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O homem é um CTRL+C CTRL+V de Deus?

A relação Criador-criação

É interessante notar que a relação Criador-criação coloca separação entre Deus e a raça humana, mas também cria um elo entre um e outro.

Esta relação não lhe foi acrescentada, mas é a base de sua humanidade.

O ser humano é diferente de toda espécie criada, pois, segundo o salmo 8, Deus fez o ser humano um pouco menor do que os anjos(ou Deus – elohim) e o colocou sobre toda a criação. Algumas Bíblias traduzem por anjos, outras traduções por seres celestiais, porém o termo hebraico original é Elohim, que significa Deus, ou ainda deuses.

No capítulo 2 de Gênesis o autor claramente diferencia o homem das demais criaturas quando enfatiza a transferência direta do sopro divino ao homem. Isso não é citado em nenhum outro ato da criação.

A inquietude e a busca

De acordo com o Salmo 42, o homem está sempre inquieto na busca por Deus, e essa inquietude é uma das razões da religiosidade do homem. Até um ateu faz suas pesquisas para provar que Deus não existe, pois, se não houvesse Deus, não haveria ateus.

A relação de dependência do homem para com Deus é comparada com a dependência dos animais pelo ambiente no qual vivem. Agostinho escreveria sobre esta dependência no início da era cristã.

Um pouco de filologia

A pouca menção, no Antigo Testamento, de que o homem é feito à semelhança de Deus não deve ser o pilar principal deste conceito, pois estas passagens deveriam ser pesadas ao invés de contadas.

A expressão “à imagem [tselem] e semelhança [demût]” ocorre apenas 4 vezes no Antigo Testamento, todas em Gênesis. A palavra tselem significa imagem ou estátua representando um ídolo. Já demût significa representação ou forma de imagem esculpida.

Estas palavras não devem ser interpretadas distintamente, pois o paralelismo entre elas nos dá a noção completa da obra de Deus. Esta expressão não é associada a nenhuma outra criação, além de aplicar-se à mulher de igual forma.

É interessante notar que, apesar dos significados de tselem e demût, o Antigo Testamento nega qualquer tipo de espírito ou sopro divino nos ídolos esculpidos, mas afirma que o homem foi criado como representação de imagem esculpida com o sopro divino [nephesh] nele.

Imagem e semalhança na cultura do Antigo Oriente Próximo

Havia o conceito de um “fluído divino” nas imagens dos deuses na antiguidade, as quais eram esculpidas, ou a própria pessoa viva poderia conter essa substância, geralmente o rei. Qualquer semelhança aqui com dominação e poder não é mera coincidência.

Porém, o Antigo Testamento rejeita fortemente esta idéia – basta ler o profeta Isaías e seu irônica texto sobre os falsos deuses.

Questões importantes sobre a imagem e semelhança de Deus

Quando pensamos sobre “imagem de Deus” no Antigo Testamento vários aspectos estão envolvidos, e seguem abaixo:

– O plural mencionado no verso 26 do capítulo 1 de Gênesis

  • Pode referir-se a um tratamento Majestático – tal qual dispensamos a um juiz por exemplo.
  • Ou ainda pode ser um recurso estilístico de linguagem, o nós editorial, tal qual um pastor que emprega o pronome na primeira pessoa do plural (nós) para referir-se a ele mesmo.

– A própria expressão hebraica betsalmenû kîdemûtenû

  • Tselem e Demut são sinonimos? Se forem se trata então do reforço da idéia de semelhança? Ou, de acordo com os estudiosos mais antigos, tselem significa forma fisica e demut qualidade espiritual?

– O domínio do homem sobre toda a criação

  • Será que o domínio sobre criação é extensão dessa imagem e semelhança de Deus ?

– Tanto o homem quanto a mulher estão incluídos na imagem de Deus

  • Será que a sexualidade é um atributo de Deus?
  • As religiões orientais falam sobre divindades masculinas e femininas
  • No Antigo Testamento o sexo é um atributo da criatura não do Criador. Javé estava acima da polaridade do sexo, logo Israel não deveria considerar o sexo um mistério. Portanto o sexo não deveria fazer parte do culto, pois era pertencente à criatura, não ao Criador. Diferente dos demais povos, que praticavam cultos da fertilidade envolvendo as prostitutas cultuais, pois seus deuses tinham diferenciação por gênero sexual

A transmissão dessa imagem à descendência do homem descrita em Gênesis 5

  • Isso significa que todos continuam portando a imagem de Deus ?
  • Será que Adão transmitiu a imagem divina a Sete pela procriação?
  • De acordo com Henton Davies: o proposito não é mostrar as gerações seguintes com a imagem de Deus, mas sim que a cada geração passada ficavam mais longe da imagem divina.

Por extensão, a vida do homem é sagrada.

  • Pois era a própria imagem de Deus

Historicidade deste conceito

De fato, durante a história, esta doutrina tem sido discutida, de várias maneiras, por muitos teólogos, cada um deles influenciados pelos conceitos religiosos e filosóficos de seu tempo.

O livro apócrifo de Eclesiástico, escrito no século II a.C., tem uma abordagem semelhante à de Gênesis, enquanto que o livro, também apócrifo, Sabedoria de Salomão, escrito no fim do século I a.C. prepara o caminho para o conceito de que a “imagem” do homem não está sujeita à queda.

O Novo Testamento também cita o homem como imagem de Deus, porém Jesus nunca usou a expressão imagem de Deus. Devemos ter o cuidado de não depreendermos uma dogmática sobre a condição inicial do homem a partir da imago Dei, pois não é o propósito do Antigo Testamento fazer isso.

Visão de alguns teólogos sobre este tema

Calvino:

  • Sentido Geral: criatura de Deus no universo, criação mais importante de Deus.
  • Sentido especial: Relação Adão-Eva como modelo da relação Deus-homem. O conhecimento mais acurado desta relação só pode ser ganho por meio da restauração da natureza corrupta em Cristo.

Emil Brunner:

  • Aspecto Formal: O homem não perde a imagem de Deus, mesmo em pecado.
  • Aspecto Material: Segundo o NT o home deve dar a resposta na qual Deus deseja, resposta do seu amor, não apenas em palavras, mas por toda vida.

Strong:

  • Imagem natural:Semelhança natural a Deus, aspecto moral de valorização da vida, mesmo aos não regenerados.
  • Imagem Moral: Quando o homem pecou mudou de direção em relação a Deus. Em sua regeneração volta à direção original.

O primeiro sentido refere-se aos aspectos humanos do homem. É a criatura que reflete a Deus no cosmos.

O segundo refere-se à imagem renovada do homem. Criado para relacionar-se com Deus pecou. Quis, ser o próprio Deus, ao invés de ser apenas o representante dele na terra.

No primeiro século d.C. Ireneu foi o primeiro a separar as várias partes do ser humano com base na expressão imagem e semelhança. Para ele a “imagem” era a racionalidade do ser humano, enquanto que a “semelhança” representava a autodeterminação, que se perdera na queda, mas que era recuperada com a conversão a Cristo.

Este conceito perdurou por quase 1500 anos, até a época de Martinho Lutero, que interpretou esta expressão como um paralelismo do texto hebraico.

Karl Barth afirmou que, na queda, a ligação do homem com Deus foi totalmente rompida.

Podemos concluir dizendo que o ser humano é o único ser criado semelhante a seu criador. Nós o representamos e exercemos parcialmente seu poder na terra. Somos responsáveis pelo modo com agimos perante ele e para com nosso semelhante, pois somos todos feitos à imagem e semelhança de Deus.

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