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Archive for the ‘Pecado e Redenção’ Category

A remoção do pecado

O Antigo Testamento é muito rico no que se refere à ação que Deus toma em relação ao pecado. Algumas atiudes tomadas por Deus são: 1) Ele o remove, ou joga fora como roupas sujas (Is.6:7); 2) Ele afasta-o (Ex. 34:6-7); 3) Ele o apaga (Is. 44:22); 4) Ele lava e limpa do pecado (Sl. 51:2); 5) Ele o expia (Ez. 16:62); 6) Ele se esquece (Is. 43:25); 7) Ele os lança para trás de si (Is. 38:17); 8) Ele os perdoa (Sl. 103:2-3).

O Antigo Testamento registra muitas formas primitivas que as pessoas tinham para lidar com o problema do pecado e sua remoção. Estas antigas formas eram procedimentos externos para remoção do pecado, tais como: 1) lavagem com água (Nm. 8:7); 2) queimar pelo fogo (Nm. 31:22); 3) um animal levava embora o pecado (Lv. 14:7); 4) nos casos mais sérios o pecador era expulso da comunidade, ou mesmo morto (Lv. 20:6).

Eichrodt, afirma em linguagem jurídica, que a expiação, nos casos mais primitivos tem o sentido de remoção material de um veículo de poder judicial, porém não é caso quando o Antigo Testamento trata deste assunto, pois nos casos de rompimento da aliança, que era uma relação pessoal com Deus, esta deve ser restabelecida por meio da remoção do pecado (EICHRODT, 2004, P. 881).

 O tema do desvio da ira de Deus também é tratado no Antigo Testamento. Este assunto é tratado em I Samuel 26:19, quando Davi pensa em fazer um sacrificio a Deus para que Saul não mais o persiga. A idéia de propiciação ou expiação no Antigo Testamento tem o sentido de “acariciar o rosto” de Deus, enternecê-lo ou abrandá-lo tornando, desta maneira, Deus favorável ao pecador. (1 Sm. 13:12; IRs. 13:6).

 Outro modo das pessoas se livrarem dos pecados era o sacrifício, que, entretanto, não expiava todos os pecados, tais como alguns tipos de assassinato (Nm. 35:31) ou pecados contra a aliança. A expiação não equivale a perdão dos pecados, mas expiação significa salvar alguém da morte merecida.

 Eichrodt diz que a expiação tem um caráter pessoal, pois não apenas é uma forma de remoção dos pecados, mas um método de perdão (EICHRODT, 2004, p. 882). A raiz da palavra expiação, kpr, aparece relacionada com sacrifícios, que se torna na prática uma representação de um relacionamento que se restaura. Eichrodt afirma que toda ação sacrificial foi instituída por Deus, logo é uma atitude graciosa de Deus oferecendo a possibilida de se expiar tudo aquilo que exige expiação, para assegurar seu perdão e misericórdia (EICHRODT, 2004, p. 884).

Segundo Whale, citado por Smith, não existe o conceito de sofrimento vicário ou sacrifício substitutivo, ou seja, a idéia de aplacar a ira de Deus ou oferecer algum pagamento pelo pecado não encontra eco nas escritos do Antigo Testamento, pois é o próprio Deus quem tira ou remove o pecado. No conceito da aliança, Deus queria que seu povo estivesse sem pecado, para usufruir do relacionamento pessoal que fora estabelecido, logo o próprio Deus oferecia um meio de remover estes pecados para que seu relacionamento fosse pleno.

 Avançando na história, os profetas começaram a falar mais em arrependimento e perdão do que nos atos sacrificiais, e ficaram desapontados com a falta de resposta do povo ao arrependimento oferecido por Deus. Nos escritos proféticos da monarquia, muitas passagens são anúncios de condenação por falta de arrependimento, que era apenas o chamado dos profetas para que Israel voltasse para Deus.

Sob a influência dos profetas o arrependimento veio a ter proeminência para a salvação do povo, pois, segundo Eichrodt, o perdão é uma ação pessoal de Deus para com o homem, logo é necessário que este homem corresponda pessoalmente a esta ação de Deus (EICHRODT, 2004, p. 901).

 O arrependimento no Antigo Testamento, segundo Willian Holladay, é originário da raiz shub que significa voltar-se. Expandindo este conceito, Holladay define arrependimento no Antigo Testamento como retomar o caminho ao ponto de partida.

 O arrependimento está ligado à confissão do pecado, conforme atesta o Salmo 32:5, e indica que o pecador está ciente de seus atos e decidido a não mais praticá-los. O pecado é uma ofensa contra Deus, e causa uma ruptura no relacionamento entre Deus e o homem. O pecado só pode ser apagado mediante o perdão que Deus oferece.

 O perdão não pode ser confundido com remissão, pois a remissão requer uma explicação e uma justificativa, portanto o perdão não é a remissão de uma pena, mas a restauração de um relacionamento, muito embora as consequências do pecado permaneçam.

 Em última análise o perdão de Deus no Antigo Testamento permanece um mistério, mas podemos ter uma idéia mais clara a partir do trecho de Isaías compreendido entre 52:13 até 53:12, quando a idéia do sofrimento vicário de um Redentor foi lançada pela morte expiatória do Messias.

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Os efeitos do pecado

 

O estudo do pecado no Antigo Testamento nos leva necessariamente aos efeitos que o pecado causou em Adão e seus descendentes, porém o Antigo Testamento nada diz sobre os efeitos deste acontecimento.

Segundo Eichrodt, o profetismo passa pelos efeitos de Gênesis 3 sem prestar muita atenção, pois interessava a eles que seus ouvintes, atentos à proclamação do juízo, pudessem decidir e despertar seu sentido de responsabilidade, afinal estavam sob ameaça imediata, logo não havia necessidade de olhar para origem do problema naquele momento (EICHRODT, 2004, p. 849).

Gênesis 3 não diz nada sobre as consequências do pecado de Adão sobre seus descendentes, mas mostra as consequências para os envolvidos no primeiro pecado. A serpente é amaldiçoada, e o primeiro casal sofre os efeitos do seu pecado. À mulher coube ter seus filhos mediante dores no parto, o desejo ao seu marido e a submissão a ele; ao homem restou tirar o sustento da terra por meio da força física excessiva e a terra foi amaldiçoada. Deus expulsa do jardim o casal e o impede de entrar usando uma espécie de “guarda angelical”. Agora ninguém mais teria acesso ao jardim, onde ficava a árvore da vida; restava aos homens a morte, conforme o relato de Gênesis 3:22-23.

Para Eugene Merril, o fato da mulher ter provado o fruto primeiro, e ter oferecido a seu marido, sugere uma iniciativa de liderança sobre a familia criada, para a qual a mulher não fora feita. Portanto, a partir deste momento, seu desejo seria para seu marido, pois esta iniciativa de auto governo é o próprio âmago da queda (MERRIL, 2009, p. 206).

 Eichrodt vai além nesta meditação e diz que não se proclama simplesmente a morte como castigo do pecado, mas uma escravidão de uma vida inteira sob o poder da morte por meio do sofrimento, da dor e da fadiga, conforme o Salmo 90:7, onde o resultado não é a morte em si, mas o rápido passar da vida (EICHRODT, 2004, p. 847).

Smith, citando Victor Hamilton, diz que a morte não é tida como a consequência do pecado de Adão, mas o resultado do pecado é o trabalho árduo por toda a vida.

O Antigo Testamento não explica o pecado de um ponto de vista didático, entretanto mostrará toda a história subsequente como uma história de pecado. No episódio entre Caim e seu irmão Abel, o pecado não estava na exteriorização violenta de Caim contra seu irmão, mas na ira e inveja que sentiu dele. A consequência do pecado de Caim não foi a morte, mas sua alienação da sociedade.

À época de Noé, a terra estava corrompida (Gn 6:11-12), e Deus viu que toda intenção do homem era má (Gn. 6:5), por isso enviou o dilúvio para castigar a humanidade por seus pecados. Porém, mesmo após o dilúvio, Deus observou que as intenções do homem continuaram más, indicando que o pecado era universal (Gn 8:12). A família de Noé não foi poupada porque não tinha pecado, apesar de Noé ser chamado de justo e íntegro, porém a palavra tāmîm (direito, perfeito) não significa “sem pecado”, mas saudável ou inteiro.

 O Antigo Testamento não é dogmático no sentido do pecado original, porém mostra a tendência natural do ser humano para praticá-lo, além de referir-se aos efeitos do pecado sobre as gerações seguintes, conforme Ex. 20:5; Lv. 26:39; Nm.14:18. Estas passagens podem ser explicadas partindo-se do princípio do coletividade na visão israelita. Ou seja, o indivíduo estava subordinado a um grupo e as consequencias de seus pecados nunca eram individuais, mas atingia todo o grupo.

A origem do pecado

Faz parte da natureza do homem, sempre diante de um problema, tentar descobrir sua causa. Com o pecado não é diferente, e sempre que o estudamos nós nos deparamos com sua origem. O Antigo Testamento percebe uma profunda desordem na natureza e na humanidade. Essa desordem, segundo Eichrodt, é a rebelião contra as ordens de Deus, que não são abstratas, mas é a aliança baseada nas leis para a existência do povo aqui e agora (EICHRODT, 2004, p. 842).

O ser humano, segundo Gênesis 6:5 não é essenciamente bom, como Deus o havia criado. Sua ações basicamente demonstram sua atitude de rebeldia e oposição à sua Palavra, e a natureza de forma geral está sob maldição por causa desta condição (Gn. 3:17-19). Para Eichrodt, o problema da origem do pecado fica em segundo plano quando aborda-se o pecado apenas sob o ponto de vista da lei, pois há a preocupação de definir a conduta moral a partir da existência de Israel como uma nação já estabelecida. A “pré-história” sacerdotal, narrada em Gênesis 1 a 11 quer mostrar que as antigas tradições já falavam sobre a degeneração progressiva que o pecado gera. Mas, em sua opinião, apenas o autor Javista mostra a história da humanidade como uma história de pecado e o seu caráter universal (EICHRODT, 2004, p. 843).

Deus havia criado tudo perfeito, e o homem, quando proclamou sua independência de Deus, o mundo foi distorcido e depravado. Em Gênesis 3 lemos que o mandamento de Deus foi pervertido para uma espécie de repressão, e, ao comerem do fruto proibido, pensaram que não estariam mais sujeitos à sua supremacia. Os relatos bíblicos, posteriores ao episódio fundante da ruptura do homem com Deus, não tentam explicar este acontecimento, pois, de acordo com Christoph Barth a rebelião contra o Criador sempre será inesperada, ilógica, indesculpável e injustificada.

Eugene Merril especula que haja uma ligação com o fato do homem ser feito à imagem de Deus, portanto este tem a capacidade moral de fazer escolhas, pois se não fosse assim o homem seria semelhante a um robô e faria apenas aquilo que fosse programado para fazer. Este ser não seria capaz de mostrar a perfeição com a qual Deus o criara. Logo, a árvore daria chance de provar que o homem poderia exercer sua capacidade de escolha, e uma escolha correta (MERRIL, 2009, p. 204). Mas, segundo Smith, o Antigo Testamento apenas aponta como o pecado entrou no mundo e como foi se alastrando geração após geração e diz que a porta foi a livre escolha de Adão e Eva pela sugestão da serpente.

O Antigo Testamento não chama a serpente de satanás, nem pretende explicar a origem do mal no mundo, mas a despeito disso, duas coisas ficam claras em Gênesis 3: o mal não vem de Deus, mas está sujeito a Deus. De acordo com Eichrodt, para o historiador Javista, era inegável a qualidade de vida antes e depois da Queda (EICHRODT, 2004, p. 844). E ainda conforme Merril diz que “o fato de o homem escolher erroneamente e arrastar a si mesmo e à raça humana à condição de caído revela apenas quão legítima era a escolha e quão trágicas foram suas consequências” (MERRIL, 2009, p. 205).

A natureza do pecado

A Bíblia não é um conjunto de escritos dissertativos, mas traduz os conceitos diretamente da prática, do dia a dia. Por isso não encontramos nenhuma declaração formal do que é o pecado, mas ele é identificado na vida real, quando há o julgamento das ações em relação à conduta prescrita por Deus.

Eichrodt disse que isto fica patente pelos diversos termos com os quais o pecado é nomeado. A raiz p-šé utilizada com verbo para caracterizar o pecado como “revolta” e “rebelião”, ou seja, um sentido ativo. Já o verbo šāgāh traz a ideia de uma transgressão involuntária. Este conceito de culpabilidade está presente tanto nas ações praticadas, quanto no processo psíquico que acompanha esta ação.

Em todas as formas de se designar o pecado fica implícita a forma jurídica com a qual é tratado, ou seja, um comportamento que vai contra a norma estabelecida por Deus a seu povo por meio do berit, a aliança (EICHRODT, 2004, p. 824). Porém, devemos estar cientes que, estudar o pecado levando-se em consideração apenas o aspecto etimológico não nos ajudará muito na sua compreensão, pois estes termos devem ser estudados no contexto integral da fé. O termo básico para pecado é ḥata’, e significa errar o alvo, como um soldado que erra o alvo inimigo e agora pode ser morto por isso. Pecado é aquilo que é tortuoso, que não é reto ou direito.

O pecado no Antigo Testamento é somente uma ação ou pode ser considerado também uma condição? A maioria dos estudiosos concorda que pode ser as duas coisas. Eichrodt afirmou que as ações individuais do homem apontam para sua vontade pervertida. Ele disse ainda que o pecado é fruto do livre arbítrio do homem, ou seja, toda vez que o homem executa sua livre vontade ele acaba pecando. Logo podemos inferir que, devido à sua condição pecaminosa, o homem acaba executando ações pecaminosas.

Israel analisava a vida sob o prisma do berit que Deus estabelecera com seu povo. Por isso o pecado, como dito anteriormente acima, é a quebra, a violação da graciosa e justa aliança que garantia a comunhão pessoal de Deus com seu povo. O pecado pode ser descrito, além disso, como a revolta contra seu senhorio, ou seja, a independência do homem criado de seu Criador.

O conceito veterotestamentário de pecado é pessoal, mas pode haver outras perspectivas, como por exemplo, a moralista, onde observa-se e julga-se apenas o comportamento externo. Perto do fim do Antigo Testamento, este senso pessoal de pecado foi substituído pela simples observância externa às regras da lei, já não havia mais a ênfase na corrupção intrínseca do coração humano, conforme destaca o profeta Jeremias (17:9). Esta posição foi ganhando território e, no judaísmo pós bíblico a lei era um meio de salvação, pois cada pessoa, embora tivesse o impulso mau, podia dominá-lo não infringindo a lei mosaica. O judaísmo moderno, em sua maior parte, crê que o ser humano nasce essencialmente bom e adota uma visão bem otimista em relação a si mesmo. Por isso não crê que precisa ser salvo por qualquer mediador no céu ou na terra.

Esta visão contrasta radicalmente com a perspectiva neotestamentária, que adota uma visão pessimista do ser humano em relação ao pecado. O Novo Testamento inclusive adota uma visão mais aprofundada do pecado que o Antigo Testamento aborda. Eichrodt disse que o pecado se encontra de tal forma arraigado no interior do homem que é impossível a este fazer uma opção a favor de Deus, todas as suas opções são de apostasia contra Deus. Mesmo vendo todo o estrago que o pecado causou ao longo da história os profetas viam como o povo avançava pelo caminho da perdição (EICHRODT, 2004, p. 831).

Segundo Smith, citando De Vries, o pecado no Antigo Testamento é muito mais do que uma ação errada e envolve o ser humano integralmente, pois tem uma dimensão física, espiritual e mental. Quando o ser humano peca, se põe abaixo dos animais, pois nega seus atributos de autoconsciência, compreensão própria e seu propósito de vida na Terra, resultando em frustração, sofrimento e alienação de Deus.

Introdução

O pecado é um tema importante no Antigo Testamento. Enquanto a maneira de se fazer o bem é descrita poucas vezes, a maneira de se agir errado é descrita de muitas formas. Isto fica claro pelos diferentes nomes com os quais é tratado na Bíblia, tais como desgraça e má escolha, mas principalmente como a definição de um comportamento contrário a uma norma estabelecida (EICHRODT, 2004, p. 823).

Alguns entendem o processo do pecado como a “queda” da humanidade. Mas, Eugene Merril diz que o termo queda não ocorre nenhuma vez na Bíblia, porém entende ser uma boa palavra para descrever o estado do homem após sua rebelião contra Deus, pois a humanidade se afastou, abandonou sua condição original na criação, e agora está abaixo da condição de benção que Deus havia estabelecido (MERRIL, 2009, p. 203).

A Bíblia trata da questão do pecado de forma contundente, pois a ruptura causada pelo pecado abrange, além do próprio ser humano, todo mundo à sua volta. O pecado trouxe a ruptura com o próprio Criador, que chamaremos de ruptura teológica. Além da ruptura teológica, o pecado causou a ruptura sociológica, ou seja, o distanciamento entre os seres humanos. Igualmente, o pecado provocou a ruptura psicológica, onde observamos a vergonha que o homem sentiu de si mesmo quando se percebeu nu. E, não menos importante, o pecado ocasionou a ruptura ecológica, cujos efeitos foram vistos na produção de ervas daninhas sobre a Terra.

A Bíblia, apesar de versar sobre a dignidade e o valor humanos, está muito mais preocupada em tratar de sua profunda necessidade da salvação do pecado, pois há muitos exemplos da tragédia, culpa e alienação que este gerou no homem. Alguns teólogos tentam minimizar a questão da culpa e do pecado no homem, porém Walther Eichrodt afirma que além do sentido religioso, há o emprego do sentido jurídico, como um delito ou crime. A descrição de pecado pela raiz `-w-h deriva de um verbo de movimento que significa “dobrar, girar, desviar-se do bom caminho”, onde fica implícita a idéia da culpabilidade do agente (EICHRODT, 2004, p. 824). Bruce Milne diz que a razão para esta minimização do pecado se deve à teoria da evolução, à teoria socioeconômica da Karl Marx, à abordagem psicanalítica de Sigmund Freud e o secularismo do mundo moderno.

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