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Archive for the ‘Extensão do cânon do NT’ Category

A EXTENSÃO DO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO

Assim como o Velho Testamento havia livros do cânon Neotestamentário que foram aceitos por todos, livros rejeitados por todos, livros aceitos por alguns e livros questionados por alguns.

Os livros aceitos por todos – Homologoumena

Assim como no Velho Testamento a maioria dos livros foi aceita pela Igreja logo no início. Em geral, 20 dos 27 livros do Novo Testamento pertencem a esta classificação. Incluem-se todos exceto: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. Os outros três foram omitidos em algumas épocas. Como os livros desta classe foram aceitos por todos não trataremos mais deles e concentraremos nossos estudos nas outras classes de livros.

Os livros rejeitados por todos – Pseudepígrafos

Entre os séculos II e III surgiram numerosos livros heréticos, que receberam o nome de pseudepígrafos, ou escritos falsos. Eusébio os classificou de “totalmente absurdos e ímpios”.

Praticamente nenhum pai da Igreja, nenhum cânon ou concílio declarou apoio a estes escritos, pois em sua maioria eram gnósticos, heréticos e registravam supostos fatos misteriosos não narrados nos evangelhos canônicos (por exemplo a infância de Jesus). Tinham uma desmedida fantasia religiosa. As seitas que mais adotaram este livros foram os:

  • Gnósticos – Ensinavam que a matéria era má e negavam a encarnação de Jesus.
  • Docetas – Ensinavam a divindade de Jesus e negavam sua humanidade; diziam que era apenas uma aparência de humano.
  • Monofisistas – Ensinavam que Jesus tinha uma única natureza, uma fusão da humana e divina.

O interesse destes livros por parte dos cristãos é puramente histórico.

O número dos pseudepígrafos

Até o século XIX haviam sido achados 280 obras desta natureza. Abaixo relacionamos as principais e as mais tradicionais neste quesito.

Evangelhos
1. O Evangelho de Tomé (século I) é uma visão gnóstica dos supostos milagres da infância de Jesus.
2. O Evangelho dos ebionitas (século II) é uma tentativa gnóstico-cristã de perpetuar as práticas do Antigo Testamento.
3. O Evangelho de Pedro (século II) é uma falsificação docética e gnóstica.
4. O Proto-evangelho de Tiago (século II) é uma narração que Maria faz do massacre dos meninos pelo rei Herodes.
5. O Evangelho dos egípcios (século II) é um ensino ascético contra o casamento, contra a carne e contra o vinho.
6. O Evangelho arábico da infância (?) registra os milagres que Jesus teria praticado na infância, no Egito, e a visita dos magos de Zoroastro.
7. O Evangelho de Nicodemos (séculos II ou V) contém os Atos de Pilatos e a Descida de Jesus.
8. O Evangelho do carpinteiro José (século IV) é o escrito de uma seita monofisista que glorificava a José.
9. A História do carpinteiro José (século V) é a versão monofisista da vida de José.
10. O passamento de Maria (século IV) relata a assunção corporal de Maria e mostra os estágios progressivos da adoração de Maria.
11. O Evangelho da natividade de Maria (século VI) promove a adoração de Maria e forma a base da Lenda de ouro, livro popular do século XIII sobre a vida dos santos.
12. O Evangelho de um Pseudo-Mateus (século V) contém uma narrativa sobre a visita que Jesus fez ao Egito e sobre alguns dos milagres do final de sua infância.
13-21.Evangelho dos doze, de Barnabé, de Bartolomeu, dos hebreus (v. “Apócrifos”), de Marcião, de André, de Matias, de Pedro, de Filipe.

Atos
1. Os Atos de Pedro (século II) contêm a lenda segundo a qual Pedro teria sido crucificado de cabeça para baixo.
2. Os Atos de João (século II) mostram a influência dos ensinos gnósticos e docéticos.
3. Os Atos de André (?) são uma história gnóstica da prisão e da morte de André.
4. Os Atos de Tomé (?) apresentam a missão e o martírio de Tomé na Índia.
5. Os Atos de Paulo apresentam um Paulo de pequena estatura, de nariz grande, de pernas arqueadas e calvo.
6-8. Atos de Matias, de Filipe, de Tadeu.

Epístolas
1. A Carta atribuída a nosso Senhor é um suposto registro da resposta dada por Jesus ao pedido de cura de alguém, apresentado pelo rei da Mesopotâmia. Diz o texto que o Senhor enviaria alguém depois de sua ressurreição.
2. A Carta perdida aos coríntios (séculos II, III) é falsificação baseada em 1Coríntios 5.9, que se encontrou numa Bíblia armênia do século V
3. Às (Seis) Cartas de Paulo a Sêneca (século IV) é falsificação que recomenda o cristianismo para os discípulos de Sêneca.
4. A Carta de Paulo aos laodicenses é falsificação baseada em Colossenses 4.16. (Também relacionamos essa carta sob o título “Apócrifos”).

Apocalipses
1. Apocalipse de Pedro (também relacionado em “Apócrifos”).
2. Apocalipse de Paulo.
3. Apocalipse de Tomé.
4. Apocalipse de Estêvão.
5. Segundo apocalipse de Tiago.
6. Apocalipse de Messos.
7. Apocalipse de Dositeu.

Os três últimos são obras coptas do século III de cunho gnóstico, descobertas em 1946, em Nag-Hammadi, no Egito.

Outras Obras
1. Livro secreto de João
2. Tradições de Matias
3. Diálogo do Salvador

Visto que a rejeição a estes livros foi unânime, e em razão das heresias e erros grosseiros apresentados são adequadamente chamados de pseudepígrafos. Seja qual for a verdade contida nestes livros, perdeu-se em virtude das fantasias apresentadas e tendências heréticas. Não acrescentam nem mesmo valor devocional, a não ser histórico, pois revelam a crença de seus autores.

Os livros questionados por alguns – Antilegomena

Houve sete livros cuja autenticidade foi questionada por alguns dos pais da Igreja, e por isso, ainda não tinham tido reconhecimento até volta do século IV. Estes livros foram: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. O fato destes livros não terem sido universalmente reconhecidos não significa que não houvesse aceitação dos mesmos por parte da Igreja. O fato também de que houve algum questionamento sobre estes livros não quer dizer que sua canonicidade esteja diminuída, de forma alguma! O problema principal do questionamento de alguns livros se referia muito mais à dificuldade de comunicação entre as comunidades cristãs do Oriente e Ocidente. A partir do momento que todos os fatos envolvidos no reconhecimento destes livros ficaram evidentes para ambas as comunidades, o total dos 27 livros foi imediatamente reconhecida como tendo autoridade divina.

O número dos antilegomena

Vamos examinar cada um dos livros que sofreram algum tipo de objeção com relação ao reconhecimento de sua autoridade divina.

Hebreus – A principal questão envolvendo o não reconhecimento deste livro por parte da Igreja do Oriente foi o autor não se identificar. O autor também não toma para si a qualidade de apóstolo(Hb. 2:3). Porém, os cristãos do Oriente não sabiam que os cristãos do Ocidente já haviam reconhecido sua autenticidade. Outro fato que contribuiu para o não reconhecimento foi o fato de alguns grupos heréticos terem usado Hebreus para apoio de algumas de suas heresias. Já no século IV, com a ajuda de Jerônimo e Agostinho, a carta aos Hebreus foi definitivamente incorporada ao cânon do Novo Testamento. O conteúdo do livro é altamente confiável, bem como sua reivindicação de deter autoridade divina (1:1; 13:22)

Tiago – Assim como Hebreus, a veracidade da carta de Tiago foi questionada. Principalmente pelo fato do autor não afirmar ser apóstolo. Porém, os primeiros leitores e aqueles que se seguiram, puderam atestar que este Tiago pertencia ao círculo apostólico, era o irmão de Jesus. Contudo, a Igreja Ocidental não teve acesso a esta informação. Também havia a questão da justificação pela fé e as obras que Tiago cita em sua carta. A princípio pareceu conflitante com os ensinos de Paulo sobre a justificação pela fé somente. Até Martinho Lutero chamou Tiago de “carta de palha”, colocando-a no fim do Novo Testamento. Então, com os esforços de Orígenes, Eusébio (que pessoalmente recomendava a carta), Jerônimo e Agostinho a veracidade desta carta foi reconhecida pela Igreja Ocidental.

Segunda carta de Pedro – Nenhuma outra carta do Novo Testamento gerou tantas dúvidas quanto a segunda epístola de Pedro. As dúvidas surgiram em decorrência da diferença de estilos entre esta e a Primeira carta do apóstolo. Descobertas demonstram que cristãos coptas (Egito) usavam esta carta em épocas bem antigas. Clemente de Roma, e a obra “Pseudo-Barnabé”, dos séculos I e II  citam a segunda carta de Pedro. Há também, evidências internas (doutrinas) de que se trata de uma carta do Apóstolo Pedro. As diferenças de estilos podem ser explicadas, pois em sua primeira carta houve o emprego de um escriba (1 Pe. 5:12) o que não aconteceu em sua segunda epístola.
Segunda e terceira cartas de João – Por causa de sua identificação como “O Presbítero” e sua limitada circulação, não foi amplamente aceita como a sua primeira carta, porém eram mais aceitas do que a segunda carta de Pedro. Policarpo e Irineu haviam aceito como confiável e inspirada. Por causa de semelhança de estilo com a primeira carta, que havia sido amplamente aceita, mostrou-se óbvio que estas duas também vieram do mesmo escritor. João era íntimo dos crentes asiáticos, ao ponto de escrever-lhes sob o título afetuoso de “O presbítero”. este título era usado pelos outros apóstolos(1 Pe. 5:1), enquanto que Apóstolo era usado para especificar seu dom (Ef. 4:11)
Judas – Esta carta também foi posta em dúvida por alguns devido às citações de livros que não se encontram no Cânon do Velho Testamento. Nos versículos 14 e 15 há uma citação do livro de Enoque  e uma possível citação do livro Assunção de Moisés no versículo 9. Porém, os primeiros pais da igreja, Irineu e Clemente de Alexandria haviam recebido esta carta como autorizada. O problema das citações pode ser entendido da mesma forma que Paulo faz menção de poetas não cristãos em Atos 17:28, 1 Cor. 15:33 e Tt 1:12. Não necessariamente há aprovação do que está sendo dito ou então tirou-se um fragmento de verdade dessas obras, e isso, não necessariamente desqualifica ou desautoriza o escrito Apostólico.
Apocalipse – Embora tendo sido aceito pelos primeiros pais da igreja no século I, no início do século IV o mesmo foi questionado devido à doutrina do Milênio, em Apocalipse 20. O debate acerca de Apocalipse foi o que mais durou entre os livros do Novo Testamento. Por volta do século III começaram a surgir ensinos heréticos tomando por base este livro. Dionísio, que era bispo de Alexandria, no século III, se ergueu contra o livro de Apocalipse. Porém, Jerônimo, Agostinho e Atanásio defenderam a autenticidade e confiabilidade de Apocalipse, no século IV. Quando houve o esclarecimento de que o livro estava sendo mal interpretado pelas seitas heréticas, Apocalipse ganhou lugar definitivo no Cânon.
Os livros aceitos por alguns – Apócrifos
Tiveram grande estima entre os pais da igreja primitiva, porém nunca ninguém os considerou canônico.
Epístola do Pseudo-Barnabé (c. 70-79) –  Teve ampla circulação no século I, seu estilo é parecido com o de Hebreus, porém mais alegórico. A antiguidade da carta está confirmada porém sua confiabilidade é extremamente questionável. O autor é um leigo que não reivindica autoridade divina (cap. 1) e obviamente não é o mesmo Barnabé encontrado em Atos.
Epístola aos Coríntios (c. 96) –  Esta carta de Clemente de Roma havia sido lida publicamente em Corinto e outros lugares.  Provavelmente o escritor tenha sido Clemente citado em Filipenses 4:3, porém a carta não reivindica autoridade divina. Emprega narrativa fantasiosa do velho Testamento e o livro apócrifo “Livro da Sabedoria” é citado como Escritura no cap. 27. O tom da carta é evangélico porém a igreja nunca o reconheceu como canônico.
O pastor – Hermas (c. 140) –  Foi o livro não-canônico mais popular da igreja primitiva. Tem grande valor ético e devocional, mas nunca foi reconhecido como inspirado pela igreja.
Didaquê – ou ensino dos doze apóstolos (c. 100-120) – Teve grande importância e prestígio na igreja primitiva. Foi o elo entre  os apóstolos e os pais primitivos, pois tinha muitas referências aos evangelhos e às cartas de Paulo até ao Apocalipse. Porém jamais foi considerado como inspirado divinamente pela igreja primitiva.
Apocalipse de Pedro (c. 150) –  Um dos mais antigos Apocalipses não-canônicos que circulou em larga escala na igreja primitiva. Suas narrações realísticas do mundo espiritual exerceram forte influência na Idade Média. A igreja nunca o reconheceu como canônico.
Carta aos Laodicenses (séc. IV?) –  Obra forjada, conhecida por Jerônimo. Aparece em muitas Bíblias do século VI ao XV. Mostra um punhado de frases de Paulo sem nenhum elo entre si, sem nenhuma linha de raciocínio lógica. Não tem ensino nenhum ensino doutrinário. Jamais obteve reconhecimento canônico.
Epístola de Policarpo aos Filipenses (c. 108) –  Foi discípulo do apóstolo João e mestre de Irineu. Foi o elo entre os apóstolos e os pais da Igreja do início do século II. Não defendeu inspiração divina para sua obra, apenas ensinava o que havia aprendido com os apóstolos. Não há muita originalidade nesta obra, visto que foi tirado dos escritos do Novo Testamento. Embora não seja canônica é uma rica fonte sobre os livros do Novo Testamento, que ele cita como canônicos.
Sete epístolas de Inácio (c. 110) –  Inácio, diz a tradição, foi também discípulo do Apóstolo João. Não reivindicou inspiração divina a seus ensinos. Tem muita familiaridade com os ensinos do Novo Testamento, de modo especial com as cartas de Paulo. Sem dúvida são cartas autênticas, porém não-canônicas.
Podemos resumir dizendo que os escritos do novo Testamento jamais sofreu polêmicas quanto à sua inspiração. O que houve sim, foi a dificuldade de comunicação e distância entre as comunidades do Oriente e Ocidente no sentido de estudarem em conjunto e dar um parecer favorável aos escritos do Novo Testamento, os quais temos até os dias de hoje.
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