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INTERPRETANDO AS EPÍSTOLAS – PARTE I

A partir desta lição começaremos a estudar os diferentes gêneros de literatura que compoem a Bíblia. Começaremos estudando as Epístolas. A razão para isto é que elas totalizam quase 50 por cento do Novo Testamento. Aparentemente parece ser fácil sua interpretação, afinal que mistério há em se compreender que todos pecaram e estão afastados da glória de Deus (Rm. 3:23)? Ou então qual a dificuldade na interpretação de que o salário do pecado é a morte (Rm. 6:23)? E ainda não temos dificuldade de entender que somos salvos pela graça por meio da fé (Ef. 2:8), não é mesmo?

Bom, para nosso estudo das Epístolas vamos usar como modelo I Coríntios. E em nosso objeto de estudo devemos tomar a opinião de Paulo como sendo Palavra de Deus (7:25)? E no caso da exclusão de um membro? Como isto se aplica hoje em dia quando há tantas igrejas, que basta apenas atravessar a rua (capítulo 5)? E como ficam as mulheres? Devem ou não usar véu nos dias de hoje?

Estes e outros exemplos serão estudados para sabermos como interpretar estes escritos de 2 mil anos que usamos ainda hoje.

1 A natureza das epístolas

Antes de comerçarmos a estudar I Corintios como nosso modelo vamos primeiro analisar a estrutra de uma carta, que contém, em geral, as seis partes seguintes:

1- o nome do escritor (ex. Paulo)
2- o nome do endereçado (ex. à Igreja de Deus em Corinto)
3- a saudação (ex. Graça a vós outros e paz da parte de nosso Deus e Pai…)
4- oração (ex. Sempre dou graças a Deus a respeito de vós…)
5- o corpo
6- a saudação final e despedida (ex. a graça do Senhor seja convosco)

Algumas cartas podem fugir um pouco deste padrão; é o caso da carta aos Hebreus.

Notemos que o autor pula todas as quatro primeiras partes e vai direto ao assunto. Vamos perceber também, durante a leitura, que esta carta não assume um tom muito pessoal, como muitas das cartas de Paulo por exemplo.

A carta de I João também não possui os elementos formais de uma carta comum, e assim como o autor de Hebreus, João parte diretamente ao assunto.

Tiago e II Pedro começam como cartas, tem os elementos iniciais, porém lhes falta a saudação final.

Estas cartas todas, parecem ter sido realmente escritas para um público geral, e não para alguém em particular.

Algo que todas as cartas têm em comum é o fato de serem ocasionais. Ou seja, embora tendo a ação do Espírito Santo, e servindo para nós nos dias de hoje, foram inicialmente escritas para o povo do século I. Esta é a maior dificuldade que encontramos na interpretação destes escritos. Como contextualizarmos os mandamentos para nós do século XXI ? Nas próximas lições vamos aprender como estudar e interpretá-las corretamente.

2  O contexto histórico

A primeira coisa a ser feita antes de comerçarmos a estudar e interpretar a Carta aos Coríntios é nos perguntar o que levou Paulo a escrever uma a eles. Outra coisa é procurarmos saber o máximo possível sobre a localidade onde viviam. Sabemos que pelos padrões da época Corinto era uma cidade relativamente nova. Devido à sua localização estratégica cresceu muito comercialmente, e era uma cidade bastante religiosa, com diversos templos de deuses espalhados pela cidade. Além disso, era uma cidade com muita cultura e sobretudo rica. Fazendo então uma análise rápida, podemos dizer que Corinto era uma mistura de Rio de Janeiro, São Paulo e Aparecida do Norte. Ou seja, não foi uma carta escrita para uma cidade do interior de Roraima. Mantendo estes dados em mente, nossa compreensão do assunto da carta será muito mais proveitoso.

A segunda coisa é tomarmos um tempo para lermos a carta toda de uma única vez. Afinal este é o processo de leitura quando lemos uma matéria no jornal ou um e-mail. Não tente nesta primeira leitura achar o significado de cada palavra ou frase, por hora é apenas a visão panorâmica que nos interessa. Podemos sim, anotar algumas coisas nesta primeira leitura:

1- o que está escrito sobre os endereçados? São judeus, gentios, ricos, escravos? Quais os seus problemas e atitudes?
2- as atitudes de Paulo
3- quaisquer coisas específicas na ocasião em que a carta foi escrita.
4- as divisões lógicas da carta.

Claro que, se mesmo isso for demais para esta primeira leitura, isto pode ser feito durante o estudo, depois da primeira leitura.

Com base na estrutura apresentada acima, podemos ter notado as seguintes coisas:

1-Os crentes coríntios eram principalmente gentios, mas haviam alguns judeus também (6:9-11; 8:10; 12:13). Gostavam de sabedoria e conhecimento (1:18 – 2:5; 4:10; 8:1-13; ). Eram orgulhosos e arrogantes (4:18; 5:2-6), até ao ponto de julgarem Paulo (4:1-5; 9:1-18)
2- A atitude de Paulo variou entre a repreensão (4:8-21; 5:2; 6:1-8), o apelo (4:14-17; 16:10-11) e a exortação (6:18-20; 16:12-14)
3- Vemos em 1: 10-12 que Paulo foi informado por pessoas da família de Cloé. Em 5:1 também nos diz informações relatadas. Em 7:1 vemos que Paulo havia recebido uma carta deles. Notamos também que haviam alguns itens nessa carta, conforme 7:25, 8:1, 12:1, 16:1 e 16:12.
4- Quanto às divisões lógicas da carta, vemos que 7:1 é a primeira vez que Paulo menciona a carta recebida. Neste caso, podemos supor que os capítulos 1 a 6 são respostas daquilo que foi relatado a Paulo. As frases introdutórias e os assuntos abordados nos dão base para propor as seguintes divisões:

ð o problema das divisões na igreja (1:10 – 4:21)
ð o problema do homem incestuoso (5:1-13)
ð o problema dos processos jurídicos (6:1-11)
ð o problema da fornicação (6:12-20)

A maior parte do conteúdo entre o capítulo 7 e o 16 é resposta à carta recebida, como podemos ver pela expressão usada por Paulo “Ora, quanto ao…”. Os itens que não são introduzidos por esta expressão são três: 11:2-16, 11:17-34 e 15:1-58. Talvez os itens do capítulo 11 também foram relatados a ele (ao invés de ter tomado conhecimento por meio da carta recebida), mas foram incluídos aqui porque tudo, desde o capítulo 8 até o capítulo 14 trata da adoração de forma geral. O capítulo 15 fica dificil saber se é uma resposta ao que foi relatado a ele, ou se é resposta à carta que mandaram. O versículo 12 não ajuda muito neste sentido, pois Paulo pode estar citando um relato, ou a carta deles.

Seja como for, o restante da carta pode ser facilmente esboçado:

ð o comportamento dentro do casamento (7:1-24)
ð as virgens (7:25-40)
ð a comida sacrificada aos ídolos (8:1-11:1)
ð as cabeças cobertas das mulheres na igreja (11:2-16)
ð os abusos na Ceia do Senhor (11:17-34)
ð os dons espirituais (12-14)
ð a ressurreição dos crentes (15:1-58)
ð a coleta (16:1-11)
ð a volta de Apolo (16:12)
ð exortações e saudações finais (16:13-24)

O único outro lugar nas cartas de Paulo que ele escreve em forma de resposta de itens independentes é I Tessalonicenses 4-5.

Vamos concentrar nossos estudos no problema da divisão na igreja: capítulos 1 – 4.

3 O contexto histórico de I Coríntios 1 – 4

Antes de mais nada vamos elaborar uma lista de atividades a fim de estudarmos cada uma das seções menores da carta:

1-     Leia I Coríntios 1-4 pelo menos duas vezes, em duas traduções diferentes. Isto o fará ver o panorama geral do trecho, e saber os argumentos usados.
2- Anote tudo que conseguiu achar sobre os endereçados e seu problema. Nesta etapa poderemos ser bastante detalhistas.
3- Anote as palavras-chave e frases repetidas de Paulo. Isto indica o conteúdo de sua resposta.

Uma das razões para escolhermos este trecho, além do sério problema de divisão que enfrentavam, o começo deste trecho parece não se encaixar no contexto. Notem que Paulo começa a expor a situação, o problema (1:10-12), porém, no começo de sua resposta, ele não continua se referindo ao problema (1:18-3:4). Apenas na conclusão, há a ligação do conceito de “sabedoria” e “gloriar-se nos homens”, que são as idéias chaves neste trecho, com o fato da divisão da igreja entre partidários de Paulo, Apolo e Cefas. Vamos ver como todas essas idéias se encaixam.

Para começar, Paulo diz claramente que eles estão divididos de acordo com seus líderes (3:4-9; 3:21-22; 4:6). Mas, a questão não era apenas uma mera diferença de opinião entre eles. Eles estavam realmente disputando entre si, um querendo ser mais que o outro (4:6).

Tudo isto parece estar bem claro, numa primeira visão. Porém, olhando com mais cuidado vemos que os problemas eram um pouco mais graves do que realmente parecia. Vejamos pelos menos duas coisas que ficam claras quando prestamos um pouco mais de atenção ao texto.

1-     Lendo 4:1-5 fica claro que havia uma queixa contra o próprio Paulo. Ou seja, não era apenas uma questão de prefer6encia entre Paulo ou Apolo, mas havia os que eram contra Paulo e os que eram a favor de Paulo.
2- A palavra chave neste trecho é sabedoria ou sábio. Ela ocorre 26 vezes entre os capítulos 1 a 3, e apenas 18 vezes no restante das cartas de Paulo juntas. Deus deixou a sabedoria do mundo de lado (1:18-22; 1:27-28; 3:18-20). Cristo, por meio da cruz, se tornou sabedoria da parte de Deus (1:30). Esta sabedoria é revelada pelo Espírito, para aqueles têm o Espírito. O emprego da palavra sabedoria, neste argumento, nos faz pensar que Paulo fazia parte do problema. No mínimo podemos supor que, em nome da sabedoria, os coríntios estão levando sua idéia de divisão à frente. Como eles eram muito cultos e filósofos, tinham uma idéia da fé cristã como sendo uma nova “sabedoria divina”, e julgaram Paulo de acordo com esta sabedoria puramente humana.

Com base na resposta de Paulo podemos enumerar três coisas:

1-     3:5-23 mostra que os coríntios entenderam de modo errado a função da liderança na igreja.
2- De acordo com 1:18 a 3:4, eles entenderam de forma errada a natureza básica do evangelho.
3- Com base em 4:1-21 seu modo de julgar a Paulo também estava errado.

Feitas estas distinções podemos agora nos concentrar na análise da resposta de Paulo.

4  O contexto literário

O próximo passo então é seguir a argumentação de Paulo em I Coríntios 1:10 – 4:21 parágrafo por parágrafo, e em uma ou duas frases explicar cada parágrafo dentro do argumento todo de Paulo. Algumas perguntas precisam ser feitas neste estágio:

1- Resumidamente, o que Paulo diz neste parágrafo?
2- Por que Paulo diz isso?
3- Como este conteúdo contribui com argumento todo?

Para ilustrar, vamos tomar a parte principal da resposta de Paulo, que se encontra em 3:5-16. Até aqui Paulo havia dito que a essência do Evangelho, um Messias crucificado, era contrária à sabedoria humana (1:18-25); assim como a escolha deles para pertencerem ao povo de Deus. É como se Paulo estivesse dizendo, em outras palavras: “Quem, em nome da sabedoria humana, teria escolhido vocês para se tornarem povo de Deus? “.

Notem que Paulo trata o poder de Deus também como sabedoria (2:1-7). Porém é uma sabedoria revelada por Deus, não descoberta pelos homens, para quem tem o Espírito de Deus (2:6-16). Neste ponto, Paulo faz um apelo, pois eles têm o Espírito de Deus, então deveriam parar de agir como aqueles que não possuem o Espírito de Deus.

Agora, como os parágrafos que se seguem funcionam neste argumento de Paulo?

1-     3:5-9

2-

Trata da natureza e da função dos líderes da igreja. Paulo diz que são meros servos, e não senhores. Nos versículos 6 a 9 ele ensina duas lições:

Œ Tanto Paulo quanto Apolo estão unidos numa coisa comum, única, mesmo que suas tarefas sejam diferentes.
 Tudo e todos pertencem a Deus – a igreja, os servos e o crescimento.

2- 3:10-17

A lição aqui é como será edificada a obra, que pode ser para o bem ou para o mal. Aqui, o que está sendo edificado é a igreja. Aqueles que dirigem a igreja devem fazer com cuidado, pois a provação se aproxima. Edificar a igreja com sabedoria humana, com eloquência que contorna a cruz de Cristo é edificar com feno, palha ou madeira.

A lição de Paulo neste contexto é expressar aos coríntios que eles são o templo de Deus naquele cidade, em contraste com os outros templos pagãos existentes. O que os tornava templo de Deus ali, era o fato de vivierem em comunhão com o Espírito Santo. Porém, por causa das divisões eles estavam destruindo este templo (a Igreja), que era sagrado para Deus.

Vamos rever as bases do argumento de Paulo, que neste ponto se completou:

ð Paulo desmascarou a compreensão incorreta que os coríntios tinham do evangelho.
ð Paulo desmascarou a compreensão incorreta que os coríntios tinham da liderança da igreja.
ð Paulo advertiu os líderes, bem como a própria igreja sobre o julgamento divino contra os que promovem divisões.

E no final (3:18-23), Paulo junta todos os temas abordados nesta argumentação, como uma conclusão.

5  Reforçando

A fim de adquirirmos prática, vamos ver uma passagem fora de I Coríntios, mas que também fala sobre a falta de união na igreja.

Leiamos Filipenses 1:27 – 2:13.

Vamos fazer uma rápida revisão de Filipenses:

ð Paulo está na prisão (1:13-17)
ð Igreja de Filipos enviou uma oferta através de Epafrodito (4:14-18)
ð Epafrodito ficou doente e a igreja se entristeceu (2:25-30)
ð Deus o poupou e Paulo o envia de volta (2:25-30)
ð Epafrodito volta com a carta para os Filipenses a fim de:

Œ Contar aos membros como ele está
 Agradecer-lhes a oferta
Ž Exortá-los a viver em harmonia (1:27 – 2:17; 4:2-3) e evitarem a heresia judaizante (3:1 – 4:1)

Notem que até o versículo 26 Paulo está falando sobre ele mesmo, como está na prisão. Mas no versículo 27 ele muda o contexto para os filipenses. Qual é então a razão de ser de cada parágrafo nesta seção?

O primeiro parágrafo, 1:27-30, começa a exortação. A lição, o resumo parace ser a que lemos no versículo 27: “ficar firmes num só espírito”. Ou seja, uma exortação à união, pois estavam enfrentando oposição.

Como que 2:1-4 se relaciona com a união? Primeiramente Paulo repete a exortação, porém a lição aqui é que a humildade é a atitude para os crentes viverem em união.

Qual é a lição no parágrafo 2:5-11? Jesus em sua encarnação e morte é o exemplo máximo de humildade que devemos ter.

E por fim, qual a lição de 2:12-13? Esta é claramente a conclusão. Notem as expressões nas diversas traduções da Bíblia: “Assim pois”, “Portanto”, “De sorte que”. Tendo o exemplo de Cristo, devem obedecer a Paulo. Em que? Em terem unidade, que também requer humildade.

Concluída esta análise, podemos verificar que o problema de união em Filipos era, com certeza, muito menos grave do que em Corinto.

6 As passagens problemáticas

Até aqui vimos o processo normal de análise de um texto. Vimos como fica mais fácil se lemos a passagem em parágrafos. Mas, existem textos que em uma primeira análise nos parece dificil, e até mesmo contraditório. O que fazer quando nos deparamos com passagens como estas:

o significado de “por causa dos anjos” em I Coríntios 11:10
“os que se batizam por causa dos mortos” em I Coríntios 15:29
Cristo pregando aos “espíritos em prisão” em I Pedro 3:19
o “homem da iniquidade” em II Tessalonicenses 2:3

1- Em muitos casos a razão dos textos nos parecem tão difíceis é que não foram escritos diretamente para nós. Ou seja, o autor e seus leitores estavam sintonizados, tinham a mesma cultura, desta forma o escritor podia pressupor algumas coisas por parte de seus leitores. Um exemplo é quando Paulo escreve aos Tessalonicenses : “Não vos lembrais de que eu vos dizia estas coisas…”. Então, muitas vezes, também devemos nos contentar em saber aquilo que Deus quis nos revelar, aquilo que Ele quer que saibamos.

2- Mesmo que não saibamos o trecho específico, muitas vezes a lição do parágrafo ainda está ao nosso alcance. Então, seja o que for que levou os coríntios a se batizar em nome dos mortos Paulo os ensina que eles não estavam sendo consistentes ao rejeitarem uma ressurreição futura dos crentes.

3- Quanto às incertezas de determinado trecho temos aque aprender a perguntar o que pode ser dito sobre o mesmo com certeza, e aquilo que é possível, mas não certo. Na passagem do batismo pelos mortos a certeza que temos é que isto estava sendo realizado, e Paulo simplesmente se refere a ela.

4- Nestes casos sempre será necessário consultarmos um bom comentário bíblico. Consulte vários, talvez você não concorde com aquele autor especificamente, mas é sempre bom conhecermos todas as opções dadas a determinada questão.

No mais, até mesmo os mais estudiosos nunca terão todas as respostas. E em parte isto é bom para que conservemos nossa humildade e para que reconheçamos e experimentemos a verdade de Deuteronômio 29:29.

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