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Archive for the ‘Teologia Sistemática’ Category

Jesus, o sumo sacerdote

A figura do sumo sacerdote é muito importante no judaísmo, e encontramos no judaísmo tardio uma relação entre o Messias-Rei e o sumo sacerdote. Lemos em Gênesis sobre o misterioso sacerdote Melquisedeque, diante do qual Abraão prestou reverência e entregou o dízimo. No Salmo 110 este sacerdote também é citado, atribuindo ao rei as funções sacerdotais. Jesus cita este salmo, conforme Mc. 12:35 dizendo que o Messias, além da linhagem davídica também é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.

O judaísmo conhecia a figura do sacerdote que deveria completar o sacerdócio judaico num tempo escatológico, pois este sacerdote, dentro de seu contexto cultural poderia satisfazer as necessidade do povo de contato com Deus, uma vez que o sacerdote comum causava decepção. Logo, a esperança de um sacerdote do fim dos tempos representava renovação.

A princípio, quando Jesus profere as palavras contra o templo parece-nos improvável que Jesus tenha atribuído a si mesmo funções sacerdotais. Porém, o evangelho de João dá uma conotação diferente a este episódio, quando afirma ser ele mesmo, Jesus, aquele que substitui o templo. Falar de Jesus como sumo sacerdote é ter a epístola aos Hebreus como foco de estudo, cujo centro é o capítulo 7 tendo como base Gênesis 14 e o Salmo 110. O autor da carta busca resolver a questão do sacerdócio temporário do Antigo Testamento e que deve ser substituído pelo sacerdote do novo pacto.

Temos também uma relação direta entre Isaías 53:12 e Hebreus 9:28, onde lemos que Cristo foi sacrificado de uma vez por todas para tirar os de muitos homens. Neste trecho a dependência da noção judaica de sumo sacerdote ampara a idéia do sacrifício oferecido pelo mediador em prol da expiação dos pecados do povo. A concepção judaica de sumo sacerdote enriquece a cristologia ao destacar a soberania de Cristo como sumo sacerdote quando se sacrificou. A carta aos Hebreus destaca outro ponto fundamental: Jesus leva a humanidade à perfeição, tornando-se ele mesmo perfeito (Hb. 7:28; Hb. 10:14), pois, para conduzir a humanidade à perfeição o sumo sacerdote deve passar por todas as etapas da vida humana. Hebreus menciona a ausência do pecado em Jesus, mas presume a possibilidade de pecar, e, aqui nessa carta, isso tem um papel muito maior do que nos evangelhos sinóticos, pois, é justamente a possibilidade de pecar que torna sua impecablidade notória. Esta é a afirmação mais ousada de todo Novo Testamento e que realça todo aspecto da humanidade de Jesus.

É necessário que Jesus sofra com os homens, para poder sofrer por eles. A obra sacerdotal de Jesus envolve o aspecto de sua glorificação, ou seja, quando “penetrou mais além do véu” levou consigo os seus em sua ressurreição. O papel de sumo sacerdote de Jesus engloba dois fatores importantes: o sacrifício expiatório realizado de uma vez por todas e a eternidade deste sacrifício. A encarnação de Jesus não foi apenas para realizar o seu sacrifício eterno, mas para interceder em nosso favor ainda hoje, pois foi humano como nós e pode se solidarizar conosco. A doutrina cristológica de sumo sacerdote une os três aspectos da sua obra terrena, e expressa mais claramente a idéia que o Novo Testamento faz de Jesus.

Jesus, o servo sofredor

O título “Servo Sofredor” é um dos mais antigos dados a Jesus, e está ligado à idéia de uma substituição progressiva que começou na criação. Este é também um título tipicamente judaico, que nos remete aos textos de Isaías 42:1-3 e Isaías 52:13- 53:12.

Estes textos trazem bastante informação sobre sua obra e até sua morte, mas não traz nenhuma informação sobre sua identidade, que parece ter sido conhecida de seus leitores, mas são um enigma para os estudiosos de hoje.

Alguns deduzem este servo como o próprio povo de Israel, de acordo com o trecho de Isaías 49:3. Outros deduzem ser uma parte do povo de Israel, chamada de remanescente. E, por fim, alguns reduzem o Servo da coletividade para um indivíduo. Seguindo o princípio da substituição na história da salvação, uma redução progressiva acontece: da criação ao povo de Israel, do povo de Israel ao remanescente, e do remanescente a um só homem, Jesus. A característica essencial da substituição é o sofrimento. O Servo é aquele que sofre, e seu sofrimento substitui o sofrimento de muitos homens. Esta obra substitutiva do Servo restaura a aliança com Deus, ou seja, o Servo é o mediador entre os homens e Deus.

Os teólogos liberais costumam dizer que Jesus nunca atribuiu à sua morte um valor expiatório, pois, segundo a abordagem liberal, foi o apóstolo Paulo que entendeu desta maneira. De certa forma isso é verdade, porém devemos entender que Jesus se pôs a viver esta obra expiatória a ensiná-la. Além disso, Jesus falou muito sobre seu sofrimento e morte como parte integrante de sua obra terrena, sem sombra de dúvida, para cumprir o plano da salvação.

Nos textos da instituição da Ceia (Mc. 14:24; Mt. 26:28; Lc. 22:20; 1 Co. 11:24) Jesus deixa muito claro seu sofrimento e morte por muitos homens. Nestes textos estão presentes os conceitos de aliança e substituição, que são duas idéias chaves, segundo o Antigo Testamento, da obra que o Servo de Deus deveria realizar. Ao restabelecer a aliança entre Deus e seu povo, segundo os textos de Is. 42:6 e 49:8, o Servo se torna a própria aliança em pessoa. Nos evangelhos encontramos poucas referências que estabelecem uma relação direta entre Jesus e o Servo Sofredor de Isaías. Em Mt. 8:16, o evangelista estabelece como o cumprimento da profecia de Isaías as curas realizadas por Jesus, e não seu sofrimento substitutivo. Enquanto o profeta diz que, por meio do seu sofrimento e morte, o Servo toma as enfermidades dos outros, o evangelista diz que Jesus levou embora as enfermidades. Na teologia cristã primitiva, de certo modo, este pensamento é correto, pois as curas feitas por Jesus previam sua obra definitiva realizada por seu sofrimento.

João, ao narrar o episódio do batismo de Jesus, é o único que liga a idéia da missão do Servo Sofredor de Isaías com a vocação e chamado de Jesus, ao compará-lo com o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O cristianismo primitivo herdou uma concepção muito antiga de Jesus como Servo de Deus, provavelmente vinda do apóstolo Pedro. Observamos este padrão em sua primeira carta, onde com insistência cita trechos do livro do profeta Isaías que tratam sobre o Servo de Deus, conforme 1 Pe. 2:21 ss.

Em Paulo, apesar de não haver o emprego da expressão Servo de Deus, a morte expiatória de Jesus ocupa o lugar central. Depreendemos isso pelos textos de 1Co. 15:3 e Fl. 2:6 que foram herdados da tradição da igreja, já que ele mesmo declara tê-la recebido. O título Servo de Deus, ao contrário do título de profeta, explica a razão da missão de Jesus no mundo, pois foi por meio do seu sofrimento e morte que Jesus veio em sua missão de salvar o mundo na história da salvação. O título de profeta está restrito à atuação presente de Jesus, mas o Servo de Deus provê um caráter definitivo da redenção, e que representa o ponto máximo da história da salvação.

Jesus, o profeta

Antes de mais nada convém dizer que o título de profeta, aplicado a Jesus, não indicava sua profissão, pois, no judaísmo do primeiro século, esta profissão,  organizada e regular, já não existia mais. Muito pelo contrário, pois onde Jesus é identificado como profeta, não o é simplesmente como um profeta, mas como o profeta, que veio cumprir toda a profecia. Israel esperava o profeta escatológico, pois devido à longa tradição profética de Israel a palavra nabi ganhara diversos sentidos. O termo profeta originariamente significava o profeta extático, e ganhou outro significado quando surgiu uma classe de profetas profissionais, que emitiam oráculos; foi a esta classe que a idéia escatológica ficou associada. Este profetismo, que não apenas transmitia visões, mas, sobre tudo as interpretava, havia se extinguido de Israel na época de Jesus. Por conta disso, a volta deste tipo de profetismo era visto sob lentes escatológicas, ou seja, reapareceria somente no fim dos tempos, conforme o texto de Joel 2:28 em diante. É neste contexto que o aparecimento de João Batista é visto. Então, dada esta esperança escatológica, que se cumpriria na vida de um único profeta, João Batista, e depois Jesus, foi considerado profeta.

A idéia judaica de profeta converge para apenas um profeta, encarnado em diferentes homens ao longo da história, que aparece em sua forma definitiva no fim dos tempos para a realização final da profecia. Este pensamento começa no Pentateuco, quando Moisés prediz que Deus levantaria outro profeta semelhante a ele (Dt. 18:15). Nesta linha de pensamento, o profeta mais esperado era Elias, que é identificado como aquele que prepararia o caminho de JAVÉ (Ml. 4:5). Este profeta apareceria e pregaria os últimos mistérios de Deus e a última oportunidade ao arrependimento para salvação, porém ele não seria um mero precursor do Messias, mas seria o próprio Messias. No Novo Testamento João Batista é visto como o profeta anunciado no Antigo Testamento, pois a fórmula que Lucas emprega para referir-se a ele é identica à usada para os profetas veterotestamentários. Jesus inclusive afirma esta posição do judaísmo tardio ao dizer que João Batista era o Elias ressucitado. Quando analisamos os textos que se referem a Jesus com o título de profeta, é necessário fazer uma distinção entre aqueles que tratam de Jesus como um profeta, justamente por terem havido diversos, daqueles onde ele é tatado como o profeta escatológico. Porém, a noção que Israel tinha do profeta escatológico está ligada à idéia do profeta comum.

No texto de Lucas 7:16, que relata o episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim, todos glorificaram a Deus dizendo que um grande profeta havia se levantado entre eles. Neste trecho não há artigo definido indicando o profeta, ou seja, o povo, naquela ocasião não considerou Jesus como o profeta do fim dos tempos, mesmo porque este não precisaria do adjetivo “grande”. Também em Mateus 21:46 os fariseus temeram prender a Jesus pois a multidão o tinha por profeta, ou seja, um profeta, e não o profeta escatológico. Porém, temos os textos que tratam de Jesus como o profeta do fim dos tempos. Em Mc. 6:14, estão registradas as mais antigas crenças sobre Jesus, tais como: Elias, um profeta como os antigos profetas e João Batista. Estas declarações, pela antiguidade do texto, vem antes até mesmo de títulos fundamentais de Jesus como Cristo e Filho do Homem. O fato de comparar Jesus com João, é relevante, pois João foi considerado o profeta do fim dos tempos, logo, nesta passagem, Jesus também é identificado como tal. O curioso aqui é que Jesus não recebe o nome de um profeta do passado, mas de um profeta que vivera recentemente numa época já escatológica.

A comparação com Elias era a mais coerente com aquela época, pois se aguardava o seu retorno escatológico, conforme dito acima. No terceiro caso, segundo o texto ocidental, Jesus não seria comparado com um dos profetas, mas identificado com eles. Ou seja, nos três casos o resultado é o mesmo: trata-se do profeta do fim dos tempos. A úncia diferença é que nos dois primeiros casos da-se um nome para Jesus, enquanto que no último esta nomeação não é feita. Esta proposição é confirmada no trecho de Mc. 8:28, quando os discípulos respondem a Jesus com as três afirmações básicas sobre sua pessoa, ou seja, alguns diziam que ele era João Batista, outros Elias e, ainda alguns, um dos profetas. Observamos que os evangelhos sinóticos trazem as correntes de pensamento mais populares sobre Jesus, e, o que é mais curioso, é que nem Marcos, nem Mateus ou Lucas utilizaram este título para se referir a Jesus em sua crença pessoal, mas relataram a visão popular sobre Jesus.

 Jesus não se considerou o profeta escatológico, mas atribuiu este papel a João Batista, que, segundo Jesus, foi tratado de forma desprezível, de acordo como os registros em Mt. 11:14 e Mt. 17:12. O evangelho de João mostra que a multidão atribuiu a Jesus o título de profeta, como está narrado no episódio da multiplicação dos pães (Jo. 6:14). Na primeira parte do livro de Atos, que trata das tradições judaico-cristãs, Jesus é identificado duas vezes como o profeta predito por Moisés, porém na segunda parte de Atos, bem como nas epístolas, não encontramos esta identificação. A vertente judaico-cristã do cristianismo, baseada no Evangelho dos Hebreus, encarou Jesus como o profeta escatológico. O conhecimento insuficiente deste evangelho, uma vez que apenas alguns fragmentos deste estão disponíveis, é compensado pelo Kerygmata Petrou, onde encontramos uma especulação gnóstica do título “verdadeiro profeta” atribuído a Jesus. Os documentos do Kerygmata Petrou associam o título de “verdadeiro profeta” a Adão, e que, durante a história foi encarnou-se em Enoque, Noé, Abraão, Isaque, Jacó e Moisés. Moisés então aponta para um profeta semelhante a ele, que aboliria os sacrifícios, uma função essencial do verdadeiro profeta. Esta linhagem segue até Jesus, que é a encarnação perfeita do verdadeiro profeta desde Adão.

Esta teoria judaico-cristã carrega em seu âmago a crença de que a história se desenvolve continuamente sob pares antagônicos. Sendo Adão o primeiro “verdadeiro profeta” seu par antagônico é Eva, o princípio da falsa profecia. Isaque, o verdadeiro se opõe a Ismael. Da mesma maneira Jacó, o verdadeiro profeta se opõe a Esaú, o falso profeta. Outrossim, Moisés sofre oposição de Arão. E finalmente Jesus, o “verdadeiro profeta”, o escatológico, tem como par antagônico João Batista, cujos seguidores sofrem crítica implícita no Evangelho de João. Estas ideías do cristianismo judaico primitivo não influenciou a dogmática cistã posterior, porém exerceu grande influência em outra religião monoteísta, na qual o profeta desempenha um papel central: o islamismo. De certa forma o papel de Jesus como profeta representa uma vantagem em relação ao de Messias, pois, na concepção judaica, o Messias instituiria um novo programa de governo em relação ao governo romano instituído além da restauração de Jerusalém aos tempos davídicos, enquanto que o papel de Jesus como profeta dos últimos tempos representa o seu lado humano. Este profeta vem justamente preparar o mundo para a vinda do Reino de Deus, onde o Messias é seu representante máximo. O conceito profético sobre Jesus explica o caráter escatológico de sua mensagem: o Reino de Deus se aproxima. Não devemos reduzir o papel de Jesus apenas ao profeta do fim dos tempos, pois o título de profeta a Jesus explica sua obra terrena, e sua mensagem preparatória sobre a vinda do Reino de Deus.

A pessoa e obra de Cristo

A carta aos colossenses(1:15-23) exalta de forma magnífica a pessoa e obra do Senhor Jesus Cristo. Os hereges, da cidade de Colossos, o haviam diminuído a um simples agente de um complicado processo de livramento deste mundo perverso.

Na perícope compreendida entre os versos 15 e 23 do primeiro capítulo, Paulo coloca em preeminência a obra criativa e redentora de Cristo, e inicia um amplo debate cristológico. É interesante notar que, neste trecho, o desenvolvimento cristológico de Paulo não é um tratado teológico separado, um apêndice, mas sim, uma continuação da oração iniciada no verso 9 do capítulo 1, e serve também para explicar a expressão “Filho Amado” do verso 13.

Os termos que Paulo usa só podem ser aplicados à deidade, e tem seu ápice na declaração de que, em Cristo, habita toda a plenitude. Alguns estudiosos sugerem que os versos 15 a 20 são citações de um antigo hino de louvor a Cristo.

Cristo é a imagem, ou a exata representação do Deus invisível. Embora fosse plenamente humano, Jesus era muito mais do que meramente humano. Nos versos 15 a 17, Paulo destaca a plena divindade de Jesus. Deus, por ser espírito, não pode ser visto pelo ser humano, porém, no Cristo encarnado, o próprio Deus se faz visível ao homem.

Como criador, ele é anterior a toda criação, é o primogênito da criação, sendo o próprio criador. Isto não significa que Jesus é um ser criado, mas sim que ele tem a primazia sobre tudo aquilo que foi criado. Ou seja, Jesus não é primogênito na criação, mas o primogênito de toda a criação. No mundo antigo o primogênito era o herdeiro direto de seu pai, e foi isso que Paulo quis transmitir a seus leitores.

Paulo nos ensina que Jesus é o agente de toda criação, porque nele foram criadas todas as coisas. Ele é a meta da criação, e toda criação gira em torno dele. Jesus também é apontado como o conservador e sustentador da integridade de toda a criação, conforme nos diz o original em grego sunesteken. Foi uma resposta ao demiurgo gnóstico, um criador semi divino. Como soberano, e prototokos, da criação ele tem autoridade sobre anjos e espíritos de qualquer categoria.

Paulo defende que Cristo é o cabeça da igreja. Assim como Cristo tem a preeminência na criação deve ter na igreja também. Por causa de sua relação especial com a igreja, sobre a qual tem suprema autoridade, dirige e controla todas as suas atividades, seu corpo espiritual. Ele é a fonte da qual a igreja recebe seu sustento, e a metáfora de Cristo como kefale da igreja é um forte indicador de sua união íntima com a igreja, seu povo remido. Desta forma, a igreja, comunidade dos remidos, está unida com Cristo, e cada um dos que fazem parte da igreja, estão unidos uns aos outros, pois Cristo é o cabeça do corpo, que é a igreja. Isto significa que a igreja, como corpo visível de Cristo na terra, é o seu instrumento neste mundo.

Paulo diz que Cristo é também o agente divino da reconciliação. Cristo, por meio da sua morte sangrenta, trouxe a paz entre o homem e Deus, pois, por consequência do pecado, o homem estava na posição de inimigo de Deus. Desta forma, o pecador é reconciliado, passando do estado de hostilidade e aversão a Deus, para santos e inculpáveis diante de Deus. Paulo usa a palavra apokatallaxai, que significa trocar inimizade por amizade.

O primeiro aspecto da reconciliação é que a morte de Cristo propicia a ira de Deus, e o homem fica em um estado que pode receber a amizade de Deus. Um segundo aspecto da reconciliação é o relacionamento pessoal e íntimo entre Deus e o homem que nele crê, expresso anteriormente pela metáfora do corpo simbolizando, Cristo e a igreja.

O conceito de Paulo sobre a reconciliação não é a salvação final de todos os seres, o universalismo, mas tem a idéia de trazer todas as coisas sob a autoridade e domínio de Deus, algumas para salvação, outras para juízo. Este trecho então, se refere à soberania de Cristo sobre todas as coisas, e não a salvação de todas as coisas. A condição para a apresentação diante de Deus sem culpa e mácula é manter a fé firme, e se apegar ao evangelho que Paulo pregou. Posto de outra forma, a reconciliação pode somente ser completada por meio da fé, ou os benefícios da cruz não se concretizam na vida do indivíduo.

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O conhecimento de Deus

Ao ler, estudar e interpretar a Bíblia devemos fazê-los sob a ótica de que Deus é o foco de toda história. De Gênesis a Apocalipse vemos o cuidado de Javé com seus escolhidos.

Suas promessas vão se cumprindo, mesmo em face da infidelidade humana, e sua revelação progressiva vai preenchendo a linha cronológica da nossa história.

Nos dias atuais, o homem tem se tornado o centro da teologia (uma grande incoerência aliás), das músicas e até mesmo da liturgia. Deus tem sido relegado ao papel de mero servente do homem, uma espécie de mordomo de luxo.

Porém, somos informados de que a criação serve ao propósito da adoração e louvor à glória do Deus criador de todas as coisas.

Desde o início Deus quis se relacionar com a coroa da sua criação: o homem. Neste relacionamento Divino/humano deveríamos dar a glória devida a ele.

Jesus fala sobre isso com o pai, e vejam o conceito que ele tinha de vida eterna, descrito no evangelho de João capítulo 17 versículo 3:

Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.

Durante a leitura da perícope, a questão do relacionamento e glória de Deus estão juntos. Jesus veio revelar a glória do pai para que o mundo lhe desse a glória devida, propósito para qual fomos criados, como descrito acima.

Logo, a questão do conhecimento de Deus está interligada ao relacionamento com Deus, que, em última análise, redundará na glória devida a ele.

Algumas pessoas erroneamente pensam que não se pode estudar sobre Deus, nem mesmo ter um conhecimento intelectual sobre Deus, pois colocam suas experiências acima da palavra que Deus mesmo revelou a nós. Deus pode apenas ser experimentado, não conhecido. Fazem de Deus um produto.

Em sua palavra escrita Deus mesmo nos deixou uma instrução que derruba o argumento dos empiristas teológicos. Vamos dar uma olhada no que diz Jeremias, no capítulo 9 versos 23 e 24.

23 Assim diz o Senhor : “Não se glorie o sábio em sua sabedoria nem o forte em sua força nem o rico em sua riqueza,
24 mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me,pois eu sou o Senhor e ajo com lealdade, com justiça e com retidão sobre a terra, pois é dessas coisas que me agrado”, declara o Senhor .

Notem que, nosso próprio conhecimento não serve para muita coisa, mas Deus nos capacitou para o compreendermos e conhecê-lo. E ele nos diz que se agrada de quem busca este conhecimento.

O gênero de Deus

A Bíblia nos diz que Deus é o nosso pai. Mas será que Deus é do gênero masculino?

Para entedermos melhor isto é necessário nos lembrar de que a Bíblia foi escrita por judeus e primeiramante para judeus. A sociedade judaica era patriarcal, ou seja, o pai detinha a autoridade do lar.

Logo, para os judeus, quando era ensinado que Deus era o pai celestial logo vinha à mente a autoridade e provisão que um pai terreno oferecia.

Então, o conceito de Deus como pai é apenas uma metáfora para melhor o compreendermos , pois a Bíblia nos diz que Deus é espírito (João 4:24).

A eternidade de Deus

Deus é o criador de todas as coisas, e não está sujeito ao tempo linear, como nós estamos. Porém, em sua revelação progressiva ele intervém em nossa linha do tempo.

Vemos que Deus vive e se move fora da nossa linha cronológica, pois seu propósito é eterno, mas se manifesta em nossa finitude. Veja o que o apóstolo Paulo escreve para os  efésios no capítulo 3 verso 11:

10 A intenção dessa graça era que agora, mediante a igreja, a multiforme sabedoria de Deus se tornasse conhecida dos poderes e autoridades nas regiões celestiais,
11 de acordo com o seu eterno plano que ele realizou em Cristo Jesus, nosso Senhor,

Notem que o plano era eterno, mas se manifestou em nosso chronos por meio de Jesus Cristo.

O Antigo testamento também nos dá uma idéia da eternidade de Deus no Salmo 90 versículo 2:

2 Antes de nascerem os montes e de criares a terra e o mundo,de eternidade a eternidade tu és Deus.

O original hebraico traz a palavra ôlam significando eternidade para frente ou para traz com ênfase na repetição.

Pedro também nos dá um conceito interessante de que Deus não está sujeito ao nosso chronos:

Não se esqueçam disto, amados: para o Senhor um dia é como mil anos, e mil anos como um dia. (II Pedro 3:8)

O tempo, para Deus, é apenas uma ferramenta para ele estabelecer, e cumprir, seu propósito. Vamos ler o Paulo diz aos Gálatas sobre a questão do tempo e do seu propósito:

Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei, (Gálatas 4:4)
Deus tem autoridade para estabelecer o tempo, isso nos prova que Deus é Senhor do tempo também.
Ele lhes respondeu: “Não lhes compete saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade. (Atos 1:7)

Deus existe antes de tudo, por isso é completamente independente de tudo e de todos.

Teologia – Definição

O termo Teologia vem do grego Theos → Deus e Logos → Palavra, Estudo.

No contexto de nossos dias podemos definir Teologia como: “A Doutrina de Deus e suas relações com o universo.”

1    Por que devemos estudar Teologia?

Sendo Deus a causa primeira de todas as coisas, devemos estudar sua relação com o Universo e com os homens. Isto tem impacto direto em nossas vidas.

Uma das maiores razões para se estudar teologia é o valor do conhecimento sobre Deus. Qualquer outra categoria de conhecimento é um meio para um fim, mas o conhecimento de Deus é um fim digno em si mesmo. E, visto que Deus Se revelou através da Escritura, conhecer a Escritura é conhecê-Lo, e isto significa estudar teologia.

Devemos sempre lembrar que conhecer sobre Deus não é o mesmo que conhecer a Deus. Porém antes de conhecer a Deus temos que conhecer sobre Ele antes de mais nada. Veja o que a sua palavra diz sobre isso:

“Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus; e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor. (1 João 4:7-8)”.

2   Objetivo

O objetivo da Teologia é o estudo detalhado dos fatos a respeito de Deus e as relações entre Deus e o universo e a exibição destes fatos em uma unidade organizada e conectada entre si.

Quando definimos Teologia como uma ciência estamos indicando seu objetivo. A ciência não cria nada, apenas descobre. A Bíblia é para o teólogo o que a natureza é para o cientista, um conjunto de fatos desordenados ou parcialmente ordenados. Deus não achou necessário escrever a Bíblia numa forma sistemática, portanto é nossa tarefa juntar estes fatos e colocá-los sob forma de um sistema lógico.

Nós não podemos fazer teologia mais do que podemos fazer uma lei da natureza. Então, desta forma, um teólogo é um servo e intérprete da verdade objetiva de Deus.

3  A Existência de Deus

Quase todas as pessoas tem de certo modo uma intuição acerca de Deus. De que existe um Ser superior, um Ser Supremo ou algo semelhante. Qual é a razão desta convicção? Para responder a esta questão algumas respostas tem sido dadas:

▪ O conhecimento de Deus é inato (já nascemos com esta noção).
▪ Revelação do próprio Deus.

3.1  Conhecimento Inato

É o conhecimento com o qual já nascemos, independente da experiência de vida de cada um, isto se deve à nossa constituição racional e moral. Não é obtida por meio de nenhum conhecimento ou estudo.

Podemos verificar isto em Romanos quando Paulo nos diz que os gentios não cristãos conheciam a Deus, porém não o honraram como Deus nem lhe deram graças (Rom 1:21). Diz ainda que mudaram a verdade de Deus em mentira (Rom 1:25). Isto implica em que estes homens conscientemente rejeitaram as verdades de Deus, sabiam de sua existência, mas resolveram rejeitá-lo. Isto é tão verdade que em Romanos 1:19 Paulo nos diz que Deus se manifestou a estes homens.

A Bíblia também nos diz sobre o fato de alguns negarem este senso interno e inato da existência de Deus. Salmos 14:1 nos dá claramente esta idéia, inclusive chamando estas pessoas de insensatas e tolas. Vemos que a raiz desta negação reside no pecado, também inato ao homem, conforme nos narra a Bíblia em Salmos 10:3-4.

Estas passagens indicam que, por causa de seu pecado, as pessoas pensam irracionalmente e negam a existência de Deus. Porém no mesmo contexto vemos que estas pessoas são declaradas sem desculpas, por negarem a Deus, o qual se manisfestou entre elas (Rom. 1:20).

Esta consciência interna e inata na vida das pessoas às vezes pode se manisfestar em momentos de perigo ou morte iminente. Imagine uma pessoa em um desastre, que negou a Deus a vida toda, e neste momento inconsciente, ou conscientemente passa a clamar a Deus por sua vida.

Na vida de um cristão este senso interno, a consciência de que Deus existe, se torna muito mais forte e distinta como nos diz a Bíblia em Romanos 8:15-16, onde além de O reconhecermos como Deus, também O reconhecemos como nosso Pai.

3.2  A revelação de Deus

Nunca poderíamos conhecer a Deus se Ele mesmo não se revelasse a nós.

Revelação é a ato de Deus pelo qual Ele se mostra ou comunica verdade à nossa mente; pelo qual Ele torna manifesto às suas criaturas aquilo que não pode ser conhecido de nenhuma outra maneira.

Temos esta revelação nas escrituras e na natureza. A Bíblia toda, assume que Deus existe. O primeiro verso de Gênesis já nos apresenta o que Deus fez no início de tudo. Ora, se Deus fez algo, é claro que sua existência é obvia.

Se cremos realmente que a Bíblia é a verdade, então sabemos, por meio dela, que Deus existe, e que podemos também saber sobre sua natureza e seus atos.

O mundo nos dá muitas evidências da existência de Deus. Paulo nos diz em Romanos 1:20, que seu eterno poder e divindade “claramente” se observa nas coisas que foram criadas. Então, concluímos que esta ampla referência às coisas criadas nos dá evidência do caráter de Deus.

Todavia é o próprio homem, criado à imagem de Deus, que nos dá o maior testemunho da existência de Deus. Sempre que encontramos outro ser humano, deveríamos perceber que existem incríveis habilidades inatas em cada um, que só poderiam ter sido criadas por um Criador infinito.

Em Atos 14:17 Barnabé e Paulo nos dão mais provas evidenciadas pela natureza.

Davi, em seu Salmo 19:1-2 nos fala do testemunho dos céus sobre a criação de Deus.

Basta olharmos para o alto e vermos todas as coisas criadas que Deus sustenta pela sua palavra. Ou ainda o Universo todo, com todas as suas leis de gravidade, atração e repulsão dos corpos, órbitas planetárias, as condições perfeitas para a vida somente aqui no planeta Terra e não em outro planeta de nosso Sistema Solar. Isso graças à distância exata do Sol, para que não fôssemos queimados, nem congelados. Como conceber que todas as leis da Física e da Química, que regem nossa vida, fossem frutos de reações físico/químicas aleatórias?

Portanto, quando nós cremos que Deus existe, Não estamos baseando nossa fé em alguma coisa obscura e nem mesmo nossa fé é cega. Pelo contrário, baseamos nossa fé em uma esmagadora quantidade de evidências que provam que Deus existe, baseamos nossa fé na palavra de Deus e nas criações de Deus.

Além do mais, estas evidências não são desqualificadas simplesmente pela rejeição de algumas pessoas a elas. Na realidade são estas pessoas que rejeitam as evidências que estão erradas em seu julgamento.

4  Provas da existência de Deus

As provas da existência de Deus têm sido construídas ao longo dos anos por filósofos cristãos, especialmente analisando as evidências que a natureza nos dá, e são tentativas de persuadir àqueles, que irracionalmente pensam, ou rejeitam a idéia, da existência de Deus. É verdade que é o pecado que faz as pessoas pensarem irracionalmente sobre isto. Porém estas provas são tentativas de fazer estas pessoas pensarem racionalmente sobre a existência de Deus, a despeito do pecado de cada uma delas. Todas estas provas da existência de Deus podem ser reunidas nestes quatro tipos principais:

4.1  Argumento cosmológico (visão de mundo)

Parte-se do principio da Lei da Causa e Efeito. A Lei de causa e efeito, em Filosofia, parte da definição de que “Nenhum efeito é quantitativamente maior e/ou qualitativamente superior à causa”.

A aplicação do princípio acima é amplamente reconhecida nas ciências exatas como Física, Química e Matemática, no entanto, podemos encontrá-lo em Biologia, Filosofia e Sociologia, enfim em todos os aspectos de nossa vida.

Disto podemos concluir que somente Deus (superior) = Causa, poderia conferir vida ao ser humano (inferior) = efeito. Os evolucionistas (corrente que acredita que as espécies de vida descendem de um ser vivo inferior), por sua vez, são totalmente desacreditados por não saberem se posicionar solidamente diante dos princípios da Lei de Causa e Efeito, visto que defendem, em um determinado aspecto, exatamente o contrário do que defendem os criacionistas.

Observe: “O ser humano, como as outras espécies de vida, é efeito das reações químicas, que ao longo dos anos, tiveram como resultado a formação de um ser heterotrófico e anaeróbico”(Richard Dawkins). Assim podemos concluir que o ser heterotrófico (inferior) = causa produziu os seres vivos (superior) = efeito.

4.2  Argumento teleológico (ramo da filosofia que estuda os fins últimos da sociedade, humanidade e natureza)

É na realidade um subitem do argumento cosmológico. Este argumento nos diz que um projeto supõe a existência de um projetista. Uma vez que o universo tem ordem e foi criado com uma utilidade, assume-se que existe um Deus com inteligência superior que colocou ordem em todo universo. Todo o universo é regido por leis, sem as quais haveria um caos completo e não seria possível nem mesmo a órbita dos planetas em torno do Sol. Logo, se há ordem e inteligência no Universo ordenado, podemos ter certeza de que Deus criou estas leis e ordens, visto não ser possível todas estas coisas surgirem sem uma causa.

4.3  Argumento antropológico (ramo da ciência que estuda o homem e suas relações)

O sentido de certo e errado dos seres humanos, a necessidade de justiça nos remete a Deus que é a fonte do certo e errado e quem um dia julgará a todos. Assim como o sol refletido num espelho nos revela que ele existe e o que ele é, da mesma maneira nossa alma revela Deus para nós. A reflexão do Sol no espelho não nos revela tudo a respeito do Sol assim como nosso senso de justiça, certo e errado não nos revela tudo sobre Deus, porém podemos confiar pelo reflexo do Sol no espelho, que o Sol existe; assim como por estes atributos do homem, que Deus existe.

4.4  Argumento ontológico (parte da filosofia que trata da natureza do ser e de sua existência)

Este argumento tem base nas idéias abstratas do homem. Todo homem tem dentro de si a idéia de um ser absolutamente maior e perfeito. Este argumento admite que existe na mente do próprio homem o conhecimento básico da existência de Deus, colocado lá pelo próprio Criador.

Finalmente, devemos lembrar que em um mundo perdido no pecado somente Deus pode nos tirar da cegueira espiritual e irracionalidade. Se Deus mesmo não se revelar para nós, jamais teríamos condições de buscá-lO. 2 Cor. 4:4 e Romanos 3:11 deixa esta verdade bem clara.

5  Principais idéias anti-teístas

5.1  Ateísmo

Nega a existência de qualquer divindade. Acredita que o universo surgiu por acaso, ou que sempre existiu, sustentado por leis pre-existentes e impessoais. Podem ser divididos em dois grupos: ateu prático e ateu teórico.

Os primeiros são assumidamente gente sem Deus, que não reconhecem a Deus e que vivem como se Deus não existisse, assim como nos fala o Salmo 10:4

O outro grupo baseia sua negação no desenvolvimento de raciocínios. Tentam provar por meio de argumentos que eles consideram razoáveis e conclusivos que não há Deus.

5.2  Agnosticismo

Vem do prefixo de negação “a” colocado antes da palavra grega para conhecimento “gnostos”, desta forma agnostos, significando “não saber”.

O agnóstico não nega a existência de Deus, ou de um deus, mas sim, nega a possibilidade do conhecimento deste deus. Todo adepto desta filosofia alega crer apenas no que pode ver e tocar.

5.3  Deísmo

O deísmo é uma postura filosófico-religiosa que admite a existência de um Deus criador, mas rejeita a idéia de revelação divina. É uma doutrina que considera a razão como única via capaz de nos assegurar da existência de Deus, desconsiderando, para tal fim, a prática de qualquer religião. Este deus fez o universo e o homem, mas abandonou sua criação. Deus Não possui atributos morais nem intelectuais.

5.4  Materialismo

Nega a existência do espírito ou de seres espirituais. Toda realidade é simplesmente matéria em movimento. Não existe vida pós-morte; céu e inferno são estados terrenos de prazer ou sofrimento, sucesso ou fracasso. O materialismo declara que a única realidade é a matéria, e que o homem é um animal apenas, por isso não é responsável por seus atos. Os diferentes comportamentos físicos e psíquicos humanos são simplesmente movimentos da matéria. Desta forma, o homem não tem o que, nem a quem prestar contas de nada.

5.5  Panteísmo

Deus é simplesmente a natureza, a soma total do sistema universal. O hinduísmo segue este filosofia. O termo vem do grego Theos, que significa “Deus” e Pan, que significa “tudo”. Ensina que tudo no universo é Deus e Deus é tudo. O universo é o próprio Deus.

5.6  Dualismo

Ensina a existência de dois reinos opostos: um do espírito e outro da matéria, contrários um ao outro, ou o governo do mundo por dois deuses: um de maldade e trevas e outro de bondade e luz. Zoroastro, filósofo persa, foi o primeiro a defender esta tese; a idéia de dois deuses (Bem X Mal) onde nenhum dos dois triunfa no final.

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