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Archive for the ‘Extensão do cânon do AT’ Category

A EXTENSÃO DO CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO

A aceitação dos 24 livros que compõem o cânon hebraico Não resolveu a questão de uma vez por todas. Alguns estudiosos de eras posteriores nem sempre estavam conscientes dos fatos da aceitação original, e destas dúvidas nasceram alguns conceitos técnicos sobre a aceitação dos livros. Veremos quatro classificações que os livros receberam de acordo com sua aceitação ou rejeição.

  • Livros aceitos por todos – Homologoumena
  • Livros rejeitados por todos – Pseudepígrafos
  • Livros questionados por alguns – Antilegomena
  • Livros aceitos por alguns – Apócrifos

Os livros aceitos por todos – Homologoumena

São os livros que nunca foram questionados por nenhum dos grandes rabis. Todos reconheceram ser detentores da inspiração divina. Trinta e quatro dos 39 livros que formam o Velho Testamento são pertencentes a esta classificação. Os cinco excluíveis seriam: Cântico dos cânticos, Eclesiastes, Ester, Ezequiel e Provérbios. Como não foram alvo de sérias contradições, podemos focar nosso estudo aos outros livros.

Os livros rejeitados por todos – Pseudepígrafos

Os documentos tidos como não inspirados que circulavam entre a comunidade hebraica no Velho Testamento são conhecidos como pseudepígrafos. Nem tudo o que está escrito nestes livros são mentiras, porém alguns conceitos apresentados chegam a ser heréticos, pois apresentam algumas palavras com suposta autoridade divina, isso num contexto de fantasia religiosa. O Novo Testamento chega a mencionar algumas coisas destes livros. Em Jd. 14-15 está a citação de um trecho do livro de Enoque e Paulo cita a penitência de Jambres e Janes (2 Tm. 3:8). Devemos notar que o Novo Testamento cita os fatos verdadeiros deste livros, sem contudo atribuir-lhes autoridade divina. Afinal, a verdade é sempre verdade, mesmo quando dita por um : profeta pagão (Nm. 24:17), animal irracional mudo (Nm. 22:28) ou mesmo um demônio (At. 16:17)

l A natureza dos pseudepígrafos

Contém os extremos da fantasia religiosa judaica no período compreendido entre 200 a.C. e 200 d.C. Alguns são inofensivos, assim como o Salmo 151, porém outros contém erros históricos e heresias. Analisando-se superficialmente, estes livros são tomados por religiosos. Porém a não fundamentada autoridade divina e os ensinos questionáveis e heréticos algumas vezes, levaram os pais do judaísmo a considerá-los não inspirados. Abaixo segue uma pequena lista dos principais livros desta classificação (existem muito outros ainda):

Lendários
  • O livro do Jubileu
  • Epístola de Aristéias
  • O livro de Adão e Eva
  • O martírio de Isaías
Apocalípticos
  • 1 Enoque
  • Testamento dos doze patriarcas
  • O oráculo sibilino
  • Assunção de Moisés
  • 2 Enoque – ou – O livro dos segredos de Enoque
  • 2 Baruque – ou – O apocalipse siríaco de Baruque
  • 3 Baruque – ou – O apocalipse grego de Baruque
Didáticos
  • 3 Macabeus
  • 4 Macabeus
  • Pirque Abote
  • A história de Aicar
Poéticos
  • Salmos de Salomão
  • Salmo 151
Históricos
  • Fragmentos de uma obra de Sadoque

Os livros questionados por alguns – Antilegomena

A natureza dos antilegomena

Vimos na aula anterior como os 39 livros do Velho Testamento foram, de início, aceitos e reconhecidos como tendo autoridade divina pelo povo de Deus. Durante os séculos seguintes houve uma nova posição entre o povo judeu e alguns rabis resolveram pôr à prova alguns dos livros que anteriormente haviam tido sua autoridade reconhecida. Então, em vista deste livros uma vez na história tendo seu reconhecimento divino posto em dúvida, estes escritos recebem o nome de Antilegomena.

O número dos Antilegomena

Cântico dos cânticos, Ester, Provérbios, Eclesiastes e Ezequiel tiveram sua autoridade divina contestada em um ou outro tempo. Porém, no final, prevaleceu a canonicidade destes 5 livros.

è Cânticos dos cânticos – Alguns estudiosos da escola de Shammai (rabi Judeu) consideraram este livro sensual demais. Mas, para acabar com a controvérsia em torno deste livro e defender a canonicidade dele o rabi Akiva escreveu o seguinte:

“” Livre-nos Deus! Ninguém jamais em Israel criou controvérsia acerca do Cântico dos Cânticos, alegando não tornar imundas as mãos [i.e., não ser canônico];  todas as eras somadas não equivalem ao dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel. Todos os Escritos são santos, mas o Cântico dos Cânticos é o Santo dos Santos. “”

Quaisquer que tenham sido as dúvidas em relação à canonicidade deste livro, foram mal interpretadas. A pureza sexual, no casamento, foi exaltada por Deus neste livro. Deus deu o sexo aos seres humanos, para seu prazer, desde que realizado dentro dos parâmetros bíblicos. Cânticos dos cânticos nos dá este parâmetro.

  • Eclesiastes – Sua autoridade divina foi questionada por ser demasiadamente cético. Porém assim como com Cântico dos cânticos foi dada uma interpretação errônea de seus textos. Não tem nada a ver com sua autoridade divina. Cada uma destas observações aparentemente céticas tem como objetivo mostrar  que todas essas coisas, longe de Deus, são como correr atrás do vento. Basta ver a conclusão do livro: Ec. 12:13
  • Ester – Em virtude do não aparecimento do nome de Deus neste livro, sua canonicidade foi questionada. Porém podemos perceber que, durante o desenrolar da história, a mão de Deus esteve sempre presente, guardando e protegendo seu povo, no dia a dia, em cada detalhe. Outros estudiosos ainda dizem que a omissão do nome de Deus foi proposital, para impedir o plágio de outras nações, dando crédito a outros deuses.
  • Ezequiel – Novamente alguns estudiosos da escola de Shammai acharam que o livro de Ezequiel era anti-mosaico(contra a lei de Moisés), especialmente seus dez primeiros capítulos, que tinham uma tendência para o gnosticismo. Porém, se houvesse contradições com a Torá (Lei) o mesmo não poderia ter sido canonizado. Foi então, mais uma vez, uma questão de interpretação, não de inspiração.
  • Provérbios – O fato da dúvida em Provérbios se baseou no capítulo 26, dizendo que devemos responder ao tolo, isso ia contra alguns dos outros provérbios. O que houve, mais uma vez foi o erro de interpretação, pois existem momentos onde devemos responder, e outros momentos onde devemos nos calar.

Os livros aceitos por alguns – Apócrifos

O ponto com maiores divergências no cânon do Antigo Testamento está na aceitação, ou não, dos chamados livros apócrifos. São aceitos pelos católicos romanos e rejeitados pelos protestantes e judeus. Apocrypha em grego quer dizer oculto ou difícil de entender, mas depois tomou o sentido de esotérico. Desde a época da Reforma (séc. XVI) tem sido usado para descrever os escritos não-canônicos do período inter-testamentário.

A questão é: este livros eram ocultos a fim de serem preservados, pois sua mensagem era profunda; ou porque eram de confiabilidade duvidosa.

A natureza e número dos apócrifos do Velho Testamento

Há quinze livros chamados apócrifos, e preenchem a lacuna entre Malaquias e Mateus.

Gênero do livro Versão revista padrão Versão de Douai
Didático

Sabedoria de Salomão (c. 30 a.C.)

Eclesiástico (Siraque) (c. 132 a.C.)

O livros da sabedoria

Eclesiástico

Religioso Tobias (c. 200 a.C.) Tobias
Romance Judite (c. 150 a.C.) Judite
Histórico

1 Esdras (c. 150-100 a.C.)

1 Macabeus (c. 110 a.C.)

2 Macabeus (c. 110-70 a.C.)

3 Esdras*

1 Macabeus

2 Macabeus

Profético

Baruque (c. 150-50 a.C.)

Epístola de Jeremias (c. 300-100 a.C.)

2 Esdras (c. 100 a.C.)

Baruque 1-5

Baruque 6

4 Esdras**

Lendário

Adições a Ester (140-110 a.C.)

Oração de Azarias (Séc. I ou II a.C.)

Suzana (Séc. I ou II a.C.)

Bel e o dragão (c. 100 a.C.)

Oração de Manassés (Séc. I ou II a.C.)

Ester 10:4 – 16:24

Daniel 3:24-90*

Daniel 13**

Daniel 14**

Oração de Manassés*

*Livros não aceitos como canônicos no Concílio de Trento (1546).

** Livros não relacionados no sumário de Douai por estarem juntos com outros livros.

Argumentos a favor da aceitação dos apócrifos

Os protestantes e judeus aceitam que haja algum valor religioso ou histórico, porém não atribuem a estes livros nenhum valor canônico. Os católicos desde o concílio de Trento (1546) tem aceitos estes livros como inspirados por Deus.

Œ Alusões no Novo Testamento – O Novo Testamento registra alguns fatos e pensamentos. Por exemplo, Hebreus fala de mulheres que receberam seus mortos pela ressurreição (Hb. 11:35), e faz referência a 2 Macabeus 7 e 12. Os chamados pseudepígrafos também são citados (Jd. 14-15; 2 Tm 3:8)

 Emprego que o Novo Testamento faz da versão dos Septuagintas – A versão grega da bíblia hebraica chamava-se Septuaginta. Foi realizada em Alexandria. É a versão mais citada pelo Novo testamento e pelos cristãos primitivos. A septuaginta continha os apócrifos.

Ž Os mais antigos manuscritos completos da Bíblia – Os mais antigos manuscritos da Bíblia em grego contém os livros apócrifos inseridos entre os livros do Antigo Testamento.

 A arte cristã primitiva – Alguns dos registros da arte cristã primitiva refletem o uso dos apócrifos. Algumas gravuras feitas nas catacumbas se baseavam na história registrada no período inter testamentário.

 Os primeiros pais da Igreja – Alguns pais da Igreja, especialmente os do Ocidente, usaram os livros apócrifos em seu ensino.

‘ A influência de Agostinho – Ele influenciou os concílios da Igreja em Hipo (c. 393d.C.) e Cartago (c. 397 d.C.), que relacionaram os apócrifos como canônicos. A partir daí a Igreja Ocidental passou a usá-los em seu culto público.

’ O concílio de Trento – Em 1546, o concílio católico do Pós-Reforma, realizado em Trento, proclamou os livros apócrifos como canônicos. Desde então, a Igreja Católica passou a aceitar os apócrifos como detentores de autoridade divina e espiritual.

“ Uso não-católico – As  Bíblias protestantes logo após a Reforma continham os apócrifos. A Igreja Anglicana usa regularmente os apócrifos em seus cultos públicos, e também, as igrejas ortodoxas orientais tem uso comum e freqüente deste livros.

” Pergaminhos do Mar Morto – Os livros apócrifos foram encontrados entre os rolos do Mar Morto. Alguns inclusive escritos em hebraico, o que indica terem sido usados por judeus palestinos antes da época de Jesus.

Argumentos contra a aceitação dos apócrifos

Œ A autoridade do Novo Testamento – O NT jamais cita um livro apócrifo como sendo inspirado. Assim como há algumas menções a outros escritos fora da Bíblia, não quer dizer que a simples menção de trechos destes livros lhe atribuam alguma autoridade divina. O NT cita os limites da extensão do cânon do VT, excluindo os apócrifos (Aula 7).

 A tradução Septuaginta – O verdadeiro lugar do cânon hebraico era  a Palestina, não Alexandria. O centro grego do saber não tinha autoridade para determinar com precisão quais livros pertenciam ao cânon hebraico. O fato da Septuaginta conter os livros apócrifos apenas prova que os judeus alexandrinos traduziram os demais livros religiosos judaicos, do período inter-testamentário, para o grego. Não é sequer um fato comprovado que a LXX do século I contivesse os apócrifos. Os primeiros manuscritos gregos que os incluem datam do século IV d.C.

Ž Bíblia cristã primitiva – Os mais antigos manuscritos gregos datam do séc. IV e seguem a tradição da LXX, ou seja, contém os apócrifos.  Porém, devemos ressaltar que era simplesmente uma tradução e não o cânon hebraico. O NT faz menções à LXX, porém não vemos uma única referência aos livros apócrifos. Isto apenas mostra que este slivros eram aceitos apenas por alguns cristãos e não por toda comunidade cristã da época.

 A arte cristã primitiva – Isto nunca foi, e nem será base para reconhecermos a canonicidade de algum livro.

 Os primeiros pais da Igreja – Os pais da Igreja, anteriores a Agostinho, nunca aceitaram a canonicidade destes livros.

‘ O cânon de Agostinho – Agostinho não era isento de erros. Primeiramente, Agostinho supõe que os apócrifos tenham deutorocanonicidade (segundo cânon) e não canonicidade absoluta (Cidade de Deus 18,36). Além disso, os concílios de Hipo e de Cartago foram influenciados por Agostinho e nenhum especialista hebreu esteve presente nestes concílios. Jerônimo, que era o mais qualificado especialista hebreu rejeitou fortemente os apócrifos e chegou a recusar-se a traduzir estes para a linguagem latina (Vulgata). Só traduziu os apócrifos para o latim por pressão do Bispo de Roma. Só depois de sua morte é que os apócrifos foram incluídos na tradução Vulgata Latina.

’ O concílio de Trento – Foi um concílio realizado (1545-1563) para contra-atacar a Reforma Protestante que aconteceu em 1517. Uma das medidas para combater Lutero e os reformadores foi canonizar os livros apócrifos, já que Lutero os havia rejeitado.

“ Uso não-católico – O uso dos livros apócrifos entre as igrejas protestantes e anglicanas foi desigual. Ainda que igreja não católicas façam uso dos livros apócrifos, nunca foram atribuídos aos mesmos qualquer autoridade divina.

” Pergaminhos do Mar Morto – Foram achados além dos livros, comentários e manuais e em nenhum deste comentários e manuais se atribui valor canônico aos livros apócrifos. Podemos então presumir que a comunidade da época não considerava os livros apócrifos como canônicos.

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