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003 – Introdução ao Êxodo – Um povo dentro da Lei

Introdução ao livro do Êxodo – Um povo dentro da lei

O nome do livro vem do Grego Exodos, que significa saída, pois o tema principal do livro é a saída do povo de Israel do Egito. O nome em hebraico significa “Estes são os nomes”, pois o mundo antigo nomeava seus escritos com as primeiras palavras do livro.

O livro do Êxodo continua a narrativa do povo hebreu no Egito, onde ficaram os descendentes de Jacó durante a fome na Palestina. O livro conta o processo de formação da nação de Israel, ou seja, de uma família ao nascimento do povo de Israel por meio da aliança no Monte Sinai, de acordo com a narrativa dos capítulos 19 a 24.

A aliança é o eixo do livro, que mostra o ato redentor de Javé para com o povo que havia escolhido. A saída do povo de Israel no Egito mostra a fidelidade de Javé para com sua própria palavra, e é o ponto máximo da redenção no Antigo Testamento juntamente com o pacto estabelecido no Monte Sinai.

Estrutura do livro

Baseado na geografia o livro do Êxodo pode ser dividido em três partes:

1. Israel no Egito: 1:1 – 13:16

2. Jornada de Israel no deserto: 13:18 – 18:27

3. Israel no Sinai: 19:1 – 40:38

O livro do Êxodo liga Gênesis, que nos conta a razão da Aliança, com Levítico, o livro das leis da Aliança para o povo eleito. A repetição dos nomes dos integrantes da familia de Jacó no capítulo 1 faz a ponte entre os relatos do livro com Gênesis, assim como o final do livro descreve a glória de Javé enchendo o tabernáculo (40:34-38) associando a saída do povo de Israel do Sinai liderado pela nuvem (Nm. 10:11-35).

A primeira parte narra o livramento do povo da escravidão no Egito por intermédio de Moisés, que teve como porta voz seu irmão Arão. Moisés é incumbido e equipado para realizar esta tarefa, por meio de sinais miraculosos. Este trecho também destaca a paciência de Javé com o povo e a obediência devida às suas ordens. Esta libertação foi realizada com o envio de 10 sinais tanto para os egípcios como os hebreus e terminou com a instituição da páscoa como memorial para as futuras gerações.

A segunda parte explica como Javé converteu ex-escravos em seu povo particular (19:1-6). Para isso ele estabeleceu sua aliança, um tratado com este povo, de acordo com o antigo modelo do povo hitita conforme abaixo:

Prefácio

20:2a

Prólogo histórico

20:2b

Condições:

20:3-17(10 mandamentos) e 20:21 – 23:19

Leitura pública

24:7

Lista de testemunhas:

24:1-11

Bênçãos e maldições

23:20-33

A terceira parte esclarece os detalhes do tabernáculo e como Javé estabeleceu sua presença entre o povo por meio deste tabernáculo. O trecho também determina a ordenação do sacerdócio de Arão e seus descendentes, que explica a inclusão na genealogia do capítulo 6, legitimando o sacerdócio. A idolatria e a rebelião de Israel são julgados por Javé (32: 1:10), que tem sua ira retira pela intercessão de Moisés. Neste episódio a misericórdia de Javé é demonstrada, o que tornou a renovação da aliança possível (32:11 – 34:17). Este será o comportamento padrão do povo durante todo o Antigo Testamento.

Propósito e conteúdo

O livro do êxodo é permeado pelos seguintes temas principais:

  • A soberania de Javé sobre as divindades pagãs
  • A lei como padrão religioso e social para Israel
  • O Êxodo como evento significativo da Redenção de Israel no Antigo Testamento
  • A presença de Deus simbolizada pelo tabernáculo

A mensagem do livro ainda inclui o julgamento do opressor de Israel, o Egito, o livramento da escravidão pelo poder miraculoso de Javé, o estabelecimento de Israel como nação sacerdotal para os os outros povos.

Propósitos do livro do êxodo:

Histórico

Preservação do registro histórico do povo de Israel, seu livramento e presença no deserto. (6:4)

Teológico

Auto revelação divina. Deus, além de lembrar-se das promessas feitas aos patriarcas, agora revela-se aos seus descendentes (6:2-3)

Didático

Importância do relacionamento de aliança com Javé e a importância da lei como instrumento desta aliança para moldar a identidade de Israel como povo escolhido (23:20-23)

Javé

O livro de êxodo mostra como Javé se auto-revelou ao povo escolhido de forma progressiva. O nome é geralmente traduzido por “EU SOU”, mas tem implicações muito mais profundas, pois este nome carrega o radical do verbo hebraico ser e pode apontar para a eternidade e auto existência de Deus. Além do seu próprio nome Javé se revelou por outros meios, chamados de teofanias, tais como: o Anjo do Senhor (Ex. 3:2; 14:19), Milagres (Ex. 8:16-19), a sarça ardente (3:2), Sinais da natureza (19:18-20), voz (24:1), nuvem da glória (16:10), coluna de fogo (40:34-38), face a face com Moisés (33:11).

Estas manifestações eram acompanhadas do conteúdo que revelavam a própria essência e caráter de Javé: se lembrava das obrigações da aliança (19:10-15; 25:1-9), Juiz e Salvador (12:27), governa as nações em benefício do povo eleito (15:4-6), santo, mais poderoso que os deuses das nações vizinhas (15:11; 18:10-12), gracioso e misericordioso (32:11-14).

Os dez sinais

O texto dos dez sinais apresenta, na verdade, a luta cósmica entre Javé e os deuses egípcios, por isso o livro menciona que Javé havia colocado Moisés por “deus” para os egípcios, pois este era tido como uma divindade (Ex. 7:1). O texto, além de sinais, traz também a palavra maravilhas, que pode significar tanto a idéia de milagre como a intensificação dos fenômenos naturais.

Esta série de sinais também serviu para evidenciar a predisposição de faraó em não crer em Javé (Ex. 3:19-20), agravado ainda mais pelo endurecimento de seu coração por Deus (Ex. 9:8-12). Após o sexto sinal, aparentemente ele não tinha mais a opção de se arrepender para obedecer à ordem de Javé. É possível que isto seja semelhante ao pecado de blasfêmia contra o Espírito Santo (Mc. 3:2-30), onde Jesus condena os fariseus por atribuir a belzebu os milagres que ele operava.

O quadro anexo compara os sinais com os deuses egípcios. Mas atenção é apenas um quadro comparativo do panteão egipicio, e não deve ser tomado de forma conclusiva.

A páscoa

As gerações futuras receberam a ordem de celebrar a páscoa comemorando o grande livramento dado por Javé ao povo escolhido (Ex. 12:13-14). A festa dos pães sem fermento os faria lembrar da grande pressa com que sairam da escravidão (12:11). A dedicação dos primogênitos os lembrariam da misericórdia de Javé, quando poupou os primogênitos hebreus do anjo da morte (12:23).

O NT interpreta a páscoa hebraica como um tipo da morte sacrificial de Jesus pelos pecadores (Jo. 1:29; I Co. 5:7). A ceia do Senhor é fundamentada no ritual da páscoa tanto como memorial (Lc. 22:7-30), quanto a expiação feita pelo cordeiro pascal (Ap. 5:6-14).

Os dez mandamentos

Estão registrados em Êxodo 20:1-17, onde Moisés não é mencionado como mediador, diferentemente do restante da lei. Talvez, para destacar o caráter eterno e perfeito da lei que Javé dava ao povo da aliança, o livro de Êxodo narra que Deus fala diretamente do céu, e não do monte Sinai. Oito, dos dez mandamentos, estão na forma negativa, ou seja, proibições. Isso ressalta o caráter absoluto da lei divina para o povo.

Os dez mandamentos podem ser considerados atos da graça divina para com seu povo, pois trouxeram um sentido religioso, ético e social a um imenso grupo que, pouco tempo antes, era apenas escravo. A lei representava o conjunto de regras da aliança firmada entre Javé o povo escolhido. No NT Jesus reduz estas leis a duas dimensões básicas e descata que a essência da lei era justiça, misericórdia e fé (Mt. 23:23).

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Os julgamentos e livramentos de Javé

Introdução

O título hebraico do livro canônico que conhecemos como Números é “no deserto”. Este título traduz corretamente a história do povo eleito em sua jornada rumo à terra da promessa.

O título “Números” é uma herança da Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento. Este título foi dado por conta dos recenseamentos do povo de Israel narrados nos capítulos 1 e 26.

O fato de haver tido um recenseamento prova que Javé cumpriu, até aqui, uma parte de suas promessas dadas a Abraão: ser uma grande nação. Agora, este grande povo deveria percorrer sua jornada no deserto para receber a outra parte da promessa: a terra prometida.

O livro de Números vai destacar as provações e rebeliões do povo escolhido durante o período da formação do seu relacionamento com Javé, relacionamento este que se desenrola durante a jornada no deserto. Logo, Números serve também como um diário dos primeiros dias de relacionamento entre o povo da aliança e seu libertador.

O livro registra, durante 38 anos, os fatos importantes antes da morte de Moisés e da entrada do povo em Canaã, a terra prometida.

Teologia e história

O livro de Números, de forma geral, possui duas mensagens:

  • a paciência e a fidelidade de Javé diante da rebelião e murmuração do povo
  • revelação adicional da natureza e caráter de Javé, o Deus da aliança.

A experiência no deserto dera ao povo provas de que Javé era seu provedor fiel. Inclusive, um dos utensílios do tabernáculo (ver aqui) era a mesa com os pães, que significava exatamente a provisão do Deus da aliança para seu povo escolhido.

Do ponto de vista histórico o livro de Números explica a presença do povo hebreu na terra de Canaã.

Do ponto de vista teológico o livro de Números destaca os seguintes princípios:

  • a santidade de Javé
  • a pecaminosidade do homem
  • a necessidade de obediência a Javé
  • a fidelidade total de Javé à aliança com o povo hebreu

Do ponto de vista sociológico explica a transformação de ex-escravos em uma comunidade unida por Javé, preparada para cumprir as obrigações da aliança.

Incredulidade e rebelião

Nos capítulos 13 e 14 de Números somos informados sobre a incredulidade do povo da aliança, que atingira um patamar altíssimo. Eles escolhem não confiar em Javé, a despeito de todo histórico de milagres a seu favor.

A consequência desta escolha foi a rejeição de Javé à geração do Êxodo.

A rebelião, causada pela incredulidade e desprezo de Israel por Javé, traz a perda irreversível das promessas relativas à terra para a geração do êxodo.

A rebelião e incredulidade chegou a um nível tão alarmante que o povo quis assassinar os espias que tiveram uma reação de fé diante dos obstáculos, de acorco com Números 14:10.

Diante deste quadro Javé tenciona destruir o povo e recomeçar tudo a partir de Moisés. Porém, Moisés intercede a favor do povo remetendo a duas características de Javé:

  • sua reputação – conforme Números 14:13-16
  • seu caráter – conforme Números 14:17-19

Este texto nos mostra que Moisés aprendera a conhecer Javé.

Entretanto, este ato de rebelião foi punido com a morte dos 10 espias por meio de uma praga, e, toda a geração do êxodo morreria no deserto.

Sempre mais do mesmo

38 anos se passam, estamos no capítulo 20 de Números, e a murmuração continua a mesma.

No episódio narrado neste capítulo a murmuração do povo levou Moisés a um orgulho e arrogância pecaminosos, que roubou a glória devida a Javé diante do povo, de acordo com Números 20:10-11.

Em Números 21:5 os israelitas, mais uma vez, mostram desprezo pela provisão de Javé. Por isso, são enviadas serpentes venenosas para matar o povo.

Mais uma vez, pela intercessão de Moisés, o povo recebe um meio de escapar da morte, por um ato de fé em Javé, olhando para o símbolo do seu pecado: uma serpente de metal.

Muitos anos se passam, e esta serpente começou a ser adorada como deus em Israel, e, 700 anos depois de ter sido construída, o rei Ezequias destruiu-a conforme 2 Reis 18:4.

Êxodo – O nascimento de uma nação

 

A impressionante imanência do Deus transcendente

Chegamos ao capítulo 19 de Êxodo, 3 meses após a saída dos descendentes de Israel do Egito. Neste momento da história o povo está acampado na península do Sinai, e ficaria ali por quase 1 ano. Esta narrativa termina lá em Números capítulo 10, onde o povo continuaria sua longa e árdua caminhada por mais quase 40 anos pelo deserto.

Esta é uma das passagens mais importantes do Antigo Testamento, pois relata o encontro de Javé com seu o povo escolhido, o povo da aliança. Em nenhuma outra cultura há a descrição deste tipo de teofania, onde o deus adorado se une, se encontra com seu povo. Neste momento, único na história, a transcedência de Javé, soberano do universo, se funde à imanência, a presença visível no meio do povo.

Outro ponto que merece destaque é que, neste momento histórico, o aglomerado de ex-escravos está prestes a se tornar uma nação. A promessa feita a Abrão séculos antes está se cumprindo.

Os ex-escravos tornam-se uma nação por meio da aliança

No trecho de Êxodo 19:3-8, Moisés torna-se o intermediário da aliança que Javé oferece ao povo; aliança que foi prontamente aceita. Esta aceitação, o compromisso de obediência do povo, veio da confrontação com os feitos de Javé realizado entre o povo da aliança, conforme Êxodo 19:4.

Javé chama seu povo a um compromisso nacional, ou seja, um relacionamento especial com seu redentor. Um ponto importante que deve ser destacado é que a aliança não é individual, mas coletiva. Isto é importante para entendermos as narrativas onde lemos que todo povo é castigado por cauda do pecado e transgressão de apenas um indivíduo.

Javé apresenta as responsabilidades e privilégios do compromisso do povo com ele. Javé os trouxera à sua presença para confirmar seu plano de fazer os descendentes de Jacó uma nação para bênção de todos os povos da terra, de acordo com Êxodo 19:6, a mesma promessa que fizera a Abraão.

Algo que podemos aprender neste episódio é que é impossível pertencer ao povo de Deus sem um encontro real com ele. Podemos aprender também a verdadeira dinâmica do relacionamento com Deus: ele fala, e nós obedecemos. Nos dias atuais há uma ênfase exagerada em ir, ou pertencer a alguma comunidade, apenas para obter bençãos e benefícios de Deus.

O tipo da aliança e a função da lei

Esta aliança firmada entre Javé e os descendentes de Israel era condicional, ou seja, para o povo obter os benefícios da aliança seria necessário cumprir certas obrigações.

O que está em jogo aqui não é a condição de Israel como povo de Deus, mas sim as bênçãos e privilégios da aliança: ser seu tesouro pessoal e nação santa. Israel deveria desempenhar o papel de mediador entre Javé e os outros povos. Como nação de sacerdotes, o povo da aliança deveria ensinar às outras nações a lei de Javé. Em Malaquias 2:7 lemos sobre as atribuições de um sacerdote.

Javé queria que Israel servisse como meio de restauração entre as nações e ele mesmo.

A lei, dada no monte Sinai, indicaria ao povo que eles eram pecadores diante de um Deus santo e justo.

A manifestação de Javé, por meio dos raios e trovões, serviu para demonstrar a sua grandeza e santidade, e, que este povo deveria se aproximar dele com temor e reverência, outra coisa que tem sido esquecida nos dias de hoje.

Êxodo – Entre o mar e a espada

Introdução

Continuando nossa saga junto com o povo da aliança, chegamos a um ponto crucial desta aventura; onde o povo de Israel veria os feitos do Deus que os havia chamado, e, por meio do livramento na travessia do mar de juncos, renderiam o louvor devido a YAHWEH.

A páscoa

Estamos em Êxodo, capítulo 12, onde YAHWEH institui a comemoração da páscoa. Além disso, como forma de marcar o tempo anual da nação que estava por surgir, YAHWEH determina que o mês desta comemoração seria o primeiro mês do ano. Isto pode simbolizar a comemoração pela libertação logo na entrada de um novo ano.

A páscoa, ou פסח (pessah) em hebraico, pode fazer menção à passagem que tiveram, e à rápida saída que teriam do Egito. Nesta saída rápida não haveria tempo de muitos preparativos, por isso os pães, nesta comemoração, deveriam ser sem fermento. Um outro ponto, que não fica claro no texto, é que o fermento pode também significar a corrupção, que não deveria eatar entre o povo da nova nação.

Neste episódio aprendemos que, o Deus que chamara o povo, também providenciara sua redenção. Esta redenção, no episódio do Êxodo do povo de Israel, será o padrão de rendenção mencionado no Antigo Testamento. O profeta Isaías, mencionando a restauração de Israel após o cativeiro, remete suas palavras à lembrança do Êxodo no capítulo 43.

A consagração

YAHWEH chamara este povo a ser uma nação separada, santa. Neste processo de separação a YAHWEH a consagração do povo deveria ser comemorada com duas cerimônias relacionadas entre si: a páscoa, como vimos acima, e a consagração dos primogênitos, conforme lemos em Êxodo 13:2; 6-7. Lemos no relato evangélico de Lucas que Jesus foi consagrado segundo esta tradição, de acordo com o capítulo 2 verso 22.

Esta consagração dos primogênitos lembraria aos israelitas que Deus os tinha como filhos, segundo Êxodo 4:22. Esta consagração também deveria ser uma expressão da gratidão de Israel para a redenção graciosa de YAHWEH.

A morte do cordeiro pascal redimiria da morte os filhos dos israelitas, segundo Êxodo 13:15. Isto os lembraria de que a redenção tem um preço, e nossas atitude erradas e pecados tem consequências sérias.

O Êxodo

A saída dos israelitas do Egito foi feita por uma rota não egípcia justamente para evitar o exército do faraó pelo caminho mais comum naquela época.

Em Êxodo 13:21 YAHWEH fornece provas do seu poder ao guiar o povo da aliança com a coluna de nuvem e de fogo.

YAHWEH avisa aos israelitas que viriam mais problemas pela frente ao dizer que o coração do faraó seria endurecido. Porém o propósito era a glorificação de YAHWEH para que os egípcios soubessem que somente ele era Deus. Isto nos remete à ideia de que o ser humano não é o foco da narrativa bíblica, mas sim a glorificação do único Deus soberano sobre toda a terra, de acordo com Êxodo 14:4.

Quando YAHWEH orienta o povo a fazer voltas pelo deserto, daria ao faraó a ilusão de que o povo estava desorientado, tornando-o portanto, uma presa fácil diante de seu poderoso exército.

Então, a lição definitiva de Deus para o povo da aliança e para os egípcios, envolveu a resposta de fé de Moisés para superar a visão distorcida que o povo tinha da situação, conforme Êxodo 14:13. Mais uma vez aprendemos que a fé não é um botão mágico que aciona o braço de Deus a nosso favor, mas a capacidade, dada pelo próprio Deus, de permanecer firme em qualquer situação.

Mais tarde, conforme o texto de Êxodo 14:31, lemos os resultados desta intervenção divina em favor do seu povo. Mais tarde, estes resultados ultrapassariam as fronteiras de Canaã, conforme relatos no livro de Josué.

A celebração da vitória

No capítulo 15 de Êxodo lemos o cântico de vitória do povo sobre os feitos magníficos de YAHWEH. Este cântico é repetido e relembrado em Apocalipse 15.

Notemos que a intervenção humana é claramente excluída. YAHWEH era o único responsável por tudo.

Neste cântico podemos perceber a relação com a criação por causa da separação das águas. Há o caos para que a vida possa continuar. Novamente, por todo Antigo Testamento, o tema de Deus subjugando as águas estará presente. O livro dos Salmos, Naum e Isaías trarão muitas menções a este fato.

Estes episódios ensinaram o povo de que YAHWEH era fiel às suas promessas e tinha poder para superar todos os obstáculos.

A promessa em risco novamente

Depois disso tudo, depois de todos os sinais e milagres, o povo volta a reclamar no deserto, e a promessa parece estar em risco novamente, como vimos por todo livro de Gênesis.

Mas YAHWEH, que é fiel não necessariamente a nós, mas às suas promessas e sua palavra, dissera lá em Êxodo 3:12, que seu povo o encontraria e o adoraria no monte, o que aconteceu no capítulo 15 versos 22 e 23.

Durante toda a travessia no deserto, mesmo vivendo dias e noites de milagres, o povo duvidava das promessas, não cria na soberania e poder de YAHWEH, que os havia chamado e redimido.

Êxodo – de volta para casa

Introdução aos motivos do Êxodo

Após a preparação de Moisés chegou a hora da promessa de Deus se cumprir. Mas este processo não seria assim tão simples.

Retomando o tema da preparação de Moisés, houve certos aspectos que agora podemos observar:

  • aspecto social: Foi integrado na sociedade egípcia e, sua preparação aconteceu dentro da corte egípcia e do seu próprio povo.
  • aspecto religioso: a teofania serviu para a execução desta preparação.

Não podemos considerar o êxodo do povo de Israel um evento isolado, mas precisamos olhar com atenção todo o processo histórico-teológico que levou ao êxodo. Este evento vai nos ensinar alguns aspectos importantes sobre o caráter e a essência de Deus.

Primeiramente vamos considerar os motivo do êxodo:

  • cumprimento da promessa de Deus de trazer os descendentes de Abraão de volta para Canaã
  • punir os egípcios e permitir a libertação do povo
  • mostrar a supremacia de Deus sobre os deuses do Egito.

O que os sinais significaram

Os sinais, geralmente chamados de pragas, foram um julgamento dos deuses do Egito executado por Deus. Veja Números 33:4b.

Merece destaque o fato que o final desta contenta foi predeterminado. Veja Êxodo 7:1-5. A frase “…saberão que eu sou Javé..” foi repetida várias vezes.

Estes sinais, como veremos não foram realizados apenas para convencer os egípcios, mas também os israelitas.

Natural X Sobrenatural

Existem muitos documentários, principalmente na TV paga, sobre o êxodo. Os estudiosos diferem entre si sobre os aspectos naturais e sobrenaturais dos sinais do êxodo. Será que isso é realmente um problema?

Vemos que durante a execução dos sinais no Egito Deus usa sua própria criação para mostrar a sua soberania, ou seja, esta criação esteve sujeita ao Criador de todas as coisas! Os egípcios, com toda sua ciência e mágica não puderam reverter esta situação. Mesmo que fosse um evento absolutamente natural isto não diminui ou exclui a parte sobrenatural do processo, conforme vemos abaixo:

  • a intensidade foi maior do que o normal – Ex. 9:18
  • a extensão foi muito grande em alguns casos – Ex. 8:17
  • em alguns casos, o lugar foi específico – Ex. 8:22-23
  • em alguns casos, a hora foi específica – Ex. 8:9-11

Como podemos observar, se estes eventos foram naturais ou sobrenaturais em sua essência, o fato é que a criação obedeceu seu Criador para a execução de seus planos de mostrar sua soberania aos egípcios e israelitas.

Estes sinais atingiram a vida do Egito de forma plena, ou seja, sua economia, sociedade e religião foram abalados.

O endurecimento do coração do faraó

Lendo o texto cuidadosamente vamos perceber algo interessante sobre o endurecimento do coração de faraó, motivo para acaloradas discussões calvinistas-arminianas.

Há um “empate” entre o endurecimento do coração do faraó por Deus, e o endurecimento do coração de faraó por ele mesmo. Neste caso podemos concluir que o faraó não foi levado contra sua vontade a fazer tudo o que fez, pois as duas situações cooperam para isso.

Comparação dos sinais com os deuses egípcios

Quadro comparativo dos sinais mandados por Deus e deuses egípcios atingidos.

Sinal deus(es)
1- O Nilo é transformado em sangue 7:14-25 Knum: guardião do Nilo.

O próprio Nilo, fonte da vida no Egito.

2- Rãs 8:1-15 Hect: deus da ressurreição – Tinha a forma de rã.
3- Piolhos 8:16-19 Set: deus do deserto (poeira?). Magos admitem intervenção divina.
4 – Moscas 8:20-32 Uatchit
5 – Peste nos rebanhos 9:1-7 Ápis: o deus-touro

Hathor: deusa-vaca

6 – Úlceras 9:8-12 Sekhmet: deus dos remédios
7 – Granizo 9:13-35 Nut: deusa do céu

Set: deus das tempestades

8 – Gafanhotos 10:1-20 Nut

Osíris: deus das colheitas e fertilidade

9 – Trevas 10:21-29 e Hórus: deuses do Sol
10 – Morte dos primogênitos 11:1 – 12:36 O próprio faraó, que era considerado um deus.

Ísis: deusa da cura.

Êxodo – Conhecendo o Deus da aliança

As manisfestações de Deus

Continuando nosso estudo no livro de Êxodo, ainda no episódio que Deus se revela a Moisés, nesta questão da manisfestação vísivel de Deus, temos dois aspectos:

  • Teofania – é a manisfestação visível de Deus acompanhada de sinais
  • Epifania – é a manisfestação visível de Deus sem sinais

Neste trecho, o Anjo do Senhor, é o próprio Deus, que apareceu a Moisés de forma audível e visível sem prejudicar sua santidade, preservando a vida de Moisés. Em diversos trechos da Bíblia somos informados sobre a intervenção do Anjo do Senhor, que pode significar um mensageiro, que é o que a palavra anjo significa, ou então é o próprio Deus manifesto. Nestes casos, somente o contexto poderá nos informar se a expressão “Anjo do Senhor” se refere a Deus propriamente ou a um enviado seu.

Durante a manifestação visível de Deus aos humanos, algumas providências devem ser tomadas por Deus para preservar a vida, do contrário haveria morte, pois não pode-se ver a Deus e continuar vivo. Em outros trechos da Bíblia percebemos o medo das pessoas que viam a Deus “face-a-face”, pois tinham consciência de seu pecado em contraste com a santidade absoluta de Deus.

A linguagem utilizada

Neste diálogo entre Deus e Moisés percebemos o uso de muitas expressões chamadas antropomórficas, ou seja, palavras que descrevem ações ou emoções humanas se referindo diretamente a Deus.

Como foi explicado anteriormente, o fato do uso de tais expressões na Bíblia serve para nós possamos entender o processo de intervenção, e interação, entre Deus e os homens.

Serve também para nos ensinar que Deus, apesar de soberano, todo-poderoso e transcendente, Deus também está presente e interage conosco, ou seja, Deus é também imanente.

Note os verbos que Deus usa na conversa com Moisés:

  • tenho ouvido
  • tenho visto
  • desci
  • para livrar

As desculpas de Moisés

A cada desculpa de Moisés, no capítulo 3, Deus revela algo sobre seu próprio caráter.

No verso 11 Moisés pergunta “Quem sou eu…?”, e a surpreendente resposta de Deus, no verso 14, revela sua identidade, seu nome pelo qual ficaria conhecido pelos séculos vindouros: Eu Sou o que Sou. YHWH (יהוה) – O Eterno. YAHWEH é uma formar arcaica do verbo ser, e pode significar aquele que foi, é, está sendo e será.

A partir deste verso 14, Deus começa a descrever suas credenciais divinas e sa atuação na história.

O verbo utilizado no verso 12, “Eu estarei” é o mesmo usado no verso 14 para “EU SOU” (היה hâyâh). Isso significa que não é promessa temporária ou parcial.

O quadro abaixo nos ajuda a entender a questãp das desculpas de Moisés e a revelação do caráter de Deus em suas respostas.

Desculpas de Moisés Respostas de Deus
Quem sou eu? – Preocupação com sua identidade. Serei contigo – Moisés não precisaria ser ninguém se Deus estivesse com ele
Quem o havia enviado? EU SOU – o Deus de seus antepassados
Não crerão que o Senhor me aparaceu. Sinais diversos para Moisés ver o poder e os milagres de Deus
Não falo bem. Não sou eloquente. Deus criou a boa do homem. Deus ensinaria o que Moisés deveria falar.
Envie outra pessoa. Ira de Deus contra Moisés. Envio de Arão junto com Moisés.

Aqui, neste episódio, Moisés, além de conhecer Deus historicamente, pôde conhecê-lo de forma pessoal, ou seja, Moisés nunca havia conhecido Deus desta maneira apresentada na narrativa em questão.

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