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A natureza do pecado

A Bíblia não é um conjunto de escritos dissertativos, mas traduz os conceitos diretamente da prática, do dia a dia. Por isso não encontramos nenhuma declaração formal do que é o pecado, mas ele é identificado na vida real, quando há o julgamento das ações em relação à conduta prescrita por Deus.

Eichrodt disse que isto fica patente pelos diversos termos com os quais o pecado é nomeado. A raiz p-šé utilizada com verbo para caracterizar o pecado como “revolta” e “rebelião”, ou seja, um sentido ativo. Já o verbo šāgāh traz a ideia de uma transgressão involuntária. Este conceito de culpabilidade está presente tanto nas ações praticadas, quanto no processo psíquico que acompanha esta ação.

Em todas as formas de se designar o pecado fica implícita a forma jurídica com a qual é tratado, ou seja, um comportamento que vai contra a norma estabelecida por Deus a seu povo por meio do berit, a aliança (EICHRODT, 2004, p. 824). Porém, devemos estar cientes que, estudar o pecado levando-se em consideração apenas o aspecto etimológico não nos ajudará muito na sua compreensão, pois estes termos devem ser estudados no contexto integral da fé. O termo básico para pecado é ḥata’, e significa errar o alvo, como um soldado que erra o alvo inimigo e agora pode ser morto por isso. Pecado é aquilo que é tortuoso, que não é reto ou direito.

O pecado no Antigo Testamento é somente uma ação ou pode ser considerado também uma condição? A maioria dos estudiosos concorda que pode ser as duas coisas. Eichrodt afirmou que as ações individuais do homem apontam para sua vontade pervertida. Ele disse ainda que o pecado é fruto do livre arbítrio do homem, ou seja, toda vez que o homem executa sua livre vontade ele acaba pecando. Logo podemos inferir que, devido à sua condição pecaminosa, o homem acaba executando ações pecaminosas.

Israel analisava a vida sob o prisma do berit que Deus estabelecera com seu povo. Por isso o pecado, como dito anteriormente acima, é a quebra, a violação da graciosa e justa aliança que garantia a comunhão pessoal de Deus com seu povo. O pecado pode ser descrito, além disso, como a revolta contra seu senhorio, ou seja, a independência do homem criado de seu Criador.

O conceito veterotestamentário de pecado é pessoal, mas pode haver outras perspectivas, como por exemplo, a moralista, onde observa-se e julga-se apenas o comportamento externo. Perto do fim do Antigo Testamento, este senso pessoal de pecado foi substituído pela simples observância externa às regras da lei, já não havia mais a ênfase na corrupção intrínseca do coração humano, conforme destaca o profeta Jeremias (17:9). Esta posição foi ganhando território e, no judaísmo pós bíblico a lei era um meio de salvação, pois cada pessoa, embora tivesse o impulso mau, podia dominá-lo não infringindo a lei mosaica. O judaísmo moderno, em sua maior parte, crê que o ser humano nasce essencialmente bom e adota uma visão bem otimista em relação a si mesmo. Por isso não crê que precisa ser salvo por qualquer mediador no céu ou na terra.

Esta visão contrasta radicalmente com a perspectiva neotestamentária, que adota uma visão pessimista do ser humano em relação ao pecado. O Novo Testamento inclusive adota uma visão mais aprofundada do pecado que o Antigo Testamento aborda. Eichrodt disse que o pecado se encontra de tal forma arraigado no interior do homem que é impossível a este fazer uma opção a favor de Deus, todas as suas opções são de apostasia contra Deus. Mesmo vendo todo o estrago que o pecado causou ao longo da história os profetas viam como o povo avançava pelo caminho da perdição (EICHRODT, 2004, p. 831).

Segundo Smith, citando De Vries, o pecado no Antigo Testamento é muito mais do que uma ação errada e envolve o ser humano integralmente, pois tem uma dimensão física, espiritual e mental. Quando o ser humano peca, se põe abaixo dos animais, pois nega seus atributos de autoconsciência, compreensão própria e seu propósito de vida na Terra, resultando em frustração, sofrimento e alienação de Deus.

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