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013 – Introdução ao Livro de Esdras-Neemias – De volta para o futuro

Introdução aos Livros de Esdras e Neemias – De volta para o futuro.

 

Esdras e Neemias pertencem à história pós-exílica de Judá. Eles aparecem na história de Judá cerca de 50 anos após os profetas Ageu e Zacarias, e tiveram ofícios complementares em Jerusalém nesta época de reorganização social e religiosa.

Na Bíblia hebraica estes livros formavam um só volume, e apesar do seu conteúdo “histórico” eles estão inseridos na terceira divisão do cânon hebraico,  os “Escritos”. A maioria dos estudiosos atribui a autoria do volume Esdras-Neemias ao mesmo redator-editor do livro de Crônicas. Creem alguns que este cronista seja o próprio Esdras, por ser escriba, outros ainda atribuem uma autoria anônima a estes livros.

A produção de Esdras-Neemias ocorre em épocas distintas e conta com a coleção de partes também distintas para compor o volume todo. Isto é verificável nos capítulos 1 a 6 de Esdras e nos seus grandes trechos escritos em aramaico (Ed. 4:8 a 6:18; 6:12-26). Estas partes em aramaico reproduzem trechos de documentos oficiais do governo persa; portanto o cronista-redator deveria ter acesso a estes documentos, esta evidência dá suporte à autoria de Esdras.

Esdras é reconhecido pelo zelo religioso com o qual inspirou, com a leitura da Torá, todos os judeus que retornaram do exílio para reconstruirem Jerusalém, que ficara arrasada por causa da invasão babilônica em 586 a.C. Neemias foi o administrador habilidoso que organizou os judeus para a reconstrução dos muros de Jerusalém.

Esdras e Neemias eram judeus de muito prestígio em Susã (Ed. 7:1-6; Ne. 1:11), na Pérsia, de onde sairam para a reforma social e religiosa em Jerusalém. Neste tempo quem governava a Babilônia, agora sob domínio persa, era o rei Artaxerxes (464 – 424 a.C.).

A esta altura uma parte da população já voltara para Jerusalém sob o comando de Zorobabel, porém, a reestruturação de Judá e a reconstrução do Templo não correram bem, pois todos aguardavam com muita espectativa o despertar nacional profetizado por Ezequiel (Ez. 37:1-14), que até aquele momento não havia acontecido. Por isso o ânimo dos judeus estava muito abalado.

Além disso muitos judeus estavam passadno por grandes dificuldades financeiras, que se agravaram em consequência da carga de trabalho para a reforma dos muros de Jerusalém. A decisão de Neemias em não cobrar juros dos empréstimos tomados por judeus nessa situação foi uma das medidas da reforma sócio-econômica promovida no pós-exílio.

O zelo para com as tradições judaicas e com o nome de Javé (Ne. 2:3; Ed. 9:1-15), fizeram com que Esdras e Neemias voltassem para liderar a reforma social e religiosa que Judá precisava naquele momento, duas gerações após o profeta Malaquias.

Para fins didáticos, podemos dividir os livros de Esdras-Neemias em dois momentos distintos da repratriação dos judeus após o exílio:

  • o retorno dos exilados e a reconstrução do templo entre 538-516 a.C. (Ed. 1-6)
  • reorganização religiosa com Esdras e a reorganização social com Neemias entre 458 e 420 a.C. (Ed. 7 – Ne. 13)

Estrutura de Esdras-Neemias

 

Os livros de Esdras-Neemias podem ser estruturados da seguinte maneira:

  1. Esdras
  1. Decreto de Ciro até a reconstrução do Templo – Caps.1 a 6
  2. Primeira parte das narrativas de Esdras – Caps. 7 a 10
  3. Chegada de Neemias até as reformas sociais – Caps. 1 a 7
  4. Segunda parte das narrativas de Esdras – Caps. 8 a 10
  5. Repovoamento de Jerusalém até as reformas religiosas de Neemias – Caps. 11 a 13
  1. Neemias

Os dois livros cobrem aproximadamente 100 anos de história, de 538 a.C. até 433 a.C. As narrativas começam pelo decreto de Ciro para a recostrução de Jerusalém (Ed. 1:1-4) até as reformas efetivadas no segundo mandato de Neemias como governador, de acordo com as ordens persas (Ne. 13:6-30).

O conteúdo do livro pode ser resumido da seguinte maneira:

  • O retorno dos judeus do exílio babilônico para Jerusalém com a restauração do templo e do altar
  • A chegada de Esdras e a reforma religiosa baseada na lei de Moisés (provavelmente Deuteronômio)
  • A chegada de Neemias e a reforma social e econômica e a reconstrução dos muros de Jerusalém

O autor dos livros redigiu e coletou material de diversas fontes e gêneros literários, onde podemos perceber 3 grandes blocos de narração:

  • Sesbazar e Zorobabel – Ed. 1-6
  • Os relatos de Esdras – Ed. 7-10; Ne. 7:73 – 10:39
  • Os relatos de Neemias – Ne 1:1 – 7:73; 11:1 – 13:31

Podemos concluir que o autor agiu de forma proposital ao dispor destes materiais conforme o esboço acima, pois tinha uma intenção teológica  relacionada à renovação da aliança de Javé com o povo judeu. Todos estes relatos unidos comprovam a renovação física e espiritual de Jerusalém.

Quanto aos gêneros literários podemos encontrar:

  • Relatos de Esdras e Neemias em primeira pessoa e relatos em terceira pessoa (Ed. 8:35-36)
  • Documentos históricos e correspondência oficial (Ed. 6:3-5; Ed. 5:7-17)
  • Discursos e orações (Ne. 9:5-37)
  • Cânticos (Ed. 3:11)
  • Listas de nomes (Ed. 2:2-70)
  • Inventário de utensílios do templo (Ed. 1:9-11)

Apesar destes materiais estarem reunidos em um só volume, é muito dificil estabelecer o ministério concomitante de Esdras e Neemias, pois, em suas memórias, nenhum deles menciona o outro como cooperador, exceto numa breve nota em Neemias 8:9. Este padrão se repete no ministério de Zacarias e Ageu, onde embora não mencionem um ao outro, profetizaram em Jerusalém no mesmo período de 2 anos.

Propósito e conteúdo

Basicamente o livro de Esdras-Neemias trata dos seguintes assuntos:

  • A restauração de Jerusalém
  • As reformas sociais, econômicas e religiosas no pós-exílio
  • Javé, o Deus que cumpre a aliança
  • A continuidade da comunidade judaica no pós-exílio
  • O templo e a lei como bases de identidade da nova comunidade judaica

O propósito do ponto de vista histórico dos livros de Esdras-Neemias é narrar o retorno dos judeus da Babilônia e preservar a memória do povo da aliança. Estes registros mostram a fidelidade de Javé ao preservar os judeus no decorrer dos diversos governos humanos na história. Estas narrativas também visavam informar ao rei persa as atividades realizadas por ambos como uma espécie de prestação de contas pela confiança depositada no retorno deles ao governo persa.

Sob o ponto de vista teológico os livros de Esdras-Neemias focaliza a renovação da aliança de Javé com o povo judeu no pós-exílio. Javé não havia se esquecido de sua promessa com o povo judeu, e mesmo agora, neste período de incertezas e reconstrução, tanto social quanto espiritual, ele deseja renovar sua aliança com o povo escolhido. Neste momento de reestruturação era importante que o povo soubesse que a obediência às leis da aliança eram o pré-requisito para as bênçãos de Javé. Teologicamente o retorno da Babilônia representa um novo Êxodo para o povo judeu.

Javé como cumpridor da aliança

A fidelidade de Javé à sua aliança (Ne. 9:32) era o motivo principal que levou Esdras e Neemias a executarem as reformas empreendidas por ambos. Esta fidelidade era a causa da esperança de Israel (Ed. 10:2), mesmo em um período tão atribulado.

Os profetas pós-exílicos sustentaram-se neste mesmo fundamento para sua mensagem de estímulo à nova comunidade (Zc. 1:3; Ml. 1:2).

As reformas e as origens do farisaísmo

 

Nas reformas do período pós-exílico houve duas inquietudes importantes:

  • Evitar um novo exílio
  • Preservar a identidade étnica

As medidas abaixo visaram proteger os judeus contra estas preocupações:

  • Cerimônia de renovação da aliança para garantir a posse da terra – Ne. 9:38 – 10:27
  • Restituir o ministério sacerdotal – Ed. 10:18-44
  • Recomeço dos rituais do templo e guarda do sábado – Ne. 8:13-18; 13:15-22
  • Estabelecimento da Lei de Moisés como padrão de vida comunitário – Ne. 8:1-12
  • Reformas sociais e econômicas fundamentadas na lei da aliança – Ne. 11:1-2
  • Pureza cerimonial da população de Jerusalém – Ne. 10:28-39
  • Divórcio e expulsão de estrangeiros dentre o povo –  Ed. 10:1-8; Ne. 9:1-5; 13:1-3

Estas medidas, a longo prazo, remoldaram a sociedade israelita e definiu o que conhecemos como a sociedade judaica do Novo Testamento. O templo e o sacerdócio substituíram o Estado e o rei como instituições fundamentais para a ordem e identidade social, sendo a lei de Moisés a constituição reguladora da comunidade. Com o passar do tempo estas medidas ocasionaram o exclusivismo judaico diante dos povos gentios, que eram vistos como moralmente impuros e corrompidos.

Ademais, Esdras reconfigurou as funções de escriba e sacerdote, fundindo-as numa única atividade: o estudo e a exposição das escrituras hebraicas. Com o fim dos sacrifícios no templo os sacerdotes se tornaram os únicos autorizados a ler e interpretar as leis mosaicas.

Para confirmar a obediência correta à lei da aliança, estes sacerdotes, com o passar do tempo, criaram complementos a esta lei, que foram chamados de tradição dos líderes religiosos (Mt. 15:1-9). Estes acréscimos, feitos por estes sacerdotes à lei primária,  passaram a exercer um papel cada vez maior na sociedade substituindo a lei mosaica.

A fixação com a exclusividade do povo judeu cegou-os quanto à verdadeira missão que tinham de ser luz para as nações (Is. 42:6; Lc. 2:32) sendo duramente criticados por Jesus, que ensinava com autoridade a verdadeira Lei de Moisés (Mc. 1:22).

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