011 – Introdução ao Livro de Reis – Um povo, duas nações

Introdução ao Livro dos Reis – Um povo, duas nações

 

Na Bíblia hebraica, tal qual os livros de I e II Samuel, os livros de Reis formam um único volume e se encontram na seção chamada “Profetas Menores” junto com Josué, Juízes e Samuel.

O livro de Reis focaliza as bênçãos e maldições da aliança com Javé registrando os fatos desde a morte de Davi, o trono herdado por Salomão até o esfacelamento dos reinos do Norte e do Sul, isto é, Israel e Judá respectivamente.

A divisão entre os livros de Samuel e Reis não é clara e a divisão ocorreu na tradução do Antigo Testamento em grego (Septuaginta) para que os registros não ficassem tão grandes.

Em Reis fica evidente a apostasia do povo hebreu com o consequente julgamento de Javé.

O livro dos Reis registra a história política de Israel no período da monarquia unida (que começa em torno de 970 a.C.), atravessa a deportação do Reino do Norte, Israel, pela Assíria em 722 a.C., até o exílio para a Babilônia em 586 a.C.

Na história do reino dividido o Reino do Norte, Israel, era politicamente mais instável que o Reino do Sul, Judá. Alguns fatores comprovam isso:

  • Duração mais curta que o Reino do Sul, apenas 209 anos.
  • A violência sempre precedeu a sucessão real.
  • Todos os dezenove reis são considerados maus pelo autor de Reis, pois são acusados de prestarem culto ao bezerro de ouro de Jeroboão.
  • A duração média de um reinado era de 10 anos
  • Nove famílias diferentes reivindicaram o trono de Israel

O Reino do Sul, Judá, ainda sobreviveu por mais um século e meio, chegando a 345 anos de existência, e abaixo estão relacionadas suas principais características:

  • A média de duração do governo de um rei foi de dezessete anos.
  • A família de Davi foi a única a reivindicar o trono de Jerusalém, gerando estabilidade política.
  • O reinado da rainha Atalia (2 Reis 11) foi a única interrupção da sucessão davídica no trono de Judá.
  • Dos dezenove reis de Judá, oito são classificados como bons pelo autor de Reis.

Dois fatos históricos importantes estão registrados no livro dos Reis:

  • Nomeação por Nabucodonosor de Gedalias para o governo de Judá (596 a.C.), e seu assassinato (582 a.C.) – 2 Rs. 25:22-26
  • Libertação do rei Joaquim da Babilônia após a morte de Nabucodonosor (562 a.C. ou 561 a.C.) – 2 Rs. 25:27-30

Em relação à autoria do livro dos Reis, a tradição hebraica atribui ao profeta Jeremias devido às semelhanças entre os relatos de 2 Reis 24 e 25 e Jeremias 52. Além disso, o livro de Reis dá bastante destaque ao papel dos profetas no Antigo Testamento, contudo, analisando-se o propósito, contexto e conteúdo teológico não há evidência suficiente para comprovar esta tese.

Para a produção da história da aliança no livro dos Reis, o autor utilizou ao menos 3 fontes primárias que estão citadas por todo o livro:

  • Registros históricos de Salomão (1 Rs. 11:41)
  • Registros históricos dos reis de Israel (1 Rs. 14:19)
  • Registros históricos dos reis de Judá (1 Rs. 15:23)

Estes documentos provavelmente fazem parte do acervo produzido pelos escribas reais conforme descritos em 2 Sm. 8:16; 20:24-25.

Alguns eruditos ainda acreditam que haja outras fontes para a compilação do livro dos Reis, tais como:

  • As histórias da sucessão de Davi (2 Sm. 9 a 20)
  • A dinastia de Acabe (1 Rs. 16 a 2 Rs. 2)
  • O desenvolvimento profético na era Elias-Eliseu (1 Rs. 17 – 19:21 e 2 Rs. 1 a 13)
  • O profeta Isaías (Isaías 36 a 39 é praticamente idêntico a 2 Rs. 18:13 a 20:19)
  • Os profetas considerados “não literários” (Ex: Aías 1 Rs. 11:29-33; 14:1-16 e Micaías 1 Rs. 22:13-28)

Dadas as evidências histórico-sociais não é errado supor que o livro de Reis tenha sido produzido por volta de 550 a.C. Não é possível ter certeza de que o autor tenha sido algum profeta, mas podemos aferir que ele tinha um amplo conhecimento sobre o teor da aliança entre Javé e Israel, e suas consequências na história.

Estrutura de Reis

 

O livro de Reis está organizado da seguinte maneira:

  • Rei Salomão (1 Reis 1 – 11)
  • Rei Roboão (1 Reis 12:1-22)
  • Reis de Israel e Judá de 931 a.C. a 853 a.C. (1 Reis 12:22 – 16:34)
    • Jeroboão I, Roboão, Abias, Asa, Nadabe, Baasa, Elá, Zinri, Onri, Acabe
  • Elias e Eliseu (1 Reis 17:1 – 2 Reis 8:15)
    • Rei Josafá, rei Acazias, rei Jorão
  • Reis de Israel e Judá de 852 a.C. a 722 a.C. (2 Reis 8:16 – 2 Reis 17:41)
    • Jeorão, Acazias, Jeú, Atalia e Joás, Jeoacaz, Jeoás, Amazias, Jeroboão II, Azarias, Zacarias, Salum, Menaém, Pecaías, Pecal, Jotão, Acaz, Oséias
  • Queda de Samaria (Israel) – 2 Reis 17:4-41
  • Reino de Judá de 729 a.C. a 586 a.C. (2 Reis 18:1 – 24:17)
    • Ezequias (Assíria contra Judá), Manassés, Amon, Josias, Jeocaz, Jeoaquim (Primeira invasão babilônica), Joaquim (Segunda invasão babilônica)
  • Queda de Jerusalém (Judá) – 2 Reis 25:1-21
  • Governador Gedalias (2 Reis 25:22-26)
  • Joaquim no exílio

As narrativas do livro de Reis abrangem o período da ascensão de Salomão ao trono até a queda de Jerusalém em 586 a.C. Estes fatos estão organizados de forma cronológica de acordo com o interesse do autor em mostrar o que ocorrera devido à desobediência do povo hebreu à aliança com Javé.

Os assuntos, organizados de acordo com a seleção do autor, envolvem:

  • A sabedoria de Salomão (1 Reis 3) e um resumo do seu governo (1 Reis 4)
  • As obras de Salomão antes do Templo de Jerusalém (1 Reis 5:1 – 1 Reis 7:12)
  • Alguns eventos do reinado de Jeroboão I e Ezequias (1 Reis 13; 14:1-20 / 2 Reis 18:7 a 2 Reis 19:37 e 2 Reis 20)
  • Resumo das atividades proféticas de Elias e Eliseu

Estas narrativas são contadas simultaneamente de forma intercalada entre os reis do Norte (Israel) e do Sul (Judá). As histórias dos reis são interrompidas apenas pelos relatos dos profetas Elias (reis Onri e Acabe) e Eliseu (rei Jorão).

As narrativas de Elias e Eliseu não são importantes somente como um registro do profetismo israelita não-literário, mas também como um testemunho da fidelidade de Javé para com Israel, mesmo após a adoração a baal ser instituída como religião oficial do Reino do Norte (Israel) pelo rei Acabe, quando se casou com a princesa fenícia Jezabel (1 Reis 21:25-26).

A tabela abaixo representa o drama religioso vivido nessa época em Israel.

Baal (deus cananeu da tempestade) Javé (Deus de Elias e Eliseu)
Baal, deus da tempestade, controla a chuva Elias anuncia o período de seca (1 Rs. 17:1)
Baal garante a fertilidade nas colheitas Israel padece fome e seca, mas Elias e Eliseu distribuem trigo e azeite de forma milagrosa (2 Rs. 4:1-7; 42-44)
Baal controla os relâmpagos e o fogo Elias pede fogo do céu em nome de Javé (1 Rs. 18:38; 2 Rs. 1:10-12; 2:11).
Baal controla a vida e a morte Elias e Eliseu curam doentes e ressucitam mortos em nome de Javé (1 Rs. 17:7-24; 2 Rs. 4:8-37; 5:1-20)

Andrew Hill & J. H. Walton, Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2007.

A narrativa da monarquia de Judá segue o seguinte padrão de estrutura:

  1. Apresentação do rei pelo nome, nome do pai e em que momento ocorreu sua ascensão em relação ao reinado correspondente em Israel (Reino do Norte).
  2. Dados biográficos tais como: idade do rei, duração do seu reinado, avaliação do seu reinado em termos morais e espirituais. Outras informações como o nome da rainha-mãe e Jerusalém como capital do reino são citadas.
  3. Apresentação de fontes adicionais do seu reinado e informações sobre sua morte e sepultamento.

O relato da monarquia israelita seguia o mesmo padrão, exceto pela omissão da capital, Samaria, e do nome da rainha-mãe.

Propósito e conteúdo

O livro de Reis trata basicamente sobre os seguintes assuntos:

  • A avaliação dos reis – mal como Jeroboão e bom como Davi
  • As bençãos no arrependimento e restauração e as maldições no julgamento e exílio
  • O profetismo como voz de Deus para o rei
  • A adoração de Javé X a adoração de baal

O livro dos Reis narram o desenvolvimento da história do povo hebreu no período monárquico unido e posteriormente dividido. Este desenvolvimento é narrado sob a ótica da obediência e desobediência em relação à aliança de Javé com o povo hebreu.

Os personagens principais são os reis e os profestas, que eram os responsáveis pelo cumprimento da aliança por parte do povo. O rei era o representante do povo diante de Deus, e o profeta servia como consciência divina para esse rei. O rei, quando falhava no cumprimento da aliança, gerava tipicamente dois problemas: idolatria e injustiça social. A consequência deste ato de rebelião à aliança incluía a opressão por povos vizinhos, a queda da familia real e, pro fim, o exílio, a perda da terra da promessa.

O propósito literário do livro de Reis é autenticar a dinastia davídica como a herdeira oficial do trono de Jerusalém, conforme profecia de Natã a Davi em 2 Samuel 7:12. O registro de Reis é feito de forma complementar ao livro de Samuel, que mostra a soberania de Deus na história da aliança mesmo em face do livre arbítrio do ser humano com suas responsabilidades e autonomia.

Avaliação de Salomão

O livro de Reis fornece um relato favorável a cerca de Salomão e seus primeiros anos de reinado:

  • Foi amado de Javé – Siginificado de Jedidias em 2 Sm. 12:24-25
  • Dom da sabedoria – 1 Rs. 3
  • Inaugurou a era de ouro de Israel com prosperidade e glória sem precedentes em Israel – 1 Rs. 10:14-29
  • Construtor reconhecido internacionalmente – 1 Rs. 6:1 – 7:12
  • Amante das artes e ciências – 1 Rs. 4:29-34

Entretanto, em seus últimos anos de reinado houve grande declínio político, religioso e moral, pois deixou-se seduzir por suas centenas de mulheres estrangeiras e pelo materialismo (1 Rs. 11:1-3).

O autor de Reis atribui à idolatria de Salomão a divisão de Israel em dois reinos: Norte (Israel) e Sul (Judá), conforme 1 Rs. 11:31-35. Contudo, a derrocada do Império deveu-se aos anos de má administração do Estado pelo rei. Confira na tabela abaixo algumas dessas práticas que levaram à falência a nação de Israel:

Evento Referência
1. Aliança política com nações pagãs por meio do casamento 1 Rs. 3:1-2
2. Sincretismo religioso para agradar os novos parceiros político-econômicos 1 Rs. 11:1-8
3. Reorganização tribal, desconsiderando o pacto de divisão das terras em Números, para obter vantagem econômica 1 Rs. 4:7-19
4. Aumento da burocracia do Estado 1 Rs. 4:22-28
5. Obras monumentais que exigiam trabalhos escravo estrangeiro e hebreu 1 Rs. 5:13-18; 9:15-22; 12:9-11
6. Aceitação das ideias políticas pagãs em consequência do comércio internacional 1 Rs. 9:26-28; 10:22-29 v. 11:1-11
7. Rebeliões sucessivas minaram a força do poder militar de Salomão. Perda de receia das nações estrangeiras 1 Rs. 11:9-25

Andrew Hill & J. H. Walton, Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2007.

Estes eventos trouxeram à tona as antigas desavenças tribais, quando Roboão assume o trono de Jerusalém (1 Rs. 12:16).

Profecia não-literária e literária

Durante o desenvolvimento da história de Israel houve intensa atividade profética que pode ser dividida da seguinte forma:

  • Período profético não-escrito, ou pré-clássico
  • Período profético escrito, ou clássico

No movimento pré-clássico a tendência é descrever a atividade dos profetas por meio de milagres em forma de narrativas históricas, isto é, eles também são personagens dos relatos em Reis. Seu campo de atividade se restringia basicamente à família real.

O movimento clássico, ou literário, ações simbólicas são escritas em forma de oráculos ao invés de milagres. A mensagem dos profetas literários (p. ex: Amós, Isaías, Oséias) atingiam os líderes políticos e religiosos, a população, bem como outras nações.

Dinastia monárquica e liderança carismática

O sistema de governo do Reino de Judá é considerado uma monarquia dinástica, ou seja, o trono passa de pai para filho. No caso de Judá, esta dinastia era divinamente estabelecida (2 Sm. 7).

No Reino do Norte, Israel, ao contrário de Judá, a sucessão ao trono não era realizada de maneira hereditária, mas o modelo de sucessão seguia o padrão carismático, semelhante ao período dos juízes, quando Javé escolhia um líder dentre o povo e capacitava-o com o Espírito Santo. Esta capacitação temporária se manifestava externamente de diversas maneiras e tinha o objetivo de inspirar o povo hebreu a viver o padrão de santidade de Javé, o soberano absoluto de Israel.

Ao contrário de Judá, a sucessão dinástica, ou de pai para filho, em Israel estava condicionada à obediência do rei aos mandamentos de Javé (1 Rs. 11:37-38). Esta condição não foi respeitada pelos reis do reino do Norte, então houve o anúncio da tragédia que se abateria sobre Israel (1 Rs. 14:10-11).

Após a derrocada do rei desobediente, havia a ordem para o rei seguinte executar o anterior. Este procedimento, muitas vezes, terminava em um golpe político de caráter violento (1 Rs. 16:3-4; 11-12).

O bezerro de ouro

O bezerro era tido no Egito como símbolo da fertilidade, e era mais conhecido como Boi Ápis, o mesmo que Israel construiu no deserto (Ex. 32). Ápis era adorado no Egito como símbolo da fertilidade e vida. Provavelmente Jeroboão recolocou Ápis como símbolo religioso de Israel por causa da influência que recebeu durante seu exílio no Egito, onde permaneceu até a morte de Salomão (1 Rs. 11:40).

Quando Jeroboão retornou a Israel, misturou práticas religiosas dos cananeus no culto ao Boi Ápis. Este procedimento de Jeroboão foi premeditado para conquistar a lealdade dos israelitas e impedi-los de ir às festas religiosas em Jerusalém, que estava sob o controle do Reino do Sul, Judá.

Isto gerou uma prática e ideologia bem diferente da adoração a Javé, e serviu apenas para Jeroboão consolidar seu poder no Reino do Norte. Mais tarde o profeta Oséias referiu-se às estas estátuas como ídolos, não Deus (Os. 8:4-5), que estavam também relacionadas aos rituais de fertilidade de baal (Os. 10:5; 11:1-2; 13:1-2).

Esta atitude não apenas tirou a dinastia de Jeroboão do trono, como acabou com o Reino do Norte, sendo consumido por Javé em sua ira (2 Rs. 17:18).

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010 – Introdução ao Livro de Samuel – O homem governa?

Introdução ao Livro de Samuel – O homem governa?

 

Na Bíblia hebraica, os livros de I e II Samuel formam um único livro, e, neste estudo, vamos tratá-lo desta maneira. O livro de Samuel faz a ponte entre o período dos juízes e o estabelecimento da monarquia em Israel, abrangendo os reinados de Saul e Davi, seus dois primeiros reis.

Os acontecimentos narrados se situam entre a metade do século XI a.C. até o século X a.C., porém, alguns estudiosos estabelecem a redação do livro muito tempo após os fatos ocorridos, mas, temos boas razões para dizer que a redação é contemporânea aos acontecimentos descritos no livro, uma vez que a corte dispunha de um arquivista real e de um secretário (cf. 2 Sm. 20:24-25).

Os fatos ocorridos com Samuel e Saul abrem o livro de Samuel, que se fecha com a compra feita por Davi do campo de Araúna, que seria o futuro terreno onde Salomão, seu filho, edificaria o Templo de Jerusalém. O enredo principal fica por conta de Davi, que luta para constituir e manter a nação de Israel.

Neste período, as nações mais poderosas do Antigo Oriente Médio, Egito e as nações mesopotâmicas, não estavam em condições de combates externos. Por isso, alguns povos de menor expressão no cenário palestino, puderam avançar em busca de novos territórios. Foi nesta ocasião que os filisteus atacaram Israel de forma consecutiva, sendo combatidos pelo rei Saul, que morreu em uma das batalhas, e foram expulsos por Davi. A partir daí Davi conseguiu expandir as fronteiras do reino de Israel na região Palestina por meio de batalhas e tratados.

Estrutura de Samuel

 

O livro de Samuel está dividido da seguinte maneira:

  • Histórias de Samuel – 1 Sm. 1:1 – 4:1a
  • Histórias da Arca da Aliança – 1 Sm. 4:1b – 7:2
  • A instituição da monarquia e reinado de Saul – 1 Sm. 7:3 – 15:35
  • A Ascensão e reinado de Davi – 1 Sm. 16:1 – 2 Sm. 5:10
  • Os sucessos de Davi e a consolidação do reinado – 2 Sm. 5:11 – 9:13
  • Os fracassos de Davi e a dificuldade de manter o poder – 2 Sm. 10:1 – 24:25

Os primeiros capítulos tratam da apresentação de Samuel, a condição deplorável do período dos juízes (Eli e seus filhos – I Sm. 2:12ss) e marca a transição entre este período e a monarquia em Israel. Este período termina com a tomada da Arca da Aliança pelos filisteus. No mundo antigo a vitória de um exército sobre outro indicava o poder e a vitória do deus do exército vencedor sobre o deus do exército perdedor. Logo, a conclusão era que Dagom, o deus filisteu, era mais poderoso do que Javé, o deus de Israel. Os capítulos 5 e 6 de I Samuel registram fatos que desmentem essa teoria, pois, mesmo capturada, a Arca ainda representava a presença de Javé, e as pragas enviadas sobre o povo filisteu mostraram que, embora o povo de Israel tivesse perdido a batalha, Javé não fora derrotado pelos filisteus. A narrativa com o retorno da Arca faz menção Êxodo. A Arca permaneceu em um alojamento temporário durante todo reinado de Saul, e só voltou a ter uma posição de destaque quando Davi a levou para Jerusalém (2 Samuel 6), sugerindo que, tanto Samuel quanto Saul são personagens que indicam a transição para o período de ouro de Israel com o rei Davi, além de indicar a importância da Arca da Aliança.

Samuel atuava como profeta e sacerdote, além de juiz de Israel. Mas, apesar do poder político que possuía, não era rei. Após a vitória sobre os filisteus (I Sm. 7), e a reconquista dos territórios que haviam sido perdidos, cresce o clamor popular por um rei, pois o povo entendeu que nem Samuel, já idoso, nem seus filhos poderiam manter Israel na posição que ocupava naquele momento. A alusão à frustração de Samuel com relação à nomeação de um rei pode indicar que ele se considerasse apto à esta posição (I Sm. 8:4-5).

Nas narrativas da monarquia unida (Saul, Davi e Salomão) o livro de Samuel apresenta como estrutura narrativa a função do rei, suas qualidades e sucesso e, por fim, seus fracassos e conquistas. No caso de Saul, ele é retratado muito mais como um juiz do que como rei, de acordo com o episódio ocorrido em Jabes-Gileade (I Sm. 11). Porém, Saul não tinha firmeza espiritual nem um conhecimento consistente de Javé, afinal mal haviam saído dos quatrocentos anos de apostasia no período dos juízes. Entretanto Deus esperava de um rei muito mais do que de um juiz, e Saul não cumpriu essas exigências.

O capítulo 12 conclui que, o povo, ao escolher para si um rei, estava, na verdade, rejeitando o governo do próprio Deus. O povo pensava que a ausência de um rei os faria perder as batalhas pela permanência na terra prometida.

O texto mostra que, independente das falhas e fracassos de Saul, Deus estava disposto a dar a ele uma chance de desenvolver seu potencial. Isso nos ensina que Deus executa seus propósitos a despeito das falhas das pessoas que ele chama e convoca.

Os capítulos 13 a 15 vão apontar as falhas de Saul, que são anteriores ao seu relacionamento de Davi. O autor tem esse cuidado para mostrar que não foi Davi quem desqualificou Saul, mas ele próprio. O caso do sacrifício oferecido por Saul demonstra sua incapacidade de tomar decisões sábias em momentos difíceis, qualidade de um verdadeiro rei. Ao fazer o sacrifício Saul agiu conforme o modelo monárquico cananita, isto é, onde o rei também possui o ofício de sacerdote.

Os capítulos 14 e 15 continuam revelando a incapacidade de Saul de tomar decisões, e isto levou Deus a mandar Samuel ungir Davi como futuro rei de Israel. Daqui para frente a narrativa se volta para Davi e mostra como ele, mesmo sendo predestinado ao reinado, não tomou o trono de Saul. A narrativa apresenta três fatores para comprovar isso:

  • A hostilidade de Saul – Foi sempre Saul quem iniciou os confrontos com Davi.
  • A ausência de vingança por parte de Davi – Davi teve duas oportunidades claras de matar Saul, mas não o fez (I Sm. 24 e 26).
  • As afirmações de inocência de Davi no texto – Estas declarações são feitas por: Samuel (I Sm. 28:16-18); Abigail (1 Sm. 25:30); Jônatas (I Sm. 19:4-5, 20:14-15, 22:16-18); e pelo próprio Saul (I Sm. 20:31, 24:16-22, 26:21-25)

Os sucessos de Davi são descritos em II Sm. 5 – 9. Este trecho mostra a instituição de Jerusalém como nova capital quando a Arca da Aliança é trazida e restaurada à sua função. Este texto mostra como Davi firmou o trono de Javé em Jerusalém (capítulo 6) e, como Javé firmou o trono de Davi (capítulo 7) por meio da sua aliança.

Os capítulos 10 a 20 focaliam a família de Davi e como seu pecado causou a tragédia que se instaurou até o fim de sua vida. Dificilmente pode ser casual a perda de quatro dos seus filhos (seu filho com Bate-Seba, II Sm. 12; Amon, 2 Sm. 13; Absalão, II Sm. 18 e Adonias I Rs. 2) após Davi ter decretado a restituição redobrada quando da acusação apresentada pelo profeta Natã a Davi.

A aliança e a unidade do reino estavam em perigo por consequência dos erros de Davi, mas a narrativa mostra que Deus, apesar dos erros de Davi, ainda o apoiava, mesmo que outras pessoas estivessem contra ele.

Os capítulos 21 a 24 focalizam a ação divina contra Davi por meio de fome e praga, mas ainda sim mostram como Deus o apoiou, deu-lhe vitória (II Sm. 22) e firmou sua aliança com ele (II Sm. 23:1-7).

Propósito e conteúdo

Apesar da ênfase histórica, o principal objetivo do livro de Samuel é teológico, isto é, ele não foi redigido para documentar a história propriamente dita, mas para mostrar como se deu a aliança com o Rei Davi e como a autoridade divina é obedecida ou desobedecida, bem como suas consequências.

A arca da aliança

 

A arca da aliança era o objeto religioso mais importante de Israel, pois representava a presença de Deus no meio do seu povo.

Os ídolos foram proibidos na religião israelita para evitar-se a manipulação da divindade pelas pessoas, entretanto a arca, por vezes, passou pelo mesmo problema. Lemos no relato de I Samuel 4 que os filhos de Eli tentaram usá-la para esta finalidade, pois, em tese, a divindade israelita não se deixaria capturar pelos inimigos. Javé, entretanto, não se deixa manipular, então a arca não foi capturada, mas deixou Israel (I Samuel 4:21).

A autonomia da arca, que operava somente por ordem de Javé, foi provada quando  ela retornou a Israel numa carroça sem condutor (I Samuel 6:10-16). A arca não deveria ser tratada apenas como uma relíquia, os episódios da praga entre os filisteus (I Samuel 5), das mortes em Bete-Semes por sua profanação (I Samuel 6:19-20) e o castigo de Uzá (II Samuel 6) mostram que Javé se manisfestava por meio da arca independentemente de qualquer ritual humano.

Por isso, sua instalação em Jerusalém, por ocasião da conquista de Davi, não foi um mero ritual, mas sim a aprovação divina do reinado de Davi.

O Salmo 78 dá detalhes sobre a teologia da arca.

Monarquia

 

A monarquia em Israel era uma premissa divina (Jz. 8:23; I Sm. 8:7). O rei deveria manter a justiça, o padrão ético do decálogo.

No período dos juízes Javé convocava um libertador sob semanda para executar este propósito, porém o povo considerava a monarquia mais durável, desta maneira não haveria a necessidade de esperar um próximo libertador.

Não havia nada de errado em pedir um rei, pois era propósito de Javé que isso acontecesse (Dt. 17:14-20). Porém, foi a espectativa do povo de achar que o rei teria sucesso onde Deus não tivera que recebeu sua reprovação de Javé.

Veja em I Samuel 8:20 a perspectiva do povo sobre o primeiro rei de Israel e compare com o relato apresentado em I Samuel 17. A conclusão é que o rei não lutou as batalhas pelo povo, mas o Senhor venceu a batalha pelas mãos de Davi. Inclusive a recompensa que Saul oferece para quem lutar prova sua indisposição à luta.

O verdadeiro rei entendia que quem luta e vence é o Senhor, portanto a monarquia não substituía o governo de Deus, mas representava sua própria atuação no meio do povo.

A aliança davídica

 

A aliança de Javé com Davi é um tema imporante no Antigo Testamento, e suas implicações o transcendem, por isso temos de analisar três aspectos dessa aliança:

a) A promessa de Javé a Davi – A promessa de Javé feia a Davi é semelhante à promessa feita a Abraão. As tabela abaixo demonstra isso:

Promessa Abraão Davi
Tornar o nome famoso Gn. 12:2 2 Sm. 7:9
Dar terra Gn. 12:7 2 Sm. 7:10
Segurança Gn 12:3 2 Sm. 7:10-11

De acordo com a tabela acima verificamos que a promessa de Javé a Davi é englobada pela promessa feita a Abraão, havendo uma espécie de subordinação daquela a esta.

A partir de 2 Sm. 7:12 temos uma distinção da promessa feita a Davi, quando menciona-se que o descendente de Davi seria seu sucessor, ainda que haja certa semelhança com a promessa de descendentes feita a Abraão. A descendência de Davi teria a oportunidade de ocupar o trono sucessivamente.

Embora a Bíblia mencione que esta aliança seria eterna, fica claro que, no caso da quebra desta aliança por parte do homem Deus também estaria desobrigado de cumprir sua parte. Para outros exemplos do uso do termo “para sempre” veja os seguintes textos: 1 Sm. 1:22; Dt. 15:17; Jr. 17:4. A promessa continha o aspecto da disciplina e não da rejeição como fora com Saul (2 Sm. 7:14). O texto de 2 Sm. 7:29 demonstra que Davi entendeu os termos da aliança quando pediu que Javé abençoasse sua sua descendência continuamente.

b) A natureza da aliança – O texto de 2 Samuel 7 não impõe condições à aliança davídica, mas observamos em outros textos que esta aliança estava sujeita à renovação de tempos em tempos, apresentando um caráter condicional: 1 Reis  2:4;  1 Reis 6:12; 1 Reis 9:4-5. Em 1 Reis 8:25 Salomão declara ter conhecimento da cláusula condicional da aliança feita a Davi. Este textos comprovam que o termo “para sempre” deve ser entendido como indefinido, isto é, por tempo indeterminado. Os registros bíblicos nos dão conta de que a promessa a Davi foi cumprida, mas, dali paa frente caberia a seu filho cumprir sua parte neste acordo.

c) Os impactos da aliança – A aliança foi anulda com a desobediência de Salomão? O texto de 1 Reis 11:32-39 trata sobre este assunto. Aqui vemos a bondade e graça de Deus, pois Salomão poderia ter seu reinado terminado, mas Javé, por amor a Davi, permitiu que Salomão fosse até o fim. Em 1 Reis 11:38 um acordo semelhante foi feito com Jeroboão, e aqui temos a reafirmação da promessa feita a Davi (ver 2 Crônicas 21:7 e Salmos 89) e o despontar da esperança messiânica, que traria a restauração da aliança davídica. Jeremias 33:14-22 é o texto no Antigo Testamento que tratará de forma mais clara sobre este tema: o messias que trará a renovação da aliança davídica. Durante todo este tempo não houve mais um rei davídico no trono de Israel, e o Novo Testamento reconheceu em Jesus o descendente de Davi que traria esta renovação, conforme Mateus deixa claro em seu evangelho. Ao satisfazer as condições que o Messias deveria ter, Jesus abre o caminho para o reino que será eterno.

Avaliação de Saul

Saul é conhecido em seu reinado, especialmente durante o destaque que o texto dá a Davi, como alguém invejoso e atormentado. Entretanto nem sempre el foi assim. A Bíblia o descreve antes de seu reinado como alguém tímido, sincero e agradável, ou seja, o tipo de pessoa que todos escolheriam para ser rei.

Em 1 Samuel 10:10 temos a informação de que o Espírito do Senhor o capacitou para reinar em Israel, contudo, em 1 Samuel 16:14 o Senhor retirou seu Espírito de Saul, que perdeu a capacidade divina de governar ao não tomar boas decisões e não preservar a justiça.

Porém, antes mesmo do Senhor ter tirado seu Espírito de Saul, podemos verificar que nem tudo estava bem com ele, pois, mesmo sendo sincero, sua espiritualidade era superficial. Ele mostrou isso quando desconsiderou a função de Samuel (1 Samuel 9:10-15). Temos este veredito também no episódio que ele oferece o sacrifício antes da batalha (13:8-12), e no qual deixa de executar o rei Agague (15:13-35).

Quando, ao final de sua vida, Saul recorre à medium de En-Dor (1 Samuel 28), fica provado que ele nunca entendeu alguns princípios fundamentais da teologia hebraica. Provavelmente Saul jamais entendeu que Javé era difierente dos deuses cananeus, que se deixavam manipular pelo sistema religioso. Ele não era diferente em nada de um israelita comum desta época, embora o rei, como representante de Javé ao povo, deveria ser diferente.

Avaliação de Davi

A tendência natural ao lermos os relatos bíblicos é desprezar a Saul e, em consequência desta reprovação, aprovar incondicionalmente a Davi. É certo que a percepção teológica de Davi era muito mais aguçada que a de Saul, contudo devemos saber que Davi cometeu erros gravíssimos.

Davi deixava-se levar pelo momento, sem refletir em suas consequências. A tabela abaixo ilustra bem este fato.

Pecado Consequência Referência
Mentira Morte de inocentes 1 Samuel 21-22
Raiva Risco de assumir o trono 1 Samuel 25
Conspiração internacional Morte de civis 1 Samuel 27
Cobiça Adultério e  Assassinato 2 Samuel 11
Negligência paterna Desunião familiar 2 Samuel 13 e 14
Orgulho Devastação da nação 2 Samuel 24

A despeito de todos esses erros, a Bíblia mostra o quanto Davi amava a Deus e fora leal com ele. A Bíblia mostra seu profundo arrependimento e o quanto ele prezava as leis de Javé. Por isso a opinião equilibrada do escritor dos livros de Samuel sobre Davi é prova de que estamos todos sujeitos ao pecado e à falta de bom senso, porém a devoção e o amor de Davi a Javé e sua Lei eram o seu diferencial.

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009 – Introdução ao Livro de Rute – Nem tudo está perdido

Introdução ao Livro de Rute – Nem tudo está perdido

 

A história narrada no livro de Rute se passa na época dos juízes, que, como estudamos anteriormente, foi uma época de apostasia e descaso com Javé e sua aliança. O livro de Rute apresenta o caminho oposto do livro de juízes, pois mostra a lealdade uma moça moabita para com Noemi, sua sogra israelita, e seu Deus.

Os moabitas eram descendentes de Ló, sobrinho de Abraão (Gn. 19:37). Eles ocupavam o território a leste do Mar Morto, e, na época da peregrinação dos hebreus no deserto, eles demonstraram agressividade a Moisés e ao povo (Nm. 21 – 25).

Apesar de Rute constar logo após o livro de juízes em nosso cânon, na Bíblia hebraica este livro situa-se na seção dos Escritos, portanto, não é considerado parte da história deuteronomista.

O livro começa dando a entender que o período dos juízes passara, ou seja, as narrativas se passam no período dos juízes, porém foram escritas durante a monarquia, pois a genealogia, no fim do livro, sugere que os leitores conheciam o rei Davi.

Embora as narrativas nos levem ao tempo dos juízes, não há como ter certeza se  a história de Rute, a moabita, se encaixa neste período. A narrativa em Juízes 3, nos diz que Eúde expulsara os  moabitas de Israel, portanto a história de Rute não cabe nesta época. Logo, se a genealogia está completa, os acontecimentos podem estar situados na época de Jefté, no século XII a.C.

A riqueza de diálogos e a construção dos personagens, levaram alguns estudiosos a classificar o livro de Rute como um conto, o que não elimina o caráter e a precisão histórica do livro.

Estrutura de Rute

 

O livro de Rute está estruturado como um espelho, ou seja, os elementos finais da história espelham os elementos iniciais, trazendo-lhes uma solução.

O livro pode ser dividido da seguinte maneira:

  1. Migração e tragédia da família de Elimeleque – 1:1:5
  2. O retorno para Belém – 1:6-22
  3. Rute encontra Boaz – 2
  4. O plano de Noemi – 3
  5. Casamento de Rute e Boaz – 4:1-17
  6. Genealogia de Davi

De acordo com a estrutura espelho do livro, o capítulo 1 espelha o 4, pois no capítulo 1 o desespero de Noemi se torna em alegria por um filho no capítulo 4. Os capítulos 2 e 3 são correspondentes em virtude dos diálogos entre Rute e Noemi e entre Rute e Boaz. O desfecho no capítulo 4, ao espelhar o capítulo 1, só foi possível graças aos desfechos dos diálogos dos capítulos intermediários.

Propósito e conteúdo

O livro de Rute menciona os seguintes conceitos:

  • A Fidelidade e lealdade de Deus
  • A lealdade em um ambiente de apostasia
  • O legado dos ancestrais do rei Davi
  • O Conceito do Resgatador

O período dos juízes, sem sombra de dúvida, representou um momento muito negativo no que se refere à fidelidade à aliança por parte do povo de Israel. O livro de Rute mostra o contraste entre os grandes heróis do período dos juízes com uma simples família israelita. Foi justamente de uma dessas famílias em apuros que a fé em Javé foi preservada, e de onde veio o maior dos reis de Israel: Davi.

Javé preservara esta família para manter seu nome em Israel, para mostrar sua lealdade e fidelidade à aliança realizada séculos antes.

O resgatador

 

Se um homem morresse sem deixar filhos, seu irmão deveia se casar com a viúva e era obrigado a gerar um filho em nome do seu falecido irmão. Este sistema é chamado de levirato, e é descrito com detalhes em Deuteronômio 25:5-10. Este sistema preservaria as famílias, que não teriam um fim repentino.

O costume do levirato também incluía o direito ao resgate de terras, conforme prescrito em Levítico 25:25-31; 47-55. A terra vendida a alguém poderia ser resgatada, comprada de volta por alguém da família. Estes costumes tinham o propósito de preservar as famílias e a terra, duas questões centrais da aliança.

O resgatador era um intermediário para readiquirir as bênçãos em risco e serve de exemplo para a Graça de Deus. O Novo Testamento aplica este conceito à ação de Cristo para com a Igreja.

Hesed

 

O termo hesed se refere à lealdade de Javé com sua aliança. Algumas traduções da Bíblia usam misericórdia, outras preferem a palavra bondade para designar a hesed de Deus.

No livro de Rute, a hesed de Javé é demonstrada tanto vertical, quanto horizontalmente. No plano horizontal, o compromisso de Rute com sua sogra em 1:16-17 é um exemplo da bondade e misericórida. É justamente esta característica que chama a atenção de Boaz em 2:12 por Rute, onde a hesed que ele também demonstra por Rute é louvada em 2:20.

No plano vertical a hesed de Javé é descrita em 1:8-9, que levará ao casamento de Boaz e Rute no capítulo 4, onde a misericórdia de Javé se manifesta no resgatador de Noemi.

A conclusão do livro é que a misericórdia de Javé se manifesta na misericórdia de uns pelos outros, que culmina em seu louvor e adoração, contrastando com o livro de Juízes pela falta de lealdade à aliança.

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008 – Introdução a Juízes – O círculo vicioso

Introdução ao Livro de Juízes – O círculo vicioso

 

Ao fnal da vida de Josué, quando houve a renovação da aliança com o povo em Siquém, os hebreus se comprometeram em obedecer todos os preceitos de Javé, e jamais trocariam ao Senhor por outros deuses. Porém, da mesma maneira registrada em Deuteronômio 30, o texto de Josué 24:16-20 nos conta que havia uma desconfiança quanto à firmeza do compromisso assumido pelos israelitas.

O povo de Israel não expulsara todos os antigos povos da terra de Canaã, e, além disso, eles ainda aprendiam como viver como uma nação unificada, e não mais como um grupo de tribos, ou clãs.

Este intervalo entre o período da entrada do povo israelita em Canaã até o estabelecimento de uma monarquia é conhecido como período dos Juízes, que dá nome ao livro objeto deste estudo. Foi um período difícil, onde Javé enviou libertadores, ou juízes, ao povo quando a extinção estava próxima.

A expressão recorrente no livro de Juízes, “Naquela época não havia rei em Israel” (17:6; 18:1; 19:1; 21:25), leva alguns estudiosos a datarem a composição do livro no período monárquico, embora existam algumas narrativas que parecem ser contemporâneas aos eventos registrados. O livro está estruturado de acordo com a teologia deuteronomista, ou seja, a fidelidade à aliança, já estudada em outras ocasiões.

Com isso entendemos que o livro foi composto durante vários séculos, e provavelmente compilado pelo profeta Samuel. Isso não representa nenhum impedimento em relação à inspiração bíblica, pois o Livro de Salmos foi composto sob as mesmas circunstâncias.

O período dos juízes está situado na Idade de Ferro I dos arqueólogos, pois os relatos no livro citam carros com ar de ferro dos cananeus (1:19; 4:3) e de Sísera (4:13). A soma total dos períodos de guerras e descanso relacionados em juizes é de 410 anos. Porém, este número é alto e não corresponde à arqueologia, logo alguns estudiosos supoem que alguns dos relatos do livro são sobrepostos (cf. 10:7) e não uma ocorrência em sequência, embora Juízes 11:26 afirme que os israelitas estavam em Canaã há pelo menos 300 anos.

Durante este período houve muitos conflitos em torno das principais rotas comerciais e portos da região, porém o narrador de Juízes parece desconsiderar este contexto, pois está mais interessado nos aspectos teológicos da história, daí a menção à teologia deuteronomista sobre o livro de Juízes. Estes conflitos levaram ao desgaste das nações mais poderosas do período, tais como os egípcios e os assírios. Isso abriu um vácuo de poder no antigo Oriente Médio, permitindo que povos menos influentes como os filisteus, pudessem exercer o controle da região, levando aos conflitos com o povo hebreu.

Estrutura de Juízes

 

O livro está estruturado no relato cíclico conforme apresentado na figura 01. O livro pode ser dividido literariamente da seguinte maneira:

  1. Fracasso na expulsão dos cananeus – 1:1 – 2:5
  2. Ciclo de apostasia – 2:6 – 16:31
  3. Depravação total do povo de Israel – 17:1 – 21:25

A primeira parte do livro demonstra a incapacidade dos hebreus de expulsarem todos os povos cananeus. Como consequência, Israel foi influenciado por suas práticas pagãs que o levou à apostasia.

A segunda parte do livro destaca o ciclo vicioso do pecado do povo ao livramento de Javé. É importante notar que, neste ciclo, não há nenhuma menção ao arrependimento. Há 6 ciclos completos de pecado e livramento descritos entre os capítulos 3 e 16. Cada ciclo começa com a seguinte fórmula: “os israelitas fizeram o que o Senhor reprova”, conforme vemos em 2:11; 3:7; 4:1; 6:1; 10:6; 13:1.

A terceira parte encerra o livro demonstrando que, a despeito de todos estes ciclos e livramentos de Javé, o povo não foi capaz de estabelecer um padrão social justo, ético e moral. O livro termina com um relato deprimente e uma nota melancólica sobre a opção pela monarquia, que, no pensamento do livro de Juízes, não seria um sistema opressor, mas facilitador para que o povo fizesse aquilo que Deus aprova.

Propósito e conteúdo

O livro de Juízes trata dos seguintes princípios:

  1. Os ciclos do período dos juízes
  2. A desobediência do povo à aliança
  3. Justiça e graça de Deus
  4. O papel do Espírito do Senhor nos juízes
  5. Provisão divina ao envir os libertadores

Os relatos de Juízes explicam os acontecimentos entre a entrada do povo de Israel em Canaã e a monarquia davídica. Séculos de apostasia terminaram com o estabelecimento da monarquia. As narrativas dos juízes tentam explicar as razões do povo não ter desfrutado das bênçãos da aliança. Ou seja, este problema não fora causado por Javé, mas pela deslealdade do povo para com a aliança.

As narrativas também mostram que a injustiça era o resultado da desobediência dos israelitas, que, a princípio, parecem fazer menção à monarquia, uma vez que a liderança tribal não foi capaz de manter a união do povo com Javé. Este contraste é percebido nos relatos do livro dos Reis, onde o autor afirma que Davi “fizera o que o Senhor aprova” (I Rs. 15:5).

Liderança carismática

Os líderes, também chamados de juízes, não eram eleitos, nem herdavam suas funções, mas espontaneamente se apresentavam conforme a necessidade, por isso, podemos dizer que Javé os levantara para esta função. Embora tenham a nomenclatura de juiz, sua função primordial era militar, mas podemos inferir que a justiça que buscavam era com base na libertação dos israelitas da opressão sofrida por outros povos.

Também não há menção de qualquer função espiritual por parte dos juízes, ou seja, eles não tinham ligação com o tabernáculo, nem incentivavam o povo a voltarem-se para Javé. Os juízes nem mesmo tinham um padrão ético-moral elevado; em várias ocasiões conferimos que suas ações, muitas vezes, não condizia com a lei da aliança: Gideão adorou o manto sacerdotal que fizera (8:27), Jefté sacrificou a própria filha (11:30-40) e Sansão se envolveu com mulheres filistéias (caps. 14-16). A intenção do texto não é mostrá-los como modelos espirituais, mas destacar que a libertação foi possível, pois Deus estava com eles. O fato de muitas vezes agirem sem ética não significa que não tenham tido fé, e embora a Bíblia não expresse aprovação por seus atos a libertação foi possível, pois a tarefa do juiz era libertar o povo, mediante a capacitação dada por Javé.

Espírito do Senhor

O Espírito do Senhor tem um papel fundamental no livro de juízes, pois representa o sinal de que Javé estava com eles. Não podemos presumir que os antigos hebreus tivessem a mesma compreensão que temos do Espírito Santo como pessoa da Trindade, pois este conceito se apresentou a nós como consequência da revelação progressiva de Deus na história. Outro ponto que merece destaque é a compreensão entre batismo do Espírito Santo e capacitação pelo Espírito do Senhor. A capacitação pelo Espírito não implica em regeneração de vida como o NT ensina, pois servia apenas a um propósito muito específico, e, após o cumprimento da missão deixava o juiz. O Espírito dava autoridade momentânea para o juiz convocar os exércitos para as batalhas, uma ez que não havia uma autoridade central para isso. Logo, quando alguém conseguia reunir o povo para uma missão específica ficava claro para todos que Javé estava com ele.

Apostasia

Os relatos de Josué e juízes nos deixam em dúvida sobre como os israelitas puderam desprezar tudo que Javé fizera por eles anteriormente. Porém devemos destacar que o monoteísmo era exclusividade de Israel, que se iniciou no Sinai. O monoteísmo era uma visão radical da divindade, pois não estava subordinado a nada e ninguém, além de ser autônomo e não ser manipulado por nenhum tipo de ritual de culto.

Nas religiões do Oriente Médio Antigo os deuses eram contatados por rituais de fertilidade e sacrifícios humanos e se manifestavam nos fenômenos naturais. Não tinham um padrão ético elevado, pois refletiam a própria natureza humana, além de dependerem dos humanos para a realização de suas tarefas; logo isso gerava a manipulação da divindade.

O povo de Israel era um ajuntamento de clãs e não estava preparado para fazer um ajuste tão drástico em sua forma de pensar e se relacionar com a divindade, por isso foram muito influenciados pelo paganismo cananeu, chegando a tratar Javé como uma das divindades pagãs cananéia, conforme os profetas indicaram muitos séculos depois.

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007 – Introdução a Josué – Com o Pé na Promessa

Introdução ao Livro de Josué – Com o pé na promessa

 O livro de Josué retoma a narrativa de Deuteronômio, quando Moisés, impedido de entrar na Terra da Promessa (Dt. 32:48-52), é substituído por Josué como novo líder do povo de Israel (Dt. 31:23).

 Josué é um personagem importante na história da nação de Israel, pois é lembrado como auxiliar de Moisés (Dt. 31:11), um dos doze espias (Nm. 14) e como general de sucesso (Ex. 17). Por isso, durante a condução do povo à entrada na Terra Prometida, o livro recebe corretamente seu nome, porém devemos nos atentar que o livro trata sobre Deus e suas obras e não sobre Josué.

 Apesar de haver muitas teorias sobre a composição deste material, este estudo aborda a teoria da data mais antiga para os registros contidos neste livro. Há algumas razões para isso:

  • Josué 16:10 relata que os cananeus não foram expulsos de Gezer e “até hoje” vivem no meio do povo de Efraim. Porém I Reis 9:16 diz que o faraó conquistou Gezer e matou todos os cananeus que viviam ali. Isto indica que Josué foi escrito antes da época de Salomão.
  • Josué 8:32 sinaliza a presença de escribas no povo de Israel, e não há razao para não admitir que o próprio Josué tenha feito estes registros.
  • O período do profeta Samuel é outra possibilidade, pois o amplo uso da expressão “até hoje” sugere que tenha havido um espaço de tempo entre os fatos narrados e o registro escrito.

Embora o livro de Josué narre a conquista da Terra Prometida (Js. 21:43-45), o relato feito em Juízes 1:1 deixa claro que havia muito ainda a ser feito. O que deve ser entendido à luz do contexto histórico é que Deus cumpriu sua promessa de colocar  Canaã sob controle israelita, pois as principais nações que a ocupavam foram derrotadas e expulsas.

É importante destacar que neste período histórico houve um vácuo de poder nesta região. Tanto os egipcíos quanto o povo hitita estavam enfraquecidos pelas longas batalhas que travaram, e não havia ainda outra nação poderosa para tomar o controle da região. O império assírio viria a ter proeminência apenas dali a alguns séculos, portanto o povo de Israel pôde, neste intervalo, tomar a terra de canaã de nações mais fracas, que não ofereciam uma resistência inabalável.

Estrutura de Josué

 O livro de Josué mantém o foco na aliança de Javé com o povo hebreu, conforme o texto em 1:2-6, e pode ser dividido da seguinte maneira:

  1. O chamado de Josué – 1:1-9
  2. A entrada na terra – 1:10-5:12
  3. A conquista da terra – 5:13-12:24
  4. A divisão da terra – 13:1-22:34
  5. Os últimos dias de Josué – 23:1-24:33

A primeira parte do livro relembra o povo sobre a fidelidade e obediência que deveriam prestar a Deus.

Na segunda parte, conta-se em detalhes a estratégia dos espias em Jericó, porém não pela estratégia em si, mas para revelar o que Deus já havia estabelecido: “o Senhor entregou a terra em nossas mãos” (2:24).

A terceira parte do livro é a mais conhecida, pois relata as batalhas que os israelitas enfrentam para a conquista da terra. Entretanto, o que deve ser destacado que neste trecho é que Javé lutará capacitará o povo hebreu na conquista. É Javé quem dá a vitória ou a derrota, conforme o relato do capítulo 7. Neste episódio o compromisso com a aliança é ensinado de maneira assustadora.

A quarta parte é a maior, e relata a divisão da terra entre as tribos de Israel. É a maior parte do livro pois demonstra em detalhes o cumprimento da promessa de Deus em relação à alianç estabelecida com o povo hebreu.

A quinta e última parte narra os dias finais de Josué e a renovação do pacto em Siquém.

Propósito e conteúdo

Nos relatos da conquista no livro de Josué podemos encontrar os seguintes temas:

  • A fidelidade de Javé no cumprimento de suas promessas
  • A importância da obediência à aliança
  • A conquista e divisão da terra

Embora o livro cite com muita frequência o nome de Josué, os relatos nele contidos não são sobre Josué. O livro também não trata sobre as estratégias militares envolvidas na conquista de Canaã, pois o texto deixa claro que toda estratégia veio de Javé.

Portanto, o livro tem a intenção de transmitir a idéia de que Javé comanda seu povo e cumpre suas promessas, a despeito do comprometimento do povo com a aliança firmada.

A aliança e a terra

A terra representa de forma visível a eleição de Israel por Javé e a concretização da aliança firmada com seu povo. Josué segue a teologia de Deuteronômio quando estabelece a terra como benção de Javé aos hebreus. A terra tinha um papel fundamental  no Antigo Testamento pois, sempre que o povo merecia castigo, a ameaça era a perda da terra e sua expulsão. O livro de Josué mostra de forma brilhante a promessa de Javé se cumprindo, quando mostra detalhadamente a divisão da terra entre os israelitas.

Consagração à destruição

A consagração à destruição em Josué também é encontrado em Deuteronômio (Dt. 7:1-11 e 20:10-18) e instituída em Josué 6:17-19. O termo se refere à consagração de pessoas, cidades e coisas para serem destruídas quando da invasão pelo povo de Israel. Este processo causa certo embaraço sob o ponto de vista ético-cristão, porém os textos deixam muito claro as ordens de Deus para sua efetivação. O que devemos considerar é o Antigo Testamento trata o juízo de Deus sob a justiça retributiva, e esta era executada por meio de outros povos. Ou seja, Javé usou o povo de Israel para executar seu juízo sobre as nações cananéias de acordo com Deuteronômio 9:5. Outro motivo para a execução da sentença de consagração a destruição era a resistência à ação de Javé conforme os textos de Js. 9:1-4, 10:1-5 e 11:1-5. O Novo Testamento expande este conceito, quando cita que o único pecado imperdoável é a blasfêmia contra o Espírito Santo, ou seja, a resistência máxima à ação de Deus, que leverá o indivíduo à separação eterna de Deus.

Soberania divina

Não há como tirar o elemento sobrenatural do livro de Josué sem comprometer sua teologia. Assim como Êxodo, Josué destaca a intervenção divina na história para cumprimento do seu propósito. Os acontecimentos descritos não são ocorrências casuais dos deuses, como na literatura politeísta pagã. O livro de Josué, depois de quatrocentos anos, culmina com o cumprimento da promessa feita a Abraão, um imigrante vindo da Mesopotâmia para Canaã, que forma um pequena família, e recebe a promessa de que todas estas terras seriam de sua grande descendência.

Solidariedade comunitária

O trecho de Josué 7 nos conta acerca do juízo executado sobre Acã e toda sua família, pois ele havia desobedecido as ordens dadas quando houve 36 baixas de Israel na batalha de Ai. Para nosssa mentalidade individualista isso parece injusto, mas o conceito de identidade coletiva era muito forte em Israel. Este conceito fica evidente na lei do levirato (Dt. 25:5-10) e do resgate de terras (Lv. 25) onde a familia desamparada do clã recebia auxílio. Entretanto, da mesma forma onde o clã era abençoado por causa de um membro, todo clã também sofreria se um membro desobedecesse as estipulações da aliança. O objetivo era eliminar toda continuidade da desobediência, além de punir todos aqueles que, embora não sendo culpados, partilhavam do mesmo ideal do desobediente.

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006 – Introdução ao Período Histórico – Senta que lá vem história

Introdução aos livros históricos do povo da aliança

 Até este momento, estudamos, no Pentateuco, as ações de Deus desde a criação do mundo até a iminência da entrada do povo hebreu na terra prometida.

Na Bíblia hebraica os livros de Josué, Juízes, I e II Samuel e I e II Reis pertencem à divisão dos “Profetas Anteriores”, ou seja, os hebreus consideram muito mais seu conteúdo teológico do que seu perfil histórico. Este conjunto de livros abrangem sete séculos de história do povo a aliança, começando pelo chamado de Josué (Js.1:1-2) até a libertação do rei Joaquim de Judá (2 Rs. 25:27).

O restante dos livros, Rute, I e II Crônicas, Esdras, Neemias e Ester estão na divisão chamada de “Escrituras”.

A história deuteronomista

Alguns estudiosos identificaram que os padrões que se repetem nos livros considerados históricos (Josué a II Reis) seguem as determinações do livro de Deuteronômio a respeito do local de culto, forma de culto, modo de vida e, sobretudo a fidelidade do povo com relação à aliança entre Javé e o povo de Israel. Por isso, costumam chamar este período de história deuteronomista.

A obediência à aliança traria bençãos (Dt. 28), porém a desobediência levaria o povo à perda da terra prometida (Dt. 30).

Veja abaixo algumas expressões que se repetem nos livros que conhecemos por históricos:

  • “os israelitas fizeram o que o Senhor reprova” – em Juízes;
  • “andaram nos caminhos de Jeroboão” – em Reis

Os discursos que relembrar a redenção do povo do Egito e as obras de Deus entre o povo também são recorrentes em todos estes livros. Observe o padrão em cada um dos  textos relacionados abaixo:

  • Deuteronômio 4;
  • Josué 23;
  • Juízes 2:11-23;
  • 1 Samuel 12;
  • 2 Samuel 7;
  • 1 Reis 8;
  • 2 Reis 17:7-23

Portanto, podemos verificar que a mensagem deuteronomista se repete em diferentes momentos da história do povo de Israel, onde a padrão de reprovação é dado por Jeroboão, que não fez o que Javé estipulara na Aliança. Em contrapartida, o padrão de aprovação é o rei Davi, que centralizou o local de adoração em Jerusalém, de acordo com Dt. 12 e seguiu as estipulaç!oes da aliança.

Durante este período houve intensa atividade profética, que mostram a paciência e fidelidade de Javé à aliança estabelecidade com os hebreus.

História teológica

Nós costumamos estudar história de um ponto de vista linear, ou seja, um principio, meio e fim. Porém, no Antigo Oriente Médio o tempo cronológico não parecia ser importante, pois os povos antigos costumavam marcar a história por eventos cíclicos, que se repetiam. Tudo era visto com uma visão sobrenatural dos fatos, por isso era muito comum a estes povos viverem presos a rituais e encantos, pois seus deuses eram inconstantes e vingativos. Portanto, para afastar maus presságios ou eventos ruins, estes povos praticavam a magia e encantamentos, já que tudo em sua história era visto sob o prisma sobrenatural pela ação dos seus deuses.

Os israelitas estavam proibidos de praticar a magia e encantamentos, já que seu Deus, Javé, era constante e imutável e, portanto nenhuma surpresa atingiria os israelitas. Todo o padrão estava definido pela aliança e pela lei, ou seja, a obedi6encia gera benção e a desobediência gera maldição. Além disso, os eventos climáticos eram controlados por Javé, o Deus único, logo os israelitas não precisariam de nenhum ritual para que ele mandasse chuva, ou ventos ou sol.

Desta forma, teologia e história de unem no estudo do Antigo Testamento baseados na aliança entre Javé e seu povo, este é o fundamento da teologia e hsitória deuteronômica.

Aplicação para a Igreja contemporânea

Devemos ler a história de Israel sob o ponto de vista teológico, ou seja, a ação de Deus entre seu povo com fim de instrução e auto-revelação de Deus.

Muito embora sermões e lições citando os bons exemplos das pessoas que viveram neste período sejam válidos, na realidade a ênfase deve ser dada a Deus, pois ele é a figura central, não os personagens apresentados. A revelação apresentada nos livros que cobrem este período é de Deus e não a de Davi, Sansão, Elias ou Josias.

Não devemos tentar buscar ensinamentos com base na vida de Saul ou de Eliseu, mas procurar os padrões de Deus para seu povo com base na aliança estabelecida entre eles. Então, nos próximos estudos, que abrangerão os livros históricos, passaremos a observar o seu prisma teológico e não apenas histórico. Estudaremos também o papel de Deus na história e não a ação das pessoas separadas da revelação de Deus entre o povo  da aliança.

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006 – Introdução ao Deuteronômio – A nova geração

Introdução ao Livro de Deuteronômio – A nova geração

 Ao contrário do que o nome, vindo do grego, sugere, Deuteronômio não se trata de uma segunda lei, mas é uma recapitulação, para a nova geração pós-êxodo, sobre os ensinos da lei que Javé dera ao povo hebreu por intermédio de Moisés.

Durante trinta e oito anos os israelitas ficaram em Cades-Barnéia, no deserto de Parã, e puderam entrar na terra da promessa somente quando a primeira geração do Êxodo havia morrido. Escrito pouco antes da morte de Moisés, o livro fornece uma retrospectiva do que acontecera com a geração anterior e adequa os ensinos do Livro da Aliança para a geração atual e possibilita a renovação da aliança.

O livro de Deuteronômio segue a estrutura dos antigos tratados dos povos do Antigo Oriente Médio, logo podemos notar a unidade de conteúdo do livro e estabelecer sua data de composição no período Mosaico, ou seja, o segundo milênio a.C.

A tabela abaixo mostra a estrutura dos antigos Tratados dos povos do Oriente Médio, e a comparação com a Aliança entre Javé e os hebreus.

Tratados Antigos Descrição Aliança Referência
Título Identifica o autor, a parte superior, e seu direito do tratado Título Dt. 1:1-5
Prólogo histórico Mostra o cuidado da parte superior com o subordinado no passado e este relacionamento entre as partes envolvidas Prólogo Dt. 1:6 – 3:29
Leis Obrigações dadas pela parte superior que deveriam ser obedecidas pelo subordinado Leis e estipulações Dt. 4 – 26
Bençãos e maldições Instruções de conservação e leitura pública Garantias/Leitura Dt. 27:2-3
Maldições prescritas contra os que desobedecem e a reação da divindade Bênçãos e Maldições Dt. 28
Deuses convocados para testemunhar o juramento de ambas as partes Testemunhas Dt. 31 e 32

De acordo com a tabela acima, os tratados da antiguidade eram divididos em:

  1. Introdução apresentando o narrador
  2. Prólogo histórico sobre a bondade da parte superior, o senhor e suserano.
  3. Os detalhes do que era esperado do subordinado
  4. Ordens sobre a conservação e armazenagem do tratado e suas leituras periódicas
  5. Lista de testemunhas para o tratado, geralmente alguma divindade
  6. Maldições ou bênção de acordo com a obediência do subordinado

Em Deuteronômio Javé é apresentado como o superior autor da aliança. O prólogo do tratado registra a ação redentora de Javé com os israelitas ao livrá-los da escravidão no Egito. Por isso Javé tem o direito de fazer estipulações ao povo, a parte subordinada do tratado. Estas estipulações estão descritas nos capítulos 4 a 26 abrangendo grande parte do livro. O item do tratado que corresponde à garantia e conservação está registrada no capítulo 27:2-3, que diz ao povo para erguer pedras e escrever a lei nelas assim que chegassem à Terra Prometida. No capítulo 28 estão registradas as bençãos e maldições do tratado, e, nos capítulos 31 e 32 encontram-se as testemunhas, que inclui um cântico de Moisés que servirá de juramento a Javé.

Estrutura de Deuteronômio

O livro de Deuteronômio pode ser dividido em três grandes discursos de Moisés, conforme abaixo:

  • Primeiro discurso de Moisés: Dt. 1:1 – Dt. 4:43
  • Segundo discurso de Moisés: Dt. 4:44 – Dt. 28:68
  • Terceiro discurso de Moisés: Dt. 29 e 30
  • Últimas palavras de Moisés: Dt. 31 a 33
  • Transição para Josué: Dt. 34

Além disso, os capítulos 6 a 26 de Deuteronômio, que tratam sobre as leis para o povo da aliança, podem ser agrupados de acordo com a estrutura dos dez mandamentos, de acordo com a estrutura abaixo:

1º Mandamento – autoridade divina – Dt. 6 – 11

Não terás outros deuses diante de mim

Incentiva o amor e obediência a Deus e apresenta formas de como agir para este fim. A eleição de Israel por Deus o torna digno de respeito.

2º Mandamento – Dignidade divina – Dt. 12

Não farás para ti nenhuma imagem de escultura

O uso de um santuário central impediria os israelitas de usar os santuários cananeus e preservaria sua prática religiosa e ensino. Javé não deveria ser adorado como os deuses cananeus, no qual os cultos eram interesseiros e manipuladores. A adoração a Javé não deveria ser manipuladora e interesseira, mas ser genuína e ter seu lugar devido.

3º Mandamento – Compromisso com a divindade – Dt. 13:1 – Dt. 14:21

Não tomarás em vão o nome do Senhor teu Deus.

A conduta cotidiana reflete o compromisso com a fé em Javé. Por isso os capítulos 13 e 14 dão exemplos concretos de conduta que o israelita que leva Deus a sério teria. Deus não perdoaria quem não o levasse a sério, logo o povo também deveria agir da mesma maneira.

4º Mandamento – Direitos da divindade – Dt. 14:22 – 16:17

            Lembra-te do dia de sábado para santificá-lo

Javé, como libertador do povo de Israel, merece toda honra. Portanto é esperado de seu povo lhe dediquem seus bens e liberdade, que devem ser estendidos a outras pessoas, e vai além do sábado. Este trecho dará exemplos práticos de como isso deve ser feito.

5º Mandamento – Autoridade humana – Dt. 16:18 – 18:22

            Honra teu pai e tua mãe

Este trecho procurar enfatizar a autoridade humana para garantir a preservação da aliança, cujo ensino começa no lar com a autoridade dos pais. Porém o texto coloca outras autoridades no processo de instrução da aliança: juízes, reis, profetas e sacerdotes.

6º ao 8º Mandamentos – Dignidade humana – Dt. 19-21; 22:1-23:14; 23:15 – 24:7

            Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás

Este é o trecho mais difícil de harmonizar com os dez mandamentos. Mas, de forma geral, este trecho trata sobre a dignidade da existência humana, onde as mortes causadas pela guerra não se incluem neste contexto. A essência da natureza do povo também deveria ser preservada, assim como ninguém deveria se misturar no casamento de seu próximo, fios e plantas não deveriam ser misturados. Por último, este trecho trata sobre a dignidade da pessoa. Deuteronômio deixa claro que não se rouba apenas bens materiais, mas o roubo da liberdade ou do amor próprio é tão destrutivo quanto o furto dos bens materiais, pois ameaça e tira a dignidade de uma pessoa.

9º Mandamento – Compromisso com a humanidade – Dt. 24:8-16

Não darás falso testemunho contra teu próximo

Devemos tratar o próximo com sinceridade. A confiança mútua é o resultado de levar o compromisso com a aliança a sério.

10º Mandamento – Direitos humanos – Dt. 24:17 – 26:15

Não cobiçarás coisa alguma que pertença a seu próximo

Este trecho sugere que os direitos individuais devam ser protegidos, pois os hebreus não deveriam desejar nada que fosse do seu próximo.

Propósito e conteúdo

O livro de Deuteronômio abrange os seguintes assuntos:

  • O local de adoração de Javé
  • As leis organizadas de acordo com os dez mandamentos
  • O nome de Deus
  • O amor e obediência a Javé, Deus da aliança.

Lei

No Antigo Oriente Médio, os povos tinham muita dificuldade para entenderem e decifrarem a vontade de seus deuses. Porém, para o hebreu este problema não existia, pois seu Deus decidira se revelar a eles, e usou a lei para mostrar o que se requeria deste povo escolhido. Logo, para o hebreu a lei era a demonstração da graça de Javé. A lei era um prazer, não um fardo. No NT Paulo se coloca contra os judeus que tentaram fazer da lei um meio de salvação  e não de revelação graciosa de Javé.

O Santuário

O tabernáculo, bem como o templo, representava a presença de Deus entre o povo no Antigo Testamento. Os hebreus tinham apenas um único Deus, logo para enfatizar este conceito teológico, o culto foi centralizado para garantir a prática religiosa correta.

Teologia da História

Javé se revelou ao povo hebreu em eventos históricos, isso fica claro no prólogo do tratado da aliança. A revelação de Javé foi histórica e envolvia uma resposta do povo não apenas o conhecimento intelectual. Além disso, os eventos históricos registrados em Deuteronômio tem caráter didático para a nova geração, que deveria aprender com os erros dos seus antepassados antes de entrarem na terra prometida.

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