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Posts Tagged ‘interpretação bíblica’

Levítico – A parte legal da Bíblia

As dificuldades para entender o livro de Levítico

Se há um livro nas Escrituras que definitivamente não é um campeão de biblheteria é Levítico. À exceção de pouquíssimos manuais acadêmicos perdidos nos sebos, há pouco material disponível na internet.

Este post é uma tentativa de resgatar sua utilidade para os dias de hoje.

Existem pelo menos 5 mitos que impedem os cristãos, de forma geral, de estudarem as leis do povo hebreu:

  • Mito ritualista – as leis são ritos sem sentido que foram abolidos pela cruz.
  • Mito histórico – as leis foram dadas em um contexto de uma cultura tão antiga e distante que apenas os museus podem estar interessados
  • Mito ético – as leis não refletem o padrão ético do Novo Testamento
  • Mito literário – as leis são escritas sob uma forma obsoleta, que se torna incompreensível nos dias de hoje.
  • Mito teológico – as leis refletem um deus de ira e julgamento, então a sensibilidade do mundo moderno não consegue atinar com um deus assim.

Ora, mas se a lei ainda é válida para nós hoje, como justificar o sacrifício de animais? Seríamos, no mínimo, presos por crueldade com animais. Além disso, Jesus disse que nenhum til da lei passaria até que tudo se cumprisse.

Diretrizes iniciais para a compreensão de Levítico

Nossa compreensão acerca da lei começa mudar quando inciamos o estudo pela origem da palavra em hebraico: tôrâh, que originariamente significa direção, orientação ou instrução.

A tradução do termo tôrâh na Septuaginta (tradução do AT em grego) para nomos – lei – desvirtuou este significado. A partir daí houve uma compreensão da direção e orientação de Javé, para uma condição legal.

Abaixo estão discriminadas seis diretrizes iniciais para a compreensão do relacionamento entre o cristão e a lei do AT.

A lei do AT é uma aliança – A aliança no AT é baseada em um contrato chamado suserano-vassalo. Este contrato, ou aliança, previa a proteção pelo suserano (um chefe poderoso) e a lealdade do vassalo, mais fraco e dependente. O suserano protegia o vassalo, e o vassalo prometia obediência e lealdade absoluta ao senhor. Esta lealdade era demonstrada seguindo as regras ou orientações estipuladas pelo senhor. A lei de Javé para o povo hebreu seguia este modelo conhecido no mundo antigo.

O AT não é nosso testamento – Não estamos mais obrigados a guardar a forma da antiga aliança, a não ser que sejam explicitamente renovadas pela nova aliança. A lealdade ainda nos é requerida, porém sob outra forma.

Algumas estipulações da antiga aliança não foram renovadas – Duas categorias principais de leis que não se aplicam aos cristãos são: 1) as leis civis israelitas e 2) as leis rituais israelitas. Tais leis aplicavam-se somente aos cidadãos antigos de Israel. Porém devemos tomar cuidado aqui, pois embora as formas não se aplicam mais à igreja, ainda podemos extrair as normas para nossa vida.

Parte da antiga aliança é renovada na nova aliança – O aspecto ético da lei do AT ainda se aplica aos cristãos de hoje. Basta lembrar que Jesus resumiu a lei em duas condições básicas, das quais dependem toda a lei e os profetas.

Toda a lei ainda é Palavra de Deus para nós mesmo que não continue tendo uma forma aplicável para nós hoje – A bíblia contém muitos mandamentos que Deus quer que saibamos, mas que não são necessariamente dirigidos para nós. Um exemplo no NT é o mandamento de Jesus em Mateus 11:4, onde ele manda anunciar a João o que estava acontecendo. Este mandamento não é para nós hoje, embora o fosse para os ouvintes originais.

Somente aquilo que foi explicitamente renovado no NT pode servir de lei para os cristãos hoje – Os 10 mandamentos são o exemplo clássico desta abordagem, pois estes são mencionados de diversas maneiras no NT.

Não perca os próximos posts, onde estudaremos alguns aspectos teológicos e como isso influencia nossa vida.

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Exemplo de interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Considerando o post anterior, sobre a interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica, vamos ver, na prática, como este simbolismo e linguagem cósmica pode ser usado para nosso ensino e edificação nos dias atuais.

Vamos determinar como o símbolo “cavalo” é usado em Zacarias 1:7-11 e em Apocalipse 6:1-8.

Primeiramente vamos fazer uma descrição do contexto histórico destas passagens.

Zacarias

Junto com Ageu foi um dos profetas pós-exílicos. Viveu no período do rei persa Dario I. Apesar da volta de uma parte do povo judeu da Babilônia, ainda não havia uma constatação da renovação da aliança que Javé havia prometido a Jerusalém.

Por isso, o profeta, na introdução do seu livro, desafia o povo a voltar-se para Javé e arrependenrem-se dos seus pecados.

A partir do verso 7, na visão dos cavalos, a patrulha divina constata que o mundo está em paz debaixo da mão de ferro do império persa, e Dario estava favorável aos judeus.

Javé ainda estava no controle e ainda cuidava de Jerusalém com zelo e garantiria a reconstrução da cidade e do templo.

Apocalipse

O escritor do apocalipse, o apóstolo João, foi o último dos discípulos a morrer. A data que os eespecialistas colocam para o livro é de 95 d.C.

Nesta época reinava o imperador Domiciano. A primeira fase da perseguição imperial aos cristãos passara; surgia agora o segundo período das perseguições imperiais. A história dá seu testemunho de que outras perseguições estavam por vir.

O Apocalipse foi escrito para encorajar os cristãos a permanecerem firmes em sua fé, pois, no final, Deus seria o vencedor supremo.

No trecho em questão o juízo de Deus tem seu início. No julgamento, representado pela abertura dos selos, seu conteúdo está muito relacionado à guerra e seus efeitos. O aparecimento do líder conquistador, representado pelo primeiro cavalo; uma guerra, representado pelo segundo cavalo; fome, terceiro cavalo e morte, quarto cavalo; estes dois últimos resultados naturais da guerra.

Aplicação

Na leitura destes dois trechos, um do Antigo Testamento, outro do Novo Testamento, observamos pelos contextos históricos que Deus é o Senhor da história.

Suas promessas, embora tenhamos a impressão de demora, sempre se cumprem. Deus ama seu povo, e, por isso, o corrige assim como um pai faz com os filhos. Porém, sempre após sua correção Deus restaura e renova sua aliança com seu povo.

Nos dois períodos históricos estudados vimos a repreensão, o cuidado e a restauração da terra por Deus, que é soberano e Senhor da história.

A interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Uma das características da literatura apocalíptica é o uso de símbolos para expressar uma realidade, atual ou futura. As narrativas cósmicas apresentadas confudem o leitor entre o que é literal e simbólico.

Um dos fundamentos que devemos ter em mente quando lemos algum material deste gênero é que as visões conduzem os leitores a uma realidade transcendente, que é superior à situação presente e encoraja os leitores a perseverarem em meio às provações.

Outras características da literatura apocalíptica

Apesar das dificuldades que este gênero tem, podemos listar alguns aspectos que aparecem com frequência na maioria das obras.

1 – O pessimismo quanto à era presente – É a caracter;istica dominante nesta literatura. A situação era tão desesperadora que tudo que um cristão, filho de Deus, podia fazer era esperar a futura intervenção divina.

2 – A promessa de salvação ou restauração –  É outro lado da mesma moeda. O tema da restauração é predominante, por exemplo, em Aocalipse e Daniel.

3 – Visão da realidade transcendente centrada na presença e controle de Deus – A ênfase não está não está na desesperança do presente, mas na esperança do futuro. Deus ainda reina sobre o história, e ele lhe dará um fim no devido tempo.

4- Determinismo – Deus controle completamente toda a história, e prevalece uma perspectiva muito forte de predestinação, na medida em que Deus já tem definido o curso futuro deste mundo.

5 – Dualismo modificado – Não se trata de um dualismo absoluto, pois os lados adversários não são iguais. Satanás não é uma espécie de “deus do mal”, mas atua de acordo com a permissão de Deus, debaixo do seu propósito. Esta era é caracterizada pela oposição entre Deus e Satanás, e a próxima era será marcada pela vitória completa de Deus.

6 – A recriação do cosmos – Este aspecto é refletido em várias obras do gênero apocalíptico, às vezes com a destruição do mundo existente. Céu e terra, antes separados, agora juntam-se em uma nova unidade, satisfazendo o “gemido da criação”.

7 – Perspectiva escatológica – A literatura apocalíptica não apenas rejeita a história humana como ainda a vê concluída e transformada. Deus é soberano sobre o presente eo sobre o futuro.

Outra característica importante é o fato de que os símbolos nem sempre significam a mesma coisa. Por isso, o estudo do contexto histórico da época que o texto foi escrito é de suma importância para determinar o que o símbolo queria transmitir. Sabendo o que o símbolo queria transmitir na época podemos fazer uma aplicação mais adequada à nossa realidade nos dias de hoje.

A INTERPRETAÇÃO BÍBLICA

O apóstolo Pedro admite, falando das Escrituras, que entre as do Novo Testamento “há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras [as do Antigo Testamento], para a própria destruição deles”. E para piorar a situação existem aqueles que além de interpretarem para seu próprio uso, levam outros a cair no mesmo erro.

1   Disposições necessárias para o estudo das Escrituras

Para cada tipo de estudo requer-se uma postura diferente. Para a literatura, para a filosofia e para as ciências é necessário uma postura diferente, para que se tenha sucesso. Com a Bíblia não é diferente; é necessário assumir uma postura correta para podermos interpretá-la e estudá-la com proveito.

• espírito respeitoso – Por isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes.  1 Tes. 2:13

espírito dócil – devemos nos submeter à ação do Espírito Santo. Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. 1 Cor. 2:14

amante da verdade – Deixando, pois, toda a malícia, e todo o engano, e fingimentos, e invejas, e todas as murmurações, desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo. 1 Pe. 2:1-2

paciente nos estudos – Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim At. 17:11

prudência – É sabido que, na Bíblia, existem algumas partes mais dificeis de entender do que outras. Devemos ser prudentes em nosso estudo, e partir do mais fácil para o mais dificil. Por exemplo: O Novo Testamento é mais fácil do que o Antigo Testamento. No Novo Testamento, os evangelhos são mais fáceis do que as cartas de Paulo; entre os evangelhos, os 3 primeiros são mais fáceis do que o quarto (João), e por aí vai. Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras. Lc. 24:45. E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada. Tg. 1:5

2 Regra fundamental da interpretação bíblica

O primeiro intérprete da Palavra de Deus foi o diabo. Ele foi o primeiro a distorcer as palavras que Deus havia dito, falseando a verdade.
Ainda hoje existem homens que omitem algumas passagens, falsificam outras e mostram outras de acordo com sua má intenção. Por isso destacamos aqui a regra fundamental para estudo e conpreensão bíblica: “A Bíblia interpreta a Bíblia“.
Sem seguir esta simples regra, os homens têm criado as mais hediondas heresias, a grande maioria delas, diga-se de passagem, apoiadas na Bíblia.

3  Primeira regra

A Bíblia foi escrita, naturalmente, com o sentido de se fazer compreender. O primeiro cuidado deve ser de interpretar suas palavras no sentido usual e comum. Assim, a primeira regra de interpretação da Bíblia é: “O quanto seja possível, tomar as palavras em seu sentido usual e comum“. Quebrando este principio básico, a interpretação bíblica fica a bel prazer de quem quer que seja, e não o sentido que Deus quis atribuir às suas palavras.

Por exemplo, houve quem imaginasse que as ovelhas e os bois que menciona o Salmo 8 eram os crentes, enquanto as aves e os peixes eram os incrédulos, donde se concluía, em conseqüência, que todos os homens, queiram ou não, estão submetidos ao poder de Cristo. Se tivesse sido levado em conta o sentido usual e comum das palavras, não teria caído em semelhante erro.

Porém devemos ter em mente também que nem sempre devemos tomar todo texto “ao pé da letra”. Todo idioma tem seu próprio código de expressão, que se for tomado ao pé da letra, perde seu sentido original. Os escritores sagrados, de maneira geral, sempre se dirigiram ao povo, não a uma classe especial de pessoas, então podemos concluir que a linguagem era popular.

Temos que ter tudo isto em mente para podermos determinar o verdadeiro sentido das palavras e frases.

Exemplos:

• Em Gênesis 6:12, lemos: “Porque toda carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra” (versão revista e corrigida). Tomando aqui as palavras carne e caminho em sentido literal, o texto perde o significado por completo. Porém tomando em seu sentido comum, usando-se como figuras, isto é, carne em sentido de pessoa e caminho no sentido de costumes, modo de proceder ou religião, já não só tem significado, mas um significado terminante, dizendo-nos que toda pessoa havia corrompido seus costumes; a mesma verdade que nos declara Paulo, sem figura, dizendo; “Não há quem faça o bem” (Rom. 3:12).

• Pergunta Jesus: “Qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende a candeia, varre a casa e a procura diligentemente até encontrá-la?” Neste versículo, tomado ao pé da letra, embora nos apresente uma pergunta interessante, estamos longe de compreender a verdade que encerra. Porém, sabendo que contam uma parábola, cujas partes principais e figuradas requerem interpretação e designam realidades correspondentes às figuras, não vemos aqui já agora uma pergunta interessante, mas uma mulher que representa a Cristo; um trabalho diligente que representa um trabalho semelhante que Cristo está levando a cabo; e uma moeda perdida representa o homem perdido no pecado; tudo isto expondo e ilustrando admiravelmente a mesma verdade que expressa Cristo sem parábola, dizendo: “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido” (Luc. 19:10).

• Profetizando a respeito de Jesus, disse Zacarias (Luc. 1:69) “e nos suscitou plena e poderosa salvação na casa de Davi”. Dificilmente extrairemos daqui alguma coisa clara se tomarmos a palavra casa em sentido literal. Porém, sabendo que, como símbolo e figura, casa ordinariamente significa família ou descendência, já não estamos às escuras: aí se nos diz que Deus levantou uma poderosa salvação entre os descendentes de Davi, como também disse Pedro: “Deus, porém o exaltou (a Cristo) a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados” (Atos 5:31).

• Disse Jesus (Luc. 14:26): “Se alguém vem a mim, e não aborrece a seu pai, e mãe não pode ser meu discípulo”; ora, tomado ao pé da letra, isso constitui uma contradição ao preceito de amar até aos inimigos. Porém, lembrando-nos do hebraísmo, pelo qual se expressam às vezes as comparações e preferências entre duas pessoas ou coisas, com palavras tão enérgicas como amar e aborrecer, já não só desaparece a contradição, mas compreendemos o verdadeiro sentido do texto, sentido que sem hebraísmo Jesus mesmo o expressa, dizendo: “Quem ama seu pai e sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Mat. 10:37).

4 Segunda regra

Na linguagem bíblica, assim como em qualquer outra, existem palavras que mudam seu significado de acordo com a frase à qual pertencem. Disto nasce a segunda regra da hermenêutica: “É necessário tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da frase“. Veremos alguns exemplos de como a mesma palavra pode variar seu significado dependendo da frase.

Exemplos:

•  : A palavra fé, ordinariamente significa confiança; mas também tem outras acepções. Lemos de Paulo, por exemplo: “Agora prega a fé que outrora procurava
destruir” (Gál. 1:23). Do conjunto desta frase vimos claramente que a fé, aqui, significa crença, ou seja, a doutrina do Evangelho. “Mas aquele que tem dúvidas, é condenado, se comer, porque o que faz não provem de fé; e tudo o que não provam de fé é pecado” (Rom. 14:23). Pelo conjunto do versículo, e tudo
considerado, verificamos que a palavra aqui ocorre no sentido de convicção; convicção do dever cristão para com os irmãos.

Salvação, Salvar: Estas palavras são usadas freqüentemente no sentido de salvação do pecado com suas conseqüências; têm, porém, outros significados. Lemos, por exemplo, que “Moisés cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus os queria salvar, por intermédio dele” (Atos 7:25). Guiados pelo conjunto do versículo, compreendemos que aqui ocorre a palavra salvar no sentido de liberdade temporal.
“A nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos” (Rom. 13:11). Salvação aqui equivale à vinda de Cristo.
“Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Heb. 2:3). Considerando o conjunto, salvação aqui quer dizer toda a revelação do Evangelho.

Graça: O significado comum da palavra graça é favor; porém se usa também em outros sentidos. Lemos, por exemplo: “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus”, etc. (Ef. 2:8). Pelo conjunto deste versículo se vê claramente que graça significa a pura misericórdia e bondade de Deus manifestadas aos crentes sem mérito nenhum da parte deles.
“Falando ousadamente no Senhor, o qual confirmava a palavra da sua graça” (Atos 14:3) significando, a pregação do Evangelho.
“Esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo” (1 Ped. 1:13). O conjunto nos diz aqui que a graça equivale à bem-aventurança que trará em sua vinda.
“A graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tito 2:11). A graça aqui se usa no sentido do ensino do Evangelho.
“O que vale é estar o coração confirmado com graça, e não com alimentos” (Heb. 13:9). Considerando todo o conjunto, graça, neste texto, equivale às doutrinas do Evangelho, em oposição às que tratam de alimentos relacionados com as práticas judaicas.

Carne: “E vos darei coração de carne” (Ez. 36:26), isto é, uma disposição terna e dócil. “Andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne” (Ef. 2:3), significa, nossos desejos sensuais.
“Aquele que foi manifestado na carne” (1 Tim. 3:16), a saber em forma humana.
“Tendo começado no Espírito, estejais agora vos aperfeiçoando na carne?” (Gil. 3:3), quer dizer, por observar cerimônias judaicas, como a circuncisão, que se faz na carne.

Sangue: Falando de crucificar a Cristo, disseram os judeus: “Caia sobre nós o seu sangue, e sobre nossos filhos!” (Mat. 27:25). Guiados por nossa regra vimos que sangue, aqui, ocorre no sentido de culpa e suas conseqüências, por matar um inocente.
“Temos a redenção, pelo seu sangue” (Ef. 1:7); “Sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira” (Rom. 5:9). O conjunto das frases torna evidente que a palavra sangue equivale à morte expiatória de Cristo na cruz.

Esta regra tem importância fundamental para se determinar se uma palavra deve ser tomada em sentido figurado ou literal.

Exemplos:
•”Tomou Jesus um pão, e abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo” (Mat. 26:26). Guiados pelo conjunto deste
versículo, torna-se evidente que a palavra corpo aqui não se usa no sentido literal, mas figurado; porquanto Jesus partiu pão e não seu próprio corpo, e porquanto ele mesmo, santo e inteiro, lhes deu o pão, e não parte de sua carne. Usa, pois, Jesus, a palavra em sentido simbólico, dando-lhes a compreender que o pão representa seu corpo.

• Diz Cristo a Pedro: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus” (Mat. 16:19). Pelo conjunto desta frase vemos claramente que chaves não se usa no sentido literal ou material, posto que o reino dos céus não é um lugar terreno onde se penetra mediante chaves materiais. Deve-se, pois, tomar em sentido figurado, simbolizando as chaves, autoridade; que em outra ocasião também deu aos demais discípulos (Jo. 20:23; veja Mat. 18:18).

5 Terceira regra

A terceira diz: “É necessário tomar as palavras no sentido indicado no contexto, ou seja, os versículos que precedem e sucedem ao texto que se estuda“.

Às vezes sucede que não basta o conjunto de uma frase para determinar qual é o verdadeiro significado de certas palavras. Portanto, e em tal caso, devemos começar mais acima a leitura e continuá-la até mais abaixo, para levar em conta o que precede  e a que sucede à expressão obscura e, procedendo assim, encontrar-se clareza no contexto por diferentes circunstâncias.

Exemplos:

•No contexto achamos expressões, versículos ou exemplos que nos esclarecem e definem o significado da palavra obscura.

Ao dizer Paulo: “quando lerdes, podeis compreender o meu discernimento no mistério de Cristo” (Ef. 3:4), ficamos um tanto indecisos com respeito ao verdadeiro significado da palavra mistério. Porém, pelos versículos anteriores e posteriores, verificamos que a palavra mistério se aplica aqui à participação dos gentios nos benefícios do Evangelho.

Encontra-se a mesma palavra em sentido diferente em outras passagens, sendo necessário, em cada caso, o contexto para determinar o significado exato. “Quando éramos menores, estávamos servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo” (Gál. 4:3, 9-11). Que são os rudimentos do mundo? O que vem depois da palavra nos explica que são práticas de costumes judaicos. Este vocábulo também é usado noutro sentido, determinando o contexto sua correta  interpretação.

•Às vezes encontra-se uma palavra obscura explicada no contexto por sinônimo ou ainda por palavra oposta e contrária à obscura.

Assim que, por exemplo, a palavra “aliança” (Gál. 3:17), se explica pelo vocábulo promessa que aparece no final do mesmo versículo. Assim também acham sua explicação as palavras difíceis, “radicados e edificados” pela expressão “confirmados na fé” que vem logo em seguida a elas (Col. 2:7).

“O salário do pecado é a morte”, diz o apóstolo Paulo. O sentido profundo desta expressão faz ressaltar de uma maneira viva a expressão oposta que a segue: “mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna” (Rom. 6:23).

•Às vezes, uma palavra que expressa uma idéia geral e absoluta, deve ser tomada num sentido restritivo, segundo determine alguma circunstância especial do contexto.

Quando Davi por exemplo, exclama: “Julga-me, Senhor, segundo a minha retidão, e segundo a integridade que há em mim”, o contexto nos faz compreender que Davi só proclama sua retidão e integridade em oposição às calúnias que Cuxe, o benjamita, levantara contra ele (Sal. 7:8).

Falando Jesus do cego de nascimento, disse: “Nem ele pecou, nem seus pais”, com o que de nenhum modo afirma Jesus que não houvessem pecado; pois existe no contexto uma circunstância que limita o sentido da frase a que não haviam pecado para que sofresse de cegueira como conseqüência, segundo erroneamente pensavam os discípulos. (Jo. 9:3).

•Por último, não se esqueça que, às vezes, tão-somente pelo contexto se pode determinar se uma expressão deve ser tomada ao pé da letra ou em sentido figurado.

Chamando Jesus ao vinho sangue da aliança, compreendemos pelo contexto que a palavra sangue deve ser tomada em sentido figurado, desde o momento que Jesus, no dito contexto, volta a chamar ao vinho de fruto da videira.

Havendo dito Jesus: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna” e “minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira
bebida”, etc., os discípulos ficaram assombrados e começaram a murmurar; dessa circunstância devemos esperar no contexto alguma explicação, se devemos tomar em sentido material ou espiritual estas declarações. Efetivamente lemos: “O espírito (o sentido espiritual das palavras ditas) é o que vivifica; a carne (o sentido carnal) para nada aproveita.” Comer a carne e beber o sangue equivale, pois, a apropriar-se pela fé do sacrifício de Cristo na cruz, do que, como se sabe, resulta a vida eterna do crente. (Jo. 6:48-63.)

A expressão: “Será salvo, todavia, como que através do fogo”, explica-se a si mesma pelo contexto, o qual nos ensina que não se trata de salvar uma alma qualquer, mas a servos de Deus, e que não é fogo que se atiça em suas pessoas, mas em sua construção de material, como feno e palha; além disso, que não é um fogo purificador, mas destruidor, o fogo do rigoroso no dia da manifestação de Cristo; estes “cooperadores de Deus” serão salvos, no sentido de um construtor que, na catástrofe do incêndio do edifício que está levantando, pode escapar, sim, porém perdendo tudo, exceto a vida. O que significa a mesma expressão, dizendo: “será salvo”, não mediante a permanência no fogo, mas “como que através do fogo”. Só os cegos ao contexto podem sonhar com o purgatório nesta passagem. (1 Cor. 3:5-15.)

6 Quarta regra

A quarta regra de interpretação diz: “É preciso tomar em consideração o objetivo ou desígnio do livro ou passagem em que ocorrem as palavras ou expressões obscuras“.

É evidente que as cartas aos Gálatas e aos Colossenses foram escritas na ocasião dos erros que, os judaizantes ou “falsos mestres” procuravam implantar nas igrejas apostólicas. Então, estas cartas têm por objetivo expor com toda clareza a salvação pela morte expiatória de Cristo, contrariamente aos ensinos dos judaizantes, que pregavam as obras, a observância de dias e cerimônias judaicas, a disciplina do corpo e a falsa filosofia.

Vejamos como, tendo em consideração o objetivo, desaparecem as aparentes contradições. Quando Paulo disse que o homem é justificado (declarado sem culpa) pela fé sem as obras, enquanto Tiago afirma que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé, desaparece a aparente contração desde o momento que tomemos em conta o objetivo diferente que levam as cartas de um e de outro. (Rom. 3:28 e Tiago 2:24). Paulo combate e refuta o erro dos que confiavam nas obras da lei mosaica como meio da justificação, negando a fé em Cristo; Tiago combate o erro de alguns desordenados que se contentavam com uma fé imaginária, descuidando e não realizando as boas obras. Daí que Paulo trata da justificação pessoal diante de Deus, enquanto Tiago se ocupa da justificação pelas obras diante dos homens. O ser justificado (declarado sem culpa) o homem criminoso à vista de Deus, realiza-se tão-somente pela fé no sacrifício de Cristo pelo pecado e sem as obras da lei; porém o ser justificado (declarado sem culpa) à vista do mundo, ou da igreja, realiza-se mediante obras palpáveis e “não somente pela fé” que é invisível. “Mostra-me a tua fé pelas tuas obras”, tal é o tom e a exigência da carta de Tiago; tal a exigência, também, das cartas de Paulo. Vemos, pois, que as pessoas são justificadas diante de Deus mediante a fé, porém, nossa fé é justificada diante dos homens mediante as obras. Daí compreendermos que concordam perfeitamente as doutrinas dos apóstolos.

Lemos em 1 João 3:9: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado… esse não pode viver pecando.” Quererá o apóstolo aqui dizer que o cristão é
absolutamente incapaz de cometer uma falta? Não, porque o próprio objetivo de sua carta é o de prevenir para que não pequem, com o que está admitida a possibilidade de poder cair em falta. Como, pois, compreender que os nascidos de Deus não podem pecar? Neste caso também nos apresenta luz a consideração detida do desígnio da carta. Pelas Escrituras vemos que nos fins do século apostólico existiam certos pretensos cristãos enganados que criam poder praticar toda sorte de excessos carnais, sem respeitar lei alguma. Um dos desígnios da carta é, evidentemente, prevenir os filhos de Deus contra esse mau tipo de crenças. Diz João que, contrariamente a esses “filhos do diabo” que por natureza cometem pecado, os “filhos de Deus” não podem viver pecando. Cada um se ocupa nas obras do pai: os filhos de Deus se ocupam em manifestar seu amor a Deus, guardando seus mandamentos (5:2); os filhos do diabo se ocupam em imitar a seu pai, que está pecando desde o princípio.

7 Quinta regra

A quinta regra nos diz: “É necessário consultar as passagens paralelas, explicando cousas espirituais pelas espirituais” (1 Cor. 2:13).
Como passagens paralelas entendemos as que fazem referência uma à outra, que tenham entre si alguma relação, ou tratem de um modo ou outro de um mesmo assunto. Esta regra se divide em 3 categorias distintas: paralelos de palavras, paralelo de idéias e paralelos de ensinos gerais.

7.1 Paralelo de Palavras
Quanto a estes paralelos, quando o conjunto da frase ou o contexto não bastam para explicar uma palavra duvidosa, procura-se às vezes adquirir seu verdadeiro significado consultando outros textos em que ela ocorre.

Em Gálatas 6:17, diz Paulo: “Trago no corpo as marcas de Jesus.” O que eram essas marcas? Nem o conjunto da frase, nem o contexto as explicam. Iremos, pois, às passagens paralelas. Em 2 Cor. 4:10, encontramos em primeiro lugar, que Paulo usa a expressão “levando sempre no corpo o morrer de Jesus”, falando da cruel perseguição que continuamente Cristo padecia, o que nos indica que essas marcas se relacionam com a perseguição que sofria. Porém ainda mais luz alcançamos mediante 2 Cor. 11:23, 25, onde o apóstolo afirma que foi açoitado cinco vezes (com golpes de couro) e três vezes com varas; que causavam marcas no corpo que duravam por toda a vida.

7.2 Paralelo de idéias
Para conseguir idéia completa e exata do que ensina a Escritura neste ou naquele texto determinado, talvez obscuro ou discutível, consultam-se não só as palavras paralelas, mas os ensinos, as narrativas e fatos contidos em textos ou passagens esclarecedoras que se relacionem com o texto obscuro ou discutível.

Ao dizer Jesus: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja”, constitui ele a Pedro como fundamento da igreja (Papa), como pretendem os papistas? Note-se primeiro que Cristo não disse: “Sobre ti, Pedro”. Nada melhor que os paralelos que oferecem as palavras de Cristo e Pedro, respectivamente, para determinar este assunto, ou seja, o significado deste texto. Pois bem, em Mateus 21:42,44, vemos Jesus mesmo como a pedra fundamental ou “pedra angular”, profetizada e tipificada no Antigo Testamento. E em conformidade com esta idéia, Pedro mesmo declara que Cristo é a pedra que vive, a principal pedra angular, rejeitada pelos judeus, em Silo, esta pedra foi feita a principal pedra angular, etc. (1 Pedro 2:4, 8). Paulo confirma e aclara a mesma idéia, dizendo aos membros da igreja de Éfeso (2:20) que são “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo Cristo Jesus, a pedra angular, no qual todo edifício, bem ajustado cresce para santuário dedicado ao Senhor”. Deste fundamento da igreja, posto pela pregação de Paulo,”como prudente construtor” entre os coríntios, disse o apóstolo “porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Cor. 3:10, 11).

7.3 Paralelo de ensinos gerais
Para a correta interpretação de determinadas passagens não são suficientes os paralelos de palavras e idéias; é preciso recorrer ao teor geral, ou seja, aos ensinos gerais das Escrituras. Temos indicações deste tipo de paralelos na própria Bíblia, sob as expressões de ensinar conforme as Escrituras, de ser anunciada tal ou qual coisa por boca de todos os profetas, e de usarem os profetas (ou pregadores) seu dom conforme a medida da fé, isto é, segundo a analogia ou regra da doutrina revelada. (1 Cor. 15:3, 14; Atos 3:18; Rom. 12:6.)

Diz a Escritura: “O homem é justificado pela fé sem as obras de lei.” Ora, se desta circunstância alguém tira em conseqüência o ensino de que o homem de fé fica livre das obrigações de viver uma vida santa e de conformidade com os preceitos divinos, comete um erro, ainda quando consulte um texto paralelo. É preciso consultar o teor ou doutrina geral da Escritura que trata do assunto; feito isso, observa-se que essa interpretação é falsa por contrariar por inteiro o espírito ou desígnio do Evangelho, que em todas as partes previnem os crentes contra o pecado, exortando-os à pureza e à santidade.

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