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A GRAMÁTICA PODE NOS AJUDAR?

Um dos fatos mais importantes da Reforma foi a volta da interpretação histórica e literal da Bíblia. Este método era oposto ao método que estava sendo utilizado havia séculos, o método alegórico.

Neste método, as palavras e frases da Bíblia adquiriam vários outros sentidos do que o literal, e a objetividade foi-se perdendo.

Então, se cada um podia dar sua própria interpretação, como confiar que a Bíblia era uma revelação clara de Deus?

1  Por que a interpretação gramatical é importante?

Como estudamos no módulo passado, a inspiração da Bíblia é verbal, ou seja, palavra por palavra; deste modo, cremos que cada palavra, e sua colocação na frase é importante.

Então, a interpretação gramatical da Bíblia respeita integralmente a inspiração verbal das Escrituras.

Nossa meta, no estudo de interpretação das Escrituras é descobrir com maior exatidão possível o que cada palavra, cada frase quer dizer.

2  Como se descobre o significado das palavras?

Existem quatro fatores que determinam o significado de uma palavra: etimologia, uso da palavra, sinônimos e antônimos e o contexto.

2.1  Etimologia das palavras

A etimologia estuda a origem e evolução das palavras. Por exemplo, a palavra ekklesia, normalmente traduzida por igreja, vem de ek (“para fora”) e kalein (“chamar” ou “convocar”). Por isso, no Novo Testamento, passou a significar aqueles que eram chamados para fora dos ímpios para integrar a comunidade dos crentes.  O sentido original de ekklesia era de uma assembléia, reunião, convocada por um homem público, para discutir assuntos comunitários.

Vejamos também a palavra evangelion. No grego clássico significava “recompensa por boas novas”. Posteriormente veio significar “boa mensagem”. E no Novo Testamento adquiriu o significado de “boas notícias da salvação” em Jesus Cristo.

Como vimos, a etimologia, pode ajudar em alguns casos, porém não devemos usar como método exclusivo de estudo, pois as palavras podem mudar, e muito, seu sentido original.

2.2  Uso das palavras

Já que a etimologia não nos ajuda a esclarecer o significado de um termo, precisamos descobrir qual era o sentido mais comum que faziam desta palavra na época em que o texto foi escrito. Isto tem importância especial, porque uma palavra pode ter mais de um sentido de acordo com o texto. Por exemplo a palava “casa”: “ele casa amanhã”, “ela foi para casa”, “o número tem duas casas decimais”, “ela pregou os botões, mas não fez as casas”.

No Novo Testamento, a palavra chamado aparece pelo menos de duas maneiras: Nos evangelhos, o “chamado” divino significa o convite de Deus. Já Paulo, usa esta palavra para designar a missão que Deus atribuíra a ele (Rm. 1:1), a obra de salvação (Rm 8:28-30).

A palavra grega pneuma (espírito) deriva de pneo (respirar). Mas na Bíblia, o sentido raramente é este. Significa também, vento, atitude, emoções, natureza espiritual, íntimo (em oposição ao corpo físico), seres imateriais como anjos e demônios e o Espírito Santo.

Além do contexto, como veremos adiante, é preciso analisar as diversas situações em que a palavra é utilizada.

Primeiramente procure descobrir como o autor emprega a palavra no mesmo livro. Se o contexto não ajudou, procure saber como o autor utilizou-a em outros trechos do livro. A palavra profetas em Efésios 2:20, está se referindo aos profetas do Antigo Testamento ou do Novo? Examinando como Paulo emprega a mesma palavra nos trechos 3:15 e 4:11, chegamos à conclusão de que profetas, nestes trechos, se referem aos profetas do Novo Testamento. Desta maneira, é provável que o significado em 2:20 seja o mesmo. Porém, cabe também a interpretação dos profetas do Antigo Testamento, de acordo com o contexto geral da Bíblia.

Em segundo lugar, veja como o autor usa o termo em outros livros que tenha escrito. O uso que João faz das palavras luz e trevas em 1 João nos ajuda a esclarecer o uso que ele faz destas palavras no Evangelho e em Apocalipse.

Em terceiro lugar, veja como outros autores bíblicos utilizam o termo. Por vezes, o contexto pode não dar nenhuma pista do significado, e talvez o autor não volte a utilizar o termo em seu livro. Por isso, é bom estudar como o termo foi empregado em outros livros. Tomemos por exemplo a palavra hebraica almâ (que significa moça ou virgem), em Isaías 7:14, podemos estudar as outras ocorrências para esta palavra no Antigo Testamento (Gn. 24:43; Ex. 2:8; Sl. 68:25; Pv. 30:19; Cn. 1:3; Cn. 6:8). Mas isso não quer dizer que o significado seja sempre o mesmo, conforme vemos no exemplo em Êxodo 2:8.

Em quarto lugar, verifiquem o significado da palavra fora da Bíblia. No Antigo Testamento hebraico, cerca de 1.300 palavras ocorrem apenas uma única vez, enquanto que outras 500 aparecem duas vezes. Então, seu significado não pode ser compreendido mediante a comparação com outros textos. A comparação de tais palavras com outros escritos que não a Bíblia, pode nos ajudar. Vejamos um exemplo em Provérbios 26:23. A palavra hebraica sprg foi traduzida como escórias de prata nas versões ARA e ARC. Já a NVI e a NTHL traduziram como verniz, o que no texto em questão nos faz mais sentido. A conclusão para esta tradução foi tomada com base em escritos ugaríticos, uma língua muito parecida com o hebraico.

Os estudiosos chegaram à conclusão que pesquisando as palavras gregas do Novo Testamento em grego comum (koine), ajuda a decifrar o sentido desta palavra no texto. Vejamos 2 Tessalonicenses 3:6. A palavra ataktos foi traduzida como desordem. Isso se deve ao fato de que ataktos, no grego clássico significava o abandono de um soldado do exército, que eram considerados desordeiros. Porém, em escritos gregos próximos à época neotestamentária, ataktos era usada em referência a um menino que “mata” aula na escola. Neste caso, o sentido seria mais de preguiçoso, e não desordeiro.
2.3  Sinônimos e antônimos

Perceber a diferença entre uma palavra e seus sinônimos pode nos ajudar a reduzir o número de significados possíveis. Nem sempre devemos atribuir à uma palavra o sentido de seu sinônimo, mas sim verificar a variação de sentidos que havia nas palavras. Às vezes essas variações não são perceptíveis, pois os sinônimos podem ter significados praticamente idênticos. Em Romanos 14:13, por exemplo, Paulo cita a palavra escândalo e tropeço. A palavra escândalo (skandalon em grego) significava algo que prejudicasse gravemente alguém, enquanto que tropeço (proskomma em grego) significava algo que incomodasse uma pessoa. Então, Paulo quis dizer que não devemos prejudicar ninguém, nem seria, nem ligeiramente.
Perceber a diferença entre o sinônimo ou antônimo de uma palavra pode elucidar qual o sentido deste termo. Em Romanos 8: 4-9 a palavra carne diz respeito ao corpo físico ou à natureza pecaminosa? A Bíblia NTLH já foi traduzida tendo em mente este conceito.

2.4  Contexto

A análise do contexto é de vital importância para o estudo e aplicação das Escrituras. Por pelo menos três motivos.
Em primeiro lugar, as palavras e frases podem assumir sentidos diferentes, e o estudo do contexto pode nos ajudar a descobrir qual o sentido mais provável.
Em segundo lugar, os pensamentos são escritos seguindo uma seqüência lógica, com os elementos associados, não isolados.
Em terceiro lugar, desconsiderar o contexto pode dar margem a falsas interpretações e até heresias. Vejamos o exemplo de Salmos 2:8; os missionários gostam muito de usar este versículo, para ilustrar sua expectativa de conversões nos campos missionários, porém analisando o versículo anterior chegamos à conclusão de que é Deus-Pai falando a Deus-Filho. A confirmação disto está em Atos 13:33.
Vamos fazer um exercício interessante. Atribua um dos sete significados da palavra kosmos aos 6 versículos da folha anexa. A questão aqui é que em geral cada ocorrência de uma palavra normalmente só aceita um dos significados possíveis, que é determinado pelo contexto, no caso destes versículos, pelo contexto imediato.
Outro exemplo é a palavra fé, que pode significar confiança em Deus, um conjunto de verdades ou concordância intelectual. Judas 3 e Gálatas 1:23 empregam a palavra fé em um destes sentidos; Romanos 1:17 e Efésios 2:8 em outro destes sentidos e Tiago 2:18 com mais outro sentido.

O termo lei, também pode possuir vários significados, de acordo com a frase. Por exemplo, em Romanos 2:14 e 8:2, o termo lei passa a significar “principio”.    Em João 1:17, 45, refere-se ao Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia. Agora, em Mateus 22:40 significa, provavelmente, todo o Antigo Testamento, exceto os Profetas. Esta mesma palavra em Romanos 2:12 e 8:3, refere-se ao código mosaico.
O contexto do parágrafo ou do capítulo pode ajudar a elucidar o sentido da palavra, caso o versículo não deixe muito claro. Por exemplo, em João 2:19, Jesus falou sobre destruir o templo, e no versículo 21 disse que se referira a seu corpo. Em João 7:37-38, Jesus disse que do interior do crente “fluirão rios de água viva”. No versículo seguinte, o apóstolo explica que Jesus estava falando do Espírito Santo.
Outro contexto que precisa ser levado em consideração é o livro onde a palavra, ou expressão foi utilizada. Citamos como exemplo 1 João 3:6-10. Ele não pode estar dizendo que um crente nunca peca, como se vê claramente na mesma epístola. Quando entendemos que Tiago, em sua carta, quis dar exemplos de fé autêntica, fica mais fácil entender o que ele quis dizer da relação entre fé e obras. Caso esta suposta fé não tenha produzido durante toda a vida nenhum fruto, é óbvio que essa fé não era autêntica e não pode salvá-lo.
O  contexto das passagens paralelas também deve ser considerado. Algumas vezes, palavras, idéias ou expressões, são repetidas em outros trechos, com outras palavras. Existem paralelos muito próximos entre 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas, entre os evangelhos, algumas passagens de Romanos e Gálatas, Efésios e Colossenses, alguns versículos de 1 Pedro e Judas e Daniel e Apocalipse. Isso sem citar as passagens isoladas.
A Bíblia como um todo também deve ser utilizada como contexto. Vamos tomar como exemplo o texto de Gálatas 5:4. A princípio nos parece que Paulo diz que o cristão pode perder a salvação. Mas isto seria uma contradição  ao teor das escrituras. O mesmo acontece com Filipenses 2:12, onde a expressão “desenvolvei a vossa salvação” pode ser mal interpretada como se a salvação dependesse de obras.
Vejamos o texto de Jeremias 17:9, onde o termo hebraico anush foi traduzido como “desperadamente corrupto”. Porém, seu uso em outras partes do Antigo Testamento (Jó 34:6; Is. 17:11; Jr. 15:18), indica que o sentido é de gravemente adoecido. Tendo por base este significado, a HTNL e a NVI traduziram por “doente demais para ser curado” e “impossível de ser curado” respectivamente.
Com relação ao contexto da Bíblia temos duas verdades já demonstradas:

1. Um texto obscuro ou de sentido ambíguo não deve ser interpretado de forma que contradiga outro de sentido claro. Por exemplo, a expressão “os que se batizam por causa dos mortos” em 1 Co. 15:29, não deve ser entendida com o significado de salvação depois da morte, pois contraria o ensino de Hb. 9:27.
2. Não se deve dar preferência a uma interpretação complexa ou obscura ao invés de outra mais simples e clara. Em Mateus 16:28 quando jesus disse que alguns ali não morreriam até ve-lo vir como rei, é claro, não estava se referindo à sua segunda volta para implantar o reino milenar aqui, pois Jesus ainda não voltou, e todos com os quais Ele falou na ocasião já morreram. Então a explicação mais simples, e natural, é que Jesus estava se referindo à sua transfiguração, seis dias depois de dito isso. Jesus apareceu glorificado, como de fato se dará em sua segunda vinda.

Esta aula trata do significado das palavras, então devemos ter em mente os seguintes princípios:
1. Geralmente uma palavra não tem o mesmo significado original, e nem sempre os elementos que a compõem determinam seu sentido.
2.  Os significados de palavras em nossa língua não devem ser transportados para os textos bíblicos.
3. Uma mesma palavra pode ter significados diversos em suas várias ocorrências na Bíblia.
4. Cada palavra ou expressão normalmente só tem um significado, que é indicado por seu emprego na frase e/ou em um ou mais contextos.
5. Um mesmo termo da Bíblia nem sempre possui o mesmo sentido.
6. Não se deve atribuir a uma palavra todos os seus possíveis significados em qualquer situação. O contexto de uma declaração normalmente determina o único sentido pretendido dentre todos os vários possíveis. Por outro lado é preciso admitir que às vezes ambigüidades podem ocorrer.

Em João 1:5, o apóstolo escreveu que as trevas não prevaleceram contra a luz. O termo grego katalambano pode significar tanto abranger quanto prevalecer. Este pode ser um caso em que João optou, de propósito, pela ambigüidade, pois os dois sentidos são possíveis.
Um exemplo semelhante e interessante é a palavra anothen (Jo 3:3), que pode significar “do alto” ou “de novo”. É perfeitamente concebível que haja um duplo sentido aqui, ou seja, o novo nascimento vem tanto do alto, como acontece de novo.
Estes casos não anulam o sentido único das palavras, a não ser que o contexto nos apresente um forte motivo para fazermos o contrário.

2.5  Para que conhecer as partes de uma frase?

A função gramatical de uma palavra em uma frase pode mudar completamente seu sentido. A palavra “casa”, por exemplo; pode ser tanto um verbo, como um substantivo. Na frase “A casa foi pintada”, a palavra casa é um substantivo. Já em “Ele casa o mês que vem”, é um verbo.
Vamos ver alguns exemplos que nos mostram como o conhecimento das partes da frase podem nos ajudar a interpretar a Bíblia corretamente.
1. A diferença entre descendente e descendentes é um elemento importante na argumentação de Paulo em Gálatas 3:16.
2. Em Apocalipse 3:10, a preposição ek significa “fora de” e não “através de”, como alguns acham que deveria ser traduzida. Isto é um forte argumento de que a Igreja não passará pela Grande Tribulação, antes, será arrebatada.
3. O primeiro verbo de Romanos 3:23, “pecaram”, está no tempo passado indefinido, podendo ser traduzido como “todos ainda pecam”, pois pode ser um ato cometido em qualquer momento. O segundo verbo “carecem”, está no presente, e dever ser traduzido, entendido como “estão sempre aquém”.
4. No hebraico, o tempo perfeito exprime ação completa. Então por que este tempo verbal é usado em Isaías 53:2-9? Por que estes acontecimentos teriam este exato desfecho, que poderia ser usado até o tempo passado, mesmo se tratando de um acontecimento futuro.

2.6 Revisão

A interpretação gramatical consiste em atentar para as palavras e seu uso nas frases. Embora isto possa parecer em um primeiro momento algo chato, difícil ou mesmo complicado, é de vital importância para entendermos e aplicarmos a Bíblia em nossa vida de uma forma correta.
A seguir, um resumo dos passos que devemos seguir para uma interpretação bíblica correta.

A. Maneiras de descobrir o significado de uma palavra:

1. Examine sua origem (etimologia), até mesmo o significado original e quaisquer outros significados que surgiram a partir dele.
2. Descubra como a palavra é empregada:
a. pelo mesmo autor no mesmo livro;
b. pelo mesmo autor em outros livros;
c. por outros autores na Bíblia;
d. por outros autores em outros documentos.
3. Descubra como são empregados os sinônimos e antônimos.
4. Analise os contextos:
a. o contexto imediato;
b. o contexto do parágrafo ou capítulo;
c. o contexto do livro;
d. o contexto de passagens paralelas;
e. o contexto da Bíblia como um todo.
5. Verifique qual dos diversos sentidos possíveis melhor se enquadra na idéia do versículo.

B. Maneiras de descobrir o significado de uma frase:
1. Analise a frase e seus elementos, nas classes de palavras, na ordem das palavras e nas orações contidas na frase.
2. Descubra o significado de cada palavra-chave (veja os 5 itens acima) e o modo como elas influenciam o sentido da frase.
3. Analise a participação de cada elemento da frase na idéia transmitida pelo todo.

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