Archive

Archive for the ‘Hermenêutica’ Category

Exemplo de interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Considerando o post anterior, sobre a interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica, vamos ver, na prática, como este simbolismo e linguagem cósmica pode ser usado para nosso ensino e edificação nos dias atuais.

Vamos determinar como o símbolo “cavalo” é usado em Zacarias 1:7-11 e em Apocalipse 6:1-8.

Primeiramente vamos fazer uma descrição do contexto histórico destas passagens.

Zacarias

Junto com Ageu foi um dos profetas pós-exílicos. Viveu no período do rei persa Dario I. Apesar da volta de uma parte do povo judeu da Babilônia, ainda não havia uma constatação da renovação da aliança que Javé havia prometido a Jerusalém.

Por isso, o profeta, na introdução do seu livro, desafia o povo a voltar-se para Javé e arrependenrem-se dos seus pecados.

A partir do verso 7, na visão dos cavalos, a patrulha divina constata que o mundo está em paz debaixo da mão de ferro do império persa, e Dario estava favorável aos judeus.

Javé ainda estava no controle e ainda cuidava de Jerusalém com zelo e garantiria a reconstrução da cidade e do templo.

Apocalipse

O escritor do apocalipse, o apóstolo João, foi o último dos discípulos a morrer. A data que os eespecialistas colocam para o livro é de 95 d.C.

Nesta época reinava o imperador Domiciano. A primeira fase da perseguição imperial aos cristãos passara; surgia agora o segundo período das perseguições imperiais. A história dá seu testemunho de que outras perseguições estavam por vir.

O Apocalipse foi escrito para encorajar os cristãos a permanecerem firmes em sua fé, pois, no final, Deus seria o vencedor supremo.

No trecho em questão o juízo de Deus tem seu início. No julgamento, representado pela abertura dos selos, seu conteúdo está muito relacionado à guerra e seus efeitos. O aparecimento do líder conquistador, representado pelo primeiro cavalo; uma guerra, representado pelo segundo cavalo; fome, terceiro cavalo e morte, quarto cavalo; estes dois últimos resultados naturais da guerra.

Aplicação

Na leitura destes dois trechos, um do Antigo Testamento, outro do Novo Testamento, observamos pelos contextos históricos que Deus é o Senhor da história.

Suas promessas, embora tenhamos a impressão de demora, sempre se cumprem. Deus ama seu povo, e, por isso, o corrige assim como um pai faz com os filhos. Porém, sempre após sua correção Deus restaura e renova sua aliança com seu povo.

Nos dois períodos históricos estudados vimos a repreensão, o cuidado e a restauração da terra por Deus, que é soberano e Senhor da história.

A interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Uma das características da literatura apocalíptica é o uso de símbolos para expressar uma realidade, atual ou futura. As narrativas cósmicas apresentadas confudem o leitor entre o que é literal e simbólico.

Um dos fundamentos que devemos ter em mente quando lemos algum material deste gênero é que as visões conduzem os leitores a uma realidade transcendente, que é superior à situação presente e encoraja os leitores a perseverarem em meio às provações.

Outras características da literatura apocalíptica

Apesar das dificuldades que este gênero tem, podemos listar alguns aspectos que aparecem com frequência na maioria das obras.

1 – O pessimismo quanto à era presente – É a caracter;istica dominante nesta literatura. A situação era tão desesperadora que tudo que um cristão, filho de Deus, podia fazer era esperar a futura intervenção divina.

2 – A promessa de salvação ou restauração –  É outro lado da mesma moeda. O tema da restauração é predominante, por exemplo, em Aocalipse e Daniel.

3 – Visão da realidade transcendente centrada na presença e controle de Deus – A ênfase não está não está na desesperança do presente, mas na esperança do futuro. Deus ainda reina sobre o história, e ele lhe dará um fim no devido tempo.

4- Determinismo – Deus controle completamente toda a história, e prevalece uma perspectiva muito forte de predestinação, na medida em que Deus já tem definido o curso futuro deste mundo.

5 – Dualismo modificado – Não se trata de um dualismo absoluto, pois os lados adversários não são iguais. Satanás não é uma espécie de “deus do mal”, mas atua de acordo com a permissão de Deus, debaixo do seu propósito. Esta era é caracterizada pela oposição entre Deus e Satanás, e a próxima era será marcada pela vitória completa de Deus.

6 – A recriação do cosmos – Este aspecto é refletido em várias obras do gênero apocalíptico, às vezes com a destruição do mundo existente. Céu e terra, antes separados, agora juntam-se em uma nova unidade, satisfazendo o “gemido da criação”.

7 – Perspectiva escatológica – A literatura apocalíptica não apenas rejeita a história humana como ainda a vê concluída e transformada. Deus é soberano sobre o presente eo sobre o futuro.

Outra característica importante é o fato de que os símbolos nem sempre significam a mesma coisa. Por isso, o estudo do contexto histórico da época que o texto foi escrito é de suma importância para determinar o que o símbolo queria transmitir. Sabendo o que o símbolo queria transmitir na época podemos fazer uma aplicação mais adequada à nossa realidade nos dias de hoje.

INTERPRETANDO AS NARRATIVAS DO AT

A narrativa é o gênero literário que mais aparece na Bíblia. Mais de 40 por cento do Antigo Testamento é composto por narrativas. Além disso, no Novo Testamento, grandes porções dos Evangelhos são narrativas, e o próprio livro de Atos, praticamente inteiro, é uma narrativa.

Cremos que a Bíblia é inspirada por Deus, então devemos crer que o Espírito Santo sabia o que estava fazendo quando moveu seus autores a escrever em forma de narrativa, e que este estilo de escrita serve aos propósitos revelatórios de Deus a seu povo.

Então, o assunto desta aula será como fazer um uso apropriado destas narrativas em nosso serviço a Deus.

1 A Natureza das narrativas

1.1 O que são as narrativas

Narrativas são histórias. Porém a palavra história, hoje, tem um sentido de ficção, algo imaginário, como uma “historinha” na hora de dormir, ou uma “estória de aventura”. A Bíblia não é nada disso, pois se trata de verdadeira história de Deus, de seu povo, de como os guiou e guardou. Muito mais do qualquer história épica fictícia, este é o relato verdadeiro de como Deus se revelou na história do ser humano. Por isso o termo narrativa fica mais objetivo e menos prejudicial para descrevermos as ações de Deus na história.

As narrativas bíblicas nos contam sobre coisas que aconteceram, mas não quaisquer coisas. Elas nos falam de como Deus agiu entre o se povo, como conduziu os acontecimentos mundiais, de como Deus criou todas as coisas e de como Ele operou entre seu povo. As narrativas glorificam a Deus e nos mostram o cuidado de Deus durante o curso da história. Além disso nos dão preciosas lições para nossa vida.

Todas as narrativas têm:

1-) Enredo
2-) Lugar
3-) Personagens

As narrativas do Antigo Testamento porém, estão colocadas dentro de um enredo maior, global, tem um elenco especial de personagens, dos quais os principal e especial é o próprio Deus.

1.2 Três níveis de narrativas

Poderemos entender melhor as narrativas, se percebermos que elas estão sendo contadas em três níveis diferentes.

1-) Nível Superior
2-) Nível Intermediario
3-) Nível Inferior

O Nível Superior é o plano global de Deus, que foi concebido desde a fundação do mundo. Este nível compreende:

1-) A própria criação
2-) A queda da humanidade
3-) poder e universalidade do pecado
4-) necessidade de redenção
5-) Encarnação e sacrifício de Jesus

No nível Intermediario estão os aspectos relacionados a Israel.

1-) A chamada de Abraão
2-) A linhagem de Abraão
3-) Os patriarcas que vieram dele
4-) Escravidão de Israel no Egito
5-) Êxodo do Egito
6-) Conquista de Canaão
7-) Pecados frequentes de Israel e infidelidade
8-) A proteção de Deus, mesmo em meio à infidelidade
9-) Destruição de Israel e cativeiro de Judá
10) Restauração do povo após o exílio

No Nível Inferior temos as narrativas dos personagens individualmente.

1-) Venda de José aos arábes em viagem ao Egito
2-) A história de Gideão e sua dúvida diante de Deus
3-) O adultério de Davi com Bate-Seba, e assim por diante.

Note que cada narrativa individual faz parte da narrativa de Israel no tempo e espaço (Nível Intermediario), que por sua vez, faz parte do Nível Superior, o plano global de Deus, que é a Criação e a Redenção dos seres humanos, para a glória de Deus.

Então, devemos aplicar as narrativas em nossa vida, seguindo este conceito hierárquico que encontramos no Antigo Testamento.

Quando Jesus afirmou que as Escrituras “…de mim testificam”, não estava se referindo a cada uma destas narrativas menores (Nível Inferior), mas sim ao Nível Superior, onde podemos ver de modo amplo a mão de Deus guiando cada passo na história. Ou seja, toda história ocorrida no Antigo Testamento apontava para Jesus, era o pano de fundo para que Jesus fosse revelado.

Desta forma, podemos ter uma narrativa intermediaria, por exemplo a história de José (Gênesis 37-50). Dentro da história de José temos narrativas menores, por exemplo seus primeiros sonhos, sua venda aos árabes, na casa de Potifar, na prisão, ascensão no Império Egípcio e morte.

Não há nada de errado em estudar estas narrativas menores isoladamente. Porém devemos fazê-lo conhecendo a amplitude, conhecendo o contexto maior.

1.3 O que as narrativas não são

1 – As narrativas não são meros relatos de personagens que viviam nos tempos antigos. São, na realidade, histórias daquilo que Deus fez na vida destas e o que fez por meio delas. Deus é o herói das histórias, Ele é o protagonista.

2 – A narrativas do Antigo Testamento não são alegorias, histórias com significados ocultos. Pode haver trechos de certas narrativas que talvez não fiquem claros para nós, podemos não ser informados sobre exatamente tudo quanto Deus fez em uma determinada situação. E, mesmo quando somos informados sobre o que Ele fez, talvez não fique esclarecido como Ele fez ou por que Ele fez. As narrativas não respondem a todas as nossas perguntas, nem foram escritas para isso. Foram escritas para termos noção dos feitos de Deus no plano global. Se ficarmos procurando significados ocultos acabaremos colocando coisas nos textos que não estão lá. Às vezes o desejo de explicar tudo, acaba não explicando nada.

3 – As narrativas nem sempre vão nos ensinar de modo direto. Mas por meio da leitura dos exemplos podemos ser ensinados de uma forma, muitas vezes, mais didática do que alguma porção mais doutrinária da Bíblia. As narrativas nos dão um contato direto com a obra que Deus fez, e este contato pode nos dar um conhecimento que nos ajuda a moldar nosso comportamento. Em última análise, a história do Antigo Testamento, para nós cristãos, é nossa própria história espirtual, pois Deus preservou o povo hebreu para que dele viesse o Messias e fôssemos salvos. Então, mesmo que as narrativas não nos ensinem de modo direto, ilustram o que é ensinado em outros trechos de forma direta e categórica.

4 – Cada narrativa ou episódio individual dentro da narrativa não pode ser analisada microscopicamente. Ou seja, não podemos pegar cada mínima parte da narrativa e tentar tirar alguma lição ou preceito moral. Precisamos avaliar a narrativa como um todo, uma única unidade, pois tentar tirar lições de cada micro parte, em geral, não funciona.

2 Princípios para interpretação das narrativas

Dez princípios para ajudar a evitar erros óbvios na interpretação das narrativas:

1 – Geralmente, uma narrativa do Antigo testamento, não ensina diretamente uma doutrina.

2 – Uma narrativa ilustra uma doutrina ensinada diretamente em outro trecho da Bíblia.

3 – As narrativas registram o que aconteceu, não o que deveria ter acontecido. Portanto, nem toda narrativa tem uma moral de história indentificável e individual.

4 – O que as pessoas fazem na narrativa nem sempre é um bom exemplo para nós. Às vezes é exatamente ao contrário.

5 – A maior parte dos personagens das narrativas do A.T. está longe de ser perfeita. Suas ações também.

6 – Nem sempre somos informados, ao fim da narrativa, se o que aconteceu foi bom ou mau. Devemos julgar com base no Deus nos ensinou em outros trechos da Bíblia.

7 – Todas as narrativas são incompletas. Nem todos os pormenores foram narrados.

8 – As narrativas não foram escritas para responderem nossas dúvidas teológicas.Têm propósito limitado, específico e particular, deixando outros assuntos para serem tratados em outros lugares.

9 – As narrativas podem ensinar explicitamente – quando declara algo de modo claro, ou implicitamente – quando deixa subentendido alguma coisa claramente, sem no entanto declarar.

10 – Em última análise, Deus é o herói de todas as narrativas bíblicas.

3 Exemplos de interpretação de narrativas

3.1 A narrativa de José

A narrativa de José está compreendida entre os capítulos 39 e 50 do livro de Gênesis.

Leia este trecho do começo ao fim e você verá que José é a personagem humana central.

Neste trecho lemos que José era um tanto altivo e até mesmo arrogante. Em parte isto foi devido ao favorecimento que seu pai, Jacó, havia lhe dado. Em consequencia, José sofre com a inveja de seus irmãos e desenrola-se toda a história que já é conhecida.

Será que o fato de José ter tido sucesso na casa de Potifas era por suas qualidades inatas de administrador? Será que o fato de, algum tempo depois, na prisão injustamente, ter alcançado sucesso foi devido à sua gestão do sistema prisonal?

A Bíblia não nos deixa dúvidas: Deus era com José. Por amor a José, Deus o fazia prosperar e alcançar graça diante dos homens. O fato é que, se tentarmos procurar outro herói nesta narrativa, que não seja o próprio Deus, estaremos com o foco errado do que Deus deixou registrado.

Se tentarmos tirar lições para nossa própria vida, apenas da história de José, tiraríamos conclusões erradas. Que moral da história poderíamos extrair daqui?: “Cuidado ao contar seus sonhos”, “Os escravos progridem mais rápido que os nativos”, “Seja um bom administrador antes de ir para a cadeia”.

Se procurarmos no texto alguma coisa que devamos imitar para obter sucesso, ou uma bênção nós não encontraremos. A narrativa está nos contando o que Deus fez com um candidato improvável ao sucesso. Não contém nenhuma regra para se obter sucesso nos negócios. José vai de mal a pior, e não faz nada para conseguir obter sua soltura. Mas é o próprio Deus quem lhe dá todas as habilidades necessárias para isso.

Poderemos vasculhar todas as narrativas menores da vida de José e chegeremos sempre à mesma conclusão: Deus era com José.

Tudo na vida de José já havia sido pré estabelecido por Deus. Veja o texto em Gn. 50:19-20, e você também chegará a esta conclusão.

Esta sucessão de fatos ocorridos com José foi para preservar o povo de Israel para a conquisa de Canaã. Foi no Egito onde os israelitas cresceram e se fortaleceram para entrar na terra que Deus havia prometido a Abrãao.

E tudo isto faz parte da narrativa maior, onde Deus usaria a nação de israel como berço do Messias. Então, tudo o que aconteceu foi para preservação da nação onde nasceria nosso Salvador.

3.2 A narrativa de Rute

O livro de Rute é um livro fácil de ser entendido pois é completo em si mesmo e suas personagens podem ser identificados sem maiores dificuldades.

Neste livro podemos verificar como aplicar o item 9 de nossa lista de princípios de interpretação das narrativas.

Conseguirmos observar o ensinamento explícito é relativamente fácil; porém verificar o ensinamento implícito, requer um pouco mais de habilidade e estudo. Afinal, queremos extrair lições da narrativa, e não colocar lições dentro dela.

A história de Rute pode ser resumida da seguinte forma:

Rute 1 – A viúva Rute, uma moabita, emigra de Moabe para Belém, com sua sogra, também viúva, Noemi.

Rute 2 – Rute colhe as sobras de milho da plantaçào de Boaz, e ouve sobre sua fé e da bondade dela com Noemi, que era sua parente.

Rute 3 – Pela sugestão de Noemi, Rute deixa Boaz saber que ela o ama e quer se casar com ele.

Rute 4 – Baz segue todos os procedimentos jurídicos para casar-se com Rute protegendo os direitos de propriedade do falecido esposo dela. O nascimento de primeiro filho deles, Obede, se torna grande consolo para Noemi. Obede veio a ser avô do rei Davi.

Vamos ver quais ensinos esta narrativa nos transmite:

1 – Rute se converteu a fé no Senhor, o Deus de Israel. Isso não é declarado explicitamente, mas nos fica claro lendo o verso 17 do capítulo 1.

2 – A narrativa nos conta que Boaz era um homem justo que seguia fielmente à lei de Deus. Da mesma forma, isso não nos é explicíto, mas segundo os versos 2:3-13; 2:22; 3:10-12; 4:9-10, fica claro que embora nem todos os israelitas fossem obedientes à lei, Boas o era. Ele guardava o mandamento conforme Levítico 19:9-10, onde Rute se encaixava nas duas categorias: era pobre e estrangeira. Ele observava também outra lei, a da rendenção, conforme Levítico 25:23-24 nos informa.

3 – Fica implícito a nós também o fato da descendência de Boaz e Rute incluir o rei Davi, e por extensão Jesus. Sabemos que Jesus, humanamente falando, pertenceu à linhagem de Davi. Podemos verificar este fato lendo a genealogia em 4:17-21. Eles tinham como saber issto na época? Não. Mas Deus quis que este fato ficasse registrado para que soubéssemos de onde veio Jesus.

4 – A narrativa, nos diz que esta história se passa no tempo dos Juízes. Se lermos o livro de Juízes, notaremos que a sociedade, nesta época, não era muito fiel à lei de Deus. Belém, se destacava por ter cidadãos tementes a Deus, a despeito da maioria infiel. Mas o que há no luvro de Rute que nos diz isso? Praticamente a história toda, exceto o verso 2:22 que subentende que nem todos os belemitas praticavam a lei do respigar corretamente. E as próprias palavras das personagens nos demostram a preocupação e zelo que eles tinham pela lei de Deus.

Devemos notar também que todas as personagens, exceto Rute e Orfa eram cidadãos de Belém. Noemi, seja em tempos de aflição (1:8-9; 13, 20-21), seja em tempos de alegria (1:6; 2:19-20), reconhece a vontade do Senhor, e se submete a ela. Além disso, Boaz mostra ser um verdadeiro adorador e seguidor do Senhor (2:11-12; 3:10, 13), e suas ações, do começo ao fim, confirmam suas palavras.

Até mesmo a maneira como as pessoas se cumprimentavam revelam sua lealdade a Deus (2:4). Note como os anciãos da cidade demonstram sua fé quando abençoam o casamento e a família (4:11-12), e as mulheres abençoam Noemi (4:14). Outro fato importante é como recebem a moabita Rute; fato este que demonstra a fé no Senhor.

Estes fatos demonstram que nossa leitura cuidadosa, e o conhecimento histórico daqueles dias, podem nos revelar lições preciosas, que estão implícitas.

4 Advertência

Implícito não quer dizer secreto ou escondido. Implícito quer dizer que a mensagem pode ser entendida a partir daquilo que é dito, mesmo não sendo declarado literalmente. Nossa tarefa como intérpretes da Bíblia não é ficar escavando mensagens ocultas nos textos. O que o Espírito Santo inspirou é para benefício de todos os crentes, não somente para aqueles que conseguem desvendar possíveis mensagens ocultas nos textos. Não vamos tentar inventar outra história!

5 Algumas precauções finais

Existem alguns possíveis motivos para as pessoas, algumas vezes, tirarem lições das narrativas que não estão lá.

1 – Desespero por informações que as ajudarão em sua situação específica.
2 – Impaciência. Querem a resposta de Deus agora, deste livro, deste capítulo.
3 – Esperam, erroneamente, que tudo na Bíblia se aplique à sua própria vida individual.

A Bíblia é o recurso de Deus para nós. Porém, nem sempre terá respostas específicas e pessoais para tudo quanto as pessoas gostariam, e não contém todas as informações em cada capítulo ou versículo.

A fim de que não segamos esta tendência, alimos os seis principais erros de interpretação que as pessoas cometem, ao procurar respostas em partes isoladas da Bíblia. Emboa estejam alistadas aqui para as narrativas, podem servir para outros estilos também.

1 – Alegorização – Ao invés de se concentrarem no significado claro do texto, procuram lições obscuras, secretas. Há trechos alegoricos na Bíblia (Ezequiel 23 ou algumas partes do Apocalipse, por exemplo). Porém, nenhuma das alegorias na Bíblia é uma simples narrativa.

2 – Descontextualização – O desconhecimento da história, da narrativa maior, e a concentração apenas nas pequenas narrativas, nos faz perder a interpretação completa, aquilo que Deus fez e quis deixar registrado ao seu povo. Se desconsiderarmos este fatores, poderemos fazer a Bíblia dizer qualquer coisa que queiramos.

3 – Seletividade – É semelhante à descontextualização. É escolha proposital de palavras e frases específicas da narrativa, sem considerar o contexto histórico.

4 – Combinação falsa – Combina trechos de diferentes versos, e tira uma lição desta combinação. Um exemplo extremo deste método é interpretar que os verdadeiros inimigos do crente estão dentro da casa de Deus, ao invés de fora. Pois o Salmo 23 diz para Deus preparar uma mesa na presença dos inimigos de Davi, e Davi habitaria para sempre na casa de Deus. Logo, os inimigos estariam dentro da casa de Deus, senão como Deus faria uma mesa para ele diante de seus inimigos?

5 – Redefinição – Quando o sentido claro do texto deixa as pessoas sem emoções, ou não provoca qualquer tipo de êxtase espiritual, o sentido claro é prontamente redefinido para que estas coisas aconteçam.

6 – Autoridade extracanônica – Uso de algum tipo de material de apoio ou escritos especiais, ou ainda livros que alegam ter revelações bíblicas. Desta forma, creem que os mistérios da Bíblia serão revelados. As seitas geralmente fazem este tipo de coisa, e tratam a Bíblia como um livro cheio de enigmas que exige um conhecimento especial para interpretá-la.

Além destas precauções, é importante saber que as narrativas bíblicas dizem respeito a seus personagens. Podemos, claro, aprender muito com elas, mas nunca espere que Deus faça com você exatamente a mesma coisa que fez com as personagens das narrativas.

Nem ache que Deus quer que você faça exatamente as mesmas coisas.

A narrativa de José, diz respeito a José. Diz respeito à fortma como Deus usou a vida dele para cumprir seus propósitos. Não tome a história de José como algo que também vai acontecer em sua vida.

A narrativa de Rute glorifica a Deus, e o benefício que Ele deu aos belemitas e a Rute, não tem a ver conosco. Esta história narra de forma maravilhosa os ancestrais do rei Davi, e por extensão, do Senhor Jesus.

Nós temos a tarefa de aprender com base nas narrativas, e não fazer tudo quanto está descrito lá. Só porque alguém fez determinada coisa na Bíblia não significa que temos a obrigação, ou permissão de fazer também.

As narrativas são preciosas porque demonstram o amor de Deus na História, e a forma como Ele conduziu tudo, para que o mundo recebesse o Salvador. Porém, para termos instruções sobre ética pessoal e vidã cristã devemos ir para outras partes das Escrituras, onde estes valores são ensinados mais clara e diretamente.

Então, podemos concluir que a riqueza de variedades da Palavra, deve ser nosso aliado, e não um recurso que tenhamos de desvendar seus mistérios.

INTERPRETANDO AS EPÍSTOLAS – PARTE II

Na aula anterior nós procuramos primeiramente o sentido do texto para os leitores daquela época, para os quais foi primariamente escrito. Ou seja, o texto deveria fazer sentido para aquele povo, não poderia haver algum significado fora da realidade daquela época. A este exercício, o de descobrir o significado que o texto tinha, chamamos de exegese.

Nesta lição, vamos aplicar o que chamos de Hermenêutica: a interpretação dos escritos para a nossa realidade.

A primeira dificuldade é que, diferentemente da exegese, que é a investigação dos fatos que se sucederam, a hermenêutica pode ter muitas variantes. Ainda que nem todos pratiquem a exegese, ou seja, não investigam a fundo quais eram as implicações culturais e socio-políticas da época, por outro lado, todos praticam a hermenêutica.

O objetivo desta aula é ver o que há em comum entre todos os crentes com relação à hermenêutica, ou seja, o que cada grupo de crentes têm em comum na interpretação das epístolas. A grande diferença entre os vários grupos de crentes é com relação à cultura: o que deve ser mantido para nós e o que deve ser considerado um costume apenas do povo no século I?

1 A Interpretação comum de todos nós

Mesmo que você não soubesse que este curso chama-se hermenêutica, você a pratica todo o tempo que lê a Bíblia. Afinal, quando lemos a Bíblia trazemos nosso bom senso e aplicamos o texto à nossa realidade, e aquilo que não se aplica a nós nesta época, descartamos.

Vamos ler II Tm. 4:13. Quantos de nós nos sentimos obrigados a obedecer este mandamento? E isto é claramente um mandamento. Na mesma carta no capítulo 2 versículo 3, somos exortados a sofrer como bons soldados de Cristo, mesmo muitas vezes relutando em obedecer este mandamento.

A maioria dos textos do Novo Testamento se encaixam nesta categoria do bom senso. Nossos problemas se encontram nos textos que fogem deste bom senso. Uns acham que devem obedecer exatamente o que está escrito, outros já não têm tanta certeza. Quando interpretamos um texto, trazemos muito de nossa herança teológica e cultural. Isto nos faz “selecionar” certos textos e contornar outros.

A maioria de nós concorda quanto à posição acerca de II Tm. 2:2 e 4:13. Porém, estes mesmos cristãos poderão argumentar contra I Tm. 5:23. Eles dizem esar relacionado somente a Timóteo, e não aos outros cristãos. Ou então, Paulo recomendou vinho pois a água não era muito confiável naquela época, diferente de hoje. Ou ainda que vinho queria dizer, na realidade, suco. Agora, por que esta recomendação de beber vinho é endereçada somente a Timóteo, enquanto que a exortação a permanecer na palavra (II Tm. 3:14-16), que também foi endereçada a Timóteo, serve para todos os cristãos em todos os tempos?

Um outro problema frequente em algumas igrejas é o fato de aplicarem o texto de I Coríntios 11:14 aos homens, quanto ao cabelo comprido; porém não aplicam o texto do versículo 13 às mulheres. Ou antes, as deixam cortar o cabelo até ficarem curto.

Estes dois exemplos ilustram como a cultura influencia no bom-senso em nossa interpretação. Mas a tradiçao eclesiástica também dita o bom-senso que deve ser aplicado em nossa interpretação. Algumas igrejas proibem as mulheres de falarem nos cultos com base em I Coríntios 14:34-35. Porém, todas as outras coisas citadas no capítulo 14 é contra-argumentado como não pertencente ao nosso século, são coisas que eram específicas para a Igreja do século I. Como é que os versículos 34-35 podem pertencer ao nosso tempo, mas os versículos 1-5 ou 26-33 e 39-40, que estão no mesmo contexto, pertencem à igreja do século I?

Alguns cristãos acham apoio nas escrituras para o batismo de crianças em I Coríntios 1:16 ou 7:14.

Para muitos na tradição arminiana, que enfatiza o livre arbítrio do homem com relação à salvação, os textos de Rm. 8:30, 9:18-24, Gl. 1:15 e Ef. 1:4-5 são uma pedra no sapato. Porém, os calvinistas tem suas próprias maneiras de contornar textos como II Pe. 2:20-22 e Hebreus 6:4-6.

Baseados nestes problemas, que tipo de diretrizes e parâmetros nós precisamos a fim de estabelecer uma hermenêutica mais consistente?

2  A Regra Básica

Lembrem-se de que já falamos que um texto não pode significar algo que não faria sentido, tanto para o escritor quanto para o leitor. Esta regra não ajuda a descobrir o significado de um texto, porém nos ajuda, dizendo o que um texto não pode significar.

Vamos pegar I Coríntios 14. A justificativa mais comum para desconsiderar alguns dos dons espirituais é o versículo 13:10.

Na interpretação comum somos informados que o que é perfeito já veio, na forma do Novo Testamento, e portanto, parte destes dons, a profecia e as línguas cessaram de funcionar na igreja. mas isso é uma coisa que o texto não pode significar, pois os leitores desta carta não sabiam naquela época, que haveria de existir um Novo Testamento. E o Espírito Santo não deixaria Paulo escrever uma coisa que soasse incompreensível aos Corintios daquela época.

3  A Segunda Regra

A segunda regra é um modo diferente de expressar nossa hermenêutica comum. Sempre que temos situações de vida comuns, comparáveis aos nossos dias, a plava de Deus para nós é a mesma que era para eles no século I. Ainda é verdade que todos pecamos, que somos salvos pela graça. Revestir-nos de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longaminidade, ainda é a Palavra de Deus para os que são crentes.

Os textos de I Coríntios e Filipenses, estudados na aula 08, parecem ser deste tipo. Fizemos nossa pesquisa e chegamos à conclusão de que ainda temos igrejas locais, cujos líderes devem servir com zelo, escutar a Palavra e cuidar da forma como edificam a igreja. 1 Coríntios ainda é aquilo que Deus nos fala quanto às nossas responsabilidades perante a igreja local. Esta deve ser um local onde se sabe que o Espírito Santo habita, e que portanto, é a alternativa de Deus ao pecado do mundo.

O que mais exige cuidado é a reconstrução do problema deles, naquela época. Devemos ter certeza de que os pormenores são os mesmos. Para nossa hermenêutica, é importante saber que o processo jurídico entre dois irmãos, era iante de um juíz pagão, lá na praça pública. A lição aqui não muda se o processo é relizado dentro de um tribunal fechado. Pois, os versículos 6-11 nos deixa claro que é errado dois irmãos irem à justiça, fora da Igreja. Agora, poderíamos dizer que este versículo não se aplica a um cristão processando uma Empresa, pois neste caso os pormenores mudam. Apesar que a pessoa deveria considerar o apelo de Paulo para assim não o fazerem, seguindo o exemplo de Jesus, conforme nos diz o versículo 7.

Bom, tudo isto parece relativamente simples. Porém qual deve ser o limite de aplicação dos pormenores dos textos bíblicos, em nossa vida hoje?

Vamos verificar, ainda nesta Aula, quatro problemas deste tipo.

4  O Problema da Aplicação Extendida

Se há contextos comparáveis em nossos dias ao século I, é legítimo extender a aplicação a outros contextos, ou fazer o texto aplicar-se a um contexto totalmente diferente do século I?

Por exemplo, argumentamos que I Coríntios 3:16-17 se refere à igreja local, também apresenta o princípio de que aquilo que Deus separou pela habitação de seu Espírito Santo é sagrado, e que quem o destrói está sujeito ao terrível julgamento de Deus. Este mesmo princípio não pode ser aplicado ao crente que abusa do seu próprio corpo? De igual modo, I Coríntios 3:10-15 fala àqueles que edificam a igreja, e avisa sobre o prejuízo que sofrerão os que constroem mal. Já que o texto fala sobre a salvação “como que através do fogo”, podemos usar este texto para ilustrar a segurança do crente?

Veja bem, estas interpretações erradas têm sido feitas a séculos! Paulo, neste contexto está tratando da igreja local, então não podemos aplicar este texto ao crente individualmente. Quanto à segurança do crente, este texto não é o mais forte, o mais recomendado, pois o contexto na época era outro.

Podemos dizer então que a aplicação deve ser limitada à intenção original, quando há situações comparáveis. Então, na aplicação estendida, quando há outras passagens apoiando esta aplicação, podemos tê-la como legítima.

Uma passagem mais dificil é II Coríntios 6:14, que têm sido geralmente interpretado como uma proibição ao casamento entre um cristão e um não-cristão. A metáfora de jugo era raramente usada para casamento, e não há nada no contexto desta passagem que indique que o casamento seja a questão. Provavelmente tinha algo a ver com as festas idólatras. Porém, podemos estender este princípio ao casamento, visto ser um princípio bíblico que pode ser sustentado à parte deste único texto.

5  O Problema das características que não são comparáveis

Nesta categoria há dois tipos de problemas:

1 – Questões do século I que não tem equivalentes no século XXI.
2 – Problemas que poderiam surgir no século XXI, mas que são altamente improváveis.

O que devemos fazer nestes casos?

Um exemplo disso é o texto de I Coríntios 8 – 10, onde Paulo se dirige a três tipos de questão:

1 – Cristãos que argumentam sobre continuar a acompanhar seus vizinhos pagãos nas festas nos templos dos ídolos (8:10)
2 – A dúvida que lançavam sobre a autoridade apostólica de Paulo (9:1-23)
3 – O alimento sacrificado aos ídolos, que depois era vendido no mercado (10:23-11:1)

Fazendo a exegese destas passagens, vemos que Paulo responde da seguinte maneira:

1 – São proibidos de frequentar tais festas e comer alimentos oferidos aos ídolos, por causa da consciência dos mais fracos (8:7-13) e significa tomar parte no que é demoníaco (10:19-22)
2 – Paulo defende seu direito ao apoio financeiro, mas abriu mão deste; além disso defende suas ações (9:19-23)
3 – O alimento que foi sacrificado, vendido no mercado, pode ser comido, inclusive no lar de outra pessoa. Porém, se for causar algum problema de consciência, deve ser recusado.

Pode-se comer qualquer coisa para a glória de Deus, mas não se deve fazer algo que venha a ofender alguém.

O problema aqui é que não existe, em nossa cultura hoje, este tipo de idolatria. Então os problemas 1 e 3 não existem. E quanto ao problema 2, já não temos mais apóstolos no, sentido do Novo Testamento, de pessoas que se encontraram pessoalmente com Jesus ressurreto (9:1).

O outro tipo de problema, os de acontecimento altamente improvável, pode ser ilustrado por:

1 – Pessoas embriagadas na Ceia do Senhor (11:17-22)
2 – Pessoas que querem forçar alguns irmãos a se circuncidar (Gl. 5:2)

Estas coisas poderiam acontecer, mas são altamente improváveis em nossa cultura.

A grande questão é: como a resposta a estes problemas, que afligiam a igreja no século I, podem ser relevantes a nós, tanto tempo depois e em outra cultura?

A hermenêutica deve seguir dois passos:

1 – Devemos fazer nossa exegese com muito cuidado, pois devemos ouvir aquilo que a Palavra de Deus era para eles. E na maioria dos casos um principio foi dado, que geralmente vai além da particularidade histórica à qual estava sendo aplicado.

2 – Este “princípio” não deve ser aplicado a toda e qualquer situação, porém a situações genuinamente comparáveis.

Vamos ilustrar estas considerações.

Paulo proíbe a participação nas festas pagãs com base no princípio da pedra de tropeço.

Porém, isto é algo que simplesmente ofende a um irmão. Isto se aplica ao caso de um irmão, com boa consciência, convence outro irmão a fazer; porém este irmão não consegue fazê-lo com ba consciência. Então este segundo irmão é destruído por imitar a ação do primeiro irmão. Ou seja, não foi simplesmente ofendido.

Outra consideração de Paulo, foi o fato de não participarem de festas pagãs, pois estariam se associando aos demônios. Então podemos dizer que esta é uma proibição aos cristãos de participarem de todo tipo de astrologia, bruxaria, espiritismo, etc.

Embora não tenhamos apóstolos, nem pensamos que nossos pastores estejam na sucessão apostólica, o princípio de que “os que pregam o evangelho, vivam do evangelho” (I Co. 9:14), parace ser aplicável ainda hoje.

O problema de comer carne oferecida aos ídolos apresenta uma dimensão dificil deste princípio. Para Deus, e para Paulo isto, era uma questão indiferente. Porém não era para outras pessoas. Era o mesmo caso da observância de certos dias em Romanos 14 e Colossences 2:16-23.

O problema para nós é como distinguir questões indiferentes de questões importantes. Mesmo porque existem coisas que se diferem entre culturas e entre grupos cristãos. A lista abrange desde estilo de vestimentas, estilos musicais, recreação, ornamentos e até esportes. As pessoas que veem nestas coisas algum valor espiritual, pensam que a abstinência de quaisquer uma destas coisas se constitui em santidade diante de Deus, não apenas mera indiferença.

O que torna alguma coisa uma questão indiferente? Podemos seguir as seguintes sugestões:

1 – Aquilo que a Bíblia diz ser uma questão indiferente, podemos ainda considerá-la indiferente: comida, bebida, guardar determinados dias, etc.

2 – Questões indiferentes não são morais, mas sim culturais, mesmo que seja a cultura religiosa. Questões que endem a se diferir entre uma cultura e outra, mesmo entre grupos de crente genuínos, podem ser consideradas como indiferentes.

3 – As listas de pecados nas Epístolas (Rm. 1:29-30; I Co. 5:11; I Co. 6:9-10; II Tm. 3:2-

4) nunca incluem os equivalentes do século I dos itens que mencionamos acima. Além disso estes equivalentes não estão incluídos nos mandamentos cristãos (Rm 12; Ef. 5; Cl. 3; etc.)

Este é um terreno perigoso, muitas igrejas já foram divididas por questões como estas.

Entretanto, de acordo com Romanos 14, as pessoas dos dois lados não devem julgar umas às outras. A pessoa livre não deve fazer alarde de sua liberdade; a pessoa para quem estas não são questões indiferentes não deve condenar outra pessoa.

6  O Problema da relatividade cultural

Esta é a área com maior dificuldade hoje em dia. A Palavra Eterna de Deus tem sido substituída pelas questões culturais.

Quase todos os cristãos, pelo menos até certo grau, traduzem a Bíblia para novos contextos. E é por causa disto que muitos deixam “um pouco de vinho, por causa do seu estômago” no século I, e também não insistem que as mulheres tenham cabelos compridos e nem cumbram mais a cabeça, e não praticam o “ósculo santo”. Porém, muitos destes mesmos cristãos estremecem quando uma mulher ensina na igreja ou quando um homem deixa seu cabelo comprido.

Alguns ainda têm tentado estabelecer a cultura do século I em nosso século. Mas como estabelecer os parâmetros corretos para nós, baseados na cultura do século I? Como conservar suas filhas em casa, negar-lhes a educação superiror, combinar seu casamento?

É muito dificil ser coerente neste aspecto, exatamente porque não existe uuma cultura mais santa do que outra. As culturas são realmente diferentes, não apenas entre o século I e o século XXI, mas entre as próprias culturas do século XXI.

Então, ao invés de rejeitarmos a cultura, ou partes dela, sugere-se conhecer as culturas, para que o processo de interpretação bíblica ocorra dentro de limites conhecidos.

Como forma de distinguir entre os itens culturalmente relativos e aqueles que são realmente eternos e imutáveis, estabelece-se as seguintes regras (estas regras não são fechadas, devem ser estudas e discutidas):

1 – Devemos distinguir entre o âmago da Bíblia e as questões perféricas. Temos que evitar que o evangelho se transforme numa lei por meio da cultura ou costume religioso.

Assim, desta forma, a obra graciosa de Deus, demonstrada na cruz por meio de Jesus Cristo, sua morte e ressurreição, sua volta gloriosa para nos leval ao lar celestial, são parte deste âmago, parte central da Bíblia, que é independente de cultura.

Agora, o ósculo santo, as cabeças cobertas das mulheres, o comprimento dos cabelos, ministérios e dons carismáticos, parecem ser mais periféricos.

2 – Devemos estar dispostos a diferenciar o que o Novo Testamento vê como essencialmente moral, e aquilo que não é. Os aspectos essencialmente morais são absolutos, e portanto permanecem, independente da cultura. Agora, aquilo que não é essencialmente moral, pode mudar de cultura para cultura, sem necessariamente ser considerado uma doutrina.

As listas de pecados que Paulo faz nunca contém elementos culturais. O adultério, a idolatria, a embriaguez, a atividade homossexual, o furto, a avareza, a fofoca, a mentira, são sempre errados, seja qual for a cultura.

Do outro lado, o ósculo santo, mulheres usando véu, enquanto oram ou profetizam, a preferência de paulo pelo celibato, o ensino pelas mulheres na igreja, não são questões essencialmente morais. Tornam-se pecado somente quando alguma destas questões envolver desobediência ou falta de amor.

3 – Devemos tomar nota dos itens que o Novo Testamento é uniforme. Os seguintes são exemplos de questões onde o Novo Testamento dá testemunho uniforme: o amor como resposta básica do cristão, a política de não-retaliação (dar a outra face), o erro da contenda, do ódio, do assassínio, da embriaguês e imoralidade sexual de todos os tipos.

Por outro lado, o Novo Testamento não parece ser uniforme com relação ao ministério das mulheres na igreja. Veja o caso de Febe, em Rm. 16:1, que servia à igreja de Cencréia. Priscila era uma das cooperadoras de Paulo (Rm. 16:3). O mesmo acontece com os alimentos oferecidos aos ídolos. Compare I Co. 10:23-29 com At. 15:29.

Estas são questões culturais, dependentes de determinado contexto histórico e geográfico, não sendo portanto, uma questão moral.

4 – É importante, dentro do Novo Testamento, saber distinguir entre o princípio e a aplicação específica. Vejamos o caso de I Coríntios 11:2-16. Paulo começa apelando à ordem divina de criação, e estabelece o princípio de que não devemos fazer nada que diminua a glória de Deus quando a comunidade está em adoração (vv. 7-10). A aplicação específica, no entanto, parce ser relativa, já que Paulo faz menção repetidas vezes ao “costume” e à “natureza” (vv. 6, 13-14, 16).

5 – É importante sabermos determinar as opções culturais no mundo neo testamentário. Geralmente, naquela época, havia somente uma única opção cultural, e isso só faz aumentar o grau de relatividade neste aspecto cultural. Por exemplo, notem que nenhum escritor do Novo Testamento faz qualquer menção à escravidão como sendo um mal, e o papel das mulheres era basicamente inferior ao dos homens. Porém, por outro lado, os escritores avançam bastante, em relação à socidade da época, com relação à atitude para com as mulheres, e o homossexualismo era visto como uma prática contrária aos ensinos cristãos. Mas em todo caso, quando refletem as atitudes culturais nestas questões, estão apenas refletindo, geralmente, a única opção cultural da época.

6 – Devemos estar alertas para as grandes mudanças culturais entre o século I e o século XXI. Isso pode mudar a forma como interpretamos a Bíblia. Ainda na questão do ensino pelas mulheres na igreja, devemos levar em conta que havia poucas oportunidades de estudo para as mulheres no século I. E a educação é o primeiro passo para podermos ensinar alguém. Pensando desta maneira, a nossa interpretação de I Timóteo 2:9-15 pode mudar. Outro exemplo é o de Romanos 13:1-7. No século I não havia o governo democrático, com a participação de todos. Nos dias de hoje, espera-se que os maus governantes sejam depostos, e isto muda nosso modo de interpretar Romanos 13 no século XXI.

7  O Problema da Teologia Prática (de Tarefa)

Notamos na aula passada que boa parte da teologia das Epístolas é orientada a tarefas. Porém, uma das tarefas “obrigatórias” do estudante bíblico é apresentar este teologia de modo sistemático, e devemos sempre reconhece que muitas vezes a teologia de determinado escritor está implícita em suas declarações.

Queremos aqui esclarecer alguns pontos enquanto realizamos a tarefa da teologia.

Algumas precauções que devemos tomar, até por causa da natureza ocasional das Epístolas.

1 – Justamente por conta desta natureza ocasional devemos nos contentar com nossas limitações teológicas. Não teremos respostas para todas as perguntas. Por exemplo, em I Coríntios, quando Paulo fala do absurdo que é um irmão levar outro ao tribunal pagão (I Co. 6:2-3), Paulo diz que todos os salvos haverão de julgar o mundo e os anjos. Além disso, o texto não diz mais nada. Podemos com isso apenas crer que os cristãos farão julgamentos no Juízo Final, e apenas isto, o resto é pura especulação.

2 – Às vezes queremos encaixar nossas perguntas a determinados textos, quando na realidade a questão não havia sido ainda levantada. Quando indagamos ao texto que fale à questão do aborto, da eutanásia, células tronco, estamos querendo que respondam às perguntas de um período posterior. Às vez e até possível isso acontecer, porém não o farão frequentemente, simplesmente porque não existiam estas questões no século I. Há um claro exemplo disso no Novo Testamento em I Coríntios 7:10, querendo dizer que o próprio Jesus dera uma explicação à pergunta feita. Agora se o mesmo problema acontecesse na sociedade grega Paulo responde: “eu, não o Senhor” (v. 12). Claro que nós não possuímos a mesma autoridade apostólica de Paulo para questões semelhantes, mas devemos tentar trazer uma cosmovisão bíblica para o problema.

Estas são algumas sugestões para lermos e interpretarmos as Epístolas, porém o estudo sistemático continua, e o uso de dicionários, comentários e chaves bíblicas se fará constantemente necessários.

INTERPRETANDO AS EPÍSTOLAS – PARTE I

A partir desta lição começaremos a estudar os diferentes gêneros de literatura que compoem a Bíblia. Começaremos estudando as Epístolas. A razão para isto é que elas totalizam quase 50 por cento do Novo Testamento. Aparentemente parece ser fácil sua interpretação, afinal que mistério há em se compreender que todos pecaram e estão afastados da glória de Deus (Rm. 3:23)? Ou então qual a dificuldade na interpretação de que o salário do pecado é a morte (Rm. 6:23)? E ainda não temos dificuldade de entender que somos salvos pela graça por meio da fé (Ef. 2:8), não é mesmo?

Bom, para nosso estudo das Epístolas vamos usar como modelo I Coríntios. E em nosso objeto de estudo devemos tomar a opinião de Paulo como sendo Palavra de Deus (7:25)? E no caso da exclusão de um membro? Como isto se aplica hoje em dia quando há tantas igrejas, que basta apenas atravessar a rua (capítulo 5)? E como ficam as mulheres? Devem ou não usar véu nos dias de hoje?

Estes e outros exemplos serão estudados para sabermos como interpretar estes escritos de 2 mil anos que usamos ainda hoje.

1 A natureza das epístolas

Antes de comerçarmos a estudar I Corintios como nosso modelo vamos primeiro analisar a estrutra de uma carta, que contém, em geral, as seis partes seguintes:

1- o nome do escritor (ex. Paulo)
2- o nome do endereçado (ex. à Igreja de Deus em Corinto)
3- a saudação (ex. Graça a vós outros e paz da parte de nosso Deus e Pai…)
4- oração (ex. Sempre dou graças a Deus a respeito de vós…)
5- o corpo
6- a saudação final e despedida (ex. a graça do Senhor seja convosco)

Algumas cartas podem fugir um pouco deste padrão; é o caso da carta aos Hebreus.

Notemos que o autor pula todas as quatro primeiras partes e vai direto ao assunto. Vamos perceber também, durante a leitura, que esta carta não assume um tom muito pessoal, como muitas das cartas de Paulo por exemplo.

A carta de I João também não possui os elementos formais de uma carta comum, e assim como o autor de Hebreus, João parte diretamente ao assunto.

Tiago e II Pedro começam como cartas, tem os elementos iniciais, porém lhes falta a saudação final.

Estas cartas todas, parecem ter sido realmente escritas para um público geral, e não para alguém em particular.

Algo que todas as cartas têm em comum é o fato de serem ocasionais. Ou seja, embora tendo a ação do Espírito Santo, e servindo para nós nos dias de hoje, foram inicialmente escritas para o povo do século I. Esta é a maior dificuldade que encontramos na interpretação destes escritos. Como contextualizarmos os mandamentos para nós do século XXI ? Nas próximas lições vamos aprender como estudar e interpretá-las corretamente.

2  O contexto histórico

A primeira coisa a ser feita antes de comerçarmos a estudar e interpretar a Carta aos Coríntios é nos perguntar o que levou Paulo a escrever uma a eles. Outra coisa é procurarmos saber o máximo possível sobre a localidade onde viviam. Sabemos que pelos padrões da época Corinto era uma cidade relativamente nova. Devido à sua localização estratégica cresceu muito comercialmente, e era uma cidade bastante religiosa, com diversos templos de deuses espalhados pela cidade. Além disso, era uma cidade com muita cultura e sobretudo rica. Fazendo então uma análise rápida, podemos dizer que Corinto era uma mistura de Rio de Janeiro, São Paulo e Aparecida do Norte. Ou seja, não foi uma carta escrita para uma cidade do interior de Roraima. Mantendo estes dados em mente, nossa compreensão do assunto da carta será muito mais proveitoso.

A segunda coisa é tomarmos um tempo para lermos a carta toda de uma única vez. Afinal este é o processo de leitura quando lemos uma matéria no jornal ou um e-mail. Não tente nesta primeira leitura achar o significado de cada palavra ou frase, por hora é apenas a visão panorâmica que nos interessa. Podemos sim, anotar algumas coisas nesta primeira leitura:

1- o que está escrito sobre os endereçados? São judeus, gentios, ricos, escravos? Quais os seus problemas e atitudes?
2- as atitudes de Paulo
3- quaisquer coisas específicas na ocasião em que a carta foi escrita.
4- as divisões lógicas da carta.

Claro que, se mesmo isso for demais para esta primeira leitura, isto pode ser feito durante o estudo, depois da primeira leitura.

Com base na estrutura apresentada acima, podemos ter notado as seguintes coisas:

1-Os crentes coríntios eram principalmente gentios, mas haviam alguns judeus também (6:9-11; 8:10; 12:13). Gostavam de sabedoria e conhecimento (1:18 – 2:5; 4:10; 8:1-13; ). Eram orgulhosos e arrogantes (4:18; 5:2-6), até ao ponto de julgarem Paulo (4:1-5; 9:1-18)
2- A atitude de Paulo variou entre a repreensão (4:8-21; 5:2; 6:1-8), o apelo (4:14-17; 16:10-11) e a exortação (6:18-20; 16:12-14)
3- Vemos em 1: 10-12 que Paulo foi informado por pessoas da família de Cloé. Em 5:1 também nos diz informações relatadas. Em 7:1 vemos que Paulo havia recebido uma carta deles. Notamos também que haviam alguns itens nessa carta, conforme 7:25, 8:1, 12:1, 16:1 e 16:12.
4- Quanto às divisões lógicas da carta, vemos que 7:1 é a primeira vez que Paulo menciona a carta recebida. Neste caso, podemos supor que os capítulos 1 a 6 são respostas daquilo que foi relatado a Paulo. As frases introdutórias e os assuntos abordados nos dão base para propor as seguintes divisões:

ð o problema das divisões na igreja (1:10 – 4:21)
ð o problema do homem incestuoso (5:1-13)
ð o problema dos processos jurídicos (6:1-11)
ð o problema da fornicação (6:12-20)

A maior parte do conteúdo entre o capítulo 7 e o 16 é resposta à carta recebida, como podemos ver pela expressão usada por Paulo “Ora, quanto ao…”. Os itens que não são introduzidos por esta expressão são três: 11:2-16, 11:17-34 e 15:1-58. Talvez os itens do capítulo 11 também foram relatados a ele (ao invés de ter tomado conhecimento por meio da carta recebida), mas foram incluídos aqui porque tudo, desde o capítulo 8 até o capítulo 14 trata da adoração de forma geral. O capítulo 15 fica dificil saber se é uma resposta ao que foi relatado a ele, ou se é resposta à carta que mandaram. O versículo 12 não ajuda muito neste sentido, pois Paulo pode estar citando um relato, ou a carta deles.

Seja como for, o restante da carta pode ser facilmente esboçado:

ð o comportamento dentro do casamento (7:1-24)
ð as virgens (7:25-40)
ð a comida sacrificada aos ídolos (8:1-11:1)
ð as cabeças cobertas das mulheres na igreja (11:2-16)
ð os abusos na Ceia do Senhor (11:17-34)
ð os dons espirituais (12-14)
ð a ressurreição dos crentes (15:1-58)
ð a coleta (16:1-11)
ð a volta de Apolo (16:12)
ð exortações e saudações finais (16:13-24)

O único outro lugar nas cartas de Paulo que ele escreve em forma de resposta de itens independentes é I Tessalonicenses 4-5.

Vamos concentrar nossos estudos no problema da divisão na igreja: capítulos 1 – 4.

3 O contexto histórico de I Coríntios 1 – 4

Antes de mais nada vamos elaborar uma lista de atividades a fim de estudarmos cada uma das seções menores da carta:

1-     Leia I Coríntios 1-4 pelo menos duas vezes, em duas traduções diferentes. Isto o fará ver o panorama geral do trecho, e saber os argumentos usados.
2- Anote tudo que conseguiu achar sobre os endereçados e seu problema. Nesta etapa poderemos ser bastante detalhistas.
3- Anote as palavras-chave e frases repetidas de Paulo. Isto indica o conteúdo de sua resposta.

Uma das razões para escolhermos este trecho, além do sério problema de divisão que enfrentavam, o começo deste trecho parece não se encaixar no contexto. Notem que Paulo começa a expor a situação, o problema (1:10-12), porém, no começo de sua resposta, ele não continua se referindo ao problema (1:18-3:4). Apenas na conclusão, há a ligação do conceito de “sabedoria” e “gloriar-se nos homens”, que são as idéias chaves neste trecho, com o fato da divisão da igreja entre partidários de Paulo, Apolo e Cefas. Vamos ver como todas essas idéias se encaixam.

Para começar, Paulo diz claramente que eles estão divididos de acordo com seus líderes (3:4-9; 3:21-22; 4:6). Mas, a questão não era apenas uma mera diferença de opinião entre eles. Eles estavam realmente disputando entre si, um querendo ser mais que o outro (4:6).

Tudo isto parece estar bem claro, numa primeira visão. Porém, olhando com mais cuidado vemos que os problemas eram um pouco mais graves do que realmente parecia. Vejamos pelos menos duas coisas que ficam claras quando prestamos um pouco mais de atenção ao texto.

1-     Lendo 4:1-5 fica claro que havia uma queixa contra o próprio Paulo. Ou seja, não era apenas uma questão de prefer6encia entre Paulo ou Apolo, mas havia os que eram contra Paulo e os que eram a favor de Paulo.
2- A palavra chave neste trecho é sabedoria ou sábio. Ela ocorre 26 vezes entre os capítulos 1 a 3, e apenas 18 vezes no restante das cartas de Paulo juntas. Deus deixou a sabedoria do mundo de lado (1:18-22; 1:27-28; 3:18-20). Cristo, por meio da cruz, se tornou sabedoria da parte de Deus (1:30). Esta sabedoria é revelada pelo Espírito, para aqueles têm o Espírito. O emprego da palavra sabedoria, neste argumento, nos faz pensar que Paulo fazia parte do problema. No mínimo podemos supor que, em nome da sabedoria, os coríntios estão levando sua idéia de divisão à frente. Como eles eram muito cultos e filósofos, tinham uma idéia da fé cristã como sendo uma nova “sabedoria divina”, e julgaram Paulo de acordo com esta sabedoria puramente humana.

Com base na resposta de Paulo podemos enumerar três coisas:

1-     3:5-23 mostra que os coríntios entenderam de modo errado a função da liderança na igreja.
2- De acordo com 1:18 a 3:4, eles entenderam de forma errada a natureza básica do evangelho.
3- Com base em 4:1-21 seu modo de julgar a Paulo também estava errado.

Feitas estas distinções podemos agora nos concentrar na análise da resposta de Paulo.

4  O contexto literário

O próximo passo então é seguir a argumentação de Paulo em I Coríntios 1:10 – 4:21 parágrafo por parágrafo, e em uma ou duas frases explicar cada parágrafo dentro do argumento todo de Paulo. Algumas perguntas precisam ser feitas neste estágio:

1- Resumidamente, o que Paulo diz neste parágrafo?
2- Por que Paulo diz isso?
3- Como este conteúdo contribui com argumento todo?

Para ilustrar, vamos tomar a parte principal da resposta de Paulo, que se encontra em 3:5-16. Até aqui Paulo havia dito que a essência do Evangelho, um Messias crucificado, era contrária à sabedoria humana (1:18-25); assim como a escolha deles para pertencerem ao povo de Deus. É como se Paulo estivesse dizendo, em outras palavras: “Quem, em nome da sabedoria humana, teria escolhido vocês para se tornarem povo de Deus? “.

Notem que Paulo trata o poder de Deus também como sabedoria (2:1-7). Porém é uma sabedoria revelada por Deus, não descoberta pelos homens, para quem tem o Espírito de Deus (2:6-16). Neste ponto, Paulo faz um apelo, pois eles têm o Espírito de Deus, então deveriam parar de agir como aqueles que não possuem o Espírito de Deus.

Agora, como os parágrafos que se seguem funcionam neste argumento de Paulo?

1-     3:5-9

2-

Trata da natureza e da função dos líderes da igreja. Paulo diz que são meros servos, e não senhores. Nos versículos 6 a 9 ele ensina duas lições:

Œ Tanto Paulo quanto Apolo estão unidos numa coisa comum, única, mesmo que suas tarefas sejam diferentes.
 Tudo e todos pertencem a Deus – a igreja, os servos e o crescimento.

2- 3:10-17

A lição aqui é como será edificada a obra, que pode ser para o bem ou para o mal. Aqui, o que está sendo edificado é a igreja. Aqueles que dirigem a igreja devem fazer com cuidado, pois a provação se aproxima. Edificar a igreja com sabedoria humana, com eloquência que contorna a cruz de Cristo é edificar com feno, palha ou madeira.

A lição de Paulo neste contexto é expressar aos coríntios que eles são o templo de Deus naquele cidade, em contraste com os outros templos pagãos existentes. O que os tornava templo de Deus ali, era o fato de vivierem em comunhão com o Espírito Santo. Porém, por causa das divisões eles estavam destruindo este templo (a Igreja), que era sagrado para Deus.

Vamos rever as bases do argumento de Paulo, que neste ponto se completou:

ð Paulo desmascarou a compreensão incorreta que os coríntios tinham do evangelho.
ð Paulo desmascarou a compreensão incorreta que os coríntios tinham da liderança da igreja.
ð Paulo advertiu os líderes, bem como a própria igreja sobre o julgamento divino contra os que promovem divisões.

E no final (3:18-23), Paulo junta todos os temas abordados nesta argumentação, como uma conclusão.

5  Reforçando

A fim de adquirirmos prática, vamos ver uma passagem fora de I Coríntios, mas que também fala sobre a falta de união na igreja.

Leiamos Filipenses 1:27 – 2:13.

Vamos fazer uma rápida revisão de Filipenses:

ð Paulo está na prisão (1:13-17)
ð Igreja de Filipos enviou uma oferta através de Epafrodito (4:14-18)
ð Epafrodito ficou doente e a igreja se entristeceu (2:25-30)
ð Deus o poupou e Paulo o envia de volta (2:25-30)
ð Epafrodito volta com a carta para os Filipenses a fim de:

Œ Contar aos membros como ele está
 Agradecer-lhes a oferta
Ž Exortá-los a viver em harmonia (1:27 – 2:17; 4:2-3) e evitarem a heresia judaizante (3:1 – 4:1)

Notem que até o versículo 26 Paulo está falando sobre ele mesmo, como está na prisão. Mas no versículo 27 ele muda o contexto para os filipenses. Qual é então a razão de ser de cada parágrafo nesta seção?

O primeiro parágrafo, 1:27-30, começa a exortação. A lição, o resumo parace ser a que lemos no versículo 27: “ficar firmes num só espírito”. Ou seja, uma exortação à união, pois estavam enfrentando oposição.

Como que 2:1-4 se relaciona com a união? Primeiramente Paulo repete a exortação, porém a lição aqui é que a humildade é a atitude para os crentes viverem em união.

Qual é a lição no parágrafo 2:5-11? Jesus em sua encarnação e morte é o exemplo máximo de humildade que devemos ter.

E por fim, qual a lição de 2:12-13? Esta é claramente a conclusão. Notem as expressões nas diversas traduções da Bíblia: “Assim pois”, “Portanto”, “De sorte que”. Tendo o exemplo de Cristo, devem obedecer a Paulo. Em que? Em terem unidade, que também requer humildade.

Concluída esta análise, podemos verificar que o problema de união em Filipos era, com certeza, muito menos grave do que em Corinto.

6 As passagens problemáticas

Até aqui vimos o processo normal de análise de um texto. Vimos como fica mais fácil se lemos a passagem em parágrafos. Mas, existem textos que em uma primeira análise nos parece dificil, e até mesmo contraditório. O que fazer quando nos deparamos com passagens como estas:

o significado de “por causa dos anjos” em I Coríntios 11:10
“os que se batizam por causa dos mortos” em I Coríntios 15:29
Cristo pregando aos “espíritos em prisão” em I Pedro 3:19
o “homem da iniquidade” em II Tessalonicenses 2:3

1- Em muitos casos a razão dos textos nos parecem tão difíceis é que não foram escritos diretamente para nós. Ou seja, o autor e seus leitores estavam sintonizados, tinham a mesma cultura, desta forma o escritor podia pressupor algumas coisas por parte de seus leitores. Um exemplo é quando Paulo escreve aos Tessalonicenses : “Não vos lembrais de que eu vos dizia estas coisas…”. Então, muitas vezes, também devemos nos contentar em saber aquilo que Deus quis nos revelar, aquilo que Ele quer que saibamos.

2- Mesmo que não saibamos o trecho específico, muitas vezes a lição do parágrafo ainda está ao nosso alcance. Então, seja o que for que levou os coríntios a se batizar em nome dos mortos Paulo os ensina que eles não estavam sendo consistentes ao rejeitarem uma ressurreição futura dos crentes.

3- Quanto às incertezas de determinado trecho temos aque aprender a perguntar o que pode ser dito sobre o mesmo com certeza, e aquilo que é possível, mas não certo. Na passagem do batismo pelos mortos a certeza que temos é que isto estava sendo realizado, e Paulo simplesmente se refere a ela.

4- Nestes casos sempre será necessário consultarmos um bom comentário bíblico. Consulte vários, talvez você não concorde com aquele autor especificamente, mas é sempre bom conhecermos todas as opções dadas a determinada questão.

No mais, até mesmo os mais estudiosos nunca terão todas as respostas. E em parte isto é bom para que conservemos nossa humildade e para que reconheçamos e experimentemos a verdade de Deuteronômio 29:29.

SIMBOLISMOS E TIPOLOGIAS

A maioria dos estudiosos concorda que no Antigo Testamento existem tipos que são posteriormente, no Novo Testamento, especificados e declarados. Os dois Testamentos se correlacionam por meio destas prefigurações e tipos. O Novo Testamento considera que alguns personagens, elementos e fatos do Antigo Testamento são prefigurações do que ainda estava por vir.

Porém, os intérpretes se dividem quanto à freqüência com que isto pode ocorrer. Alguns dizem que praticamente todo o Antigo Testamento é prefiguração do Novo. Por exemplo, a quem diga que as dobradiças do templo de Salomão representavam as duas naturezas de Cristo. Outros defendem que os tipos estão explicitamente identificados, ou ainda implicitamente. Há quem afirme também que tipos são apenas os que o Novo Testamento afirma ser, ou seja, bem claro e explícito. E ainda há aqueles que dizem não haver tipos de quaisquer espécies na Bíblia.

Nesta lição veremos o que são tipos.
Que elementos do Antigo Testamento devemos aceitar como sendo tipos prefigurados do Novo Testamento?
Que regras devemos seguir para interpretá-los?

1  Termos do Novo Testamento associados aos tipos

O termo “tipo” vem do grego typos, e aparece 15 vezes no Novo Testamento. E ganhou diversas traduções como se segue abaixo:

“…vir o sinal dos cravos nas mãos…” (Jo. 20:25)
“…figuras que vós fizestes para adorá-las…” (At. 7:43)
“…disse a Moisés que o fizesse segundo o modelo que tinha visto” (At. 7:44)
“E escreveu-lhe uma carta nestes termos:” (At. 23:25)
“…da transgressão de Adão o qual é figura daquele que havia de vir.” (Rm. 5:14)
“…obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” (Rm 6:17)
“Ora, estas coisas nos foram feitas para exemplo…” (1 Co 10:6)
“…aqueles que andam conforme o exemplo que tendes em nós” (Fp. 3:17)
“De sorte que vos tornastes modelo para todos…” (1 Ts. 1:7)
“…mas para vos dar nós mesmos exemplo, para nos imitardes.” (2 Ts. 3:9)
“…mas sê um exemplo para os fiéis na palavra…” (1Tm. 4:12)
“Em tudo te dá por exemplo de boas obras…” (Tt. 2:7)
“os quais servem àquilo que é figura e sombra das coisas celestiais […] faze conforme o modelo que no monte se te mostrou” (Hb. 8:5)
“…mas servindo de exemplo ao rebanho. ” (1 Pe. 5:3)

Notemos que em todos estes casos a palavra typos foi usada com a idéia de correspondência ou semelhança. Um devia combinar com o outro.
Em cada um desses versículos um elemento corresponde ao outro.
A contrapartida do tipo , a parte correspondente, é chamada de antítipo, ou seja, correspondente ao tipo.
Vamos examinar 1 Pedro 3:21. Neste versículo aprendemos que o batismo é um antítipo do dilúvio, ou seja, o dilúvio serviu como tipo, modelo, prefiguração do batismo. Nos dois casos a palavra significa julgamento; o dilúvio significou a morte para os perversos, e o batismo nas águas significa a morte de Cristo e a identificação do crente com ela. Notemos que a idéia de semelhança está presente.
Examinemos agora Hebreus 9:24. Somos esclarecidos que o santuário, ou santo dos santos no tabernáculo, era um cópia do verdadeiro tabernáculo nos céus.

Em 1 Timóteo 1:16 vemos que a completa longaminidade de Cristo, na vida de Paulo, serviria de exemplo para os que viessem a crer nele. Paulo usou o mesmo termo em 2 Timóteo 1:13.

Temos dois significados associados:

1- Exemplo ou modelo a ser seguido:

“Porque eu vos dei exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.” (Jo. 13:15)
“…para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência.” (Hb. 4:11)

2- Sombra: Assim como uma sombra é a imagem produzida por um objeto, assim certos elementos do Antigo Testamento eram um esboço das coisas que haveriam de vir. Aparece três vezes no Novo Testamento com este sentido figurado.

“os quais servem àquilo que é figura e sombra das coisas celestiais…” (Hb. 8:5)
“Porque a lei, tendo a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas…” (Hb. 10:1)
“…que são sombras das coisas vindouras…” (Cl. 2:16-17)

Uma sombra é algo vago ou transitório, mas também representa certa semelhança.

Cada um desses significados contém a idéia de correspondência ou semelhança. Porém nem sempre um tipo oficial no Antigo Testamento prefigura algo no Novo Testamento. Muitas vezes o sentido é de padrão ou modelo a ser seguido.

2  Quando o tipo é tipo?

2.1  Semelhança

A primeira característica de um tipo é a sua semelhança ou correspondência com o antítipo. Mas não devemos pensar de que se trata de uma correspondência superficial. Deve ser algo natural, e não uma correspondência forçada. Vimos nos exemplos anteriores a existência de uma semelhança concreta. Porém, nem tudo que possui um elemento correspondente é um tipo, embora a relação de semelhança e correspondência deva estar obrigatoriamente presente em todos os tipos. Existem inúmeros elementos no Antigo Testamento que encontram correspondência no Novo, mas não são tipos necessariamente. Os fatores que apresentamos a seguir também são importantes para a caracterização de determinação de um tipo.

2.2 Realidade histórica

Os fatos, personagens ou elementos do Antigo Testamento que são tipos de coisas do Novo possuíram realismo histórico, ou seja, realmente existiram e os fatos foram reais e testemunhados, não foi uma coisa imaginária. Quando em nosso estudo da Bíblia nos deparamos com um tipo não devemos inventar ou procurar significados ocultos. Devemos nos concentrar nos fatos históricos, pois o tipo deve surgir naturalmente no texto, ao invés de ser algo que o intérprete acrescente no texto. O tabernáculo é um tipo (conforme Hb. 8:5), mas isso não significa que cada detalhe de sua construção represente, de alguma forma, uma verdade neotestamentária.

2.3 Prefiguração

Os tipos são uma forma de profecia, pois contém traços de predição e simbolismos. O tipo é uma sombra que indica outra realidade (Cl. 2:17). O tipo sempre aponta para frente. Então quer dizer que as personagens do Antigo Testamento sabiam que diversas coisas eram tipos? Quando os israelitas matavam os cordeiros, eles sabiam que isso simbolizava Cristo, a quem João Batista referiu-se como “Cordeiro de Deus” (Jo. 1:29) ? Será que Melquisedeque sabia que ele representava a Cristo (Sl. 110:4; Hb. 6:20)?

É muito improvável que tivessem consciência dos antítipos (representação futura do tipo) e provavelmente não tinham pleno conhecimento destas relaçoes entre tipos e antítipos. O fato de alguns fatos e personagens fossem tipos isso não quer dizer que as pessoas dessa época reconhecessem essa natureza representativa.

2.4 Elevação

Na tipologia, o antítipo é sempre mais importante do que o tipo correspondente. Cristo é superior a Melquisedeque, a obra redentora de Jesus é superior à pascoa celebrada pelos judeus. Muitos aspectos do Novo Testamento ilustram verdades do Novo, mas se não houver esta elevação não se trata de tipos.

2.5 Planejamento divino

Os tipos não são meras ilustrações para que os leitores da Bíblia prestem mais atenção aos fatos. Na verdade esta correspondência foi planejada por Deus. O tipo foi idealizado por Deus para apresentar uma similaridade com o antítipo, que por sua vez foi criado por Deus para ser o “cumprimento” do tipo. Podemos crer que houve um planejamento de Deus, pois se passaram muitos séculos até que o antítipo pudesse “cumprir” aquilo que o tipo representava.

Na questão da interpretação dos tipos muitos estudiosos assumem posições diversas, conforme abaixo:

1- Tipos são apenas os que se encontram expressos no Novo Testamento

2- Tipos estão explícitos, mas também podem estar implícitos, não declarados.

Devemos ter o cuidado de não cairmos no mesmo erro de alguns intérpretes, de enxergar tipos implícitos (se assim exitirem) na Bíblia, gerando mais alegorias e interpretações errôneas da Bíblia. Não devemos confundir as figuras de linguagem, vistas anteriormente, com os tipos, que estamos estudando.

Nos tópicos seguintes vamos estudar como descobrir quais personagens, fatos e elementos devem ser tratados como tipos. Vamos descobrir com que finalidade Deus criou os tipos.

3 Os tipos devem ser encarados como tipos no NT?

Dadas as cinco características acima temos ainda de definir se os tipos são tanto os implícitos como explicitos ou apenas os expressamente declarados no NT. Devemos ter em mente que apenas correspondências não satisfazem a condição para se constituir um tipo. Sempre levemos em consideração o aspecto profético e o planejamento divino.

Um exemplo. Muitos estudiosos acreditam que Salomão simbolizasse Cristo. Podemos realmente afirmar que Deus nos conta a história de Salomão para retratar a Cristo?

Podemos claro, perceber algumas analogias e semelhanças, mas onde estão o aspecto profético e o planejamento divino?

Então como podemos estabelecer um limite para que simples semelhanças ou mesmo ilustrações não passem a ser entendidas como tipo?

Podemos estabelecer que o NT especifique claramente quais personagens e elementos do AT são prefigurativos do NT. O texto do NT deve indicar de alguma forma que determinado elemento ou personagem seja um tipo válido, ou de outra forma, deve ser rotulado. Ao contrário, as ilustrações e analogias podem ser mais facilmente identificáveis pelos estudiosos.

Um tipo pode ser definido como uma personagem ou acontecimento do AT que Deus planejou (projetou) para prefigurar ou preparar outro personagem ou acontecimento no NT.

Agora, uma ilustração é um acontecimento ou personagem que retrata uma verdade espiritual, com naturalidade e espontaneidade, sem no entanto, ser declarado como tipo no NT.

Com base nisso podemos por exemplo dizer que a Arca de Noé não é um tipo da Igreja, mas pode ser facilmente ilustrada como tal. Podemos dizer que o profeta Elias ilustra um homem de oração, conforme Tiago nos diz em seu livro no capítulo 5 verso 17.

Devemos ter cuidado, pois uma simples analogia não deve ser entendida como um tipo.

Vejamos um comparativo entre Tipo, Ilustração e Alegoria na tabela 01.

Notemos que na Ilustração e Tipologia a realidade histórica é considerada, ao passo que na Alegorização este aspecto é descartado. A alegoria geralmente é apenas fruto da imaginação de seu intérprete.

4  Que tipos são válidos?

Precisamos fazer as seguintes perguntas para sabermos quais os tipos válidos nas escrituras:

1. Existe semelhança clara entre o tipo e o antítipo? O tipo apresenta exatamente os mesmos fatos, princípios e relações que o elemento do NT correspondente?

2. O antítipo está de acordo com o contexto histórico do tipo?

3. O tipo é uma prefiguração ou prenunciação do antítipo? Ou não passa de um exemplo? O tipo aponta para o futuro?

4. O antítipo eleva ou “cumpre” o tipo, sendo ainda superior?

5. Conseguimos ver o propósito divino na relação tipo-antítipo?

6. O NT especifica de alguma forma o tipo e o antítipo?

5  Quais as etapas para a interpretação dos símbolos?

1. Descobrir o sentido literal do tipo.

2. Reparar no ponto de correspondência entre o tipo e o antítipo.

3. Reparar nos elementos de contraste, para evitar caracterizá-los como aspectos do tipo.

4. Prestar bastante atenção às afirmações do NT que confirmem a correspondência tipológica.

6 Por que se preocupar com a tipologia?

Embora a princípio este estudo de tipologia aparentemente não seja tão útil ele é importante para vermos a mão de Deus durante toda a história da humanidade. Podemos com este estudo constatar que Deus planejou cada acontecimento e usou algumas pessoas e acontecimentos para retratar aspectos de Cristo e seu relacionamento com a igreja. E por que não dizer também para nos defender das heresias que tentam entrar em nossas igrejas?

Quando usamos os seis critérios de identificação dos tipos temos instrumentos mais precisos para interpretar o Antigo Testamento, e desta forma não ficamos de frente a um mar de incertezas sobre o que Deus quis realmente nos transmitir.

7  A compreensão dos símbolos

7.1  Em que consiste um símbolo?

Símbolo é uma figura, marca ou sinal que representa ou substitui outra coisa. Lembremos que o tipo representa um elemento futuro, mas o símbolo não está preso à idéia de tempo. Em um dado momento na história, o tipo tem seu cumpriment, ou seja, aquilo que ele representava no AT já se cumpriu no NT. Por exemplo, o tabernáculo no deserto representava a Cristo, era tipo de Cristo. Nenhum outro tabernáculo lembrava ou falava de Cristo. Agora quando dizemos que um leão representa a Cristo, qualquer leão pode significar isto, pois são as características do leão que são mencionadas e não os aspectos proféticos.

7.2  Quais princípios aplicamos na interpretação dos símbolos?

1- Reparar nos três fatores da interpretação de símbolos: o objeto (símbolo), o referente (elemento simbolizado) e o significado (semelhança entre símbolo e referente) – Em I Jo 1:29, o cordeiro (objeto) identifica a Cristo (referente) e o significado é que Cristo serviu de sacrifício como muitos outros cordeiros.

2- Lembrar-se de que os símbolos são fundamentados na realidade. – Quando se diz que Cristo é um cordeiro ou leão, não quer dizer que Cristo seja literalmente umna cordeiro ou leão. Mas, como estes animais existem é possível estabelecermos uma correspondência entre estes animais e Cristo. Nas passagens proféticas, muitas vezes os símbolos são fundamentados na imaginação ao invés dos fatos. Vejam Ap. 17:3 e Dn. 7:6. Porém estes símbolos tem elementos reais.

3- Descobrir qual o significado ou semelhança, se existente, o texto atribui de forma explícita ao referente – Quando existe u símbolo em uma profecia, o texto geralmente o indica. Por exemplo em Ap. 9:1, a estrela que caiu do céu é identificada no verso 2 como “ele”. Comparando com Ap. 20:1, parece não restar dúvida de que se trata de um anjo. O dragao do verso 2 é identificado com Satanás.

4- Se o versículo não indicar a semelhança, consultar outras passagens e verificar qual a característica principal entre o símbolo e o referente. – João referiu-se a Cristo como “o Cordeiro de Deus”, sem contudo, explicar a semelhança.

5- Tomar o cuidado de não atribuir ao referente a característica errada do símbolo – Um leão é forte e feroz, mas apenas sua ferocidade está relacionada a Satanás (I Pe. 5:8). A sua força refere-se a Cristo (Ap. 5:5) .

6- Procurar o elemento principal de semelhança – Resista à tentação de traçar muitos paralelos entre o símbolo e o elemento que simboliza.

7- Entender que um elemento principal pode ser representado por vários símbolos. – Cristo é simbolizado por um leão, cordeiro, um ramo, raiz, etc. O Espírito Santo é simbolizado pela água, pomba, vento, azeite.

8- Na literatura profética, não presumir que, pelo fato de da profecia conter alguns elementos simbólicos, tudo mais na profecia seja também simbólico. – Em apocalipse 19:19, a “besta” é um símbolo, porém “os reis da terra, com seus exércitos” não deve ser encarado como símbolo. No versículo 15 a espada que sai a boca de Cristo é um símbolo de seu juízo, mas isso não quer dizer que as nações citadas devam ser encaradas como símbolos também.

9- Na literatura profética, não transformar em símbolos as descrições de fatos que sejam prováveis ou plausíveis. – Em Apocalipse 8:12 diz que um terço do sol, da lua e das estrelas serão feridos e escurecerão. Como se trata de um fato plausível, isto não deve ser interpretado como um símbolo. Em Apocalipse 9, os gafanhotos que saíram do abismo devem ser entendidas ao pé da letra, pois o fato de gafanhotos, ou criaturas parecidas com gafanhotos, saírem do abismo é plausível. No passado esta passagem foi interpretada como símbolo dos turcos invadindo Israel.
7.3  Alguns exemplos de símbolos na Bíblia

Hoje em dia também temos simbolismos em nossas igrejas. O batismo e a ceia são dois deles. O batismo simboliza a identificação do cristão com a morte, sepultamento e ressurreição de Cristo. Quando participamos da ceia estamos simbolicamente proclamando a morte de Jesus, o pão simboliza seu corpo que foi partido na cruz e o cálice simboliza seu sangue que foi derramado para remissão dos pecados.

7.4  Números simbólicos

Alguns números nos transmitem determinadentos as idéias pelo fato de estarem sempre associados a alguns eventos especificos. Por exemplo, o número 7, é frequentemente associado à perfeição.

Gn 2:2,3
Ap. 1:12
Ap. 4:5
Ap. 5:1
Ap. 8:1

O número 40 costuma ser relacionado com provação.

40 anos de Moisés em Midiã (At. 7:29,30)
40 anos de Israel no deserto (Nm. 32:13)
40 dias que Jesus foi tentado (Lc. 4:2)

Apesar destes números transmitirem estes simbolismos não podemos deixar de atribuir-lhes o sentido literal. Ou seja, mesmo o número 40 representando provação, Jesus foi realmente provado durante 40 dias literais. O número embora representando a perfeição não nos dá o direito de fugir da interpretação literal. No caso dos candeeiros podemos interpretá-los como sendo em número de sete.
7.5  Nomes simbólicos

Os nomes de certas pessoas e lugares na Bíblia possuem significado simbólico. Porém não devemos procurar significados nos nomes, a menos que a Bíblia nos indique.mães

O nome Eva siginifica “vida” e foi dado por Adão, por ser a mãe de todos os viventes (Gn. 3:20)
Deus mudou o nome de Abrão em Abraão com o intuito de mostrar-lhe que ele seria pai de muitos povos.
Abrão significa “pai exaltado” e Abraão significa “pai de muitos”. Deus também mudou o nome de sua esposa de Sarai para Sara, que significa “princesa”.
As mães também costumavam dar nomes aos seus filhos de acordo com as circunstâncias do nascimento da criança.
Jacó não amava sua esposa Léia, por isso quando ela teve seu primeiro filho, ela o chamou de Rúbem. A palavra Reuben em hebraico significa “o Senhor atendeu a minha aflição”. Seu segundo filho, Simeão, tem o sentido de “aquele que ouve”. Levi, seu terceiro flho, significa “unido”, pois pensou que depois de três filhos Jacó a fosse amar um pouco mais e sua família fosse permanecer unida.
Seu quarto filho, Judá, recebeu este nome pois tem o siginificado de louvor. Como havia dado a Jacó 4 filhos ela louvava a Deus, pois pensava assim ter o amor de Jacó. (Gn 29:31-35)
A filha de Faraó chamou ao menino que encontrou no rio Nilo de Moisés, pois é parecido com o verbo “retirar” em hebraico. (Ex. 2:10).
O nome Daniel significa “Deus julgou” ou “Deus é eu juíz”. Porém o rei Nabucodonozor mudou seu nome para Beltessazar, que significa “Senhora, proteja o rei”. Era uma tentativa para fazer Daniel se esquecer de seu Deus. O mesmo aconteceu com seus amigos (Dn. 1:6,7).
Jesus mudou o nome de Simão para Cefas (aramaico) e Pedro (grego) que significa pedra (Jo. 1:42), em referência ao seu futuro papel na Igreja (At. 2).
Às vezes uma cidade ou nação ganhava outro nome. Deus chamou os líderes de Jerusalém de “príncipes de Sodoma” e seus habitantes de “povo de Gomorra” (Is. 1:10), pois seu pecado havia se igualado ao daquelas cidades.
Os estudiosos divergem quanto à menção que Pedro fez de Babilônia em I Pe. 5:13 – deve ser entendida como a verdadeira Babilônia, no Oriente Médio? Ou foi usada apenas para fazer uma menção indireta a Roma para proteger os cristão que viviam lá?
De acordo com a história, Pedro passou seus últimos dias em Roma, e seu “filho” Marcos, mencionado no mesmo versículo, pode ser João Marcos, que Paulo afimou estar em Roma (Cl. 4:10).

FIGURAS DE LINGUAGEM

1  O que é uma figura de linguagem?

Figura de linguagem é simplesmente uma palavra ou frase usada fora de seu emprego ou sentido original.

2  Por que se utilizam figuras de linguagem?

2.1  As figuras de linguagem acrescentam cor e vida

“O Senhor é a minha rocha” (Sl. 18:2) é uma forma viva de se dizer que podemos confiar no Senhor, pois ele é forte e inabalável.

2.2  As figuras de linguagem chamam a atenção

O interesse do ouvinte ou leitor é despertado. Isso fica nítido na advertência de Paulo em Fp. 3:2, cuidado com esses cães.

2.3  As figuras de linguagem tornam os conceitos abstratos mais concretos

A frase: “por baixo de ti estende os braços eternos” (Dt. 33:27) certamente transmite uma idéia mais concreta do que “O senhor te sustentará”.

2.4  As figuras de linguagem ficam mais registradas na memória

A afirmação de Oséias “Como vaca rebelde se rebelou Israel…” (Os. 4:16) é mais fácil de lembrar do que se  tivesse escrito: “Israel é extremamente teimoso”.

2.5  As figuras de linguagem sintetizam uma idéia

Elas captam a idéia de forma mais abreviada, elas dizem muito em poucas palavras. A famosa metáfora: “O Senhor é meu Pastor…” (Sl 23:1) nos transmite rapidamente a idéia do cuidado de um pastor com suas ovelhas.

2.6  As figuras de linguagem estimulam a reflexão

As figuras de linguagem levam o leitor a parar e pensar. Quando lemos Salmos 52:8 – “quanto a mim, porém, sou como a oliveira verdejante, casa de Deus…” – somos desafiados a meditar nas semelhanças que este símile nos traz à mente.

3  Como saber se uma expressão apresenta sentido figurado ou literal?

Em geral, uma expressão está em sentido figurado quando destoa do assunto, ou quando não combina com os fatos, experiência ou observação. Quando o Cleber Machado narra um jogo de futebol e diz que o “Porco” venceu o “Leão”, não quis dizer realmente que um porco (animal) venceu um leão (animal), mas sim que o Palmeiras venceu o Sport, ou seja, naquele contexto (futebol) faz todo sentido.

As regras abaixo nos ajudam a identificar as figuras de linguagem.

1. Adote sempre o estilo literal das passagens, a menos que hajam boas razões para não fazê-lo. Por exemplo, quando João disse que 144.000 serão selados – 12.000 de cada uma das 12 tribos de Israel –  não há razão para não respeitarmos o sentido normal, literal (Ap. 7:4-8). No entanto, no verso seguinte o apóstolo faz menção do “Cordeiro” (v. 9), o que, obviamente é uma referência a Jesus, não a um animal, como João 1:29 deixa claro.

2. Se o sentido literal resultar numa impossibilidade, o sentido verdadeiro é o figurado. O Senhor disse para jeremias que o havia posto como “coluna de ferro e por muros de bronze” (Jr. 1:18).

3. O sentido é o figurado se o literal resultar em um absurdo, como no caso das árvores baterem palmas (Is. 55:12).

4. Adote o sentido figurado se o literal sugerir imoralidade. Com seria um ato de canibalismo comer a carne de Jesus e beber seu sangue, é evidente que ele estava usando o sentido figurado (Jo. 6:53-58).

5. Veja se a expressão figurada vem acompanhada de uma explicação literal. Aqueles que dormem (1 Ts. 4:13-15) logo em seguida são chamados de “os mortos” (v. 16).

6. Às vezes uma figura é realçada por um adjetivo qualitativo, como Pai celeste (Mt. 6:14), “o verdadeiro pão” (Jo. 6:32), a pedra que vive (1 Pe. 2:4). Isso indica que o substantivo anterior não deve ser entendido em seu sentido literal.

4  A linguagem figurada é oposto da interpretação literal?

Não devemos achar que o sentido figurado seja o oposto do sentido literal. O sentido figurado transmite a verdade literal, ou seja, o autor apenas escreveu a mensagem literal de outra forma, para reforçar seu sentido; mas, os fatos são literais. Não devemos confundir com a alegorização, que já foi vista na aula 03 deste módulo.

Por exemplo, quando dizemos: “Fulano virou um bicho quando soube”, claro que não quer dizer que virou um animal, mas ficou furioso. Porém a verdade é literal, seja falando de uma forma ou de outra.

5  Alguns tipos de figuras de linguagem

5.1  As figuras de linguagem que transmitem comparação

Símile – É uma comparação que lembra outra explicitamente. Pedro usou um símile quando disse que “…toda carne é como a erva…” (1 Pe. 1:24). Jesus também fez uso do símile quando disse: “…eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos”. A dificuldade dos símiles é descobrir as semelhanças entre os dois elementos. Em que aspecto a carne é como a erva. De que forma os cristãos são como cordeiros?

Metáfora – É uma comparação em que um elemento representa outro, sendo que os dois são essencialmente diferentes. Em uma metáfora a comparação está implícita. Temos um exemplo disso em Isaías 40:6: “Toda a carne é erva”. Note que é diferente da expressão em 1 Pedro, acima. Jesus comparou seus seguidores ao sal: “Vós sois o sal da terra” (Mt. 5:13). Quando Jesus afirmou: “Eu sou a porta” (Jo. 10:7-9), “Eu sou o bom pastor” (vv. 11-14) e “Eu sou o pão da vida” (6:48), ele estava fazendo comparações. O leitor é levado a pensar de que forma Jesus assemelha-se a tais elementos.

Hipocatástase – Não é uma figura de linguagem tão conhecida, mas também faz uma comparação, na qual a semelhança é indicada diretamente. Davi, no Salmos 22: 16, disse: “Cães me cercam…”. Ele não estava se referindo aos caninos, mas sim aos seus inimigos. Os falsos mestres também são chamados de cães em Filipenses 3:2, e lobos vorazes em Atos 20:29. Em João 1:29, João Batista fez uso de uma hipocatástase quando exclamou: “Eis o Cordeiro de Deus”.

5.2  As figuras de linguagem que transmitem substituição

Metonímia – A metonímia consiste em trocar uma palavra por outra. Por exemplo, quando afirmamos que o Congresso tomou uma decisão, queremos dizer que os deputados e senadores tomaram a decisão. Pode ser também que a causa seja usada em lugar do efeito. Os opositores de Jeremias disseram: “…vinda, firamo-lo com a língua…” (Jr. 18:18). Como seria absurdo produzir ferimentos com a língua, é claro que eles estavam referindo-se a palavras. Em Atos 11:23, temos outro exemplo quando fala de Barnabé: “…e, vendo a graça de Deus…”. O sentido aqui só pode ser o do efeito da graça, pois a graça, na realidade não pode ser vista. Temos exemplos de substituição de elementos relacionados ou semelhantes. quando Paulo disse: “Não podeis beber o cálice do Senhor…” (1 Co. 10:21), ele não estava se referindo ao cálice propriamente dito, mas sim ao conteúdo do cálice. Quando o Senhor disse para Oséias que “a terra se prostituiu…”, a palavra terra diz respeito à população.

Sinédoque – É a substituição do todo pela parte, ou da parte pelo todo. Em Lucas 2:1, a Bíblia nos diz que o imperador César Augusto emitiu um decreto de que deveria ser feito o censo “do mundo todo”. Ele falou do todo, mas estava se referindo ao Império Romano. É óbvio que Provérbios 1:16 – “…os seus pés correm para o mal…” – não significa que somente os pés corriam para o mal. Os pés são a parte que representa o todo. Áquila e Priscila arriscaram suas próprias cabeças (Rm 16:4). Nesta sinédoque, “suas cabeças” representa suas vidas, o todo.

Personificação – É a atribuição de características ou ações humanas a objetos inanimados, a conceitos ou animais. A alegria é uma emoção atribuída ao deserto, em Isaías 35:1. Isaías 55:12 fala de montes cantando e árvores batendo palmas. A morte personifica-se em Romanos 6:9 e em 1 Corintios 15:55.

Antropomorfismo –  é a atribuição de qualidades ou ações humanas a Deus, como ocorre nas referências aos dedos de Deus (Sl. 8:3), a seus ouvidos (31:2) e a seus olhos (2 Cr. 16:9).

Antropopatia – Esta figura de linguagem atribui emoções humanas a Deus, como vemos em Zacarias 8:2: “…tenho grandes zelos de Sião”.

Zoomorfismo – Se o antropomorfismo atribui qualidades humanas a Deus, o zoomorfismo atribui características animais a Deus (ou outros). Em Salmos 91:4, faz-se referência a penas e asas. Jó descreveu o que ele considerou como ira de Deus contra ele quando disse: “…contra mim rangeu os dentes…” (Jó 16:9).

Apóstrofe – É uma referência direta a um obejto como se fosse uma pessoa, ou uma pessoa ausente ou imaginária, como se estivesse presente. O salmista empregou um apóstrofe em Salmos 114:5: “Que tens, ó mar, que assim foges?…” Miquéias fala diretamente à terra, em Miquéias 1:2: “Ouvi, todos os povos, prestai atenção, ó terra…”. Em Salmos 6:8, o salmista fala como se seus inimigos estivessem presentes: “Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade…”.

Eufemismo – Consiste na substituição de uma expressão desagradável por outra mais suave. Falamos da morte mediante eufemismos: “passou desta para melhor”, “bateu as botas”. A Bíblia fala da morte dos cristãos como um adormecimento (At. 7:60; 1 Ts. 4:13-15).

5.3  As figuras de linguagem que transmitem omissão ou supressão

Elipse – é uma supressão de uma palavra facilmente subentendida. É a omissão intencional de um termo facilmente identificável pelo contexto ou por elementos gramaticais presentes na frase.Em 1 Co. 15:5, “os doze”, representa “os doze apóstolos”.

Pergunta retórica –  Uma pergunta retórica é aquela que não exige resposta; seu objetivo é forçar o leitor a respondê-la mentalmente e avaliar suas implicações. Quando Deus perguntou para Abraão: “Acaso para Deus há algo muito difícil?…” (Gn. 18:14), ele não esperava ouvir uma resposta. A intenção era que o patriarca refletisse mentalmente. Paulo fez uma pergunta retórica em Romanos 8:31: “… se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Estas perguntas são formas de se transmitir informações.

5.4  As figuras de linguagem que transmitem exageros ou atenuações

Hipérbole – É uma afirmação exagerada em que se diz mais do que o significado literal, com o objetivo de dar ênfase. Vejamos em Deuteronômio 1:28 a resposta dos espias israelitas sobre a tomada de Canaã: “”…as cidades são grandes e fortificadas até os céus…”

Litotes – É uma frase suavizada ou negativa para expressar uma afirmação. É o oposto da hipérbole. Quando dizemos: “Ele não é um mal goleiro”, na realidade queremos dizer que ele é um goleiro muito bom. Esta atenuação dá ênfase à frase. Em Atos 21:39, Paulo disse: “… eu sou judeu, natural de Tarso, cidade não insignificante”, quis dizer que Tarso era uma cidade importante.

Ironia – É uma forma de ridicularizar indiretamente sob a forma de elogio. Geralmente vem marcada pelo tom de voz da pessoa que fala, para que os ouvintes percebam. Por isso, às vezes é difícil saber se algo escrito é, ou não, uma ironia. O contexto nos ajuda a perceber isso. Por exemplo Mical, filha do rei Saul, disse a Davi: “… que bela figura fez o rei de Israel…” (2 Sm. 6:20). O versículo 22 nos mostra que o sentido pretendido era o oposto, ou seja, o rei havia se humilhado agindo daquela maneira. Em 1 Reis capítulo 18, no episódio de Elias contra os profetas de baal, vemos que Elias ironizou a baal várias vezes.

Pleonasmo – Consiste na repetição de palavras ou no acréscimo de palavras semelhantes. Atos 2:30 quer dizer literalmente “Deus lhe havia jurado com juramento”. Como para nossa língua é uma repetição desnecessária a  NTLH traduziu sem esta repetição.

5.5  As figuras de linguagem que transmitem incoerências

Oxímoro – Consiste na combinação de dois termos opostos ou contraditórios. Quando falamos, por exemplo, “um silêncio eloqüente”, empregamos um oxímoro. Em Fp. 3:19, Paulo diz que a glória dos inimigos de Cristo está em sua infâmia; em Romanos 12:1 somos desafiados a sermos “sacrifícios vivos”.

Paradoxo – É uma afirmação aparentemente absurda ou contrária ao bom senso. Um paradoxo não é uma contradição; é simplesmente algo que parece ser o oposto do que em geral se sabe. Jesus utilizou muitos paradoxos em seus ensinos. Um deles nos diz que quem quiser salvar sua vida deve perdê-la. Os humilhados serão exaltados. O maior no reino de Deus é o menor. Se você quiser viver então morra.

6  Como devemos interpretar as figuras de linguagem?

6.1  Descobrir se existe alguma figura de linguagem

Às vezes a figura de linguagem não é reconhecida no texto, causando um grande problema de interpretação. Quando Paulo falou sobre suportar as adversidades como um bom soldado, competir com um atleta e receber os frutos da safra como um fazendeiro (2 Tm. 2:3-6), ele não estava instruindo soldados, atletas ou fazendeiros.

Quando Jesus disse: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis para os porcos as vossas pérolas…” (Mt. 7:6), não estava se referindo a cães ou porcos literalmente. Cães e porcos eram considerados animais impuros. Portanto o que deve ser entendido aqui é que não devemos confiar as coisas santas aos ímpios.

Em Jó 38:7, não devemos entender que as estrelas realmente cantam. Devemos entender que a criação se alegrou com a obra criadora de Deus (personificação).

Por outro lado, às vezes uma declaração normal é confundida com figura de linguagem. Em Amós 4:9, não há motivo para crermos de se tratar de adversidades espirituais, pois de fato estas coisas aconteceram.

6.2  Descobrir a imagem e o objeto na figura de linguagem

Em certos casos, ambos são evidentes no versículo, como acontece em Isaías 8:7. A princípio pode-se ficar na dúvida se a inundação é real ou figurada. A resposta está no verso seguinte. Portanto, podemos afirmar que a imagem são as águas impetuosas e o objeto é o rei da Assíria. Contudo, algumas vezes, o objeto não é especificado e pode até ser confundido. Foi o que aconteceu com as palavras de Jesus em João 2:19: “Destruí este santuário…”. Santuário era a imagem e os leitores (e ouvintes) pensaram que o objeto fosse o templo de Herodes, quando na realidade, Jesus estava falando de seu próprio corpo.

6.3  Especificar o elemento de comparação

Muitas vezes a imagem está expressa, porém, o objeto embora não esteja explícito, é indicado pelo contexto. Em Lucas 5:34 não diz que o noivo é Jesus, mas o significado está implícito, já que no verso seguinte Jesus diz que o noivo seria tirado deles.

6.4  Não presumir que uma figura sempre signifique a mesma coisa

Em Oséias 6:4, o orvalho simboliza a brevidade do amor de Judá, enquanto em 14:5 fala da benção do Senhor sobre Israel.

6.5  Sujeitar as figuras a limites por meio da lógica e da comunicação

Quando Jesus falou para a igreja de Sardes “…virei como um ladrão…” (Ap. 3:3), não quis dizer que viria para roubar.No caso, o elemento de comparação é que viria repentinamente. Quando Jó falou das “colunas” da terra se estremecendo (Jó 9:6), estava falando das montanhas, não como se a terra se apoiasse em colunas.

%d blogueiros gostam disto: