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004 – Introdução ao Levítico – A parte legal da Bíblia

Introdução ao livro de Levítico –  A parte legal da Bíblia

 O povo de Israel, prestes a se transformar em uma nação, era o povo escolhido por Javé no Antigo Testamento. Javé escolhera este povo sem nenhum tipo de critério ou merecimento e os libertara da escravidão do Egito para os encaminhar para a terra que prometera aos seus antepassados. Esta terra seria o local onde o povo escolhido deveria servir de testemunho para outras nações (Gn. 12:3), e não o deserto.

Portanto, este povo, formado por ex-escravos, precisava, além da terra prometida, de uma lei, um código de conduta, pois nesta terra eles teriam contato com as práticas de povos pagãos. O livro de Levítico contém este código para o povo da aliança, pois reflete a vida santa que este povo deveria ter por causa desta aliança (Lv. 20:26), confrontando estas práticas pagãs com a maneira correta de adorar ao único Deus.

O livro do Êxodo descreve a revelação e a construção do lugar de adoração do povo da aliança, o Tabernáculo (Ex. 25 – 31); o livro de Levítico descreve os detalhes da forma de adoração que este povo deveria prestar a Javé no tabernáculo.

O nome Levítico vem do grego, e significa “o que é relativo aos levitas”. O nome hebraico do livro é “E chamou”, tirado das primeiras palavras do primeiro versículo.

Moisés não é mencionado como autor humano no livro, porém seu nome aparece mais de 25 vezes, quase em todos os capítulos na expressão “O Senhor disse a Moisés”, exceto 2, 3, 9, 10 e 26, o que leva judeus e cristãos tradicionais a atribuir a autoria do livro a Moisés.

Contexto cultural

 Não eram apenas os hebreus que tinham um sistema religioso composto de sacrifícios e sacerdotes no antigo Oriente Médio. Povos egípcios e cananeus realizavam holocaustos, ofertas de comunhão, tinham lugar próprio de adoração das divindades e demais rituais semelhantes aos israelitas.

Porém, algumas diferenças mantinham o povo de Israel distinto do sistema religioso de outros povos, tais como:

  • A revelação direta da palavra divina
  • A manifestação visível de Javé
  • A compreensão do pecado humano e suas consequências
  • A natureza ética do culto a Javé comparado com o culto da fertilidade de outros povos
  • O caráter santo e justo de Javé em contraste com os deuses “humanizados” dos pagãos
  • A proibição de sacrifícios humanos

Estrutura de Levítico

 O livro de Levítico deve ser lido como uma continuação dos capítulos 25 a 40 de Êxodo, pois a primeira expressão do livro “e chamou o Senhor a Moisés” sugere esta estrutura, que na realidade vai até o livro de Números 10:10, narrando o primeiro ano do nascimento da nação de Israel.

As leis são discursos que Javé diz a Moisés, para que ele transmita ao povo. Estas leis eram para todo povo, pois tratava sobre os procedimentos de culto, festas solenes, instruções para os sacrifícios e diretrizes gerais para que a vida religiosa não fosse desassociada da vida civil.

O quadro abaixo mostra as divisões principais do livro:

I. Regulamentos para oferecimento de sacrifícios 1:1 – 7:38
II. Descrições da ordenação de Arão e seus filhos e os primeiros sacrifícios no tabernáculo 8:1 – 10:20
III. Leis regulamentando a pureza ritual 11:1 – 15:32
IV. Liturgia e calendário para o Dia da Expiação 16:1-34
V. Leis com exortações à vida santa 17:1 – 26:46
VI. Leis sobre dízimos e ofertas 27:1-34

Propósito e conteúdo

 

O propósito do livro de Levítico é expresso pela ordem dada no capítulo 11 versos 44 e 45: “…consagrem-se, sejam santos porque eu sou santo…”, uma vez que o povo de Israel fora chamado para cumprir uma missão (ser benção a todas as famílias da terra), por causa do ato redentor de Javé ao executar o Êxodo dos descendentes de Jacó do Egito (Lv. 22:32-33).

Portanto, Levítico é um manual de santidade pelo qual o povo escolhido, o futuro reino de sacerdotes e nação santa (Ex. 19:6), deveria adorar a Javé para usufruir as bênçãos prometidas (Lv. 26:1-13).

O livro de Levítico aborda ainda conceitos sobre:

  • A santidade de Deus
  • O princípio da mediação sacerdotal
  • A pureza do povo da aliança
  • A remissão do tempo pelo calendário litúrgico
  • O princípio de substituição no ritual do sacrifício

A primeira parte deste manual, que abrange os capítulo 1 a 10, prescreve os procedimentos de adoração a Javé, enquanto que a segunda parte, que vai do capítulo 11 ao 27, descreve a prática da santidade no dia-a-dia do povo.

Santidade

 Com base na lei levítica, todas as coisas eram divididas em sagrada e comum. O comum poderia ser dividido em puro e impuro. O puro tornava-se sagrado mediante a santificação e o impuro pela contaminação. O sagrado poderia ser profanado a tornava-se comum, ou mesmo impuro. O que era impuro poderia ser purificado e posteriormente consagrado para tornar-se sagrado.

O apóstolo Paulo recorreu a estes conceitos quando escreveu que todos os seres humanos são impuros por consequência do pecado de Adão (Rm. 5:6-14). Mas o sacrifício redentor de Jesus purifica e santifica o pecador (1 Co. 6:9-11).

Sacrifício

Embora os sistemas sacrificiais entre os povos antigos tivessem a idéia de aplacar a ira dos deuses, o sistema dos hebreus era diferente, pois era revelado divinamente. Além disso, o sistema sacrificial dos hebreus apontava para a uma ética pessoal e comunitária elevada, e também para uma vida de santidade.

De acordo com Levítico 17:11, a vida está no sangue, portanto o sangue no altar simbolizava a purificação da presença de Deus (Hb. 9:21-22). O propósito era preservar a santidade da presença de Deus no meio do povo. A descontaminação realizada por meio do sacrifício de sangue tornava o ofertante puro e permitia a reconciliação com Deus.

Os sacrifícios de animais não eram realizados para a salvação dos pecados das pessoas, mas preservavam a santidade da presença de Deus no meio do povo e permitiam um relacionamento saudável entre Javé e o povo, pois o ritual era simbólico que revelava a atitude interna do ofertante. O propósito dos sacrifícios era também adorar a Deus pela sua presença entre o povo da aliança, e representava a santidade de Deus em contraste com o pecado humano.

O ritual do sacrifício é a base do entendimento da obra redentora de Jesus, tendo sido reconhecido como o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo. 1:29-34). Em outros trechos, a morte de Jesus foi entendida como o sacrifício oferecido de uma vez por todas pelos pecados da humanidade (Rm. 5:6-11; Hb. 10:10-12). O livro de Hebreus traz uma comparação entre o Dia da Expiação com a morte de Jesus (Lv. 16 <-> Hb. 9-10).

Um destaque importante é que todos os sacrifícios de expiação mencionados em Levítico são para pecados cometidos “sem intenção”, pois não havia qualquer sacrifício específico para pecados premeditados ou rebelião maliciosa.

Descanso sabático

 A santidade do povo hebreu seria refletida também no calendário. Para facilitar o entendimento dos israelitas quanto à provisão de Javé suas festas seguiam o calendário agrícola (Lv. 23:4-44), mas a guarda do sábado introduziu o calendário religioso (Lv. 23:1-3).

A guarda do sábado lembraria a Israel que Javé era o Criador (Ex. 20:8-11), além de santificar um tempo de adoração ao Senhor. O sábado lembraria ao povo a aliança com Javé e testificaria que a santidade se baseava em Deus e não na lei ou nos rituais (Ex. 31:12-17; Lv. 26:2). Na época de Jesus este conceito havia se perdido, pois o legalismo obscurecera seu verdadeiro significado (Mt. 12:1-4; Mc. 7:1-13). No diálogo com a mulher samaritana (Jo. 4:21-24) Jesus relembra o verdadeiro significado de um tempo separado de adoração ao Senhor, que não se restringe a lugares ou tempo, mas a hora é sempre agora.

O princípio do sábado era aplicado também à terra, pois a cada 6 anos de plantio e colheita, a terra deveria descansar no sétimo ano. Isso simbolizava que Javé era o provedor de Israel, além do caráter social, pois os pobres poderiam colher livremente dos frutos da terra não cultivada (Ex. 23:11).

De acordo com o profeta Jeremias foi o desrespeito às leis sabáticas que causaram a queda de Jerusalém e o exílio para a Babilônia (Jr. 25:8-14; 2 Cr. 36:17-21). O exílio foi castigo de Javé ao separar da Terra da Promessa o povo escolhido, justamente por negligenciar as leis relativas à terra que o próprio Deus dera a este povo.

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