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Jesus, o servo sofredor

O título “Servo Sofredor” é um dos mais antigos dados a Jesus, e está ligado à idéia de uma substituição progressiva que começou na criação. Este é também um título tipicamente judaico, que nos remete aos textos de Isaías 42:1-3 e Isaías 52:13- 53:12.

Estes textos trazem bastante informação sobre sua obra e até sua morte, mas não traz nenhuma informação sobre sua identidade, que parece ter sido conhecida de seus leitores, mas são um enigma para os estudiosos de hoje.

Alguns deduzem este servo como o próprio povo de Israel, de acordo com o trecho de Isaías 49:3. Outros deduzem ser uma parte do povo de Israel, chamada de remanescente. E, por fim, alguns reduzem o Servo da coletividade para um indivíduo. Seguindo o princípio da substituição na história da salvação, uma redução progressiva acontece: da criação ao povo de Israel, do povo de Israel ao remanescente, e do remanescente a um só homem, Jesus. A característica essencial da substituição é o sofrimento. O Servo é aquele que sofre, e seu sofrimento substitui o sofrimento de muitos homens. Esta obra substitutiva do Servo restaura a aliança com Deus, ou seja, o Servo é o mediador entre os homens e Deus.

Os teólogos liberais costumam dizer que Jesus nunca atribuiu à sua morte um valor expiatório, pois, segundo a abordagem liberal, foi o apóstolo Paulo que entendeu desta maneira. De certa forma isso é verdade, porém devemos entender que Jesus se pôs a viver esta obra expiatória a ensiná-la. Além disso, Jesus falou muito sobre seu sofrimento e morte como parte integrante de sua obra terrena, sem sombra de dúvida, para cumprir o plano da salvação.

Nos textos da instituição da Ceia (Mc. 14:24; Mt. 26:28; Lc. 22:20; 1 Co. 11:24) Jesus deixa muito claro seu sofrimento e morte por muitos homens. Nestes textos estão presentes os conceitos de aliança e substituição, que são duas idéias chaves, segundo o Antigo Testamento, da obra que o Servo de Deus deveria realizar. Ao restabelecer a aliança entre Deus e seu povo, segundo os textos de Is. 42:6 e 49:8, o Servo se torna a própria aliança em pessoa. Nos evangelhos encontramos poucas referências que estabelecem uma relação direta entre Jesus e o Servo Sofredor de Isaías. Em Mt. 8:16, o evangelista estabelece como o cumprimento da profecia de Isaías as curas realizadas por Jesus, e não seu sofrimento substitutivo. Enquanto o profeta diz que, por meio do seu sofrimento e morte, o Servo toma as enfermidades dos outros, o evangelista diz que Jesus levou embora as enfermidades. Na teologia cristã primitiva, de certo modo, este pensamento é correto, pois as curas feitas por Jesus previam sua obra definitiva realizada por seu sofrimento.

João, ao narrar o episódio do batismo de Jesus, é o único que liga a idéia da missão do Servo Sofredor de Isaías com a vocação e chamado de Jesus, ao compará-lo com o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O cristianismo primitivo herdou uma concepção muito antiga de Jesus como Servo de Deus, provavelmente vinda do apóstolo Pedro. Observamos este padrão em sua primeira carta, onde com insistência cita trechos do livro do profeta Isaías que tratam sobre o Servo de Deus, conforme 1 Pe. 2:21 ss.

Em Paulo, apesar de não haver o emprego da expressão Servo de Deus, a morte expiatória de Jesus ocupa o lugar central. Depreendemos isso pelos textos de 1Co. 15:3 e Fl. 2:6 que foram herdados da tradição da igreja, já que ele mesmo declara tê-la recebido. O título Servo de Deus, ao contrário do título de profeta, explica a razão da missão de Jesus no mundo, pois foi por meio do seu sofrimento e morte que Jesus veio em sua missão de salvar o mundo na história da salvação. O título de profeta está restrito à atuação presente de Jesus, mas o Servo de Deus provê um caráter definitivo da redenção, e que representa o ponto máximo da história da salvação.

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