência de Davi e seu cuidado para com a arca da aliança, os preparativos para a construção do templo e a organização do culto a Javé.

O livro também enfatiza os reis Ezequias e Josias por suas contribuições ao culto a Javé e sua dedicação à purificação do templo de Jerusalém. A profecia também recebe uma atenção particular ao apresentar as bençãos e maldições previstas no código da Aliança (2 Cr. 36:17-21). Mesmo os casos de reis, cuja avaliação é negativa, tal qual Manassés e Amom, são apresentados como casos de conversão da apostasia (2 Cr. 33:1-9; 33:21-25).

O livro destaca que a rebelião contra Javé trouxe consequências graves para o povo da aliança, a dinastia davídica e o templo de Javé. Além do desterro, que era uma das promessas de Javé ao povo escolhido, o templo, como símbolo do governo teocrático de Javé, foi destruído. Contudo, assim como Javé cumpriu sua palavra acerca do exílio ela também se cumpriu na restauração e retorno dos judeus sob o governo de Ciro (2 Cr. 36:21-22).

Propósito e conteúdo

Com relação ao seu propósito e conteúdo, o livro de Crônicas abrange os seguintes temas principais:

  • Recordação do passado para a esperança no presente
  • A centralidade na adoração no Templo de Jerusalém
  • Os reinados de Davi e Salomão como ideais da aliança
  • Autenticar a liderança dos sacerdotes e levitas

O objetivo do cronista foi mostar que os reinados de Davi e Salomão privilegiaram a adoração correta de Javé, e isso impulsionou a monarquia no período que se manteve unida. Portanto, se a comunidade judaica pós-exílica seguisse o exemplo da monarquia unida da adoração centralizada no templo, a restauração prevista pelos profetas se concretizaria.

A escolha de Israel feita por Javé é refletida nas longas listas genealógicas (1 Cr. 1 – 9) e a repetição dos feitos de Javé na história de Israel, cujo paradigma são os reinados de Davi e Salomão, tornou-se a garantia da sua futura intervenção para o cumprimento de seus propósitos com relação à aliança com os hebreus.

Ao relembrar seu passado, a nova comunidade pós-exílica tomou ciência das bênçãos e maldições referentes à aliança, além de observarem o respeito para com a liderança instituída por Javé, no caso os sacerdotes e levitas. Este parecia ser o caminho para a retomada do sucesso de outrora.

Na recodação histórica feita pelo cronista, Judá torna-se herdeiro das promessas de Javé a “Israel” e chama a todos os israelitas, por meio das genealogias, a unirem-se à aliança com Javé novamente. Desta forma os dias de glória do passado seriam revividos.

A visão cronista também apontava para a esperança que os profetas disseram de que Jerusalém seria o centro político e religioso do mundo, e agiria da mesma maneira como agiu nos reinados de Davi e Salomão (Zc. 14:12-21).

Adoração no Antigo Testamento

 

A adoração de Javé no templo de Jerusalém era o ideal cúltico que o cronista tinha em mente. Exemplos de adoração enfatizados em Crônicas:

  • Adoração comunitária e individual – 1 Cr. 15:29; 2 Cr. 31:20-21
  • Adoração liderada pelos sacerdotes observando o calendário litúrgico – 2 Cr. 35:1-19
  • Resposta espontânea de adoração a Javé quando Ezequias celebra a páscoa duas vezes em um ano – 2 Cr. 30:13-22.
  • Adoração particular – 1 Cr. 16:23-27
  • Adoração pública – 1 Cr. 16:36; 29:9; 2 Cr. 5:2-14; 6:3-11

O cronista enfatizou também que a verdadeira adoração vem do temor ao Senhor (2 Cr. 6:31-33) e do amor a Javé de todo coração (1 Cr. 28:9; 2 Cr. 19:9).

Apesar da ênfase no Templo de Jerusalém, pois representava a própria presença de Javé no meio do seu povo, o cronista também destacou que a verdadeira adoração não pode ser restringida a um tempo ou lugar sagrado (2 Cr. 6:12-23).

Ainda em relacão à adoração o autor de Crônicas destaca o papel dos sacerdotes na vida religiosa da nação de Israel. Quanto aos levitas, após a instituição do templo, eles não precisariam mais carregar o tabernáculo, por isso o livro destaca as seguintes tarefas para estes personagens: cantores, músicos, guardas das portas, professores da lei e juízes (1 Cr. 24 – 26; 2 Cr. 17:7-9; 19:11).

Quando a monarquia em Israel foi extinta, os sacerdotes e levitas ficaram responsáveis pela administração da nação e o cronista pensou que esta classe social restabeleceria a teocracia em Israel, mas não foi o que aconteceu. Por isso Malaquias censura os sacerdotes por não cumprirem com suas funções sagradas (Ml. 1:6 – 2:9).

No Novo Testamento isso fundamentou o papel de Jesus como sacerdote de uma aliança superior (Hb. 7:20-22).

Arrependimento e misericórdia

 

O cronista além de historiador era também teólogo, pois conhecia a misericórdia e graça de Javé diante do arrependimento genuíno de seu povo (compare Êx. 32:11-14 com 2 Cr. 12:6-12). Seu perdão estava continuamente estendido a todos os que se dispunham a mudar suas atitudes e se voltavam para ele (2 Cr. 15:4; 32:26). Antigos habitantes do reino do norte (Israel) experimentariam sua bondade se retornassem aos seus caminhos (2 Cr. 30:6-9). Até mesmo o perverso rei Manassés provou a misericórdia de Javé (2 Cr. 33:12-14).

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