Arquivo

Archive for the ‘Filosofia Cristã’ Category

Não coloque o SENHOR teu Deus em uma armadilha

Calma! Eu sei que Deus não pode cair em uma armadilha, ao menos em uma como a da figura acima. Mas, por incrível que pareça, Jesus adverte contra esta prática.

Não sou favorável à técnica de ficar desfilando palavras em grego e hebraico seja em pregações ou textos, exceto os acadêmicos claro; mas um texto em especial me chamou a atenção, e creio que o estudo correto de um termo grego neste texto nos ajudará a compreender melhor a verdade revelada por Deus em sua palavra.

O texto se encontra em Mateus 4:1-11, o conhecidíssimo texto sobre a tentação de Jesus.

Vamos nos deter um pouco no verso 7, onde Jesus dá uma dura no diabo dizendo que ele não deveria tentar a Deus. Pois bem, em português temos o mesmo termo apontando para tentar a Deus e a própria tentação de Jesus, mas, um exame um pouco mais detalhado deste trecho no original, nos permitirá um novo olhar sobre este texto.

O termo comum para tentação em grego é peirazo, que significa uma prova, um teste. Ou seja, Jesus estava passando por um teste. Entretanto, quando Jesus diz para o diabo não tentar a Deus ele não usa o termo peirazo, mas sim a palavra ekpeirazo, que significa não colocar em uma armadilha.

Antes de continuar no estudo deste texto, permita-me, caro leitor, mudar rapidamente de assunto. Recentemente eu vi a notícia que determinado grupo religioso vendia um martelo por R$ 1000,00 e prometia esmagar todos os problemas da vida de quem comprasse o tal produto.

Voltando ao embate Jesus versus diabo, vemos que ele pretendia que Jesus aplicasse um grande golpe publicitário. Ou seja, estando em Jerusalém, no principal ponto da cidade, e no lugar mais alto, todos veriam Jesus pulando lá de cima, enquanto os anjos viriam em seu socorro. BINGO! Seria aclamado na hora como uma espécie de “Jesus super star“.

Sabemos que este não era o plano de Deus, e Jesus responde ao diabo dizendo que ele não deveria por Deus em uma armadilha, ou seja, obrigar Deus a fazer algo que não estava  nos planos originais.

Muito bem! Toda vez que alguém diz que determinado objeto, tal como um martelo ou toalha, pode resolver seus problemas em nome de Deus, ou marca um dia e horário específico para realizar curas e milagres, está pondo Deus em uma armadilha, pois, pode ser que nos planos originais de Deus, esta cura ou milagre não aconteça. Toda vez que alguém faz isso, e ainda se aproveita deste momento para fazer algum tipo de publicidade, se iguala do diabo, conforme lemos no trecho mencionado acima.

Ah sim, eu ia me esquecendo! O termo tentador, usado neste texto de Mateus, significa literalmente aquele que corrompe. Logo podemos dizer que todo aquele que faz este tipo de coisa é um verdadeiro diabo, pois além de colocar Deus numa armadilha, ainda corrompe a fé das pessoas desesperadas por uma solução instantânea dos seus problemas.

Pecar ou não pecar?

A situação

Um erro bastante comum, ao examinarmos os textos bíblicos, é desconsiderarmos a data e o propósito para o qual cada livro ou carta da Bíblia foi escrita, e para irmos um pouco além, para quem foi escrita.

Muitos erros doutrinários, e por consequência, de comportamento cristão, poderiam ser evitados se não usássemos os textos bíblicos para nos auto-desculparmos dos pecados cometidos.

Um exemplo clássico é o uso da carta aos romanos, de Paulo, para provar a nós mesmos que somos reprováveis diante de Deus, e apenas a justiça divina aplicada em Jesus nos livra da justa ira de Deus. Mesmo Paulo escrevendo que não devemos viver no pecado, nós os que já morremos para ele, encontramos grande parcela da população cristã vivendo na “liberdade da graça“.

Como ninguém é de ferro, e todos continuam pecando, utiliza-se o texto da primeira carta do apóstolo João para remir-se de seus pecados, afinal ele (Deus) é fiel e justo para nos purificar, certo?

Logo, temos duas partes de um mesmo problema: romanos nos informa de nossa miserável condição pecaminosa, e João nos apresenta uma “solução rápida” a este problema.

Agora, como a história e propósito das cartas nos ajudam a viver uma vida cristã mais consciente?

Toda carta do NT foi escrita com um propósito situacional. Ou seja, todas as cartas foram escritas pois surgiram nas igrejas, e/ou regiões, problemas que estavam ameaçando de alguma maneira a unidade cristã no primeiro século.

Com isto em mente, poderemos tirar os ensinamentos corretos para a igreja de hoje.

Romanos

Tirando toda a parte do “tratado teológico” da carta aos romanos, Paulo escreve a estes irmãos por causa também da tensão que existia entre os judeus e gentios naquela igreja. Paulo não fundara esta igreja, e desejava muito conhecê-los, até mesmo para trocar experiências cristãs com aqueles irmãos, conforme vemos no início da carta.

Porém, devemos ter em mente que a localidade onde esta igreja estava inserida não era das mais éticas (pressuposto cristão) e familiares do mundo conhecido de então.

Sabendo da tensão entre os irmãos gentios e judeus, e também do baixo padrão moral da sociedade, Paulo exorta estes irmãos a não viverem uma vida de pecados.

Não era só por que viviam debaixo da graça, e não debaixo da lei, que eles deveriam viver na prática do pecado para que, de alguma forma, a graça de Deus se sobrepusesse ao pecado.

Paulo foi muito enfático quando disse que “DE FORMA NENHUMA” deveriam viver em pecado. E não apresentou nenhuma “fórmula mágica” de perdão de pecados. Nos disse sim, que nada poderia nos separar do amor de Cristo. Mas sua ênfase em não pecar persiste por toda a carta, que aliás é uma espécie de pré-requesito para tudo o que escreve depois.

I João

O contexto histórico da primeira carta de João é bem diferente.

Em primeiro lugar, era fim do século I. Todos estavam na espectativa do anti-cristo. As perseguições imperiais estavam a todo vapor, e os cristãos estavam com muito medo.

Para fechar com chave de ouro este período, onde a fé dos santos foi altamente provada, começaram a surgir inúmeras heresias a respeito de Jesus Cristo.

Pois bem, junte a isto o fato de que quase nenhuma igreja tinha o que conhecemos hoje por Bíblia, e por consequência, algumas doutrinas ainda não estavam fechadas ou definidas.

João escreve para um grupo de cristãos com medo, sendo atacados por todos os lados, interna e externamente. Logo, alguns começaram a questionar sua própria salvação, ou ainda, começaram questionar a perda de sua salvação.

O apóstolo do amor, dirigido por Deus, escreve a estes irmãos tranquilizando-os de que eles estavam salvos, se realmente cressem na Palavra da Vida, e por causa das heresias, ele escreve que não há ninguém que não peque, mas, se pecassem, Deus poderia purificá-los. Ou seja, um contexto totalmente diferente que temos da carta aos romanos.

Conclusão

Logo, de forma nenhuma podemos continuar na prática do pecado, já que somos pecadores e Deus nos perdoa, pois estamos na graça, e depois do pecado praticado, chegarmos diante de Deus com a cara lavada pedindo perdão, pois ele é fiel e justo.

Somos santos lutando contra o pecado, ou seja, o pecado em nossa vida é como um acidente, e ninguém vive se acidentando a todo minuto.

O que nos falta na igreja hoje é uma consciência da santidade de Deus, a mesma da qual nos fala o AT no pentateuco.

Sinto que falta, por vezes, um pouco de coragem da liderança eclesiástica de confrontar o pecado como a Bíblia ordena. Assim como Paulo fez com os romanos e coríntios, não se intimidou ou melindrou, mas nomeou os pecados e tratou de forma dura, como de fato deve ser tratado.

Não vejo na Bíblia nenhuma apologia ao “politicamente correto” no tratamento do pecado

Que o Senhor nos ajude a manter a santidade em mundo corrompido.

Desconstruindo as estruturas, edificando comunidades

Nos dias atuais, para aqueles olhares mais atentos, cresce a inquietação quanto à prática e razão de ser da Igreja de Cristo. Sim, parece estranho dizer Igreja de Cristo, mas creio ser necessária esta distinção.

Para estas Igrejas, que sentem a necessidade de se tornarem relevantes no mundo, o foco em uma Igreja orientada ao serviço cristão, e não a eventos, tem gerado discussões acaloradas aqui e acolá.

A intenção deste artigo é justamente discutir a diferença de uma igreja orientada ao serviço cristão, abudante em toda a Bíblia, e orientada a eventos.

Em uma igreja orientada a eventos, a estrutura é parte primordial. Sem uma estrutura adequada esta igreja não tem como suprir seu calendário de atividades. Alguns itens, tais como: iluminação, salas, projetores, som e mão de obra são imprescindíveis. Aqui começa o problema deste modelo de igreja, pois, em nome de “fazer a obra de Jesus“, muitos irmãos acabam se estressando com outros por causa destes itens citados acima. Creio, que você que lê este artigo, ainda tem fresca, em sua memória, a última briga que teve com o “irmão do som”. Nem entraremos em profundidade nas brigas geradas por conta do atropelo nos ensaios.

Esta é a igreja orientada a eventos. A infra-estrutura, que tem por função nos servir, acaba nos escravizando, e a briga sobra para o “departamento do patrimônio”. Mais brigas à frente!

Mas, diriam alguns, a estrutura é importante! Afinal como faríamos nossos congressos, cantatas, peças teatrais, programas especiais…?

E de repente, lendo despretenciosamente nossa regra de fé e prática, não conseguimos achar nem um único exemplo de igreja fazendo qualquer um dos exemplos acima.

Quando foi a última vez que houve em sua igreja um evento de entrega de roupas aos desabrigados, e um evento de entrega de alimento aos famintos? Toda a igreja se envolve nestes eventos com a mesma energia com que se envolve em uma cantata? O número de participantes é equivalente? Todos se sentem motivados a participar destes eventos com a mesma entrega de tempo com que organizam um congresso?

Para estes tipos de eventos (ou serviço cristão ?) não é necessária uma mega estrutura de som, palco, iluminação, projeção, divulgação, mas apenas a boa vontade e o amor ao próximo.

Os eventos em nossas igrejas hoje apenas nos cansam, tiram nosso foco daquilo que é o essencial, daquilo que é a razão de ser de uma Igreja: servir ao próximo. Não creio que servir ao próximo seja organizar um bom congresso, ou fazer a melhor cantata. Se for apenas isso qual a diferença entre Igreja e teatro? Ah sim, na igreja se fala de Cristo, claro! Se fala, mas será que se vive Cristo?

Será que nosso mestre estaria preocupado em organizar eventos?

Sempre que a oferta e dízimo de uma igreja é usada em prol da estrutura estamos inconscientemente dizendo que o templo, o som, os equipamentos são mais importantes do que as pessoas. Quanto das ofertas de sua igreja é usada para suprir a infra-estrutura? Quanto dela é destinada aos pobres e necessitados? Percebem agora o quão longe estamos do modelo que Jesus propôs de comunidade?

Vejamos alguns versículos que nos desafiam a uma mudança de paradigmas urgente no modo como vivemos igreja.

Tiago 1:27 A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.

Aqui, além do testemunho pessoal, o serviço é parte integrante da vida cristã.

Mateus 25:34-40 … então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

Segundo o texto acima, o que Jesus vai cobrar de nós? Não vejo menções a eventos, mas sim a serviços.

Logo concluímos que Jesus queria formar uma comunidade, onde todos fossem iguais, sem necessitados, e não uma empresa produtora de eventos, na qual nossas igrejas se tornaram.

Está mais do que evidente que uma igreja orientada ao serviço cristão é o modelo bíblico que nos foi proposto. Porém, conseguimos transformar a vida cristã em um modelo de atingimento de metas (bem ao estilo americano).

Desconstruindo estas estruturas, que só nos atrapalham, e vivendo o cristianismo de serviço, vamos criar um ambiente de comunidade, onde todos se ajudam e, desta forma, acabaremos com a Instituição Igreja, que nunca foi o plano de Cristo para nós.

A verdadeira fé é aquela que permanece

Nos dias de hoje, muitos termos bíblicos assumiram outra conotação, bem diferente do significado que o autor bíblico pretendeu.

O termo fé é um deles.

Para nosso estudo aqui, vamos utilizar um trecho bem conhecido, e mal empregado: Habacuque 2:4.

Vamos pegar o parágrafo todo para melhor compreensão do texto escolhido.

1 Ficarei no meu posto de sentinela e tomarei posição sobre a muralha; aguardarei para ver o que ele me dirá e que resposta terei à minha queixa.

2
Então o Senhor respondeu: “Escreva claramente a visão em tabuinhas, para que se leia facilmente.

3 Pois a visão aguarda um tempo designado; ela fala do fim, e não falhará. Ainda que se demore, espere-a; porque ela certamente virá e não se atrasará”.

4
Escreva: “O ímpio está envaidecido; seus desejos não são bons; mas o justo viverá pela sua fidelidade.

Contexto histórico

Como bons hermeneutas sabemos que o contexto histórico não deve ser desprezado. Por isso, vamos analisar o que estava acontecendo nos dias do profeta Habacuque, e que influência isso teve no que Deus lhe falou. Aliás, Deus falou o que falou justamente por causa deste contexto, que muitos aliás, preterem.

Em Habacuque lemos sobre o juízo que Deus executaria contra Judá.

Nos livros de I e II Reis lemos sobre a corrupção  e iniquidade que haviam se instaurado no Reino do Sul.

Então, da mesma forma como Deus havia castigado Israel pela Assíria anos antes, ele diz a Habacuque que usará a Babilônia para fazer o mesmo com Judá.

A Babilônia havia derrotado a Assíria, como predito pelo profeta Naum, e estava expandindo seus domínios na região do Oriente Médio.

Indignado, nosso profeta filósofo começa a questionar a Deus: como uma nação de ímpios seria usada para estabelecer o juízo do Senhor contra seu povo escolhido?

Deus, mesmo sendo o soberano de todo o universo, se digna a responder aos questionamentos de Habacuque, e, no capítulo 2, Habacuque se propoe a ficar firme em sua posição e não se abalar com as circunstâncias.

Finalmente, no capítulo 3, Habacuque entende que independente das circunstâncias ele se alegraria em Deus.

Fé posicionada

Para compreendermos o que Habacuque quis dizer com a  expressão “o justo viverá da fé”, vamos recorrer à língua original do texto. Assim diz o verso 4:

hinnêh `uppelâh lo’-yâsherâh naphsho bo vetsaddiyqbe’emunâtho yichyeh

A palavra corresponde a fé é emunâtho, e tem o sentido de posicionamento, pois este é um termo militar. O soldado deve permanecer em sua posição, haja o que houver; note como Habacuque começa o capítulo 2.

Tomo a liberdade fazer uma tradução paralela de acordo com o texto original:

Veja: sua alma está engrandecida e não está em retidão no Senhor, mas o justo viverá por sua firmeza no Senhor.

Agora, nosso conceito de fé começa a mudar, e fica bem diferente do que é dito hoje em dia pelos apóstolos televisivos, não?!.

Por isso Habacuque disse que, mesmo que tudo estive contra o que ele acreditava ser correto, ele exultaria em Deus, e não nas circunstâncias.

Outro exemplo de fé “emunah”, que raramente é interpretado corretamente, está no capítulo 3 do livro de Daniel. Diante da ameaça de ser jogado na fornalha, os amigos de Daniel não se dobram diante de Nabucodonosor, permanecem posicionados.

Um pequeno trecho do verso 18, frequentemente ignorado, nos dá a pista do tipo de fé que esses jovens tinham:

Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer.

Esta frase, dita hoje, denotaria total falta de confiança em Deus, não?! Afinal basta determinar, e está tudo resolvido!

O que deve ficar claro aqui é que, mesmo que Deus não os livrasse eles não adorariam a Nabucodonosor. Um magnífico exemplo de fé posicionada! Estamos com o Senhor, e disso não abrimos mão!

O que fé não é

Devemos entender que nossa fé não necessária para que Deus aja. Tudo foi criado por ele antes de existir qualquer coisa. Ninguém precisou ter fé para que Deus criasse todas as coisas.

Ninguém precisa ter fé para que aquilo está determinado em Apocalipse aconteça, por exemplo.

O que Deus determinou vai acontecer, tendo ou não fé. Veja o verso 3 do trecho em questão.

A fé hoje é confundida com o desejo humano de que tudo corra bem. Afinal as pessoas não costumam dizer: “Tenho fé que Jesus vai me dar um emprego melhor”, “Tenho que fé que tudo vai dar certo” ?

Fé não é acreditar que por dar o dízimo, e fazer uma oração antes de sair de casa, seremos protegidos de qualquer mal.

Basta lermos o que diz o livro de Eclesiastes: tudo acontece igualmente a todos. A chuva cai para o justo e injusto. O sol nasce para o justo e injusto também.

O que é fé

Do ponto de vista bíblico, fé é posicionamento no presente e esperança no porvir, pois aguardamos uma pátria melhor, a celestial, conforme trata Hebreus 11, justamente o capítulo sobre os heróis da fé.

Fé é ficar posicionado, mesmo que coisas ruins aconteçam, e vão acontecer com todos, não adianta acharmos que não.

Fé é saber, e experimentar, que posso todas as coisas naquele que me fortalece, inclusive passar necessidade, como nos informa o apóstolo Paulo.

Fé e esperança nunca são comparadas com as coisas dessa vida terrena, mas sempre com o porvir.

Os mártires do cristianismo do primeiro século experimentaram, e viveram essa fé. Eles não se dobravam diante dos imperadores, e morriam crendo na pátria celestial. Posicionamento no presente, e esperança no porvir.

Por isso, há um constante apelo na Bíblia para permanecermos (posicionados) no amor de Jesus, nos seus ensinos, na videira.

Fé é posicionamento no presente, e esperança no porvir, independente do que nos aconteça.

As orações não fazem Deus mudar de idéia

Recentemente escrevi um artigo aqui falando sobre nossas decepções com Deus em relação a orações não atendendidas. E escrevi que aquilo que Deus já determinou, e planejou, não será mudado por causa do nosso clamor.

Se assim fosse, ninguém morreria, ninguém ficaria desempregado, todos ganhariam na loteria. Isso mais parece aquele filme com o Jim Carrey “O Todo Poderoso”.

Muitos me perguntam: “A oração pode fazer Deus mudar de idéia?” Eu creio que não, pois se assim fosse, Deus não teria parâmetros para agir, pois cada um de nós pede quase sempre aquilo que nos agrada, e a oração não é para isso.

Fora quando nossas orações entram em conflito com as de outras pessoas! Quem Deus atenderá?

Então percebam que, se a oração for usada como propósito para fazer Deus mudar de idéia, ou mesmo convencer Deus a fazer algo do nosso agrado, ele ficaria maluco!

A vida cristã é relacionamento com Deus, não uma tentativa de fazê-lo atender nossos pedidos, por mais honestos que sejam. Não é uma tentativa de persuadir a Deus de que nossa intenção é boa, afinal ele conhece nosso mais profundo ser, e sabemos que nem sempre é assim, sejamos honestos.

Não estamos diante de um tribunal divino pleiteando verbas para nosso próprio interesse. Mas, nossa vida cristã tem se parecido muito com isso.

E outra, não fazemos orações apenas de petição, mas parece que a vida cristã, atualmente, se resumiu a isso. Onde estão as orações de louvor? De gratidão? De ação de graças? Onde estão as orações conversa-de-pai-para-filho?

Claro que, em nossos encontros dominicais, podemos ir à frente da igreja e expor nossos pedidos, afinal ele nos ouve. Mas, o que eu proponho aqui é uma mudança de mentalidade com relação ao clamor.

Que as nossas orações sejam, não uma tentativa de fazer Deus mudar de idéia, isso não é possível, pois o que ele planejou será executado; mas sim sejam como as do nosso Senhor Jesus.

Vamos analisar o modelo de oração que ele nos deixou, e ver onde estamos errando em nosso relecionamento com Deus.

Pai nosso que está no céu
Santificado seja teu nome

Jesus começa engrandecendo a Deus pelo que ele é (nosso pai) e declara seu atributo de santidade. Aqui o filho reconhece como é o seu pai, e reconhece sua soberania.

Venha a nós o teu reino e seja feita a tua vontade
Assim na terra como é feita no céu

Nesta parte o filho pede que os valores do reino façam parte da sua vida, e a vontade de seu pai seja plenamente estabelecida. O filho sabe que o pai é soberano, e que nada escapa ao seu controle.

O pão nosso de cada dia nos dá hoje
Perdoa nossas dívidas, assim como perdoamos nossos devedores
Não nos deixe cair em tentação, mas livra-nos do mal

Aqui entra a seção dos pedidos. Notem os pedidos que são feitos. Uma ínfima parte desta oração é para nosso próprio deleite físico e material (o pão de cada dia). Mesmo assim, é um pedido não extravagante, que reflete nossa necessidade e não nossos desejos. O restante da petição é sempre em relação a nosso próximo (perdão das nossas dívidas), e em relação a Deus (não cair em tentação, que leva ao pecado).

Pois teu é o reino, o poder e glória, para sempre.

Nesta parte exercemos nosso papel como adoradores, reconhecendo mais uma vez, toda a soberania de Deus.

Podemos concluir, de acordo com o modelo de oração de Jesus, que apenas 12% de toda a oração é dedicada a nosso próprio interesse.

A maioria da oração modelo de Jesus é direcionada ao reconhecimento da soberania de Deus, nossa adoração a ele, e nossa relação com o próximo.

Os Herodes do século XXI

A Bíblia indiscutivelmente está certa quando nos diz que não há nada de novo debaixo do Sol. Ela nos diz também muito sobre a real condição humana diante de Deus, que não mudou seu caráter ao longo dos séculos.

Fomos criados para o louvor da glória de Deus, e enquanto estivermos fora deste padrão, não estamos na vontade de Deus; que é a nossa santificação.

Quantas desculpas inventamos para nós mesmos, e para os outros, sobre nossa relação com Deus. O buscamos pelas razões erradas, e depois nos queixamos de não termos nossas orações respondidas, ou nos angustiamos por estarmos frustrados e decepcionados com Deus.

Para exemplificar esta relação caráter humano + história + frustração com Deus voltemos à maior farsa jurídica da história: a crucificação de Jesus.

Durante o jogo do empurra-empurra entre Pilatos e Herodes lemos algo curioso sobre Herodes no capítulo 23, verso 8 do Evangelho escrito por Lucas.

Quando Herodes viu Jesus, ficou muito alegre, porque havia muito tempo queria vê-lo. Pelo que ouvira falar dele, esperava vê-lo realizar algum milagre.

Vamos analisar este trecho com cuidado, e chegaremos à conclusão de que as coisas não mudaram muito de lá para cá.

A Bíblia diz que Herodes ficou muito contente quando viu Jesus, pois já queria vê-lo a muito tempo. Desde quando ele havia mandado decapitar João Batista queria saber quem era Jesus, mas nunca tinha tido essa oportunidade. Naquele momento Jesus estava na sua frente e ficou muito alegre por isso!

A fama de Jesus havia chegado até os ouvidos de Herodes, e este queria ver Jesus realizar algum milagre.

Ora, notem que coisa extraordinária! Herodes ficou MUITO alegre por ver Jesus. Mas quais eram suas motivações reais? Qual era a causa da alegria de Herodes por ver Jesus? A fama de Jesus foi a razão da alegria de Herodes. A alegria não vinha pelo fato de Jesus ser o Messias esperado, mas vinha da fama de Jesus.

Outra coisa que nos chama a atenção é que Herodes esperava que Jesus fizesse algum milagre. Lendo o trecho completo, vemos que sequer uma palavra saiu dos lábios de Jesus. Herodes fez muitas perguntas a Jesus,  mas só queria ouvir aquilo que interessava a ele. Herodes nunca pediu para Jesus algo assim: “Mestre, me fale dos seus ensinamentos”. Não! Herodes só queria tirar de Jesus aquilo que fosse útil para ele próprio.

Isso enfureceu a Herodes, que começou a zombar dele, e o mandou de volta a Pilatos.

Isso nos leva de volta àquilo que a Bíblia nos diz sobre a natureza humana, que não muda conforme o tempo.

Quantas pessoas hoje ficam alegres por se encontrar com Jesus? Muitas! E não duvido que realmente se alegrem, pois esperavam por isso a muito tempo! A fama de Jesus chegou aos ouvidos dessas pessoas. E essas mesmas pessoas esperam de Jesus uma única coisa: MILAGRES.

E interrogam, questionam, decretam, declaram, exigem que Jesus lhes responda aquilo que é de interesse delas, e não aquilo que Jesus tem a ensinar realmente.

E o que acontece com essas pessoas quando Jesus não lhes responde nada?

Se enfurecem, de decepcionam, se frustam, pois não era este tipo de Jesus que elas esperavam, mas sim o Jesus de suas conveniências.

Pois é, a natureza humana não muda, e Herodes está bem vivo ainda hoje, no século XXI.

Igrejas ou consultórios psiquiátricos?

Em um mundo a cada dia mais egocêntrico, não é dificil percebermos o quanto isso afeta a Igreja.

Por consequência do estilo de vida em nosso século, as pessoas tendem a olhar para si próprias. E, a igreja, é fatalmente atingida por estes pensamentos hedonistas, prazer e bem estar a todo custo.

Dificilmente vemos uma ênfase à adoração nas pessoas, por mais que digam o contrário, mas, atualmente, a ida a alguma igreja está relacionada a “sentir-se bem”.

Vamos à igreja para nos sentir bem, a comunhão dos irmãos nos faz bem, saímos com a alma leve e o espírito renovado. Tudo bem, isso não é pecado, mas será mesmo essa a real essência da Igreja? Foi para isso que Jesus morreu na cruz? Para que as pessoas se reunissem para sentirem-se bem?

Será que em algum lugar da Bíblia lemos este tipo de coisa?

As pessoas em nossas igrejas, hoje, almejam estar na igreja para que alguém cuide delas, para que dêem atenção a elas. Se esta espectativa não é suprida de alguma maneira, geralmente de uma maneira toda “especial”, para não dizer bizarra, as pessoas saem da igreja.

Ou seja, estão transformando a igreja, de uma comunidade de adoração ao Deus vivo e Santo, em uma comunidade psico-terapêutica.

Não vamos à igreja para nos sentir bem, ou acolhidos, ou amados; vamos à igreja para adorar aquele que nos deu vida, nos salvou e nos regenerou. A ênfase da igreja não está nas pessoas, mas está em Deus!

A partir do momento que nos conscientizarmos disso, que vamos, que estamos, que pertencemos à igreja, e que a ênfase está em nosso Senhor, e não em nós mesmos, passaremos a querer, cada vez mais, amá-lo e adorá-lo. E como consequência, e não finalidade, passaremos a querer ajudar nosso irmão. Passaremos a amar nosso irmão, e querer o melhor para ele.

Mas isso é uma consequência da nossa adoração a Deus na igreja, e não uma finalidade.

Vamos à igreja para servir, e não para ser servido.

Vamos à igreja para adorar, e não para nos sentirmos bem.

Não faz sentido mudarmos de igreja, denominação, comunidade por causa de desavenças, por causa de não nos sentirmos bem. Podemos mudar de igreja se mudamos de localidade, de bairro, município, Estado, País.

Se todos, como consequência de sua adoração a Deus, cuidassem uns dos outros, não teríamos este tipo de problema, e a igreja se tornaria uma comundiade psico-terapêutica, não como uma finalidade, mas como consequência da atitude correta.

Logo, a origem deste tipo de problema, na igreja, é resultado de nosso pensamento egoísta e pecaminoso.

Por isso a Bíblia diz que não devemos levar em consideração nossos próprios interesses, inclusive o de nos sentirmos bem, para considerarmos os outros superiores a nós mesmos (vejam como a Bíblia se completa).

Então, vamos resgatar o real sentido de Igreja: comunidade de adoração, ao invés de comunidade psico-terapêutica, isso é apenas a consequência de nossa adoração a Deus.

%d blogueiros gostam disto: