Archive

Posts Tagged ‘extensão canon’

A EXTENSÃO DO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO

Assim como o Velho Testamento havia livros do cânon Neotestamentário que foram aceitos por todos, livros rejeitados por todos, livros aceitos por alguns e livros questionados por alguns.

Os livros aceitos por todos – Homologoumena

Assim como no Velho Testamento a maioria dos livros foi aceita pela Igreja logo no início. Em geral, 20 dos 27 livros do Novo Testamento pertencem a esta classificação. Incluem-se todos exceto: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. Os outros três foram omitidos em algumas épocas. Como os livros desta classe foram aceitos por todos não trataremos mais deles e concentraremos nossos estudos nas outras classes de livros.

Os livros rejeitados por todos – Pseudepígrafos

Entre os séculos II e III surgiram numerosos livros heréticos, que receberam o nome de pseudepígrafos, ou escritos falsos. Eusébio os classificou de “totalmente absurdos e ímpios”.

Praticamente nenhum pai da Igreja, nenhum cânon ou concílio declarou apoio a estes escritos, pois em sua maioria eram gnósticos, heréticos e registravam supostos fatos misteriosos não narrados nos evangelhos canônicos (por exemplo a infância de Jesus). Tinham uma desmedida fantasia religiosa. As seitas que mais adotaram este livros foram os:

  • Gnósticos – Ensinavam que a matéria era má e negavam a encarnação de Jesus.
  • Docetas – Ensinavam a divindade de Jesus e negavam sua humanidade; diziam que era apenas uma aparência de humano.
  • Monofisistas – Ensinavam que Jesus tinha uma única natureza, uma fusão da humana e divina.

O interesse destes livros por parte dos cristãos é puramente histórico.

O número dos pseudepígrafos

Até o século XIX haviam sido achados 280 obras desta natureza. Abaixo relacionamos as principais e as mais tradicionais neste quesito.

Evangelhos
1. O Evangelho de Tomé (século I) é uma visão gnóstica dos supostos milagres da infância de Jesus.
2. O Evangelho dos ebionitas (século II) é uma tentativa gnóstico-cristã de perpetuar as práticas do Antigo Testamento.
3. O Evangelho de Pedro (século II) é uma falsificação docética e gnóstica.
4. O Proto-evangelho de Tiago (século II) é uma narração que Maria faz do massacre dos meninos pelo rei Herodes.
5. O Evangelho dos egípcios (século II) é um ensino ascético contra o casamento, contra a carne e contra o vinho.
6. O Evangelho arábico da infância (?) registra os milagres que Jesus teria praticado na infância, no Egito, e a visita dos magos de Zoroastro.
7. O Evangelho de Nicodemos (séculos II ou V) contém os Atos de Pilatos e a Descida de Jesus.
8. O Evangelho do carpinteiro José (século IV) é o escrito de uma seita monofisista que glorificava a José.
9. A História do carpinteiro José (século V) é a versão monofisista da vida de José.
10. O passamento de Maria (século IV) relata a assunção corporal de Maria e mostra os estágios progressivos da adoração de Maria.
11. O Evangelho da natividade de Maria (século VI) promove a adoração de Maria e forma a base da Lenda de ouro, livro popular do século XIII sobre a vida dos santos.
12. O Evangelho de um Pseudo-Mateus (século V) contém uma narrativa sobre a visita que Jesus fez ao Egito e sobre alguns dos milagres do final de sua infância.
13-21.Evangelho dos doze, de Barnabé, de Bartolomeu, dos hebreus (v. “Apócrifos”), de Marcião, de André, de Matias, de Pedro, de Filipe.

Atos
1. Os Atos de Pedro (século II) contêm a lenda segundo a qual Pedro teria sido crucificado de cabeça para baixo.
2. Os Atos de João (século II) mostram a influência dos ensinos gnósticos e docéticos.
3. Os Atos de André (?) são uma história gnóstica da prisão e da morte de André.
4. Os Atos de Tomé (?) apresentam a missão e o martírio de Tomé na Índia.
5. Os Atos de Paulo apresentam um Paulo de pequena estatura, de nariz grande, de pernas arqueadas e calvo.
6-8. Atos de Matias, de Filipe, de Tadeu.

Epístolas
1. A Carta atribuída a nosso Senhor é um suposto registro da resposta dada por Jesus ao pedido de cura de alguém, apresentado pelo rei da Mesopotâmia. Diz o texto que o Senhor enviaria alguém depois de sua ressurreição.
2. A Carta perdida aos coríntios (séculos II, III) é falsificação baseada em 1Coríntios 5.9, que se encontrou numa Bíblia armênia do século V
3. Às (Seis) Cartas de Paulo a Sêneca (século IV) é falsificação que recomenda o cristianismo para os discípulos de Sêneca.
4. A Carta de Paulo aos laodicenses é falsificação baseada em Colossenses 4.16. (Também relacionamos essa carta sob o título “Apócrifos”).

Apocalipses
1. Apocalipse de Pedro (também relacionado em “Apócrifos”).
2. Apocalipse de Paulo.
3. Apocalipse de Tomé.
4. Apocalipse de Estêvão.
5. Segundo apocalipse de Tiago.
6. Apocalipse de Messos.
7. Apocalipse de Dositeu.

Os três últimos são obras coptas do século III de cunho gnóstico, descobertas em 1946, em Nag-Hammadi, no Egito.

Outras Obras
1. Livro secreto de João
2. Tradições de Matias
3. Diálogo do Salvador

Visto que a rejeição a estes livros foi unânime, e em razão das heresias e erros grosseiros apresentados são adequadamente chamados de pseudepígrafos. Seja qual for a verdade contida nestes livros, perdeu-se em virtude das fantasias apresentadas e tendências heréticas. Não acrescentam nem mesmo valor devocional, a não ser histórico, pois revelam a crença de seus autores.

Os livros questionados por alguns – Antilegomena

Houve sete livros cuja autenticidade foi questionada por alguns dos pais da Igreja, e por isso, ainda não tinham tido reconhecimento até volta do século IV. Estes livros foram: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. O fato destes livros não terem sido universalmente reconhecidos não significa que não houvesse aceitação dos mesmos por parte da Igreja. O fato também de que houve algum questionamento sobre estes livros não quer dizer que sua canonicidade esteja diminuída, de forma alguma! O problema principal do questionamento de alguns livros se referia muito mais à dificuldade de comunicação entre as comunidades cristãs do Oriente e Ocidente. A partir do momento que todos os fatos envolvidos no reconhecimento destes livros ficaram evidentes para ambas as comunidades, o total dos 27 livros foi imediatamente reconhecida como tendo autoridade divina.

O número dos antilegomena

Vamos examinar cada um dos livros que sofreram algum tipo de objeção com relação ao reconhecimento de sua autoridade divina.

Hebreus – A principal questão envolvendo o não reconhecimento deste livro por parte da Igreja do Oriente foi o autor não se identificar. O autor também não toma para si a qualidade de apóstolo(Hb. 2:3). Porém, os cristãos do Oriente não sabiam que os cristãos do Ocidente já haviam reconhecido sua autenticidade. Outro fato que contribuiu para o não reconhecimento foi o fato de alguns grupos heréticos terem usado Hebreus para apoio de algumas de suas heresias. Já no século IV, com a ajuda de Jerônimo e Agostinho, a carta aos Hebreus foi definitivamente incorporada ao cânon do Novo Testamento. O conteúdo do livro é altamente confiável, bem como sua reivindicação de deter autoridade divina (1:1; 13:22)

Tiago – Assim como Hebreus, a veracidade da carta de Tiago foi questionada. Principalmente pelo fato do autor não afirmar ser apóstolo. Porém, os primeiros leitores e aqueles que se seguiram, puderam atestar que este Tiago pertencia ao círculo apostólico, era o irmão de Jesus. Contudo, a Igreja Ocidental não teve acesso a esta informação. Também havia a questão da justificação pela fé e as obras que Tiago cita em sua carta. A princípio pareceu conflitante com os ensinos de Paulo sobre a justificação pela fé somente. Até Martinho Lutero chamou Tiago de “carta de palha”, colocando-a no fim do Novo Testamento. Então, com os esforços de Orígenes, Eusébio (que pessoalmente recomendava a carta), Jerônimo e Agostinho a veracidade desta carta foi reconhecida pela Igreja Ocidental.

Segunda carta de Pedro – Nenhuma outra carta do Novo Testamento gerou tantas dúvidas quanto a segunda epístola de Pedro. As dúvidas surgiram em decorrência da diferença de estilos entre esta e a Primeira carta do apóstolo. Descobertas demonstram que cristãos coptas (Egito) usavam esta carta em épocas bem antigas. Clemente de Roma, e a obra “Pseudo-Barnabé”, dos séculos I e II  citam a segunda carta de Pedro. Há também, evidências internas (doutrinas) de que se trata de uma carta do Apóstolo Pedro. As diferenças de estilos podem ser explicadas, pois em sua primeira carta houve o emprego de um escriba (1 Pe. 5:12) o que não aconteceu em sua segunda epístola.
Segunda e terceira cartas de João – Por causa de sua identificação como “O Presbítero” e sua limitada circulação, não foi amplamente aceita como a sua primeira carta, porém eram mais aceitas do que a segunda carta de Pedro. Policarpo e Irineu haviam aceito como confiável e inspirada. Por causa de semelhança de estilo com a primeira carta, que havia sido amplamente aceita, mostrou-se óbvio que estas duas também vieram do mesmo escritor. João era íntimo dos crentes asiáticos, ao ponto de escrever-lhes sob o título afetuoso de “O presbítero”. este título era usado pelos outros apóstolos(1 Pe. 5:1), enquanto que Apóstolo era usado para especificar seu dom (Ef. 4:11)
Judas – Esta carta também foi posta em dúvida por alguns devido às citações de livros que não se encontram no Cânon do Velho Testamento. Nos versículos 14 e 15 há uma citação do livro de Enoque  e uma possível citação do livro Assunção de Moisés no versículo 9. Porém, os primeiros pais da igreja, Irineu e Clemente de Alexandria haviam recebido esta carta como autorizada. O problema das citações pode ser entendido da mesma forma que Paulo faz menção de poetas não cristãos em Atos 17:28, 1 Cor. 15:33 e Tt 1:12. Não necessariamente há aprovação do que está sendo dito ou então tirou-se um fragmento de verdade dessas obras, e isso, não necessariamente desqualifica ou desautoriza o escrito Apostólico.
Apocalipse – Embora tendo sido aceito pelos primeiros pais da igreja no século I, no início do século IV o mesmo foi questionado devido à doutrina do Milênio, em Apocalipse 20. O debate acerca de Apocalipse foi o que mais durou entre os livros do Novo Testamento. Por volta do século III começaram a surgir ensinos heréticos tomando por base este livro. Dionísio, que era bispo de Alexandria, no século III, se ergueu contra o livro de Apocalipse. Porém, Jerônimo, Agostinho e Atanásio defenderam a autenticidade e confiabilidade de Apocalipse, no século IV. Quando houve o esclarecimento de que o livro estava sendo mal interpretado pelas seitas heréticas, Apocalipse ganhou lugar definitivo no Cânon.
Os livros aceitos por alguns – Apócrifos
Tiveram grande estima entre os pais da igreja primitiva, porém nunca ninguém os considerou canônico.
Epístola do Pseudo-Barnabé (c. 70-79) –  Teve ampla circulação no século I, seu estilo é parecido com o de Hebreus, porém mais alegórico. A antiguidade da carta está confirmada porém sua confiabilidade é extremamente questionável. O autor é um leigo que não reivindica autoridade divina (cap. 1) e obviamente não é o mesmo Barnabé encontrado em Atos.
Epístola aos Coríntios (c. 96) –  Esta carta de Clemente de Roma havia sido lida publicamente em Corinto e outros lugares.  Provavelmente o escritor tenha sido Clemente citado em Filipenses 4:3, porém a carta não reivindica autoridade divina. Emprega narrativa fantasiosa do velho Testamento e o livro apócrifo “Livro da Sabedoria” é citado como Escritura no cap. 27. O tom da carta é evangélico porém a igreja nunca o reconheceu como canônico.
O pastor – Hermas (c. 140) –  Foi o livro não-canônico mais popular da igreja primitiva. Tem grande valor ético e devocional, mas nunca foi reconhecido como inspirado pela igreja.
Didaquê – ou ensino dos doze apóstolos (c. 100-120) – Teve grande importância e prestígio na igreja primitiva. Foi o elo entre  os apóstolos e os pais primitivos, pois tinha muitas referências aos evangelhos e às cartas de Paulo até ao Apocalipse. Porém jamais foi considerado como inspirado divinamente pela igreja primitiva.
Apocalipse de Pedro (c. 150) –  Um dos mais antigos Apocalipses não-canônicos que circulou em larga escala na igreja primitiva. Suas narrações realísticas do mundo espiritual exerceram forte influência na Idade Média. A igreja nunca o reconheceu como canônico.
Carta aos Laodicenses (séc. IV?) –  Obra forjada, conhecida por Jerônimo. Aparece em muitas Bíblias do século VI ao XV. Mostra um punhado de frases de Paulo sem nenhum elo entre si, sem nenhuma linha de raciocínio lógica. Não tem ensino nenhum ensino doutrinário. Jamais obteve reconhecimento canônico.
Epístola de Policarpo aos Filipenses (c. 108) –  Foi discípulo do apóstolo João e mestre de Irineu. Foi o elo entre os apóstolos e os pais da Igreja do início do século II. Não defendeu inspiração divina para sua obra, apenas ensinava o que havia aprendido com os apóstolos. Não há muita originalidade nesta obra, visto que foi tirado dos escritos do Novo Testamento. Embora não seja canônica é uma rica fonte sobre os livros do Novo Testamento, que ele cita como canônicos.
Sete epístolas de Inácio (c. 110) –  Inácio, diz a tradição, foi também discípulo do Apóstolo João. Não reivindicou inspiração divina a seus ensinos. Tem muita familiaridade com os ensinos do Novo Testamento, de modo especial com as cartas de Paulo. Sem dúvida são cartas autênticas, porém não-canônicas.
Podemos resumir dizendo que os escritos do novo Testamento jamais sofreu polêmicas quanto à sua inspiração. O que houve sim, foi a dificuldade de comunicação e distância entre as comunidades do Oriente e Ocidente no sentido de estudarem em conjunto e dar um parecer favorável aos escritos do Novo Testamento, os quais temos até os dias de hoje.

A EXTENSÃO DO CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO

A aceitação dos 24 livros que compõem o cânon hebraico Não resolveu a questão de uma vez por todas. Alguns estudiosos de eras posteriores nem sempre estavam conscientes dos fatos da aceitação original, e destas dúvidas nasceram alguns conceitos técnicos sobre a aceitação dos livros. Veremos quatro classificações que os livros receberam de acordo com sua aceitação ou rejeição.

  • Livros aceitos por todos – Homologoumena
  • Livros rejeitados por todos – Pseudepígrafos
  • Livros questionados por alguns – Antilegomena
  • Livros aceitos por alguns – Apócrifos

Os livros aceitos por todos – Homologoumena

São os livros que nunca foram questionados por nenhum dos grandes rabis. Todos reconheceram ser detentores da inspiração divina. Trinta e quatro dos 39 livros que formam o Velho Testamento são pertencentes a esta classificação. Os cinco excluíveis seriam: Cântico dos cânticos, Eclesiastes, Ester, Ezequiel e Provérbios. Como não foram alvo de sérias contradições, podemos focar nosso estudo aos outros livros.

Os livros rejeitados por todos – Pseudepígrafos

Os documentos tidos como não inspirados que circulavam entre a comunidade hebraica no Velho Testamento são conhecidos como pseudepígrafos. Nem tudo o que está escrito nestes livros são mentiras, porém alguns conceitos apresentados chegam a ser heréticos, pois apresentam algumas palavras com suposta autoridade divina, isso num contexto de fantasia religiosa. O Novo Testamento chega a mencionar algumas coisas destes livros. Em Jd. 14-15 está a citação de um trecho do livro de Enoque e Paulo cita a penitência de Jambres e Janes (2 Tm. 3:8). Devemos notar que o Novo Testamento cita os fatos verdadeiros deste livros, sem contudo atribuir-lhes autoridade divina. Afinal, a verdade é sempre verdade, mesmo quando dita por um : profeta pagão (Nm. 24:17), animal irracional mudo (Nm. 22:28) ou mesmo um demônio (At. 16:17)

l A natureza dos pseudepígrafos

Contém os extremos da fantasia religiosa judaica no período compreendido entre 200 a.C. e 200 d.C. Alguns são inofensivos, assim como o Salmo 151, porém outros contém erros históricos e heresias. Analisando-se superficialmente, estes livros são tomados por religiosos. Porém a não fundamentada autoridade divina e os ensinos questionáveis e heréticos algumas vezes, levaram os pais do judaísmo a considerá-los não inspirados. Abaixo segue uma pequena lista dos principais livros desta classificação (existem muito outros ainda):

Lendários
  • O livro do Jubileu
  • Epístola de Aristéias
  • O livro de Adão e Eva
  • O martírio de Isaías
Apocalípticos
  • 1 Enoque
  • Testamento dos doze patriarcas
  • O oráculo sibilino
  • Assunção de Moisés
  • 2 Enoque – ou – O livro dos segredos de Enoque
  • 2 Baruque – ou – O apocalipse siríaco de Baruque
  • 3 Baruque – ou – O apocalipse grego de Baruque
Didáticos
  • 3 Macabeus
  • 4 Macabeus
  • Pirque Abote
  • A história de Aicar
Poéticos
  • Salmos de Salomão
  • Salmo 151
Históricos
  • Fragmentos de uma obra de Sadoque

Os livros questionados por alguns – Antilegomena

A natureza dos antilegomena

Vimos na aula anterior como os 39 livros do Velho Testamento foram, de início, aceitos e reconhecidos como tendo autoridade divina pelo povo de Deus. Durante os séculos seguintes houve uma nova posição entre o povo judeu e alguns rabis resolveram pôr à prova alguns dos livros que anteriormente haviam tido sua autoridade reconhecida. Então, em vista deste livros uma vez na história tendo seu reconhecimento divino posto em dúvida, estes escritos recebem o nome de Antilegomena.

O número dos Antilegomena

Cântico dos cânticos, Ester, Provérbios, Eclesiastes e Ezequiel tiveram sua autoridade divina contestada em um ou outro tempo. Porém, no final, prevaleceu a canonicidade destes 5 livros.

è Cânticos dos cânticos – Alguns estudiosos da escola de Shammai (rabi Judeu) consideraram este livro sensual demais. Mas, para acabar com a controvérsia em torno deste livro e defender a canonicidade dele o rabi Akiva escreveu o seguinte:

“” Livre-nos Deus! Ninguém jamais em Israel criou controvérsia acerca do Cântico dos Cânticos, alegando não tornar imundas as mãos [i.e., não ser canônico];  todas as eras somadas não equivalem ao dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel. Todos os Escritos são santos, mas o Cântico dos Cânticos é o Santo dos Santos. “”

Quaisquer que tenham sido as dúvidas em relação à canonicidade deste livro, foram mal interpretadas. A pureza sexual, no casamento, foi exaltada por Deus neste livro. Deus deu o sexo aos seres humanos, para seu prazer, desde que realizado dentro dos parâmetros bíblicos. Cânticos dos cânticos nos dá este parâmetro.

  • Eclesiastes – Sua autoridade divina foi questionada por ser demasiadamente cético. Porém assim como com Cântico dos cânticos foi dada uma interpretação errônea de seus textos. Não tem nada a ver com sua autoridade divina. Cada uma destas observações aparentemente céticas tem como objetivo mostrar  que todas essas coisas, longe de Deus, são como correr atrás do vento. Basta ver a conclusão do livro: Ec. 12:13
  • Ester – Em virtude do não aparecimento do nome de Deus neste livro, sua canonicidade foi questionada. Porém podemos perceber que, durante o desenrolar da história, a mão de Deus esteve sempre presente, guardando e protegendo seu povo, no dia a dia, em cada detalhe. Outros estudiosos ainda dizem que a omissão do nome de Deus foi proposital, para impedir o plágio de outras nações, dando crédito a outros deuses.
  • Ezequiel – Novamente alguns estudiosos da escola de Shammai acharam que o livro de Ezequiel era anti-mosaico(contra a lei de Moisés), especialmente seus dez primeiros capítulos, que tinham uma tendência para o gnosticismo. Porém, se houvesse contradições com a Torá (Lei) o mesmo não poderia ter sido canonizado. Foi então, mais uma vez, uma questão de interpretação, não de inspiração.
  • Provérbios – O fato da dúvida em Provérbios se baseou no capítulo 26, dizendo que devemos responder ao tolo, isso ia contra alguns dos outros provérbios. O que houve, mais uma vez foi o erro de interpretação, pois existem momentos onde devemos responder, e outros momentos onde devemos nos calar.

Os livros aceitos por alguns – Apócrifos

O ponto com maiores divergências no cânon do Antigo Testamento está na aceitação, ou não, dos chamados livros apócrifos. São aceitos pelos católicos romanos e rejeitados pelos protestantes e judeus. Apocrypha em grego quer dizer oculto ou difícil de entender, mas depois tomou o sentido de esotérico. Desde a época da Reforma (séc. XVI) tem sido usado para descrever os escritos não-canônicos do período inter-testamentário.

A questão é: este livros eram ocultos a fim de serem preservados, pois sua mensagem era profunda; ou porque eram de confiabilidade duvidosa.

A natureza e número dos apócrifos do Velho Testamento

Há quinze livros chamados apócrifos, e preenchem a lacuna entre Malaquias e Mateus.

Gênero do livro Versão revista padrão Versão de Douai
Didático

Sabedoria de Salomão (c. 30 a.C.)

Eclesiástico (Siraque) (c. 132 a.C.)

O livros da sabedoria

Eclesiástico

Religioso Tobias (c. 200 a.C.) Tobias
Romance Judite (c. 150 a.C.) Judite
Histórico

1 Esdras (c. 150-100 a.C.)

1 Macabeus (c. 110 a.C.)

2 Macabeus (c. 110-70 a.C.)

3 Esdras*

1 Macabeus

2 Macabeus

Profético

Baruque (c. 150-50 a.C.)

Epístola de Jeremias (c. 300-100 a.C.)

2 Esdras (c. 100 a.C.)

Baruque 1-5

Baruque 6

4 Esdras**

Lendário

Adições a Ester (140-110 a.C.)

Oração de Azarias (Séc. I ou II a.C.)

Suzana (Séc. I ou II a.C.)

Bel e o dragão (c. 100 a.C.)

Oração de Manassés (Séc. I ou II a.C.)

Ester 10:4 – 16:24

Daniel 3:24-90*

Daniel 13**

Daniel 14**

Oração de Manassés*

*Livros não aceitos como canônicos no Concílio de Trento (1546).

** Livros não relacionados no sumário de Douai por estarem juntos com outros livros.

Argumentos a favor da aceitação dos apócrifos

Os protestantes e judeus aceitam que haja algum valor religioso ou histórico, porém não atribuem a estes livros nenhum valor canônico. Os católicos desde o concílio de Trento (1546) tem aceitos estes livros como inspirados por Deus.

Œ Alusões no Novo Testamento – O Novo Testamento registra alguns fatos e pensamentos. Por exemplo, Hebreus fala de mulheres que receberam seus mortos pela ressurreição (Hb. 11:35), e faz referência a 2 Macabeus 7 e 12. Os chamados pseudepígrafos também são citados (Jd. 14-15; 2 Tm 3:8)

 Emprego que o Novo Testamento faz da versão dos Septuagintas – A versão grega da bíblia hebraica chamava-se Septuaginta. Foi realizada em Alexandria. É a versão mais citada pelo Novo testamento e pelos cristãos primitivos. A septuaginta continha os apócrifos.

Ž Os mais antigos manuscritos completos da Bíblia – Os mais antigos manuscritos da Bíblia em grego contém os livros apócrifos inseridos entre os livros do Antigo Testamento.

 A arte cristã primitiva – Alguns dos registros da arte cristã primitiva refletem o uso dos apócrifos. Algumas gravuras feitas nas catacumbas se baseavam na história registrada no período inter testamentário.

 Os primeiros pais da Igreja – Alguns pais da Igreja, especialmente os do Ocidente, usaram os livros apócrifos em seu ensino.

‘ A influência de Agostinho – Ele influenciou os concílios da Igreja em Hipo (c. 393d.C.) e Cartago (c. 397 d.C.), que relacionaram os apócrifos como canônicos. A partir daí a Igreja Ocidental passou a usá-los em seu culto público.

’ O concílio de Trento – Em 1546, o concílio católico do Pós-Reforma, realizado em Trento, proclamou os livros apócrifos como canônicos. Desde então, a Igreja Católica passou a aceitar os apócrifos como detentores de autoridade divina e espiritual.

“ Uso não-católico – As  Bíblias protestantes logo após a Reforma continham os apócrifos. A Igreja Anglicana usa regularmente os apócrifos em seus cultos públicos, e também, as igrejas ortodoxas orientais tem uso comum e freqüente deste livros.

” Pergaminhos do Mar Morto – Os livros apócrifos foram encontrados entre os rolos do Mar Morto. Alguns inclusive escritos em hebraico, o que indica terem sido usados por judeus palestinos antes da época de Jesus.

Argumentos contra a aceitação dos apócrifos

Œ A autoridade do Novo Testamento – O NT jamais cita um livro apócrifo como sendo inspirado. Assim como há algumas menções a outros escritos fora da Bíblia, não quer dizer que a simples menção de trechos destes livros lhe atribuam alguma autoridade divina. O NT cita os limites da extensão do cânon do VT, excluindo os apócrifos (Aula 7).

 A tradução Septuaginta – O verdadeiro lugar do cânon hebraico era  a Palestina, não Alexandria. O centro grego do saber não tinha autoridade para determinar com precisão quais livros pertenciam ao cânon hebraico. O fato da Septuaginta conter os livros apócrifos apenas prova que os judeus alexandrinos traduziram os demais livros religiosos judaicos, do período inter-testamentário, para o grego. Não é sequer um fato comprovado que a LXX do século I contivesse os apócrifos. Os primeiros manuscritos gregos que os incluem datam do século IV d.C.

Ž Bíblia cristã primitiva – Os mais antigos manuscritos gregos datam do séc. IV e seguem a tradição da LXX, ou seja, contém os apócrifos.  Porém, devemos ressaltar que era simplesmente uma tradução e não o cânon hebraico. O NT faz menções à LXX, porém não vemos uma única referência aos livros apócrifos. Isto apenas mostra que este slivros eram aceitos apenas por alguns cristãos e não por toda comunidade cristã da época.

 A arte cristã primitiva – Isto nunca foi, e nem será base para reconhecermos a canonicidade de algum livro.

 Os primeiros pais da Igreja – Os pais da Igreja, anteriores a Agostinho, nunca aceitaram a canonicidade destes livros.

‘ O cânon de Agostinho – Agostinho não era isento de erros. Primeiramente, Agostinho supõe que os apócrifos tenham deutorocanonicidade (segundo cânon) e não canonicidade absoluta (Cidade de Deus 18,36). Além disso, os concílios de Hipo e de Cartago foram influenciados por Agostinho e nenhum especialista hebreu esteve presente nestes concílios. Jerônimo, que era o mais qualificado especialista hebreu rejeitou fortemente os apócrifos e chegou a recusar-se a traduzir estes para a linguagem latina (Vulgata). Só traduziu os apócrifos para o latim por pressão do Bispo de Roma. Só depois de sua morte é que os apócrifos foram incluídos na tradução Vulgata Latina.

’ O concílio de Trento – Foi um concílio realizado (1545-1563) para contra-atacar a Reforma Protestante que aconteceu em 1517. Uma das medidas para combater Lutero e os reformadores foi canonizar os livros apócrifos, já que Lutero os havia rejeitado.

“ Uso não-católico – O uso dos livros apócrifos entre as igrejas protestantes e anglicanas foi desigual. Ainda que igreja não católicas façam uso dos livros apócrifos, nunca foram atribuídos aos mesmos qualquer autoridade divina.

” Pergaminhos do Mar Morto – Foram achados além dos livros, comentários e manuais e em nenhum deste comentários e manuais se atribui valor canônico aos livros apócrifos. Podemos então presumir que a comunidade da época não considerava os livros apócrifos como canônicos.

Faça o download deste post em PDF aqui.

%d blogueiros gostam disto: