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INTERPRETANDO AS EPÍSTOLAS – PARTE II

Na aula anterior nós procuramos primeiramente o sentido do texto para os leitores daquela época, para os quais foi primariamente escrito. Ou seja, o texto deveria fazer sentido para aquele povo, não poderia haver algum significado fora da realidade daquela época. A este exercício, o de descobrir o significado que o texto tinha, chamamos de exegese.

Nesta lição, vamos aplicar o que chamos de Hermenêutica: a interpretação dos escritos para a nossa realidade.

A primeira dificuldade é que, diferentemente da exegese, que é a investigação dos fatos que se sucederam, a hermenêutica pode ter muitas variantes. Ainda que nem todos pratiquem a exegese, ou seja, não investigam a fundo quais eram as implicações culturais e socio-políticas da época, por outro lado, todos praticam a hermenêutica.

O objetivo desta aula é ver o que há em comum entre todos os crentes com relação à hermenêutica, ou seja, o que cada grupo de crentes têm em comum na interpretação das epístolas. A grande diferença entre os vários grupos de crentes é com relação à cultura: o que deve ser mantido para nós e o que deve ser considerado um costume apenas do povo no século I?

1 A Interpretação comum de todos nós

Mesmo que você não soubesse que este curso chama-se hermenêutica, você a pratica todo o tempo que lê a Bíblia. Afinal, quando lemos a Bíblia trazemos nosso bom senso e aplicamos o texto à nossa realidade, e aquilo que não se aplica a nós nesta época, descartamos.

Vamos ler II Tm. 4:13. Quantos de nós nos sentimos obrigados a obedecer este mandamento? E isto é claramente um mandamento. Na mesma carta no capítulo 2 versículo 3, somos exortados a sofrer como bons soldados de Cristo, mesmo muitas vezes relutando em obedecer este mandamento.

A maioria dos textos do Novo Testamento se encaixam nesta categoria do bom senso. Nossos problemas se encontram nos textos que fogem deste bom senso. Uns acham que devem obedecer exatamente o que está escrito, outros já não têm tanta certeza. Quando interpretamos um texto, trazemos muito de nossa herança teológica e cultural. Isto nos faz “selecionar” certos textos e contornar outros.

A maioria de nós concorda quanto à posição acerca de II Tm. 2:2 e 4:13. Porém, estes mesmos cristãos poderão argumentar contra I Tm. 5:23. Eles dizem esar relacionado somente a Timóteo, e não aos outros cristãos. Ou então, Paulo recomendou vinho pois a água não era muito confiável naquela época, diferente de hoje. Ou ainda que vinho queria dizer, na realidade, suco. Agora, por que esta recomendação de beber vinho é endereçada somente a Timóteo, enquanto que a exortação a permanecer na palavra (II Tm. 3:14-16), que também foi endereçada a Timóteo, serve para todos os cristãos em todos os tempos?

Um outro problema frequente em algumas igrejas é o fato de aplicarem o texto de I Coríntios 11:14 aos homens, quanto ao cabelo comprido; porém não aplicam o texto do versículo 13 às mulheres. Ou antes, as deixam cortar o cabelo até ficarem curto.

Estes dois exemplos ilustram como a cultura influencia no bom-senso em nossa interpretação. Mas a tradiçao eclesiástica também dita o bom-senso que deve ser aplicado em nossa interpretação. Algumas igrejas proibem as mulheres de falarem nos cultos com base em I Coríntios 14:34-35. Porém, todas as outras coisas citadas no capítulo 14 é contra-argumentado como não pertencente ao nosso século, são coisas que eram específicas para a Igreja do século I. Como é que os versículos 34-35 podem pertencer ao nosso tempo, mas os versículos 1-5 ou 26-33 e 39-40, que estão no mesmo contexto, pertencem à igreja do século I?

Alguns cristãos acham apoio nas escrituras para o batismo de crianças em I Coríntios 1:16 ou 7:14.

Para muitos na tradição arminiana, que enfatiza o livre arbítrio do homem com relação à salvação, os textos de Rm. 8:30, 9:18-24, Gl. 1:15 e Ef. 1:4-5 são uma pedra no sapato. Porém, os calvinistas tem suas próprias maneiras de contornar textos como II Pe. 2:20-22 e Hebreus 6:4-6.

Baseados nestes problemas, que tipo de diretrizes e parâmetros nós precisamos a fim de estabelecer uma hermenêutica mais consistente?

2  A Regra Básica

Lembrem-se de que já falamos que um texto não pode significar algo que não faria sentido, tanto para o escritor quanto para o leitor. Esta regra não ajuda a descobrir o significado de um texto, porém nos ajuda, dizendo o que um texto não pode significar.

Vamos pegar I Coríntios 14. A justificativa mais comum para desconsiderar alguns dos dons espirituais é o versículo 13:10.

Na interpretação comum somos informados que o que é perfeito já veio, na forma do Novo Testamento, e portanto, parte destes dons, a profecia e as línguas cessaram de funcionar na igreja. mas isso é uma coisa que o texto não pode significar, pois os leitores desta carta não sabiam naquela época, que haveria de existir um Novo Testamento. E o Espírito Santo não deixaria Paulo escrever uma coisa que soasse incompreensível aos Corintios daquela época.

3  A Segunda Regra

A segunda regra é um modo diferente de expressar nossa hermenêutica comum. Sempre que temos situações de vida comuns, comparáveis aos nossos dias, a plava de Deus para nós é a mesma que era para eles no século I. Ainda é verdade que todos pecamos, que somos salvos pela graça. Revestir-nos de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longaminidade, ainda é a Palavra de Deus para os que são crentes.

Os textos de I Coríntios e Filipenses, estudados na aula 08, parecem ser deste tipo. Fizemos nossa pesquisa e chegamos à conclusão de que ainda temos igrejas locais, cujos líderes devem servir com zelo, escutar a Palavra e cuidar da forma como edificam a igreja. 1 Coríntios ainda é aquilo que Deus nos fala quanto às nossas responsabilidades perante a igreja local. Esta deve ser um local onde se sabe que o Espírito Santo habita, e que portanto, é a alternativa de Deus ao pecado do mundo.

O que mais exige cuidado é a reconstrução do problema deles, naquela época. Devemos ter certeza de que os pormenores são os mesmos. Para nossa hermenêutica, é importante saber que o processo jurídico entre dois irmãos, era iante de um juíz pagão, lá na praça pública. A lição aqui não muda se o processo é relizado dentro de um tribunal fechado. Pois, os versículos 6-11 nos deixa claro que é errado dois irmãos irem à justiça, fora da Igreja. Agora, poderíamos dizer que este versículo não se aplica a um cristão processando uma Empresa, pois neste caso os pormenores mudam. Apesar que a pessoa deveria considerar o apelo de Paulo para assim não o fazerem, seguindo o exemplo de Jesus, conforme nos diz o versículo 7.

Bom, tudo isto parece relativamente simples. Porém qual deve ser o limite de aplicação dos pormenores dos textos bíblicos, em nossa vida hoje?

Vamos verificar, ainda nesta Aula, quatro problemas deste tipo.

4  O Problema da Aplicação Extendida

Se há contextos comparáveis em nossos dias ao século I, é legítimo extender a aplicação a outros contextos, ou fazer o texto aplicar-se a um contexto totalmente diferente do século I?

Por exemplo, argumentamos que I Coríntios 3:16-17 se refere à igreja local, também apresenta o princípio de que aquilo que Deus separou pela habitação de seu Espírito Santo é sagrado, e que quem o destrói está sujeito ao terrível julgamento de Deus. Este mesmo princípio não pode ser aplicado ao crente que abusa do seu próprio corpo? De igual modo, I Coríntios 3:10-15 fala àqueles que edificam a igreja, e avisa sobre o prejuízo que sofrerão os que constroem mal. Já que o texto fala sobre a salvação “como que através do fogo”, podemos usar este texto para ilustrar a segurança do crente?

Veja bem, estas interpretações erradas têm sido feitas a séculos! Paulo, neste contexto está tratando da igreja local, então não podemos aplicar este texto ao crente individualmente. Quanto à segurança do crente, este texto não é o mais forte, o mais recomendado, pois o contexto na época era outro.

Podemos dizer então que a aplicação deve ser limitada à intenção original, quando há situações comparáveis. Então, na aplicação estendida, quando há outras passagens apoiando esta aplicação, podemos tê-la como legítima.

Uma passagem mais dificil é II Coríntios 6:14, que têm sido geralmente interpretado como uma proibição ao casamento entre um cristão e um não-cristão. A metáfora de jugo era raramente usada para casamento, e não há nada no contexto desta passagem que indique que o casamento seja a questão. Provavelmente tinha algo a ver com as festas idólatras. Porém, podemos estender este princípio ao casamento, visto ser um princípio bíblico que pode ser sustentado à parte deste único texto.

5  O Problema das características que não são comparáveis

Nesta categoria há dois tipos de problemas:

1 – Questões do século I que não tem equivalentes no século XXI.
2 – Problemas que poderiam surgir no século XXI, mas que são altamente improváveis.

O que devemos fazer nestes casos?

Um exemplo disso é o texto de I Coríntios 8 – 10, onde Paulo se dirige a três tipos de questão:

1 – Cristãos que argumentam sobre continuar a acompanhar seus vizinhos pagãos nas festas nos templos dos ídolos (8:10)
2 – A dúvida que lançavam sobre a autoridade apostólica de Paulo (9:1-23)
3 – O alimento sacrificado aos ídolos, que depois era vendido no mercado (10:23-11:1)

Fazendo a exegese destas passagens, vemos que Paulo responde da seguinte maneira:

1 – São proibidos de frequentar tais festas e comer alimentos oferidos aos ídolos, por causa da consciência dos mais fracos (8:7-13) e significa tomar parte no que é demoníaco (10:19-22)
2 – Paulo defende seu direito ao apoio financeiro, mas abriu mão deste; além disso defende suas ações (9:19-23)
3 – O alimento que foi sacrificado, vendido no mercado, pode ser comido, inclusive no lar de outra pessoa. Porém, se for causar algum problema de consciência, deve ser recusado.

Pode-se comer qualquer coisa para a glória de Deus, mas não se deve fazer algo que venha a ofender alguém.

O problema aqui é que não existe, em nossa cultura hoje, este tipo de idolatria. Então os problemas 1 e 3 não existem. E quanto ao problema 2, já não temos mais apóstolos no, sentido do Novo Testamento, de pessoas que se encontraram pessoalmente com Jesus ressurreto (9:1).

O outro tipo de problema, os de acontecimento altamente improvável, pode ser ilustrado por:

1 – Pessoas embriagadas na Ceia do Senhor (11:17-22)
2 – Pessoas que querem forçar alguns irmãos a se circuncidar (Gl. 5:2)

Estas coisas poderiam acontecer, mas são altamente improváveis em nossa cultura.

A grande questão é: como a resposta a estes problemas, que afligiam a igreja no século I, podem ser relevantes a nós, tanto tempo depois e em outra cultura?

A hermenêutica deve seguir dois passos:

1 – Devemos fazer nossa exegese com muito cuidado, pois devemos ouvir aquilo que a Palavra de Deus era para eles. E na maioria dos casos um principio foi dado, que geralmente vai além da particularidade histórica à qual estava sendo aplicado.

2 – Este “princípio” não deve ser aplicado a toda e qualquer situação, porém a situações genuinamente comparáveis.

Vamos ilustrar estas considerações.

Paulo proíbe a participação nas festas pagãs com base no princípio da pedra de tropeço.

Porém, isto é algo que simplesmente ofende a um irmão. Isto se aplica ao caso de um irmão, com boa consciência, convence outro irmão a fazer; porém este irmão não consegue fazê-lo com ba consciência. Então este segundo irmão é destruído por imitar a ação do primeiro irmão. Ou seja, não foi simplesmente ofendido.

Outra consideração de Paulo, foi o fato de não participarem de festas pagãs, pois estariam se associando aos demônios. Então podemos dizer que esta é uma proibição aos cristãos de participarem de todo tipo de astrologia, bruxaria, espiritismo, etc.

Embora não tenhamos apóstolos, nem pensamos que nossos pastores estejam na sucessão apostólica, o princípio de que “os que pregam o evangelho, vivam do evangelho” (I Co. 9:14), parace ser aplicável ainda hoje.

O problema de comer carne oferecida aos ídolos apresenta uma dimensão dificil deste princípio. Para Deus, e para Paulo isto, era uma questão indiferente. Porém não era para outras pessoas. Era o mesmo caso da observância de certos dias em Romanos 14 e Colossences 2:16-23.

O problema para nós é como distinguir questões indiferentes de questões importantes. Mesmo porque existem coisas que se diferem entre culturas e entre grupos cristãos. A lista abrange desde estilo de vestimentas, estilos musicais, recreação, ornamentos e até esportes. As pessoas que veem nestas coisas algum valor espiritual, pensam que a abstinência de quaisquer uma destas coisas se constitui em santidade diante de Deus, não apenas mera indiferença.

O que torna alguma coisa uma questão indiferente? Podemos seguir as seguintes sugestões:

1 – Aquilo que a Bíblia diz ser uma questão indiferente, podemos ainda considerá-la indiferente: comida, bebida, guardar determinados dias, etc.

2 – Questões indiferentes não são morais, mas sim culturais, mesmo que seja a cultura religiosa. Questões que endem a se diferir entre uma cultura e outra, mesmo entre grupos de crente genuínos, podem ser consideradas como indiferentes.

3 – As listas de pecados nas Epístolas (Rm. 1:29-30; I Co. 5:11; I Co. 6:9-10; II Tm. 3:2-

4) nunca incluem os equivalentes do século I dos itens que mencionamos acima. Além disso estes equivalentes não estão incluídos nos mandamentos cristãos (Rm 12; Ef. 5; Cl. 3; etc.)

Este é um terreno perigoso, muitas igrejas já foram divididas por questões como estas.

Entretanto, de acordo com Romanos 14, as pessoas dos dois lados não devem julgar umas às outras. A pessoa livre não deve fazer alarde de sua liberdade; a pessoa para quem estas não são questões indiferentes não deve condenar outra pessoa.

6  O Problema da relatividade cultural

Esta é a área com maior dificuldade hoje em dia. A Palavra Eterna de Deus tem sido substituída pelas questões culturais.

Quase todos os cristãos, pelo menos até certo grau, traduzem a Bíblia para novos contextos. E é por causa disto que muitos deixam “um pouco de vinho, por causa do seu estômago” no século I, e também não insistem que as mulheres tenham cabelos compridos e nem cumbram mais a cabeça, e não praticam o “ósculo santo”. Porém, muitos destes mesmos cristãos estremecem quando uma mulher ensina na igreja ou quando um homem deixa seu cabelo comprido.

Alguns ainda têm tentado estabelecer a cultura do século I em nosso século. Mas como estabelecer os parâmetros corretos para nós, baseados na cultura do século I? Como conservar suas filhas em casa, negar-lhes a educação superiror, combinar seu casamento?

É muito dificil ser coerente neste aspecto, exatamente porque não existe uuma cultura mais santa do que outra. As culturas são realmente diferentes, não apenas entre o século I e o século XXI, mas entre as próprias culturas do século XXI.

Então, ao invés de rejeitarmos a cultura, ou partes dela, sugere-se conhecer as culturas, para que o processo de interpretação bíblica ocorra dentro de limites conhecidos.

Como forma de distinguir entre os itens culturalmente relativos e aqueles que são realmente eternos e imutáveis, estabelece-se as seguintes regras (estas regras não são fechadas, devem ser estudas e discutidas):

1 – Devemos distinguir entre o âmago da Bíblia e as questões perféricas. Temos que evitar que o evangelho se transforme numa lei por meio da cultura ou costume religioso.

Assim, desta forma, a obra graciosa de Deus, demonstrada na cruz por meio de Jesus Cristo, sua morte e ressurreição, sua volta gloriosa para nos leval ao lar celestial, são parte deste âmago, parte central da Bíblia, que é independente de cultura.

Agora, o ósculo santo, as cabeças cobertas das mulheres, o comprimento dos cabelos, ministérios e dons carismáticos, parecem ser mais periféricos.

2 – Devemos estar dispostos a diferenciar o que o Novo Testamento vê como essencialmente moral, e aquilo que não é. Os aspectos essencialmente morais são absolutos, e portanto permanecem, independente da cultura. Agora, aquilo que não é essencialmente moral, pode mudar de cultura para cultura, sem necessariamente ser considerado uma doutrina.

As listas de pecados que Paulo faz nunca contém elementos culturais. O adultério, a idolatria, a embriaguez, a atividade homossexual, o furto, a avareza, a fofoca, a mentira, são sempre errados, seja qual for a cultura.

Do outro lado, o ósculo santo, mulheres usando véu, enquanto oram ou profetizam, a preferência de paulo pelo celibato, o ensino pelas mulheres na igreja, não são questões essencialmente morais. Tornam-se pecado somente quando alguma destas questões envolver desobediência ou falta de amor.

3 – Devemos tomar nota dos itens que o Novo Testamento é uniforme. Os seguintes são exemplos de questões onde o Novo Testamento dá testemunho uniforme: o amor como resposta básica do cristão, a política de não-retaliação (dar a outra face), o erro da contenda, do ódio, do assassínio, da embriaguês e imoralidade sexual de todos os tipos.

Por outro lado, o Novo Testamento não parece ser uniforme com relação ao ministério das mulheres na igreja. Veja o caso de Febe, em Rm. 16:1, que servia à igreja de Cencréia. Priscila era uma das cooperadoras de Paulo (Rm. 16:3). O mesmo acontece com os alimentos oferecidos aos ídolos. Compare I Co. 10:23-29 com At. 15:29.

Estas são questões culturais, dependentes de determinado contexto histórico e geográfico, não sendo portanto, uma questão moral.

4 – É importante, dentro do Novo Testamento, saber distinguir entre o princípio e a aplicação específica. Vejamos o caso de I Coríntios 11:2-16. Paulo começa apelando à ordem divina de criação, e estabelece o princípio de que não devemos fazer nada que diminua a glória de Deus quando a comunidade está em adoração (vv. 7-10). A aplicação específica, no entanto, parce ser relativa, já que Paulo faz menção repetidas vezes ao “costume” e à “natureza” (vv. 6, 13-14, 16).

5 – É importante sabermos determinar as opções culturais no mundo neo testamentário. Geralmente, naquela época, havia somente uma única opção cultural, e isso só faz aumentar o grau de relatividade neste aspecto cultural. Por exemplo, notem que nenhum escritor do Novo Testamento faz qualquer menção à escravidão como sendo um mal, e o papel das mulheres era basicamente inferior ao dos homens. Porém, por outro lado, os escritores avançam bastante, em relação à socidade da época, com relação à atitude para com as mulheres, e o homossexualismo era visto como uma prática contrária aos ensinos cristãos. Mas em todo caso, quando refletem as atitudes culturais nestas questões, estão apenas refletindo, geralmente, a única opção cultural da época.

6 – Devemos estar alertas para as grandes mudanças culturais entre o século I e o século XXI. Isso pode mudar a forma como interpretamos a Bíblia. Ainda na questão do ensino pelas mulheres na igreja, devemos levar em conta que havia poucas oportunidades de estudo para as mulheres no século I. E a educação é o primeiro passo para podermos ensinar alguém. Pensando desta maneira, a nossa interpretação de I Timóteo 2:9-15 pode mudar. Outro exemplo é o de Romanos 13:1-7. No século I não havia o governo democrático, com a participação de todos. Nos dias de hoje, espera-se que os maus governantes sejam depostos, e isto muda nosso modo de interpretar Romanos 13 no século XXI.

7  O Problema da Teologia Prática (de Tarefa)

Notamos na aula passada que boa parte da teologia das Epístolas é orientada a tarefas. Porém, uma das tarefas “obrigatórias” do estudante bíblico é apresentar este teologia de modo sistemático, e devemos sempre reconhece que muitas vezes a teologia de determinado escritor está implícita em suas declarações.

Queremos aqui esclarecer alguns pontos enquanto realizamos a tarefa da teologia.

Algumas precauções que devemos tomar, até por causa da natureza ocasional das Epístolas.

1 – Justamente por conta desta natureza ocasional devemos nos contentar com nossas limitações teológicas. Não teremos respostas para todas as perguntas. Por exemplo, em I Coríntios, quando Paulo fala do absurdo que é um irmão levar outro ao tribunal pagão (I Co. 6:2-3), Paulo diz que todos os salvos haverão de julgar o mundo e os anjos. Além disso, o texto não diz mais nada. Podemos com isso apenas crer que os cristãos farão julgamentos no Juízo Final, e apenas isto, o resto é pura especulação.

2 – Às vezes queremos encaixar nossas perguntas a determinados textos, quando na realidade a questão não havia sido ainda levantada. Quando indagamos ao texto que fale à questão do aborto, da eutanásia, células tronco, estamos querendo que respondam às perguntas de um período posterior. Às vez e até possível isso acontecer, porém não o farão frequentemente, simplesmente porque não existiam estas questões no século I. Há um claro exemplo disso no Novo Testamento em I Coríntios 7:10, querendo dizer que o próprio Jesus dera uma explicação à pergunta feita. Agora se o mesmo problema acontecesse na sociedade grega Paulo responde: “eu, não o Senhor” (v. 12). Claro que nós não possuímos a mesma autoridade apostólica de Paulo para questões semelhantes, mas devemos tentar trazer uma cosmovisão bíblica para o problema.

Estas são algumas sugestões para lermos e interpretarmos as Epístolas, porém o estudo sistemático continua, e o uso de dicionários, comentários e chaves bíblicas se fará constantemente necessários.

INTERPRETANDO AS EPÍSTOLAS – PARTE I

A partir desta lição começaremos a estudar os diferentes gêneros de literatura que compoem a Bíblia. Começaremos estudando as Epístolas. A razão para isto é que elas totalizam quase 50 por cento do Novo Testamento. Aparentemente parece ser fácil sua interpretação, afinal que mistério há em se compreender que todos pecaram e estão afastados da glória de Deus (Rm. 3:23)? Ou então qual a dificuldade na interpretação de que o salário do pecado é a morte (Rm. 6:23)? E ainda não temos dificuldade de entender que somos salvos pela graça por meio da fé (Ef. 2:8), não é mesmo?

Bom, para nosso estudo das Epístolas vamos usar como modelo I Coríntios. E em nosso objeto de estudo devemos tomar a opinião de Paulo como sendo Palavra de Deus (7:25)? E no caso da exclusão de um membro? Como isto se aplica hoje em dia quando há tantas igrejas, que basta apenas atravessar a rua (capítulo 5)? E como ficam as mulheres? Devem ou não usar véu nos dias de hoje?

Estes e outros exemplos serão estudados para sabermos como interpretar estes escritos de 2 mil anos que usamos ainda hoje.

1 A natureza das epístolas

Antes de comerçarmos a estudar I Corintios como nosso modelo vamos primeiro analisar a estrutra de uma carta, que contém, em geral, as seis partes seguintes:

1- o nome do escritor (ex. Paulo)
2- o nome do endereçado (ex. à Igreja de Deus em Corinto)
3- a saudação (ex. Graça a vós outros e paz da parte de nosso Deus e Pai…)
4- oração (ex. Sempre dou graças a Deus a respeito de vós…)
5- o corpo
6- a saudação final e despedida (ex. a graça do Senhor seja convosco)

Algumas cartas podem fugir um pouco deste padrão; é o caso da carta aos Hebreus.

Notemos que o autor pula todas as quatro primeiras partes e vai direto ao assunto. Vamos perceber também, durante a leitura, que esta carta não assume um tom muito pessoal, como muitas das cartas de Paulo por exemplo.

A carta de I João também não possui os elementos formais de uma carta comum, e assim como o autor de Hebreus, João parte diretamente ao assunto.

Tiago e II Pedro começam como cartas, tem os elementos iniciais, porém lhes falta a saudação final.

Estas cartas todas, parecem ter sido realmente escritas para um público geral, e não para alguém em particular.

Algo que todas as cartas têm em comum é o fato de serem ocasionais. Ou seja, embora tendo a ação do Espírito Santo, e servindo para nós nos dias de hoje, foram inicialmente escritas para o povo do século I. Esta é a maior dificuldade que encontramos na interpretação destes escritos. Como contextualizarmos os mandamentos para nós do século XXI ? Nas próximas lições vamos aprender como estudar e interpretá-las corretamente.

2  O contexto histórico

A primeira coisa a ser feita antes de comerçarmos a estudar e interpretar a Carta aos Coríntios é nos perguntar o que levou Paulo a escrever uma a eles. Outra coisa é procurarmos saber o máximo possível sobre a localidade onde viviam. Sabemos que pelos padrões da época Corinto era uma cidade relativamente nova. Devido à sua localização estratégica cresceu muito comercialmente, e era uma cidade bastante religiosa, com diversos templos de deuses espalhados pela cidade. Além disso, era uma cidade com muita cultura e sobretudo rica. Fazendo então uma análise rápida, podemos dizer que Corinto era uma mistura de Rio de Janeiro, São Paulo e Aparecida do Norte. Ou seja, não foi uma carta escrita para uma cidade do interior de Roraima. Mantendo estes dados em mente, nossa compreensão do assunto da carta será muito mais proveitoso.

A segunda coisa é tomarmos um tempo para lermos a carta toda de uma única vez. Afinal este é o processo de leitura quando lemos uma matéria no jornal ou um e-mail. Não tente nesta primeira leitura achar o significado de cada palavra ou frase, por hora é apenas a visão panorâmica que nos interessa. Podemos sim, anotar algumas coisas nesta primeira leitura:

1- o que está escrito sobre os endereçados? São judeus, gentios, ricos, escravos? Quais os seus problemas e atitudes?
2- as atitudes de Paulo
3- quaisquer coisas específicas na ocasião em que a carta foi escrita.
4- as divisões lógicas da carta.

Claro que, se mesmo isso for demais para esta primeira leitura, isto pode ser feito durante o estudo, depois da primeira leitura.

Com base na estrutura apresentada acima, podemos ter notado as seguintes coisas:

1-Os crentes coríntios eram principalmente gentios, mas haviam alguns judeus também (6:9-11; 8:10; 12:13). Gostavam de sabedoria e conhecimento (1:18 – 2:5; 4:10; 8:1-13; ). Eram orgulhosos e arrogantes (4:18; 5:2-6), até ao ponto de julgarem Paulo (4:1-5; 9:1-18)
2- A atitude de Paulo variou entre a repreensão (4:8-21; 5:2; 6:1-8), o apelo (4:14-17; 16:10-11) e a exortação (6:18-20; 16:12-14)
3- Vemos em 1: 10-12 que Paulo foi informado por pessoas da família de Cloé. Em 5:1 também nos diz informações relatadas. Em 7:1 vemos que Paulo havia recebido uma carta deles. Notamos também que haviam alguns itens nessa carta, conforme 7:25, 8:1, 12:1, 16:1 e 16:12.
4- Quanto às divisões lógicas da carta, vemos que 7:1 é a primeira vez que Paulo menciona a carta recebida. Neste caso, podemos supor que os capítulos 1 a 6 são respostas daquilo que foi relatado a Paulo. As frases introdutórias e os assuntos abordados nos dão base para propor as seguintes divisões:

ð o problema das divisões na igreja (1:10 – 4:21)
ð o problema do homem incestuoso (5:1-13)
ð o problema dos processos jurídicos (6:1-11)
ð o problema da fornicação (6:12-20)

A maior parte do conteúdo entre o capítulo 7 e o 16 é resposta à carta recebida, como podemos ver pela expressão usada por Paulo “Ora, quanto ao…”. Os itens que não são introduzidos por esta expressão são três: 11:2-16, 11:17-34 e 15:1-58. Talvez os itens do capítulo 11 também foram relatados a ele (ao invés de ter tomado conhecimento por meio da carta recebida), mas foram incluídos aqui porque tudo, desde o capítulo 8 até o capítulo 14 trata da adoração de forma geral. O capítulo 15 fica dificil saber se é uma resposta ao que foi relatado a ele, ou se é resposta à carta que mandaram. O versículo 12 não ajuda muito neste sentido, pois Paulo pode estar citando um relato, ou a carta deles.

Seja como for, o restante da carta pode ser facilmente esboçado:

ð o comportamento dentro do casamento (7:1-24)
ð as virgens (7:25-40)
ð a comida sacrificada aos ídolos (8:1-11:1)
ð as cabeças cobertas das mulheres na igreja (11:2-16)
ð os abusos na Ceia do Senhor (11:17-34)
ð os dons espirituais (12-14)
ð a ressurreição dos crentes (15:1-58)
ð a coleta (16:1-11)
ð a volta de Apolo (16:12)
ð exortações e saudações finais (16:13-24)

O único outro lugar nas cartas de Paulo que ele escreve em forma de resposta de itens independentes é I Tessalonicenses 4-5.

Vamos concentrar nossos estudos no problema da divisão na igreja: capítulos 1 – 4.

3 O contexto histórico de I Coríntios 1 – 4

Antes de mais nada vamos elaborar uma lista de atividades a fim de estudarmos cada uma das seções menores da carta:

1-     Leia I Coríntios 1-4 pelo menos duas vezes, em duas traduções diferentes. Isto o fará ver o panorama geral do trecho, e saber os argumentos usados.
2- Anote tudo que conseguiu achar sobre os endereçados e seu problema. Nesta etapa poderemos ser bastante detalhistas.
3- Anote as palavras-chave e frases repetidas de Paulo. Isto indica o conteúdo de sua resposta.

Uma das razões para escolhermos este trecho, além do sério problema de divisão que enfrentavam, o começo deste trecho parece não se encaixar no contexto. Notem que Paulo começa a expor a situação, o problema (1:10-12), porém, no começo de sua resposta, ele não continua se referindo ao problema (1:18-3:4). Apenas na conclusão, há a ligação do conceito de “sabedoria” e “gloriar-se nos homens”, que são as idéias chaves neste trecho, com o fato da divisão da igreja entre partidários de Paulo, Apolo e Cefas. Vamos ver como todas essas idéias se encaixam.

Para começar, Paulo diz claramente que eles estão divididos de acordo com seus líderes (3:4-9; 3:21-22; 4:6). Mas, a questão não era apenas uma mera diferença de opinião entre eles. Eles estavam realmente disputando entre si, um querendo ser mais que o outro (4:6).

Tudo isto parece estar bem claro, numa primeira visão. Porém, olhando com mais cuidado vemos que os problemas eram um pouco mais graves do que realmente parecia. Vejamos pelos menos duas coisas que ficam claras quando prestamos um pouco mais de atenção ao texto.

1-     Lendo 4:1-5 fica claro que havia uma queixa contra o próprio Paulo. Ou seja, não era apenas uma questão de prefer6encia entre Paulo ou Apolo, mas havia os que eram contra Paulo e os que eram a favor de Paulo.
2- A palavra chave neste trecho é sabedoria ou sábio. Ela ocorre 26 vezes entre os capítulos 1 a 3, e apenas 18 vezes no restante das cartas de Paulo juntas. Deus deixou a sabedoria do mundo de lado (1:18-22; 1:27-28; 3:18-20). Cristo, por meio da cruz, se tornou sabedoria da parte de Deus (1:30). Esta sabedoria é revelada pelo Espírito, para aqueles têm o Espírito. O emprego da palavra sabedoria, neste argumento, nos faz pensar que Paulo fazia parte do problema. No mínimo podemos supor que, em nome da sabedoria, os coríntios estão levando sua idéia de divisão à frente. Como eles eram muito cultos e filósofos, tinham uma idéia da fé cristã como sendo uma nova “sabedoria divina”, e julgaram Paulo de acordo com esta sabedoria puramente humana.

Com base na resposta de Paulo podemos enumerar três coisas:

1-     3:5-23 mostra que os coríntios entenderam de modo errado a função da liderança na igreja.
2- De acordo com 1:18 a 3:4, eles entenderam de forma errada a natureza básica do evangelho.
3- Com base em 4:1-21 seu modo de julgar a Paulo também estava errado.

Feitas estas distinções podemos agora nos concentrar na análise da resposta de Paulo.

4  O contexto literário

O próximo passo então é seguir a argumentação de Paulo em I Coríntios 1:10 – 4:21 parágrafo por parágrafo, e em uma ou duas frases explicar cada parágrafo dentro do argumento todo de Paulo. Algumas perguntas precisam ser feitas neste estágio:

1- Resumidamente, o que Paulo diz neste parágrafo?
2- Por que Paulo diz isso?
3- Como este conteúdo contribui com argumento todo?

Para ilustrar, vamos tomar a parte principal da resposta de Paulo, que se encontra em 3:5-16. Até aqui Paulo havia dito que a essência do Evangelho, um Messias crucificado, era contrária à sabedoria humana (1:18-25); assim como a escolha deles para pertencerem ao povo de Deus. É como se Paulo estivesse dizendo, em outras palavras: “Quem, em nome da sabedoria humana, teria escolhido vocês para se tornarem povo de Deus? “.

Notem que Paulo trata o poder de Deus também como sabedoria (2:1-7). Porém é uma sabedoria revelada por Deus, não descoberta pelos homens, para quem tem o Espírito de Deus (2:6-16). Neste ponto, Paulo faz um apelo, pois eles têm o Espírito de Deus, então deveriam parar de agir como aqueles que não possuem o Espírito de Deus.

Agora, como os parágrafos que se seguem funcionam neste argumento de Paulo?

1-     3:5-9

2-

Trata da natureza e da função dos líderes da igreja. Paulo diz que são meros servos, e não senhores. Nos versículos 6 a 9 ele ensina duas lições:

Œ Tanto Paulo quanto Apolo estão unidos numa coisa comum, única, mesmo que suas tarefas sejam diferentes.
 Tudo e todos pertencem a Deus – a igreja, os servos e o crescimento.

2- 3:10-17

A lição aqui é como será edificada a obra, que pode ser para o bem ou para o mal. Aqui, o que está sendo edificado é a igreja. Aqueles que dirigem a igreja devem fazer com cuidado, pois a provação se aproxima. Edificar a igreja com sabedoria humana, com eloquência que contorna a cruz de Cristo é edificar com feno, palha ou madeira.

A lição de Paulo neste contexto é expressar aos coríntios que eles são o templo de Deus naquele cidade, em contraste com os outros templos pagãos existentes. O que os tornava templo de Deus ali, era o fato de vivierem em comunhão com o Espírito Santo. Porém, por causa das divisões eles estavam destruindo este templo (a Igreja), que era sagrado para Deus.

Vamos rever as bases do argumento de Paulo, que neste ponto se completou:

ð Paulo desmascarou a compreensão incorreta que os coríntios tinham do evangelho.
ð Paulo desmascarou a compreensão incorreta que os coríntios tinham da liderança da igreja.
ð Paulo advertiu os líderes, bem como a própria igreja sobre o julgamento divino contra os que promovem divisões.

E no final (3:18-23), Paulo junta todos os temas abordados nesta argumentação, como uma conclusão.

5  Reforçando

A fim de adquirirmos prática, vamos ver uma passagem fora de I Coríntios, mas que também fala sobre a falta de união na igreja.

Leiamos Filipenses 1:27 – 2:13.

Vamos fazer uma rápida revisão de Filipenses:

ð Paulo está na prisão (1:13-17)
ð Igreja de Filipos enviou uma oferta através de Epafrodito (4:14-18)
ð Epafrodito ficou doente e a igreja se entristeceu (2:25-30)
ð Deus o poupou e Paulo o envia de volta (2:25-30)
ð Epafrodito volta com a carta para os Filipenses a fim de:

Œ Contar aos membros como ele está
 Agradecer-lhes a oferta
Ž Exortá-los a viver em harmonia (1:27 – 2:17; 4:2-3) e evitarem a heresia judaizante (3:1 – 4:1)

Notem que até o versículo 26 Paulo está falando sobre ele mesmo, como está na prisão. Mas no versículo 27 ele muda o contexto para os filipenses. Qual é então a razão de ser de cada parágrafo nesta seção?

O primeiro parágrafo, 1:27-30, começa a exortação. A lição, o resumo parace ser a que lemos no versículo 27: “ficar firmes num só espírito”. Ou seja, uma exortação à união, pois estavam enfrentando oposição.

Como que 2:1-4 se relaciona com a união? Primeiramente Paulo repete a exortação, porém a lição aqui é que a humildade é a atitude para os crentes viverem em união.

Qual é a lição no parágrafo 2:5-11? Jesus em sua encarnação e morte é o exemplo máximo de humildade que devemos ter.

E por fim, qual a lição de 2:12-13? Esta é claramente a conclusão. Notem as expressões nas diversas traduções da Bíblia: “Assim pois”, “Portanto”, “De sorte que”. Tendo o exemplo de Cristo, devem obedecer a Paulo. Em que? Em terem unidade, que também requer humildade.

Concluída esta análise, podemos verificar que o problema de união em Filipos era, com certeza, muito menos grave do que em Corinto.

6 As passagens problemáticas

Até aqui vimos o processo normal de análise de um texto. Vimos como fica mais fácil se lemos a passagem em parágrafos. Mas, existem textos que em uma primeira análise nos parece dificil, e até mesmo contraditório. O que fazer quando nos deparamos com passagens como estas:

o significado de “por causa dos anjos” em I Coríntios 11:10
“os que se batizam por causa dos mortos” em I Coríntios 15:29
Cristo pregando aos “espíritos em prisão” em I Pedro 3:19
o “homem da iniquidade” em II Tessalonicenses 2:3

1- Em muitos casos a razão dos textos nos parecem tão difíceis é que não foram escritos diretamente para nós. Ou seja, o autor e seus leitores estavam sintonizados, tinham a mesma cultura, desta forma o escritor podia pressupor algumas coisas por parte de seus leitores. Um exemplo é quando Paulo escreve aos Tessalonicenses : “Não vos lembrais de que eu vos dizia estas coisas…”. Então, muitas vezes, também devemos nos contentar em saber aquilo que Deus quis nos revelar, aquilo que Ele quer que saibamos.

2- Mesmo que não saibamos o trecho específico, muitas vezes a lição do parágrafo ainda está ao nosso alcance. Então, seja o que for que levou os coríntios a se batizar em nome dos mortos Paulo os ensina que eles não estavam sendo consistentes ao rejeitarem uma ressurreição futura dos crentes.

3- Quanto às incertezas de determinado trecho temos aque aprender a perguntar o que pode ser dito sobre o mesmo com certeza, e aquilo que é possível, mas não certo. Na passagem do batismo pelos mortos a certeza que temos é que isto estava sendo realizado, e Paulo simplesmente se refere a ela.

4- Nestes casos sempre será necessário consultarmos um bom comentário bíblico. Consulte vários, talvez você não concorde com aquele autor especificamente, mas é sempre bom conhecermos todas as opções dadas a determinada questão.

No mais, até mesmo os mais estudiosos nunca terão todas as respostas. E em parte isto é bom para que conservemos nossa humildade e para que reconheçamos e experimentemos a verdade de Deuteronômio 29:29.

SIMBOLISMOS E TIPOLOGIAS

A maioria dos estudiosos concorda que no Antigo Testamento existem tipos que são posteriormente, no Novo Testamento, especificados e declarados. Os dois Testamentos se correlacionam por meio destas prefigurações e tipos. O Novo Testamento considera que alguns personagens, elementos e fatos do Antigo Testamento são prefigurações do que ainda estava por vir.

Porém, os intérpretes se dividem quanto à freqüência com que isto pode ocorrer. Alguns dizem que praticamente todo o Antigo Testamento é prefiguração do Novo. Por exemplo, a quem diga que as dobradiças do templo de Salomão representavam as duas naturezas de Cristo. Outros defendem que os tipos estão explicitamente identificados, ou ainda implicitamente. Há quem afirme também que tipos são apenas os que o Novo Testamento afirma ser, ou seja, bem claro e explícito. E ainda há aqueles que dizem não haver tipos de quaisquer espécies na Bíblia.

Nesta lição veremos o que são tipos.
Que elementos do Antigo Testamento devemos aceitar como sendo tipos prefigurados do Novo Testamento?
Que regras devemos seguir para interpretá-los?

1  Termos do Novo Testamento associados aos tipos

O termo “tipo” vem do grego typos, e aparece 15 vezes no Novo Testamento. E ganhou diversas traduções como se segue abaixo:

“…vir o sinal dos cravos nas mãos…” (Jo. 20:25)
“…figuras que vós fizestes para adorá-las…” (At. 7:43)
“…disse a Moisés que o fizesse segundo o modelo que tinha visto” (At. 7:44)
“E escreveu-lhe uma carta nestes termos:” (At. 23:25)
“…da transgressão de Adão o qual é figura daquele que havia de vir.” (Rm. 5:14)
“…obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” (Rm 6:17)
“Ora, estas coisas nos foram feitas para exemplo…” (1 Co 10:6)
“…aqueles que andam conforme o exemplo que tendes em nós” (Fp. 3:17)
“De sorte que vos tornastes modelo para todos…” (1 Ts. 1:7)
“…mas para vos dar nós mesmos exemplo, para nos imitardes.” (2 Ts. 3:9)
“…mas sê um exemplo para os fiéis na palavra…” (1Tm. 4:12)
“Em tudo te dá por exemplo de boas obras…” (Tt. 2:7)
“os quais servem àquilo que é figura e sombra das coisas celestiais […] faze conforme o modelo que no monte se te mostrou” (Hb. 8:5)
“…mas servindo de exemplo ao rebanho. ” (1 Pe. 5:3)

Notemos que em todos estes casos a palavra typos foi usada com a idéia de correspondência ou semelhança. Um devia combinar com o outro.
Em cada um desses versículos um elemento corresponde ao outro.
A contrapartida do tipo , a parte correspondente, é chamada de antítipo, ou seja, correspondente ao tipo.
Vamos examinar 1 Pedro 3:21. Neste versículo aprendemos que o batismo é um antítipo do dilúvio, ou seja, o dilúvio serviu como tipo, modelo, prefiguração do batismo. Nos dois casos a palavra significa julgamento; o dilúvio significou a morte para os perversos, e o batismo nas águas significa a morte de Cristo e a identificação do crente com ela. Notemos que a idéia de semelhança está presente.
Examinemos agora Hebreus 9:24. Somos esclarecidos que o santuário, ou santo dos santos no tabernáculo, era um cópia do verdadeiro tabernáculo nos céus.

Em 1 Timóteo 1:16 vemos que a completa longaminidade de Cristo, na vida de Paulo, serviria de exemplo para os que viessem a crer nele. Paulo usou o mesmo termo em 2 Timóteo 1:13.

Temos dois significados associados:

1- Exemplo ou modelo a ser seguido:

“Porque eu vos dei exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.” (Jo. 13:15)
“…para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência.” (Hb. 4:11)

2- Sombra: Assim como uma sombra é a imagem produzida por um objeto, assim certos elementos do Antigo Testamento eram um esboço das coisas que haveriam de vir. Aparece três vezes no Novo Testamento com este sentido figurado.

“os quais servem àquilo que é figura e sombra das coisas celestiais…” (Hb. 8:5)
“Porque a lei, tendo a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas…” (Hb. 10:1)
“…que são sombras das coisas vindouras…” (Cl. 2:16-17)

Uma sombra é algo vago ou transitório, mas também representa certa semelhança.

Cada um desses significados contém a idéia de correspondência ou semelhança. Porém nem sempre um tipo oficial no Antigo Testamento prefigura algo no Novo Testamento. Muitas vezes o sentido é de padrão ou modelo a ser seguido.

2  Quando o tipo é tipo?

2.1  Semelhança

A primeira característica de um tipo é a sua semelhança ou correspondência com o antítipo. Mas não devemos pensar de que se trata de uma correspondência superficial. Deve ser algo natural, e não uma correspondência forçada. Vimos nos exemplos anteriores a existência de uma semelhança concreta. Porém, nem tudo que possui um elemento correspondente é um tipo, embora a relação de semelhança e correspondência deva estar obrigatoriamente presente em todos os tipos. Existem inúmeros elementos no Antigo Testamento que encontram correspondência no Novo, mas não são tipos necessariamente. Os fatores que apresentamos a seguir também são importantes para a caracterização de determinação de um tipo.

2.2 Realidade histórica

Os fatos, personagens ou elementos do Antigo Testamento que são tipos de coisas do Novo possuíram realismo histórico, ou seja, realmente existiram e os fatos foram reais e testemunhados, não foi uma coisa imaginária. Quando em nosso estudo da Bíblia nos deparamos com um tipo não devemos inventar ou procurar significados ocultos. Devemos nos concentrar nos fatos históricos, pois o tipo deve surgir naturalmente no texto, ao invés de ser algo que o intérprete acrescente no texto. O tabernáculo é um tipo (conforme Hb. 8:5), mas isso não significa que cada detalhe de sua construção represente, de alguma forma, uma verdade neotestamentária.

2.3 Prefiguração

Os tipos são uma forma de profecia, pois contém traços de predição e simbolismos. O tipo é uma sombra que indica outra realidade (Cl. 2:17). O tipo sempre aponta para frente. Então quer dizer que as personagens do Antigo Testamento sabiam que diversas coisas eram tipos? Quando os israelitas matavam os cordeiros, eles sabiam que isso simbolizava Cristo, a quem João Batista referiu-se como “Cordeiro de Deus” (Jo. 1:29) ? Será que Melquisedeque sabia que ele representava a Cristo (Sl. 110:4; Hb. 6:20)?

É muito improvável que tivessem consciência dos antítipos (representação futura do tipo) e provavelmente não tinham pleno conhecimento destas relaçoes entre tipos e antítipos. O fato de alguns fatos e personagens fossem tipos isso não quer dizer que as pessoas dessa época reconhecessem essa natureza representativa.

2.4 Elevação

Na tipologia, o antítipo é sempre mais importante do que o tipo correspondente. Cristo é superior a Melquisedeque, a obra redentora de Jesus é superior à pascoa celebrada pelos judeus. Muitos aspectos do Novo Testamento ilustram verdades do Novo, mas se não houver esta elevação não se trata de tipos.

2.5 Planejamento divino

Os tipos não são meras ilustrações para que os leitores da Bíblia prestem mais atenção aos fatos. Na verdade esta correspondência foi planejada por Deus. O tipo foi idealizado por Deus para apresentar uma similaridade com o antítipo, que por sua vez foi criado por Deus para ser o “cumprimento” do tipo. Podemos crer que houve um planejamento de Deus, pois se passaram muitos séculos até que o antítipo pudesse “cumprir” aquilo que o tipo representava.

Na questão da interpretação dos tipos muitos estudiosos assumem posições diversas, conforme abaixo:

1- Tipos são apenas os que se encontram expressos no Novo Testamento

2- Tipos estão explícitos, mas também podem estar implícitos, não declarados.

Devemos ter o cuidado de não cairmos no mesmo erro de alguns intérpretes, de enxergar tipos implícitos (se assim exitirem) na Bíblia, gerando mais alegorias e interpretações errôneas da Bíblia. Não devemos confundir as figuras de linguagem, vistas anteriormente, com os tipos, que estamos estudando.

Nos tópicos seguintes vamos estudar como descobrir quais personagens, fatos e elementos devem ser tratados como tipos. Vamos descobrir com que finalidade Deus criou os tipos.

3 Os tipos devem ser encarados como tipos no NT?

Dadas as cinco características acima temos ainda de definir se os tipos são tanto os implícitos como explicitos ou apenas os expressamente declarados no NT. Devemos ter em mente que apenas correspondências não satisfazem a condição para se constituir um tipo. Sempre levemos em consideração o aspecto profético e o planejamento divino.

Um exemplo. Muitos estudiosos acreditam que Salomão simbolizasse Cristo. Podemos realmente afirmar que Deus nos conta a história de Salomão para retratar a Cristo?

Podemos claro, perceber algumas analogias e semelhanças, mas onde estão o aspecto profético e o planejamento divino?

Então como podemos estabelecer um limite para que simples semelhanças ou mesmo ilustrações não passem a ser entendidas como tipo?

Podemos estabelecer que o NT especifique claramente quais personagens e elementos do AT são prefigurativos do NT. O texto do NT deve indicar de alguma forma que determinado elemento ou personagem seja um tipo válido, ou de outra forma, deve ser rotulado. Ao contrário, as ilustrações e analogias podem ser mais facilmente identificáveis pelos estudiosos.

Um tipo pode ser definido como uma personagem ou acontecimento do AT que Deus planejou (projetou) para prefigurar ou preparar outro personagem ou acontecimento no NT.

Agora, uma ilustração é um acontecimento ou personagem que retrata uma verdade espiritual, com naturalidade e espontaneidade, sem no entanto, ser declarado como tipo no NT.

Com base nisso podemos por exemplo dizer que a Arca de Noé não é um tipo da Igreja, mas pode ser facilmente ilustrada como tal. Podemos dizer que o profeta Elias ilustra um homem de oração, conforme Tiago nos diz em seu livro no capítulo 5 verso 17.

Devemos ter cuidado, pois uma simples analogia não deve ser entendida como um tipo.

Vejamos um comparativo entre Tipo, Ilustração e Alegoria na tabela 01.

Notemos que na Ilustração e Tipologia a realidade histórica é considerada, ao passo que na Alegorização este aspecto é descartado. A alegoria geralmente é apenas fruto da imaginação de seu intérprete.

4  Que tipos são válidos?

Precisamos fazer as seguintes perguntas para sabermos quais os tipos válidos nas escrituras:

1. Existe semelhança clara entre o tipo e o antítipo? O tipo apresenta exatamente os mesmos fatos, princípios e relações que o elemento do NT correspondente?

2. O antítipo está de acordo com o contexto histórico do tipo?

3. O tipo é uma prefiguração ou prenunciação do antítipo? Ou não passa de um exemplo? O tipo aponta para o futuro?

4. O antítipo eleva ou “cumpre” o tipo, sendo ainda superior?

5. Conseguimos ver o propósito divino na relação tipo-antítipo?

6. O NT especifica de alguma forma o tipo e o antítipo?

5  Quais as etapas para a interpretação dos símbolos?

1. Descobrir o sentido literal do tipo.

2. Reparar no ponto de correspondência entre o tipo e o antítipo.

3. Reparar nos elementos de contraste, para evitar caracterizá-los como aspectos do tipo.

4. Prestar bastante atenção às afirmações do NT que confirmem a correspondência tipológica.

6 Por que se preocupar com a tipologia?

Embora a princípio este estudo de tipologia aparentemente não seja tão útil ele é importante para vermos a mão de Deus durante toda a história da humanidade. Podemos com este estudo constatar que Deus planejou cada acontecimento e usou algumas pessoas e acontecimentos para retratar aspectos de Cristo e seu relacionamento com a igreja. E por que não dizer também para nos defender das heresias que tentam entrar em nossas igrejas?

Quando usamos os seis critérios de identificação dos tipos temos instrumentos mais precisos para interpretar o Antigo Testamento, e desta forma não ficamos de frente a um mar de incertezas sobre o que Deus quis realmente nos transmitir.

7  A compreensão dos símbolos

7.1  Em que consiste um símbolo?

Símbolo é uma figura, marca ou sinal que representa ou substitui outra coisa. Lembremos que o tipo representa um elemento futuro, mas o símbolo não está preso à idéia de tempo. Em um dado momento na história, o tipo tem seu cumpriment, ou seja, aquilo que ele representava no AT já se cumpriu no NT. Por exemplo, o tabernáculo no deserto representava a Cristo, era tipo de Cristo. Nenhum outro tabernáculo lembrava ou falava de Cristo. Agora quando dizemos que um leão representa a Cristo, qualquer leão pode significar isto, pois são as características do leão que são mencionadas e não os aspectos proféticos.

7.2  Quais princípios aplicamos na interpretação dos símbolos?

1- Reparar nos três fatores da interpretação de símbolos: o objeto (símbolo), o referente (elemento simbolizado) e o significado (semelhança entre símbolo e referente) – Em I Jo 1:29, o cordeiro (objeto) identifica a Cristo (referente) e o significado é que Cristo serviu de sacrifício como muitos outros cordeiros.

2- Lembrar-se de que os símbolos são fundamentados na realidade. – Quando se diz que Cristo é um cordeiro ou leão, não quer dizer que Cristo seja literalmente umna cordeiro ou leão. Mas, como estes animais existem é possível estabelecermos uma correspondência entre estes animais e Cristo. Nas passagens proféticas, muitas vezes os símbolos são fundamentados na imaginação ao invés dos fatos. Vejam Ap. 17:3 e Dn. 7:6. Porém estes símbolos tem elementos reais.

3- Descobrir qual o significado ou semelhança, se existente, o texto atribui de forma explícita ao referente – Quando existe u símbolo em uma profecia, o texto geralmente o indica. Por exemplo em Ap. 9:1, a estrela que caiu do céu é identificada no verso 2 como “ele”. Comparando com Ap. 20:1, parece não restar dúvida de que se trata de um anjo. O dragao do verso 2 é identificado com Satanás.

4- Se o versículo não indicar a semelhança, consultar outras passagens e verificar qual a característica principal entre o símbolo e o referente. – João referiu-se a Cristo como “o Cordeiro de Deus”, sem contudo, explicar a semelhança.

5- Tomar o cuidado de não atribuir ao referente a característica errada do símbolo – Um leão é forte e feroz, mas apenas sua ferocidade está relacionada a Satanás (I Pe. 5:8). A sua força refere-se a Cristo (Ap. 5:5) .

6- Procurar o elemento principal de semelhança – Resista à tentação de traçar muitos paralelos entre o símbolo e o elemento que simboliza.

7- Entender que um elemento principal pode ser representado por vários símbolos. – Cristo é simbolizado por um leão, cordeiro, um ramo, raiz, etc. O Espírito Santo é simbolizado pela água, pomba, vento, azeite.

8- Na literatura profética, não presumir que, pelo fato de da profecia conter alguns elementos simbólicos, tudo mais na profecia seja também simbólico. – Em apocalipse 19:19, a “besta” é um símbolo, porém “os reis da terra, com seus exércitos” não deve ser encarado como símbolo. No versículo 15 a espada que sai a boca de Cristo é um símbolo de seu juízo, mas isso não quer dizer que as nações citadas devam ser encaradas como símbolos também.

9- Na literatura profética, não transformar em símbolos as descrições de fatos que sejam prováveis ou plausíveis. – Em Apocalipse 8:12 diz que um terço do sol, da lua e das estrelas serão feridos e escurecerão. Como se trata de um fato plausível, isto não deve ser interpretado como um símbolo. Em Apocalipse 9, os gafanhotos que saíram do abismo devem ser entendidas ao pé da letra, pois o fato de gafanhotos, ou criaturas parecidas com gafanhotos, saírem do abismo é plausível. No passado esta passagem foi interpretada como símbolo dos turcos invadindo Israel.
7.3  Alguns exemplos de símbolos na Bíblia

Hoje em dia também temos simbolismos em nossas igrejas. O batismo e a ceia são dois deles. O batismo simboliza a identificação do cristão com a morte, sepultamento e ressurreição de Cristo. Quando participamos da ceia estamos simbolicamente proclamando a morte de Jesus, o pão simboliza seu corpo que foi partido na cruz e o cálice simboliza seu sangue que foi derramado para remissão dos pecados.

7.4  Números simbólicos

Alguns números nos transmitem determinadentos as idéias pelo fato de estarem sempre associados a alguns eventos especificos. Por exemplo, o número 7, é frequentemente associado à perfeição.

Gn 2:2,3
Ap. 1:12
Ap. 4:5
Ap. 5:1
Ap. 8:1

O número 40 costuma ser relacionado com provação.

40 anos de Moisés em Midiã (At. 7:29,30)
40 anos de Israel no deserto (Nm. 32:13)
40 dias que Jesus foi tentado (Lc. 4:2)

Apesar destes números transmitirem estes simbolismos não podemos deixar de atribuir-lhes o sentido literal. Ou seja, mesmo o número 40 representando provação, Jesus foi realmente provado durante 40 dias literais. O número embora representando a perfeição não nos dá o direito de fugir da interpretação literal. No caso dos candeeiros podemos interpretá-los como sendo em número de sete.
7.5  Nomes simbólicos

Os nomes de certas pessoas e lugares na Bíblia possuem significado simbólico. Porém não devemos procurar significados nos nomes, a menos que a Bíblia nos indique.mães

O nome Eva siginifica “vida” e foi dado por Adão, por ser a mãe de todos os viventes (Gn. 3:20)
Deus mudou o nome de Abrão em Abraão com o intuito de mostrar-lhe que ele seria pai de muitos povos.
Abrão significa “pai exaltado” e Abraão significa “pai de muitos”. Deus também mudou o nome de sua esposa de Sarai para Sara, que significa “princesa”.
As mães também costumavam dar nomes aos seus filhos de acordo com as circunstâncias do nascimento da criança.
Jacó não amava sua esposa Léia, por isso quando ela teve seu primeiro filho, ela o chamou de Rúbem. A palavra Reuben em hebraico significa “o Senhor atendeu a minha aflição”. Seu segundo filho, Simeão, tem o sentido de “aquele que ouve”. Levi, seu terceiro flho, significa “unido”, pois pensou que depois de três filhos Jacó a fosse amar um pouco mais e sua família fosse permanecer unida.
Seu quarto filho, Judá, recebeu este nome pois tem o siginificado de louvor. Como havia dado a Jacó 4 filhos ela louvava a Deus, pois pensava assim ter o amor de Jacó. (Gn 29:31-35)
A filha de Faraó chamou ao menino que encontrou no rio Nilo de Moisés, pois é parecido com o verbo “retirar” em hebraico. (Ex. 2:10).
O nome Daniel significa “Deus julgou” ou “Deus é eu juíz”. Porém o rei Nabucodonozor mudou seu nome para Beltessazar, que significa “Senhora, proteja o rei”. Era uma tentativa para fazer Daniel se esquecer de seu Deus. O mesmo aconteceu com seus amigos (Dn. 1:6,7).
Jesus mudou o nome de Simão para Cefas (aramaico) e Pedro (grego) que significa pedra (Jo. 1:42), em referência ao seu futuro papel na Igreja (At. 2).
Às vezes uma cidade ou nação ganhava outro nome. Deus chamou os líderes de Jerusalém de “príncipes de Sodoma” e seus habitantes de “povo de Gomorra” (Is. 1:10), pois seu pecado havia se igualado ao daquelas cidades.
Os estudiosos divergem quanto à menção que Pedro fez de Babilônia em I Pe. 5:13 – deve ser entendida como a verdadeira Babilônia, no Oriente Médio? Ou foi usada apenas para fazer uma menção indireta a Roma para proteger os cristão que viviam lá?
De acordo com a história, Pedro passou seus últimos dias em Roma, e seu “filho” Marcos, mencionado no mesmo versículo, pode ser João Marcos, que Paulo afimou estar em Roma (Cl. 4:10).

FIGURAS DE LINGUAGEM

1  O que é uma figura de linguagem?

Figura de linguagem é simplesmente uma palavra ou frase usada fora de seu emprego ou sentido original.

2  Por que se utilizam figuras de linguagem?

2.1  As figuras de linguagem acrescentam cor e vida

“O Senhor é a minha rocha” (Sl. 18:2) é uma forma viva de se dizer que podemos confiar no Senhor, pois ele é forte e inabalável.

2.2  As figuras de linguagem chamam a atenção

O interesse do ouvinte ou leitor é despertado. Isso fica nítido na advertência de Paulo em Fp. 3:2, cuidado com esses cães.

2.3  As figuras de linguagem tornam os conceitos abstratos mais concretos

A frase: “por baixo de ti estende os braços eternos” (Dt. 33:27) certamente transmite uma idéia mais concreta do que “O senhor te sustentará”.

2.4  As figuras de linguagem ficam mais registradas na memória

A afirmação de Oséias “Como vaca rebelde se rebelou Israel…” (Os. 4:16) é mais fácil de lembrar do que se  tivesse escrito: “Israel é extremamente teimoso”.

2.5  As figuras de linguagem sintetizam uma idéia

Elas captam a idéia de forma mais abreviada, elas dizem muito em poucas palavras. A famosa metáfora: “O Senhor é meu Pastor…” (Sl 23:1) nos transmite rapidamente a idéia do cuidado de um pastor com suas ovelhas.

2.6  As figuras de linguagem estimulam a reflexão

As figuras de linguagem levam o leitor a parar e pensar. Quando lemos Salmos 52:8 – “quanto a mim, porém, sou como a oliveira verdejante, casa de Deus…” – somos desafiados a meditar nas semelhanças que este símile nos traz à mente.

3  Como saber se uma expressão apresenta sentido figurado ou literal?

Em geral, uma expressão está em sentido figurado quando destoa do assunto, ou quando não combina com os fatos, experiência ou observação. Quando o Cleber Machado narra um jogo de futebol e diz que o “Porco” venceu o “Leão”, não quis dizer realmente que um porco (animal) venceu um leão (animal), mas sim que o Palmeiras venceu o Sport, ou seja, naquele contexto (futebol) faz todo sentido.

As regras abaixo nos ajudam a identificar as figuras de linguagem.

1. Adote sempre o estilo literal das passagens, a menos que hajam boas razões para não fazê-lo. Por exemplo, quando João disse que 144.000 serão selados – 12.000 de cada uma das 12 tribos de Israel –  não há razão para não respeitarmos o sentido normal, literal (Ap. 7:4-8). No entanto, no verso seguinte o apóstolo faz menção do “Cordeiro” (v. 9), o que, obviamente é uma referência a Jesus, não a um animal, como João 1:29 deixa claro.

2. Se o sentido literal resultar numa impossibilidade, o sentido verdadeiro é o figurado. O Senhor disse para jeremias que o havia posto como “coluna de ferro e por muros de bronze” (Jr. 1:18).

3. O sentido é o figurado se o literal resultar em um absurdo, como no caso das árvores baterem palmas (Is. 55:12).

4. Adote o sentido figurado se o literal sugerir imoralidade. Com seria um ato de canibalismo comer a carne de Jesus e beber seu sangue, é evidente que ele estava usando o sentido figurado (Jo. 6:53-58).

5. Veja se a expressão figurada vem acompanhada de uma explicação literal. Aqueles que dormem (1 Ts. 4:13-15) logo em seguida são chamados de “os mortos” (v. 16).

6. Às vezes uma figura é realçada por um adjetivo qualitativo, como Pai celeste (Mt. 6:14), “o verdadeiro pão” (Jo. 6:32), a pedra que vive (1 Pe. 2:4). Isso indica que o substantivo anterior não deve ser entendido em seu sentido literal.

4  A linguagem figurada é oposto da interpretação literal?

Não devemos achar que o sentido figurado seja o oposto do sentido literal. O sentido figurado transmite a verdade literal, ou seja, o autor apenas escreveu a mensagem literal de outra forma, para reforçar seu sentido; mas, os fatos são literais. Não devemos confundir com a alegorização, que já foi vista na aula 03 deste módulo.

Por exemplo, quando dizemos: “Fulano virou um bicho quando soube”, claro que não quer dizer que virou um animal, mas ficou furioso. Porém a verdade é literal, seja falando de uma forma ou de outra.

5  Alguns tipos de figuras de linguagem

5.1  As figuras de linguagem que transmitem comparação

Símile – É uma comparação que lembra outra explicitamente. Pedro usou um símile quando disse que “…toda carne é como a erva…” (1 Pe. 1:24). Jesus também fez uso do símile quando disse: “…eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos”. A dificuldade dos símiles é descobrir as semelhanças entre os dois elementos. Em que aspecto a carne é como a erva. De que forma os cristãos são como cordeiros?

Metáfora – É uma comparação em que um elemento representa outro, sendo que os dois são essencialmente diferentes. Em uma metáfora a comparação está implícita. Temos um exemplo disso em Isaías 40:6: “Toda a carne é erva”. Note que é diferente da expressão em 1 Pedro, acima. Jesus comparou seus seguidores ao sal: “Vós sois o sal da terra” (Mt. 5:13). Quando Jesus afirmou: “Eu sou a porta” (Jo. 10:7-9), “Eu sou o bom pastor” (vv. 11-14) e “Eu sou o pão da vida” (6:48), ele estava fazendo comparações. O leitor é levado a pensar de que forma Jesus assemelha-se a tais elementos.

Hipocatástase – Não é uma figura de linguagem tão conhecida, mas também faz uma comparação, na qual a semelhança é indicada diretamente. Davi, no Salmos 22: 16, disse: “Cães me cercam…”. Ele não estava se referindo aos caninos, mas sim aos seus inimigos. Os falsos mestres também são chamados de cães em Filipenses 3:2, e lobos vorazes em Atos 20:29. Em João 1:29, João Batista fez uso de uma hipocatástase quando exclamou: “Eis o Cordeiro de Deus”.

5.2  As figuras de linguagem que transmitem substituição

Metonímia – A metonímia consiste em trocar uma palavra por outra. Por exemplo, quando afirmamos que o Congresso tomou uma decisão, queremos dizer que os deputados e senadores tomaram a decisão. Pode ser também que a causa seja usada em lugar do efeito. Os opositores de Jeremias disseram: “…vinda, firamo-lo com a língua…” (Jr. 18:18). Como seria absurdo produzir ferimentos com a língua, é claro que eles estavam referindo-se a palavras. Em Atos 11:23, temos outro exemplo quando fala de Barnabé: “…e, vendo a graça de Deus…”. O sentido aqui só pode ser o do efeito da graça, pois a graça, na realidade não pode ser vista. Temos exemplos de substituição de elementos relacionados ou semelhantes. quando Paulo disse: “Não podeis beber o cálice do Senhor…” (1 Co. 10:21), ele não estava se referindo ao cálice propriamente dito, mas sim ao conteúdo do cálice. Quando o Senhor disse para Oséias que “a terra se prostituiu…”, a palavra terra diz respeito à população.

Sinédoque – É a substituição do todo pela parte, ou da parte pelo todo. Em Lucas 2:1, a Bíblia nos diz que o imperador César Augusto emitiu um decreto de que deveria ser feito o censo “do mundo todo”. Ele falou do todo, mas estava se referindo ao Império Romano. É óbvio que Provérbios 1:16 – “…os seus pés correm para o mal…” – não significa que somente os pés corriam para o mal. Os pés são a parte que representa o todo. Áquila e Priscila arriscaram suas próprias cabeças (Rm 16:4). Nesta sinédoque, “suas cabeças” representa suas vidas, o todo.

Personificação – É a atribuição de características ou ações humanas a objetos inanimados, a conceitos ou animais. A alegria é uma emoção atribuída ao deserto, em Isaías 35:1. Isaías 55:12 fala de montes cantando e árvores batendo palmas. A morte personifica-se em Romanos 6:9 e em 1 Corintios 15:55.

Antropomorfismo –  é a atribuição de qualidades ou ações humanas a Deus, como ocorre nas referências aos dedos de Deus (Sl. 8:3), a seus ouvidos (31:2) e a seus olhos (2 Cr. 16:9).

Antropopatia – Esta figura de linguagem atribui emoções humanas a Deus, como vemos em Zacarias 8:2: “…tenho grandes zelos de Sião”.

Zoomorfismo – Se o antropomorfismo atribui qualidades humanas a Deus, o zoomorfismo atribui características animais a Deus (ou outros). Em Salmos 91:4, faz-se referência a penas e asas. Jó descreveu o que ele considerou como ira de Deus contra ele quando disse: “…contra mim rangeu os dentes…” (Jó 16:9).

Apóstrofe – É uma referência direta a um obejto como se fosse uma pessoa, ou uma pessoa ausente ou imaginária, como se estivesse presente. O salmista empregou um apóstrofe em Salmos 114:5: “Que tens, ó mar, que assim foges?…” Miquéias fala diretamente à terra, em Miquéias 1:2: “Ouvi, todos os povos, prestai atenção, ó terra…”. Em Salmos 6:8, o salmista fala como se seus inimigos estivessem presentes: “Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade…”.

Eufemismo – Consiste na substituição de uma expressão desagradável por outra mais suave. Falamos da morte mediante eufemismos: “passou desta para melhor”, “bateu as botas”. A Bíblia fala da morte dos cristãos como um adormecimento (At. 7:60; 1 Ts. 4:13-15).

5.3  As figuras de linguagem que transmitem omissão ou supressão

Elipse – é uma supressão de uma palavra facilmente subentendida. É a omissão intencional de um termo facilmente identificável pelo contexto ou por elementos gramaticais presentes na frase.Em 1 Co. 15:5, “os doze”, representa “os doze apóstolos”.

Pergunta retórica –  Uma pergunta retórica é aquela que não exige resposta; seu objetivo é forçar o leitor a respondê-la mentalmente e avaliar suas implicações. Quando Deus perguntou para Abraão: “Acaso para Deus há algo muito difícil?…” (Gn. 18:14), ele não esperava ouvir uma resposta. A intenção era que o patriarca refletisse mentalmente. Paulo fez uma pergunta retórica em Romanos 8:31: “… se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Estas perguntas são formas de se transmitir informações.

5.4  As figuras de linguagem que transmitem exageros ou atenuações

Hipérbole – É uma afirmação exagerada em que se diz mais do que o significado literal, com o objetivo de dar ênfase. Vejamos em Deuteronômio 1:28 a resposta dos espias israelitas sobre a tomada de Canaã: “”…as cidades são grandes e fortificadas até os céus…”

Litotes – É uma frase suavizada ou negativa para expressar uma afirmação. É o oposto da hipérbole. Quando dizemos: “Ele não é um mal goleiro”, na realidade queremos dizer que ele é um goleiro muito bom. Esta atenuação dá ênfase à frase. Em Atos 21:39, Paulo disse: “… eu sou judeu, natural de Tarso, cidade não insignificante”, quis dizer que Tarso era uma cidade importante.

Ironia – É uma forma de ridicularizar indiretamente sob a forma de elogio. Geralmente vem marcada pelo tom de voz da pessoa que fala, para que os ouvintes percebam. Por isso, às vezes é difícil saber se algo escrito é, ou não, uma ironia. O contexto nos ajuda a perceber isso. Por exemplo Mical, filha do rei Saul, disse a Davi: “… que bela figura fez o rei de Israel…” (2 Sm. 6:20). O versículo 22 nos mostra que o sentido pretendido era o oposto, ou seja, o rei havia se humilhado agindo daquela maneira. Em 1 Reis capítulo 18, no episódio de Elias contra os profetas de baal, vemos que Elias ironizou a baal várias vezes.

Pleonasmo – Consiste na repetição de palavras ou no acréscimo de palavras semelhantes. Atos 2:30 quer dizer literalmente “Deus lhe havia jurado com juramento”. Como para nossa língua é uma repetição desnecessária a  NTLH traduziu sem esta repetição.

5.5  As figuras de linguagem que transmitem incoerências

Oxímoro – Consiste na combinação de dois termos opostos ou contraditórios. Quando falamos, por exemplo, “um silêncio eloqüente”, empregamos um oxímoro. Em Fp. 3:19, Paulo diz que a glória dos inimigos de Cristo está em sua infâmia; em Romanos 12:1 somos desafiados a sermos “sacrifícios vivos”.

Paradoxo – É uma afirmação aparentemente absurda ou contrária ao bom senso. Um paradoxo não é uma contradição; é simplesmente algo que parece ser o oposto do que em geral se sabe. Jesus utilizou muitos paradoxos em seus ensinos. Um deles nos diz que quem quiser salvar sua vida deve perdê-la. Os humilhados serão exaltados. O maior no reino de Deus é o menor. Se você quiser viver então morra.

6  Como devemos interpretar as figuras de linguagem?

6.1  Descobrir se existe alguma figura de linguagem

Às vezes a figura de linguagem não é reconhecida no texto, causando um grande problema de interpretação. Quando Paulo falou sobre suportar as adversidades como um bom soldado, competir com um atleta e receber os frutos da safra como um fazendeiro (2 Tm. 2:3-6), ele não estava instruindo soldados, atletas ou fazendeiros.

Quando Jesus disse: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis para os porcos as vossas pérolas…” (Mt. 7:6), não estava se referindo a cães ou porcos literalmente. Cães e porcos eram considerados animais impuros. Portanto o que deve ser entendido aqui é que não devemos confiar as coisas santas aos ímpios.

Em Jó 38:7, não devemos entender que as estrelas realmente cantam. Devemos entender que a criação se alegrou com a obra criadora de Deus (personificação).

Por outro lado, às vezes uma declaração normal é confundida com figura de linguagem. Em Amós 4:9, não há motivo para crermos de se tratar de adversidades espirituais, pois de fato estas coisas aconteceram.

6.2  Descobrir a imagem e o objeto na figura de linguagem

Em certos casos, ambos são evidentes no versículo, como acontece em Isaías 8:7. A princípio pode-se ficar na dúvida se a inundação é real ou figurada. A resposta está no verso seguinte. Portanto, podemos afirmar que a imagem são as águas impetuosas e o objeto é o rei da Assíria. Contudo, algumas vezes, o objeto não é especificado e pode até ser confundido. Foi o que aconteceu com as palavras de Jesus em João 2:19: “Destruí este santuário…”. Santuário era a imagem e os leitores (e ouvintes) pensaram que o objeto fosse o templo de Herodes, quando na realidade, Jesus estava falando de seu próprio corpo.

6.3  Especificar o elemento de comparação

Muitas vezes a imagem está expressa, porém, o objeto embora não esteja explícito, é indicado pelo contexto. Em Lucas 5:34 não diz que o noivo é Jesus, mas o significado está implícito, já que no verso seguinte Jesus diz que o noivo seria tirado deles.

6.4  Não presumir que uma figura sempre signifique a mesma coisa

Em Oséias 6:4, o orvalho simboliza a brevidade do amor de Judá, enquanto em 14:5 fala da benção do Senhor sobre Israel.

6.5  Sujeitar as figuras a limites por meio da lógica e da comunicação

Quando Jesus falou para a igreja de Sardes “…virei como um ladrão…” (Ap. 3:3), não quis dizer que viria para roubar.No caso, o elemento de comparação é que viria repentinamente. Quando Jó falou das “colunas” da terra se estremecendo (Jó 9:6), estava falando das montanhas, não como se a terra se apoiasse em colunas.

A GRAMÁTICA PODE NOS AJUDAR?

Um dos fatos mais importantes da Reforma foi a volta da interpretação histórica e literal da Bíblia. Este método era oposto ao método que estava sendo utilizado havia séculos, o método alegórico.

Neste método, as palavras e frases da Bíblia adquiriam vários outros sentidos do que o literal, e a objetividade foi-se perdendo.

Então, se cada um podia dar sua própria interpretação, como confiar que a Bíblia era uma revelação clara de Deus?

1  Por que a interpretação gramatical é importante?

Como estudamos no módulo passado, a inspiração da Bíblia é verbal, ou seja, palavra por palavra; deste modo, cremos que cada palavra, e sua colocação na frase é importante.

Então, a interpretação gramatical da Bíblia respeita integralmente a inspiração verbal das Escrituras.

Nossa meta, no estudo de interpretação das Escrituras é descobrir com maior exatidão possível o que cada palavra, cada frase quer dizer.

2  Como se descobre o significado das palavras?

Existem quatro fatores que determinam o significado de uma palavra: etimologia, uso da palavra, sinônimos e antônimos e o contexto.

2.1  Etimologia das palavras

A etimologia estuda a origem e evolução das palavras. Por exemplo, a palavra ekklesia, normalmente traduzida por igreja, vem de ek (“para fora”) e kalein (“chamar” ou “convocar”). Por isso, no Novo Testamento, passou a significar aqueles que eram chamados para fora dos ímpios para integrar a comunidade dos crentes.  O sentido original de ekklesia era de uma assembléia, reunião, convocada por um homem público, para discutir assuntos comunitários.

Vejamos também a palavra evangelion. No grego clássico significava “recompensa por boas novas”. Posteriormente veio significar “boa mensagem”. E no Novo Testamento adquiriu o significado de “boas notícias da salvação” em Jesus Cristo.

Como vimos, a etimologia, pode ajudar em alguns casos, porém não devemos usar como método exclusivo de estudo, pois as palavras podem mudar, e muito, seu sentido original.

2.2  Uso das palavras

Já que a etimologia não nos ajuda a esclarecer o significado de um termo, precisamos descobrir qual era o sentido mais comum que faziam desta palavra na época em que o texto foi escrito. Isto tem importância especial, porque uma palavra pode ter mais de um sentido de acordo com o texto. Por exemplo a palava “casa”: “ele casa amanhã”, “ela foi para casa”, “o número tem duas casas decimais”, “ela pregou os botões, mas não fez as casas”.

No Novo Testamento, a palavra chamado aparece pelo menos de duas maneiras: Nos evangelhos, o “chamado” divino significa o convite de Deus. Já Paulo, usa esta palavra para designar a missão que Deus atribuíra a ele (Rm. 1:1), a obra de salvação (Rm 8:28-30).

A palavra grega pneuma (espírito) deriva de pneo (respirar). Mas na Bíblia, o sentido raramente é este. Significa também, vento, atitude, emoções, natureza espiritual, íntimo (em oposição ao corpo físico), seres imateriais como anjos e demônios e o Espírito Santo.

Além do contexto, como veremos adiante, é preciso analisar as diversas situações em que a palavra é utilizada.

Primeiramente procure descobrir como o autor emprega a palavra no mesmo livro. Se o contexto não ajudou, procure saber como o autor utilizou-a em outros trechos do livro. A palavra profetas em Efésios 2:20, está se referindo aos profetas do Antigo Testamento ou do Novo? Examinando como Paulo emprega a mesma palavra nos trechos 3:15 e 4:11, chegamos à conclusão de que profetas, nestes trechos, se referem aos profetas do Novo Testamento. Desta maneira, é provável que o significado em 2:20 seja o mesmo. Porém, cabe também a interpretação dos profetas do Antigo Testamento, de acordo com o contexto geral da Bíblia.

Em segundo lugar, veja como o autor usa o termo em outros livros que tenha escrito. O uso que João faz das palavras luz e trevas em 1 João nos ajuda a esclarecer o uso que ele faz destas palavras no Evangelho e em Apocalipse.

Em terceiro lugar, veja como outros autores bíblicos utilizam o termo. Por vezes, o contexto pode não dar nenhuma pista do significado, e talvez o autor não volte a utilizar o termo em seu livro. Por isso, é bom estudar como o termo foi empregado em outros livros. Tomemos por exemplo a palavra hebraica almâ (que significa moça ou virgem), em Isaías 7:14, podemos estudar as outras ocorrências para esta palavra no Antigo Testamento (Gn. 24:43; Ex. 2:8; Sl. 68:25; Pv. 30:19; Cn. 1:3; Cn. 6:8). Mas isso não quer dizer que o significado seja sempre o mesmo, conforme vemos no exemplo em Êxodo 2:8.

Em quarto lugar, verifiquem o significado da palavra fora da Bíblia. No Antigo Testamento hebraico, cerca de 1.300 palavras ocorrem apenas uma única vez, enquanto que outras 500 aparecem duas vezes. Então, seu significado não pode ser compreendido mediante a comparação com outros textos. A comparação de tais palavras com outros escritos que não a Bíblia, pode nos ajudar. Vejamos um exemplo em Provérbios 26:23. A palavra hebraica sprg foi traduzida como escórias de prata nas versões ARA e ARC. Já a NVI e a NTHL traduziram como verniz, o que no texto em questão nos faz mais sentido. A conclusão para esta tradução foi tomada com base em escritos ugaríticos, uma língua muito parecida com o hebraico.

Os estudiosos chegaram à conclusão que pesquisando as palavras gregas do Novo Testamento em grego comum (koine), ajuda a decifrar o sentido desta palavra no texto. Vejamos 2 Tessalonicenses 3:6. A palavra ataktos foi traduzida como desordem. Isso se deve ao fato de que ataktos, no grego clássico significava o abandono de um soldado do exército, que eram considerados desordeiros. Porém, em escritos gregos próximos à época neotestamentária, ataktos era usada em referência a um menino que “mata” aula na escola. Neste caso, o sentido seria mais de preguiçoso, e não desordeiro.
2.3  Sinônimos e antônimos

Perceber a diferença entre uma palavra e seus sinônimos pode nos ajudar a reduzir o número de significados possíveis. Nem sempre devemos atribuir à uma palavra o sentido de seu sinônimo, mas sim verificar a variação de sentidos que havia nas palavras. Às vezes essas variações não são perceptíveis, pois os sinônimos podem ter significados praticamente idênticos. Em Romanos 14:13, por exemplo, Paulo cita a palavra escândalo e tropeço. A palavra escândalo (skandalon em grego) significava algo que prejudicasse gravemente alguém, enquanto que tropeço (proskomma em grego) significava algo que incomodasse uma pessoa. Então, Paulo quis dizer que não devemos prejudicar ninguém, nem seria, nem ligeiramente.
Perceber a diferença entre o sinônimo ou antônimo de uma palavra pode elucidar qual o sentido deste termo. Em Romanos 8: 4-9 a palavra carne diz respeito ao corpo físico ou à natureza pecaminosa? A Bíblia NTLH já foi traduzida tendo em mente este conceito.

2.4  Contexto

A análise do contexto é de vital importância para o estudo e aplicação das Escrituras. Por pelo menos três motivos.
Em primeiro lugar, as palavras e frases podem assumir sentidos diferentes, e o estudo do contexto pode nos ajudar a descobrir qual o sentido mais provável.
Em segundo lugar, os pensamentos são escritos seguindo uma seqüência lógica, com os elementos associados, não isolados.
Em terceiro lugar, desconsiderar o contexto pode dar margem a falsas interpretações e até heresias. Vejamos o exemplo de Salmos 2:8; os missionários gostam muito de usar este versículo, para ilustrar sua expectativa de conversões nos campos missionários, porém analisando o versículo anterior chegamos à conclusão de que é Deus-Pai falando a Deus-Filho. A confirmação disto está em Atos 13:33.
Vamos fazer um exercício interessante. Atribua um dos sete significados da palavra kosmos aos 6 versículos da folha anexa. A questão aqui é que em geral cada ocorrência de uma palavra normalmente só aceita um dos significados possíveis, que é determinado pelo contexto, no caso destes versículos, pelo contexto imediato.
Outro exemplo é a palavra fé, que pode significar confiança em Deus, um conjunto de verdades ou concordância intelectual. Judas 3 e Gálatas 1:23 empregam a palavra fé em um destes sentidos; Romanos 1:17 e Efésios 2:8 em outro destes sentidos e Tiago 2:18 com mais outro sentido.

O termo lei, também pode possuir vários significados, de acordo com a frase. Por exemplo, em Romanos 2:14 e 8:2, o termo lei passa a significar “principio”.    Em João 1:17, 45, refere-se ao Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia. Agora, em Mateus 22:40 significa, provavelmente, todo o Antigo Testamento, exceto os Profetas. Esta mesma palavra em Romanos 2:12 e 8:3, refere-se ao código mosaico.
O contexto do parágrafo ou do capítulo pode ajudar a elucidar o sentido da palavra, caso o versículo não deixe muito claro. Por exemplo, em João 2:19, Jesus falou sobre destruir o templo, e no versículo 21 disse que se referira a seu corpo. Em João 7:37-38, Jesus disse que do interior do crente “fluirão rios de água viva”. No versículo seguinte, o apóstolo explica que Jesus estava falando do Espírito Santo.
Outro contexto que precisa ser levado em consideração é o livro onde a palavra, ou expressão foi utilizada. Citamos como exemplo 1 João 3:6-10. Ele não pode estar dizendo que um crente nunca peca, como se vê claramente na mesma epístola. Quando entendemos que Tiago, em sua carta, quis dar exemplos de fé autêntica, fica mais fácil entender o que ele quis dizer da relação entre fé e obras. Caso esta suposta fé não tenha produzido durante toda a vida nenhum fruto, é óbvio que essa fé não era autêntica e não pode salvá-lo.
O  contexto das passagens paralelas também deve ser considerado. Algumas vezes, palavras, idéias ou expressões, são repetidas em outros trechos, com outras palavras. Existem paralelos muito próximos entre 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas, entre os evangelhos, algumas passagens de Romanos e Gálatas, Efésios e Colossenses, alguns versículos de 1 Pedro e Judas e Daniel e Apocalipse. Isso sem citar as passagens isoladas.
A Bíblia como um todo também deve ser utilizada como contexto. Vamos tomar como exemplo o texto de Gálatas 5:4. A princípio nos parece que Paulo diz que o cristão pode perder a salvação. Mas isto seria uma contradição  ao teor das escrituras. O mesmo acontece com Filipenses 2:12, onde a expressão “desenvolvei a vossa salvação” pode ser mal interpretada como se a salvação dependesse de obras.
Vejamos o texto de Jeremias 17:9, onde o termo hebraico anush foi traduzido como “desperadamente corrupto”. Porém, seu uso em outras partes do Antigo Testamento (Jó 34:6; Is. 17:11; Jr. 15:18), indica que o sentido é de gravemente adoecido. Tendo por base este significado, a HTNL e a NVI traduziram por “doente demais para ser curado” e “impossível de ser curado” respectivamente.
Com relação ao contexto da Bíblia temos duas verdades já demonstradas:

1. Um texto obscuro ou de sentido ambíguo não deve ser interpretado de forma que contradiga outro de sentido claro. Por exemplo, a expressão “os que se batizam por causa dos mortos” em 1 Co. 15:29, não deve ser entendida com o significado de salvação depois da morte, pois contraria o ensino de Hb. 9:27.
2. Não se deve dar preferência a uma interpretação complexa ou obscura ao invés de outra mais simples e clara. Em Mateus 16:28 quando jesus disse que alguns ali não morreriam até ve-lo vir como rei, é claro, não estava se referindo à sua segunda volta para implantar o reino milenar aqui, pois Jesus ainda não voltou, e todos com os quais Ele falou na ocasião já morreram. Então a explicação mais simples, e natural, é que Jesus estava se referindo à sua transfiguração, seis dias depois de dito isso. Jesus apareceu glorificado, como de fato se dará em sua segunda vinda.

Esta aula trata do significado das palavras, então devemos ter em mente os seguintes princípios:
1. Geralmente uma palavra não tem o mesmo significado original, e nem sempre os elementos que a compõem determinam seu sentido.
2.  Os significados de palavras em nossa língua não devem ser transportados para os textos bíblicos.
3. Uma mesma palavra pode ter significados diversos em suas várias ocorrências na Bíblia.
4. Cada palavra ou expressão normalmente só tem um significado, que é indicado por seu emprego na frase e/ou em um ou mais contextos.
5. Um mesmo termo da Bíblia nem sempre possui o mesmo sentido.
6. Não se deve atribuir a uma palavra todos os seus possíveis significados em qualquer situação. O contexto de uma declaração normalmente determina o único sentido pretendido dentre todos os vários possíveis. Por outro lado é preciso admitir que às vezes ambigüidades podem ocorrer.

Em João 1:5, o apóstolo escreveu que as trevas não prevaleceram contra a luz. O termo grego katalambano pode significar tanto abranger quanto prevalecer. Este pode ser um caso em que João optou, de propósito, pela ambigüidade, pois os dois sentidos são possíveis.
Um exemplo semelhante e interessante é a palavra anothen (Jo 3:3), que pode significar “do alto” ou “de novo”. É perfeitamente concebível que haja um duplo sentido aqui, ou seja, o novo nascimento vem tanto do alto, como acontece de novo.
Estes casos não anulam o sentido único das palavras, a não ser que o contexto nos apresente um forte motivo para fazermos o contrário.

2.5  Para que conhecer as partes de uma frase?

A função gramatical de uma palavra em uma frase pode mudar completamente seu sentido. A palavra “casa”, por exemplo; pode ser tanto um verbo, como um substantivo. Na frase “A casa foi pintada”, a palavra casa é um substantivo. Já em “Ele casa o mês que vem”, é um verbo.
Vamos ver alguns exemplos que nos mostram como o conhecimento das partes da frase podem nos ajudar a interpretar a Bíblia corretamente.
1. A diferença entre descendente e descendentes é um elemento importante na argumentação de Paulo em Gálatas 3:16.
2. Em Apocalipse 3:10, a preposição ek significa “fora de” e não “através de”, como alguns acham que deveria ser traduzida. Isto é um forte argumento de que a Igreja não passará pela Grande Tribulação, antes, será arrebatada.
3. O primeiro verbo de Romanos 3:23, “pecaram”, está no tempo passado indefinido, podendo ser traduzido como “todos ainda pecam”, pois pode ser um ato cometido em qualquer momento. O segundo verbo “carecem”, está no presente, e dever ser traduzido, entendido como “estão sempre aquém”.
4. No hebraico, o tempo perfeito exprime ação completa. Então por que este tempo verbal é usado em Isaías 53:2-9? Por que estes acontecimentos teriam este exato desfecho, que poderia ser usado até o tempo passado, mesmo se tratando de um acontecimento futuro.

2.6 Revisão

A interpretação gramatical consiste em atentar para as palavras e seu uso nas frases. Embora isto possa parecer em um primeiro momento algo chato, difícil ou mesmo complicado, é de vital importância para entendermos e aplicarmos a Bíblia em nossa vida de uma forma correta.
A seguir, um resumo dos passos que devemos seguir para uma interpretação bíblica correta.

A. Maneiras de descobrir o significado de uma palavra:

1. Examine sua origem (etimologia), até mesmo o significado original e quaisquer outros significados que surgiram a partir dele.
2. Descubra como a palavra é empregada:
a. pelo mesmo autor no mesmo livro;
b. pelo mesmo autor em outros livros;
c. por outros autores na Bíblia;
d. por outros autores em outros documentos.
3. Descubra como são empregados os sinônimos e antônimos.
4. Analise os contextos:
a. o contexto imediato;
b. o contexto do parágrafo ou capítulo;
c. o contexto do livro;
d. o contexto de passagens paralelas;
e. o contexto da Bíblia como um todo.
5. Verifique qual dos diversos sentidos possíveis melhor se enquadra na idéia do versículo.

B. Maneiras de descobrir o significado de uma frase:
1. Analise a frase e seus elementos, nas classes de palavras, na ordem das palavras e nas orações contidas na frase.
2. Descubra o significado de cada palavra-chave (veja os 5 itens acima) e o modo como elas influenciam o sentido da frase.
3. Analise a participação de cada elemento da frase na idéia transmitida pelo todo.

ENTENDENDO AS DIFERENÇAS CULTURAIS

As pessoas que interpretam a Bíblia sem levar em consideração o contexto de uma passagem e sem conhecer , ou considerar o período histórico do texto escrito, podem cometer um sério erro de interpretação e acabarem criando uma heresia.

Lembre-se que os reformadores ressaltaram e retornaram ao método de interpretação histórico-gramatical das Escrituras. Ou seja, devemos levar em conta o período histórico de quando a passagem foi escrita e levar em consideração as palavras e frases da passagem em seu sentido normal e claro (literal). Podemos adicionar a estes, outro aspecto igualmente importante: o retórico, ou seja, o estilo literário do livro ou passagem em questão.

Algumas perguntas nos ajudam a entender este passo tão importante na interpretação de um texto:

■ Quem escreveu o livro?

■ Em que época foi escrito?

■ A que problemas ou situações ele estava se referindo?

■ De que trata o livro?

■ Para quem foi escrito originalmente?

Nesta aula iremos aprender um pouco sobre o aspecto histórico da interpretação. Vamos examinar algumas passagens levando-se em conta a cultura do tempo histórico no qual a passagem foi escrita.

1  Como os costumes culturais influem na interpretação de certas passagens?

1.1  Política

Por que o rei Belsazar concedeu a Daniel a terceira posição no governo, e não a segunda (Dn. 5:7-16)?

Porque, como a história secular nos informa, o primeiro no comando era o rei Nabonido (filho de Nabucodonosor) que havia se ausentado do país por um longo período.

Por que Paulo mencionou a pátria celestial dos filipenses (Fp. 3:20)?

Filipos era uma colônia romana, porém os moradores desta cidade não tinham os mesmos direitos dos romanos.  Um dia o imperador Otávio Augusto concedeu a eles os mesmos direitos dos romanos. Então Paulo escreveu a eles sobre uma pátria ainda mais nobre para os cristãos, que era a pátria celestial. Isto teve um significado bastante especial para os cristãos daquela cidade, naquela época.

Por que Jonas não queria ir para Nínive?

Nínive era capital do Império Assírio. E a história nos dá conta de que os assírios eram extremamente cruéis com seus inimigos e prisioneiros de guerra, pois eram guerreiros e saiam a conquistar muitas terras. Em relatos encontrados na antiga biblioteca ninivita, em tabuinhas de barro, são mencionados a decapitação e empilhamento das cabeças dos povos conquistados. Eram também, postos em jaulas e tratados como animais. Não é, então, de se admirar que Jonas não quisesse pregar o arrependimento a eles, pois ele achava que os ninivitas mereciam o castigo divino.

Por que Boaz foi até a porta da cidade falar com os anciãos sobre o terreno de Noemi (Rt. 4:1)?

A porta da cidade era o lugar oficial para realização de negócios e julgamentos (Js. 20:4)

O que Jesus quis dizer quando declarou: “Se alguém quiser viu após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” ?

Naquela época, o indivíduo que carregava sua própria cruz era considerado criminoso (como o próprio Jesus foi). Portanto, tomar a cruz, significa seguir Jesus até à morte. Ou seja, não significa ter de passar privações nem suportar pessoas ou circunstâncias desagradáveis.

1.2  Religião

Por que Moisés deu um mandamento tão estranho quanto este: “…não cozerás o cabrito no leite de sua própria mãe” (Ex. 23:19)?

Descobertas arqueológicas nos informam que os cananeus tinham este costume e Deus não queria que se povo tivesse o mesmo costume de povos pagãos. Outra coisa poderia ser a mistura de uma substância que dava vida (leite) associado ao processo de morte (cozimento).

Por que Deus enviou justamente aquelas dez pragas sobre o Egito?

Deus quis mostrar a total incapacidade dos deuses egípcios, quis mostrar que eram falsos deuses, e que estes não poderiam socorrer o povo de forma alguma. O quadro abaixo mostra a relação das pragas e deuses afetados.

*AS PRAGAS* *REFERÊNCIA* *DIVINDADE EGÍPCIA ANTIGA*
Águas se formaram em sangue Êxodo 7.14-25 Knum: guardião do Nilo; Haspi: espírito do Nilo; Osiris: O Nilo era seu sangue.
Rãs Êxodo 8.1-15 Hect: com aspecto de rã; deus da ressurreição
Piolho Êxodo 8.1-19 Seti, deus do deserto
Moscas Êxodo 9.20-32 Uatchit, possivelmente representado por uma mosca
Peste nos Animais Êxodo 9.1-7 Hator: deusa-mãe com forma de vaca; Apis: o touro do deus; Ptá: Símbolo da fertilidade; Mnevis: touro sagrado de Heliópolis
Úlceras Êxodo 9.8-12 Sekmet deusa que curava doenças
Chuva de Pedras Êxodo 9.13-25 Nut: deusa do céu; Ísis: deusa da vida; Set: protetor das colheitas
Gafanhotos Êxodo 10.1-20 Isis: deusa da vida; Set: protetor das colheitas
Trevas Êxodo 10.21-29 Rá, Aten, Atum, Horus: todos deuses do sol
Morte dos Primogênitos Êxodo 11.1-12,36 Osiris: A divindade de Faraó; o doador da vida

Por que Elias propôs que o Monte Carmelo fosse o local da disputa com os 450 profetas de baal?

Os seguidores de baal acreditavam que ele morava neste monte, desta forma, Elias deixou que os adversários “jogassem em casa”. Se baal não conseguisse fazer nenhum milagre em seu próprio território, estaria comprovada sua falsidade. Outro fato interessante é que baal era considerado deus das tempestades e do fogo. Como a pouco tempo havia tido uma seca de 3 anos e meio, ficou claro que baal não conseguiu reverter a situação. Elias então quis provar que baal também não era deus do fogo, pois o desafio era justamente fazer “chover” fogo do céu, o que baal mais uma vez não conseguiu.

Por que Paulo escreveu aos Colossenses que nele (Jesus) habita corporalmente toda a plenitude da Divindade (Cl. 2:9) ?

Havia em Colossos falsos mestres, pregando que Jesus era Deus apenas parcialmente. Então este escrito de Paulo estava refutando aquela heresia.

Por que Paulo levantou a questão da carna oferecida aos ídolos em 1 Coríntios 8 ?

Hoje em dia, quando vamos jantar em algum restaurante, ou na casa de algum amigo, não perguntamos se a carne foi oferecida a algum ídolo. Em Corinto, naquela época, era muito comum as pessoas comprarem carne e depois passar em algum dos muitos templos pagãos e oferecer parte da carne a algum ídolo, e depois levar o restante para o jantar. Então os cristãos por este fato, achavam que comer esta comida seriam participantes da adoração de ídolos pagãos.

Por que os herodianos, saduceus e um escriba fizeram aquelas perguntas a Jesus em Marcos 12:13-28 ?

As perguntas diziam respeito às suas respectivas ocupações e crenças. Os herodianos tinham o apoio de Herodes e dos romanos, por isso perguntaram sobre o pagamento de impostos a um governo estrangeiro. Os saduceus não acreditavam em ressurreição, por isso tentaram por Jesus à prova falando de uma hipotética mulher que teve sete maridos. Os escribas, por sua vez, se preocupavam muito com a lei de Deus, por isso o motivo do questionamento sobre o mandamento mais importante.

1.3  Economia

Por que Elifaz acusou Jó de exigir garantia de seus irmãos sem motivo, em Jó 22:6 ?

Na época do Antigo Testamento este era um crime desprezível. Se alguém devesse dinheiro a alguém e não pudesse pagar, o devedor dava sua capa ao credor como garantia. Porém, ao cair da noite, o credor deveria devolver a capa do devedor, pois pudesse ser que apascentaria ovelhas e precisaria da capa para se cobrir. Tomar garantia sem motivo era pecado. E Jó não era culpado desta atitude, como explicou mais tarde (Jó 31:19-22).

Por que o parente mais chegado de Elimeleque deu suas sandálias a Boáz (Rt. 4:8-17)?

Segundo escavações arqueológicas no atual Iraque  este ato era feito quando se concluía a venda de um terreno. Representava que direitos sobre aquela estava sendo passado ao novo dono.

1.4  Leis

Em 2 Reis 2:9, Eliseu pede porção dobrada do espírito sobre a vida dele. Será que ele estava pedindo mais poder espiritual do que tinha Elias?

De forma alguma. Na realidade Eliseu estava expressando o desejo de ser o sucessor de Elias. De acordo com Deuteronômio 21:17, o primogênito tinha o direito de receber em dobro sua parte na herança do pai, além do  mais o primogênito era o seu sucessor direto.

Em Colossenses 1:15, a expressão: “o primogênito de toda a criação”, significa que Cristo foi criado?

Não. Significa que Jesus é o Herdeiro de toda criação (Hb. 1:2). O primogênito tinha lugar e privilégios especiais na família. Equivale a dizer que o primogênito é o herdeiro principal.

1.5  Agricultura

O que há de tão estranho no fato de Samuel pedir chuva na época da colheita do trigo, em 1 Samuel 12:17?

A colheita do trigo acontecia em Maio ou Junho, pois estariam na época da estiagem, que começava em Abril e ia até Outubro. Se chovesse nesta época do ano lá em israel ficaria evidente a operação do Senhor.

Por que Salmos 1:4 compara o ímpio com a palha?

A palha é leve e não tem firmeza em nenhum lugar. Quando os fazendeiros tratavam do trigo, a palha era deixada de lado e o vento levava embora. Os ímpios, assim como a palha, não tem segurança e nem utilidade.

Por que o profeta Amós chamou as mulheres de Betel de “vacas de Basã”, em Amós 4:1 ?

Basã era uma terra fértil a nordeste do mar da galiléia, e as vacas desta região eram conhecidas por serem gordas. As mulheres de Betel, assim como aquelas vacas, eram conhecidas por apenas comerem e beberem, e pouco faziam além disso.

Qual o motivo do Senhor ter perguntado a Jó sobre o parto das cabras monteses, em Jó 39:1?

Estes animais se escondem nas montanhas quando estão na época de parir. Estudiosos, em 30 anos, viram estes animais copularem e parirem somente 4 vezes. Deus, então, estava demonstrando a Jó sua ignorância em relação aos acontecimentos na natureza.

Por que Jesus, em Lucas 13:32, chamou Herodes de raposa?

A raposa, naqueles dias, era tida como um animal traiçoeiro. Assim, Jesus estava insinuando que Herodes era conhecido por sua traição.

Por que Jesus condenou a figueira que não tinha frutos, se nem era época de figos ainda(Mc. 11:12-14)?

As figueiras, em Israel, costumam apresentar pequenos “botões” em Março, e grandes folhas verdes em Abril. Jesus “amaldiçoou” a figueira na época da páscoa, ou seja,  Abril. Como a planta não apresentava botões, não daria frutos naquele ano. A maldição que Jesus lançou sobre a figueira representava a falta de vitalidade espiritual em Israel (falta dos botões), mesmo tendo aparente religiosidade (folhas verdes).

1.6  Arquitetura

Como Raabe podia ter uma casa um cima de uma muralha (Js. 2:15)?

As muralhas de Jericó eram duplas e preenchidas com terra no meio, de forma que se podiam construir casas ali e estarem quase ao nível do topo.

Como foi possível que quatro homens descessem um paralítico pelo telhado (Mc. 2:1-12)?

As casas, no tempo bíblico, não tinham a laje de concreto que hoje temos em nossas casas. Então foi apenas subir no telhado e tirar algumas telhas.

1.7  Vida doméstica

Qual é o significado da expressão: “Efraim […] é um pão que não foi virado” (Oséias 7:8)?

Às vezes um pão assa mais de um lado que de outro se não for virado. Isto quer dizer que carecia de equilíbrio, pois dava atenção a algumas coisas e outras não.

Não foi falta de educação João encostar-se em Jesus na última ceia (Jo. 13:23)?

Não, pois como eles se sentavam em sofás, não em cadeiras, não era considerado falta de educação uma pessoa encostar-se na outra.

Por que, em Lucas 9:59, o homem disse que queria enterrar o pai antes de seguir Jesus?

Ele não quis dizer que o pai acabara de falecer, mas que se sentia obrigado a esperar até que o pai falecesse, mesmo que demorasse vários anos, provavelmente para receber a herança. Por isso sua relutância em seguir a Jesus.

Por que as cinco virgens foram tolas por não terem levado azeite reserva (Mt. 25:1-13)?

O motivo é que uma cerimônia de casamento podia durar até 3 horas, e desta forma, o azeite das lamparinas poderia acabar. As cinco virgens prudentes levaram, além da lamparina, azeita extra na vasilha, mostrando que estavam preparadas.

1.8  Geografia

Por que na carta à igreja de Laodicéia, dizia que os membros eram mornos, nem quentes, nem frios (Ap. 3:16) ?

Esta afirmação reflete o fato de que a espiritualidade daquela igreja estava igual à água que vinha pelos dutos até àquela cidade. Eram quase 10 Km de dutos da cidade de Hierápolis até Laodicéia. Ela saía quente de lá, e quando chegava a Laodicéia já estava morna.

1.9  Estrutura social

Por que nos tempos bíblicos as pessoas jogavam pó sobre a cabeça (Jó 2:12, Ez. 27:30)?

Faziam isso para demonstrar o pesar que sentiam, era como se estivessem numa sepultura, debaixo da terra.

Por que Jesus disse para os discípulos não cumprimentarem ninguém pelo caminho (Lc. 10:4)?

Jesus não estava incentivando nenhuma atitude anti-social, apenas não queria que se atrasassem para sua missão. Acontece que as saudações consumiam muito tempo: cada um se curvava várias vezes, repetia o cumprimento e se comentavam os acontecimentos do dia.

2  Até que ponto os textos bíblicos são limitados por fatores culturais?

Tudo que está escrito na Bíblia serve para hoje? Ou certas passagens bíblicas se limitam ao contexto cultural e histórico no qual foram escritas? Até que ponto a Bíblia é limitada pelo aspecto cultural?

Agora, se existem passagens com esta limitação, como descobrir quais que realmente se aplicam aos nossos dias?

Alguns argumentam, por exemplo, que o mandamento de Efésios 6:5 não se aplica mais aos dias de hoje, visto não haverem mais escravos. Porém, esta interpretação não leva em conta que, apesar de não termos mais escravos , o mesmo principio pode ser aplicado na relação empregador-empregado.

Claro que nem todos os costumes bíblicos têm aplicação hoje em dia. Se tivessem, quando comprássemos uma casa o antigo dono deveria nos dar sua sandália, como vimos em Rute 4:8.

A questão da cultura é muito importante para as duas funções do intérprete da Bíblia: descobrir o significado do texto para os primeiros leitores, dentro daquele contexto cultural, e verificar seu significado para nós hoje, em nosso contexto cultural.

Ilustramos alguns princípios que podem nos ajudar a definir quais hábitos ou costumes culturais bíblicos podem ser aplicados à nossa realidade hoje.

2.1 Certos princípios ou mandamentos são contínuos ou irrevogáveis, e tratam de temas morais e/ou teológicos, são repetidos em outras partes da Bíblia, sendo, portanto, aplicáveis a nós hoje.

Precisamos perguntar se a Bíblia dá ao mandamento um caráter normativo.

O mandamento de Provérbios 3:5-6, sobre confiar no Senhor é repetido em toda a Bíblia, às vezes com outras palavras. O mandamento sobre os cristãos se equiparem com a armadura de Deus em Efésios 6:10-19, não foi de modo algum, abolido. Deus também não voltou atrás, quando em 1 Pedro 5:6, tratou sobre a humildade. O mandamento sobre os homens orarem com corações puros é universal, como se vê pela expressão “em todo lugar”, em 1 Timóteo 2:8.

Quando a Bíblia dá uma ordem explícita e não a anula depois, devemos entender como sendo a vontade expressa de Deus para nossas vidas, em nosso tempo também, independente da cultura.

2.2 Certos princípios ou mandamentos dizem respeito às circunstâncias específicas de um indivíduo, não sendo temas que possuem caráter moral ou teológico, não são aplicáveis aos nossos dias.

As instruções que Paulo dera a Timóteo, em 2 Timóteo 4:11-13, se limitava àquele momento específico.

Não existe nenhum mandamento para que os pais cristãos sacrifiquem seus filhos, como foi ordenado a Abraão fazer (Gn. 22:1-19). Da mesmo forma, isto foi naquele momento específico, para Abraão.

Hebreus 7:12 e 10:1 nos dizem que o sacerdócio segunda a ordem de Arão e até mesmo a lei de Moisés foram abolidos.

No Antigo Testamento a punição para o incesto era o apedrejamento (Lv. 20:11), mas no Novo Testamento o caso era resolvido por meio do desligamento da Igreja (1 Co. 5:1-5).

2.3 Certos princípios ou mandamentos dizem respeito a contextos culturais que se parecem com os nossos nos quais apenas o princípio deve ser aplicado.

O Novo Testamento cita cinco vezes a saudação com beijo (Rm 16:16; 1 Co. 16:20; 2 Co. 13:12; 1 Ts. 5:26; 1 Pe. 5:14). Este era a forma comum de saudação naquela época, porém podemos manter o princípio de saudação em nossa própria cultura, um aperto de mão ou abraço.

Vejamos Deuteronômio 6:4-9. O princípio aqui é o de falarmos aos nossos filhos da Palavra de Deus, sem a necessidade de andarmos com penduricalhos na face e nas mãos.

Embora a carne que compramos hoje não seja dedicada aos ídolos, o princípio aqui é de não escandalizar os irmãos mais fracos em nada.

2.4 Certos princípios ou mandamentos dizem respeito a contextos culturais totalmente diferentes, mas cujos princípios se aplicam.

Certa pecadora demonstrou seu amor por Jesus derramando em seus pés um perfume muito caro (Mt. 26:7-8). É claro que hoje não podemos mais fazer isso, porém, o princípio de amar Jesus deixando de lado nossos próprios valores, permanece.

Quando Moisés esteve na presença de Deus, ele tirou seus sapatos, pois era terra santa. Será que devemos hoje em dia tirar nossos sapatos ao vir para o templo? Aqui, o princípio de reverência e temor a Deus devem ainda nos dirigir.

3  Princípios para descobrir se os costumes bíblicos estão restritos a certas culturas

As etapas abaixo vão nos ajudar a entender um pouco melhor a questão dos costumes culturais e se devemos aplicá-los hoje, ou não.

Primeira: procure saber se o costume daquele época tem significado diferente em nossa cultura. Parece ser este o caso do xale na igreja e do beijo santo. Hoje em dia, o uso do xale e do beijo têm significados diferentes dos originais dos tempos bíblicos. É nesta etapa que devemos analisar se o costume foge totalmente à nossa cultura. O lava-pés, para alguns, é um exemplo disso.

Segunda: se o costume tem significado diferente para nós, descubra o princípio permanente ao qual ele faz menção.

Terceira: verifique se o princípio pode ser expressado num equivalente cultural. Por exemplo 1 Timóteo 2: 1-2. Será que os cristãos que vivem em países que não tem reis, mas primeiros ministros e presidentes, não devem seguir este mandamento? Será que Tiago, em sua carta (Tg. 2:1-4), quis dizer que os ricos deveriam sentar-se ao chão, para que os pobres se acomodassem nos bancos? Não é esta a exigência para hoje, pois se trata de um contexto cultural diferente. Porém, o princípio da humildade continua valendo, e nós não devemos fazer nenhum tipo de distinção entre nós.

Chegamos à conclusão de que o estudo cuidadoso das Escrituras e o discernimento espiritual são elementos importantes para avaliarmos a questão cultural entre a Bíblia e nosso mundo de hoje.

A INTERPRETAÇÃO BÍBLICA NA HISTÓRIA

Em nosso estudo sobre interpretação bíblica é fundamental olharmos para trás e estudarmos o que as gerações anteriores nos deixaram de herança, nos termos da hermenêutica.

Iremos abranger os vários conceitos que guiaram desde os escritas do Antigo Testamento, até os pós modernistas de hoje.

Poderemos aprender com os erros do passado, e nesta questão somos menos desculpáveis do que eles, pois poderemos ver os rastros de uma interpretação bíblica feita fora dos padrões que iremos estudar ao longo deste curso. Alguns destes rastros permanecem até hoje, e deram vida ( e continua dando ) a um sem número de heresias.

Portanto, toda a atenção nesta aula será de suma importância, para não incorrermos no mesmo erro daqueles que vieram antes de nós.

1 A interpretação Judaica

1.1 Esdras e os escribas

Quando os judeus retornaram do cativeiro babilônico, tudo indicava que eles falavam aramaico, não mais o hebraico. Portanto, quando Esdras leu a lei, os levitas tiveram de traduzir do hebraico para o aramaico. Talvez este seja o sentido correto do termo “entender” (Ne. 8:1-12). Temos dois termos nesta passagem: “explicando o sentido” e “entendesse”. Então provavelmente pode ter havido a tradução do hebraico para aramaico e também a explicação da lei propriamente dita.

Desde Esdras até Cristo, os escribas não só ensinavam a lei nas sinagogas, mas também as copiavam. Tinham grande zelo por ela, porém logo cairam no exagero. O Rabino Akiva, foi o líder de uma influente escola para rabinos na Palestina, e ele chegou a afirmar que cada ponto, cada til, cada letra, cada figura de linguagem adotadas na lei possuíam significado oculto, para ele cada versículo da Bíblia possuía muitas explicações.

2 A alegorização judaica

Alegorizar é procurar algum significado oculto no texto. É como se o sentido literal fosse apenas a superfície de um terreno, que devemos escavar até encontrarmos outros significados, que muitas vezes estão dissociados do verdadeiro sentido. Desde a conquista da Palestina por Alexandre Magno, os judeus sofreram a interferência grega em sua cultura. Umas dessas interferências foi na área literária, onde a interpretação judaica teve influência da alegorização grega. Os gregos, ao mesmo tempo que ficavam maravilhados diante de obras como a de Homero, também ficavam constrangidos com o comportamento dos deuses descrito nas obras gregas. Então para contornar este problema acabaram criando a alegorização destes textos, ou seja, buscavam outros significados para as coisas descritas ali. Desta forma os escritores gregos não seriam ridicularizados em outros lugares onde a cultura grega avançava.

Os judeus que viviam em Alexandria tiveram este mesmo problema. Ficavam constrangidos diante das imoralidades do Antigo Testamento. Então, alegorizando os textos do Antigo Testamento, eles justificavam os seus escritos e também conviviam pacificamente com a cultura e filosofia gregas.

A Septuaginta deliberadamente remove algumas coisas que trariam constrangimento aos judeus, assim como alguns antropomorfismos de Deus. Veja como ficaram alguns textos:

■ Êxodo 15:3

Substitui “O Senhor é homem de guerra” por “O Senhor esmaga as guerras”. Na Bíblia católica atual (Bíblia Ave Maria) está como: “O Senhor é o herói das guerras”.

■ Números 12:8

Substitui “A forma do Senhor” por “a glória do Senhor”.

■ Êxodo 32:14

Substitui “Então se arrependeu o Senhor do mal..” por “Então o Senhor se compadeceu”.

Filo, o mais importante alegorista judeu-alexandrino, disse que a alegorização é necessária para eviar expressões aparentemente contraditórias ou impróprias de Deus. Desde quando Deus precisa que indiquemos a Ele o que deve ser escrito ou comunicado a nós?

Filo ensinava que Sara e Hagar representavam a virtude e a cultura, e Jacó e Esaú, a prudência  e a insensatez. O episódio em que Jacó se deita sobre uma pedra simboliza a autodisciplina da alma e o candelabro de sete hásteas que havia no tabernáculo e no templo representa sete planetas. Em outro exemplo, ele sugere que a expressão “se escondeu de Deus”, se referindo a Adão desonra a Deus, que vê todas as coisas. Portanto se trata de uma alegoria.

3 Os pais da igreja primitiva

Pouco se sabe sobre a hermenêutica dos pais da Igreja. Porém em muitos de seus escritos continham numerosas citações do Antigo Testamento, e que este previa a vinda de Cristo.

Clemente de Roma viveu entre 30 e 95 d.C. Citava o Novo Testamento com freqüência.

Inácio de Antioquia (35-107) escreveu sete cartas a Roma e também citava várias vezes o Antigo Testamento e evidenciava a figura de Jesus .

Policarpo de Esmirna (70-155) fez diversas citações do Antigo e Novo Testamento em sua carta aos Filipenses.

A epístola de Barnabé faz 119 menções ao Antigo Testamento. Utiliza alegorias constantemente. Um exemplo clássico é a menção aos 318 servos de Abraão (Gn. 14:14). Existem 3 letras gregas que representam o número 318 e que cada uma tem um significado. Altera grega T equivale a 300 e representa a cruz; as letras I e H equivalem a 10 e 8 respectivamente e são respectivamente as duas primeiras letras de IH(sous) (Jesus em grego). Portanto, os 318 servos representam Jesus na cruz.

Justino Mártir (100 – 164) fazia muitas citações das escrituras em suas obras, quase sempre para mostrar que o Antigo Testamento prenunciava Cristo. Ele afirmava que Lia representa os judeus, Raquel simboliza a Igreja e que Jacó simboliza a Cristo que serve a ambos.

Ireneu (130-202) foi contra os gnósticos e outros hereges de sua época, e ressaltou que a Bíblia deve ser entendida pelo seu sentido óbvio e verdadeiro. Afirmou também que algumas vezes pode-se fazer uso de tipos, pois a Bíblia está repleta deles. Porém algumas vezes sua tipologia chegava a ser uma alegoria. Ele afirmou, por exemplo, que os três espias (e não dois) que Raabe escondeu representavam Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo.

4 Os pais alexandrinos e antioquinos

4.1 Os pais alexandrinos

São representados principalmente por Clemente (não confundir com Clemente de Roma) e Orígenes. Este primeiro afirmou que qualquer passagem da Bíblia pode ter até 5 sentidos distintos:

■ histórico (histórias bíblicas)

■ doutrinário (ensinos teológicos e morais)

■ profético (inclui tipos e profecias)

■ filosófico (alegorias com personagens históricas)

■ místico (verdades morais e espirituais)

Algumas de suas alegorizações incluem ser Sara a verdadeira sabedoria, enquanto Hagar representava a filosofia pagã.

Orígenes, foi discípulo de Clemente, e herdou deste o método alegórico de interpretação das escrituras. Foi o mais ativo escritor cristão da antiguidade, grande apologeta e excelentes trabalhos. Foi um dos que defenderam que o Espírito Santo era uma pessoa, não simplesmente uma força ativa do Universo ou de Deus. Porém defendeu a tese da virgindade perpétua de Maria, o primado de Pedro (Pedro foi o primeiro Papa) e o batismo de crianças, doutrinas que não encontram apoio bíblico.

Defendeu a alegoria pois acreditava que a Bíblia estava repleta de enigmas, parábolas, afirmações de sentido obscuro e problemas morais.

Orígenes desconsiderou quase que totalmente o sentido literal e normal das escrituras.

4.2 Os pais antioquinos
Os líderes da igreja em Antioquia perceberam que o sentido literal das escrituras estava se perdendo com o método de interpretação de Alexandria. Por isso eles incentivaram o estudo das línguas originais e redigiram vários comentários sobre os livros da Bíblia. O elo entre o Antigo Testamento e o Novo eram as profecias e a tipologia, ao invés da alegoria. A interpretação para eles, também podia incluir a linguagem figurada. Dois dos maiores intérpretes desta escola foram Teodoro (350-428) e João Crisóstomo (354-407).

5 Os pais da igreja dos séculos V e VI

Os dois principais expoentes da Hermenêutica deste período foram Agostinho e Jerônimo.

Jerônimo começou, influenciado pela escola de Alexandria, suas obras no sentido alegórico. Porém, algum tempo mais tarde passou a usar um estilo mais literal de interpretação. Porém, ainda acreditava em um sentido mais profundo de intrepretação, ou quando não edificava em nada, alegorizava, por isso aplicou este estilo na história de Judá e Tamar.

Agostinho adotara o sistema alegórico de interpretação das Escrituras. Dizia ele que o grande teste para saber se uma passagem tem sentido alegórico é o do amor. Se uma interpretação apresenta algum sentido contraditório, o texto deve ser alegorizado. Ele ressaltou que a função do expositor é descobrir o sentido das Escrituras, não lhe atribuir sentido. Porém acabou caindo no próprio erro que contestava, pois ele afirmou que o texto bíblico possui mais de um sentido, justificando desta forma a interpretação alegórica.

6 A idade média

Normalmente associamos a idade média a Gregório (540-604), que foi o primeiro papa da Igreja Católica Romana. Gregório fundamentava todo sua interpretação em cima dos trabalhos dos pais da igreja, por isso não devemos estranhar sua alegorização das escrituras. Vejamos um exemplo.

No livro de Jó, os três amigos são os hereges, os sete filhos de Jó são os doze apóstolos, as sete mil ovelhas são os pensamentos inocentes, os três mil camelos são as concepções vãs da vida, as quinhentas juntas de bois são virtudes e os quinhentos jumentos , tendências lascivas.

O mais famoso teólogo da Igreja Católica, na idade média, foi Tomás de Aquino (1225-1274). Acreditava que o sentido literal das Escrituras era fundamental, porém, como ele mesmo dizia, a Bíblia tem autoria humana e divina. Deste modo, o sentido literal era o que o autor quis mostrar, mas deveríamos achar outros significados que Deus colocara ali.

Nicolau de Lira (1270-1349) foi uma personagem essencial para o que ficou conhecido como A Reforma Protestante. Nicolau de Lira trouxe novamente à tona a interpretação literal da Bíblia. Isso foi primordial para que outros expoentes importantes também retornassem a este estilo de interpretação, inclusive alguns séculos depois, um monge por nome Lutero teria forte influência de Nicolau.

João Wycliffe (1320-1384) foi um extraordinário reformador e teólogo. Ensinava que a Bíblia era a única fonte legítima de doutrina e vida cristã. Isto ia contra os ensinamentos da Igreja Católica, que também privilegiava a sua tradição, muitas vezes em detrimento da Palavra. Enfatizando a interpretação gramatical e histórica, escreveu que “tudo o que é necessário na Bíblia está contido em seus devidos sentidos literal e histórico.”. Foi o primeiro tradutor da Bíblia para o inglês. Também foi considerado um dos responsáveis pelo movimento da Reforma, que começara já em sua própria época indo contra o sistema papal.

7 A Reforma

Durante a reforma a Bíblia passou a ser a única fonte legítima de fé e prática. Os reformadores se basearam no método literal de Antioquia. O interesse pelas línguas originais também foi reavivado com o movimento da Renascença na Europa.

Martinho Lutero (1483-1546) foi um grande defensor do método literal, em contraposição ao método alegórico que predominou na Idade Média. Disse Lutero: ” As escrituras devem ser mantidas em seu significado mais simples possível e entendidas em seu sentido gramatical e literal, a menos que o contexto claramente o impeça”.

Na opinião de Lutero, qualquer cristão devoto pode compreender a Bíblia; este ensino ia de encontro à doutrina da Igreja Católica de que apenas a Igreja estava apta a interpretar as Escrituras. Desta forma, a dependência das pessoas à Igreja Católica ficou ameaçada.

O estilo alegórico estava arraigado à Igreja havia séculos. Vamos lembrar que o estilo alegórico fora criado para disfarças os antropomorfismos de Deus e as supostas imoralidades contidas na Bíblia, porém, este estilo continha inúmeros problemas:

■ A alegorização não obedece a nenhuma regra específica de interpretação

■ A imaginação do intérprete passa a ser o limite

■ Encobre o verdadeiro sentido dos textos

■ Tira toda a autoridade da Bíblia

■ Cada um fica com sua interpretação particular

Mas o apóstolo Paulo não usou de alegorias? Veja o texto em Gálatas 4:24-26. Bom, neste caso, o apóstolo deixou claro que estava fazendo uma alegoria, ele literalmente escreveu: “Estas coisas são alegóricas…”. Neste caso o termo allēgorēo significa “dar um sentido diferente do que é expresso pelas palavras”. Ou seja, isto passa a ser um complemento, não uma substituição do texto em seu sentido literal.

Ele usou a alegoria como forma de ilustração para destacar certos fatos relativos a Hagar estão associados a não- cristãos, e certos fatos relativos a Sara estão associados aos cristãos.

Vamos analisar então o método alegórico que foi utilizado durante séculos, e o método alegórico que Paulo usou.

O método alegórico A alegorização de Paulo
1. O sentido histórico é irrelevante (se é que seja verdadeiro). 1. O sentido histórico é relevante e verdadeiro.
2. O significado mais “profundo” é o verdadeiro. 2. Fazem-se paralelos para se chegar a uma conclusão.
3. O significado mais “profundo” é a “exposição” do que está registrado. 3. Paulo não disse que a alegoria era a “exposição” de Gênesis 16.
4. Tudo no Antigo Testamento pode ser alegorizado. 4. Quando Paulo utilizou o estilo alegórico, ele informou que estava alegorizando.

João Calvino (1509-1564), assim como Lutero, rejeitava a interpretação alegórica das Escrituras. Ressaltava o método histórico e gramatical, a natureza cristológica, o ministério esclarecedor do Espírito Santo e o coreto tratamento das tipologias no Antigo Testamento.

Willian Tyndale (1494-1536), famoso por sua tradução do Novo Testamento para o inglês em 1525, também defendia  o sentido literal da Bíblia.

Em resposta à Reforma protestante, a Igreja Católica convocou o Concílio de Trento (entre 1545 e 1563). Algumas resoluções do Concílio de Trento estão relacionadas abaixo:

■ A Revelação divina se transmite pela Sagrada Escritura, mas está a Sagrada Escritura abaixo da Tradição da Igreja, e a palavra do Papa é tida como infalivel acima das Escrituras Sagradas e que estas devem ser interpretadas pelo Magistério da Igreja e pela Tradição.

■ O Concílio, ainda, enfrentou o tema chave da questão da “justificação” e, contra as teologias luterana e calvinistas, ensinou e declarou que a Salvação vem pelas Obras e o perdão pelas penitências.

8 O pós-Reforma

8.1 A expansão do calvinismo

Os séculos XVII e XVIII transcorreram como uma extensão do que havia ocorrido na época da Reforma, onde a Bíblia era fonte máxima de autoridade para fé e prática. Podemos citar como fato importante a Confissão de Westminster, que foi aprovada pelo Parlamento Inglês em 1647. Leia um trecho abaixo:

“A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente”.

A Confissão de Westminster é usada até hoje nas Igrejas Presbiterianas.

8.2 As reações ao calvinismo

O arminianismo foi uma das correntes contrárias ao calvinismo. O teólogo holandês Jacobus Arminius (1560-1609) pregava que o homem possui livre-arbítrio em detrimento da soberania de Deus e sua chamada irresistível.

O misticismo surgiu no pós-reforma, e tinha a concepção de que o homem  pode adquirir conhecimento de Deus em uma experiência subjetiva, à parte da Bíblia.

O pietismo surgiu como um combate à doutrina ortodoxa do tempo da Reforma. Philipp Jakob Spener (1635-1705) repelia o formalismo morto e a teologia de palavras apenas. O tema central era a experiência do crente com Deus, sua condição de pecador e o caminho para sua salvação. Defendia a experiência da fé, pela demonstração e comprovação desta numa piedade prática, através da rejeição do espírito mundano e pela participação ativa dos leigos nas reuniões. Os pietistas, por um lado, desenvolveram uma moralidade por vezes áspera, especialmente no que tange à alimentação, vestimenta e lazer.

8.3 Os estudos textuais e lingüísticos

No período dos séculos XVII ao XVIII começaram grandes iniciativas para descobrir o texto original da Bíblia. Entre 1650 e 1751 surgiram vários comentários da Bíblia, versículo por versículo, edições em grego e comentários críticos.

8.4 O racionalismo

O racionalismo sustentava que tudo deveria ser estudado à luz do intelecto humano. Houve algum interesse pela Bíblia, mas apenas no campo dos ensinamentos morais para a Europa. O restante da Bíblia, com seus milagres e doutrinas podia ser descartado.

9 A era moderna

9.1 O século XIX

Três correntes distintas de pensamento podem ser vistas neste período: o subjetivismo, a crítica histórica e os trabalhos exegéticos (estudos avançados).

No subjetivismo havia a idéia que o conhecimento vinha das experiências individuais. Rejeitavam a autoridade da Bíblia e destacavam o papel dos sentimentos. Foi uma reação ao racionalismo e ao formalismo. O cristianismo deveria ser encarado como uma religião de emoções. A fé era apenas uma experiência subjetiva vivida em momentos de desespero.

A crítica histórica contestava a natureza sobrenatural da Bíblia e sua inspiração. Explicavam os milagres por meio da razão e ciência. Analisavam a Bíblia como um biólogo examinava o cadáver de um animal, o interesse era puramente histórico e intelectual.

Em contraste com essas duas correntes houveram muitos líderes conservadores e eruditos que começaram a escrever comentários exegéticos sobre a Bíblia, neste período surgiram algumas das “Teologias Sistemáticas” em uso até os dias de hoje.

9.2 O século XX

O liberalismo atravessou o século XIX e chegou ao século XX. Nele, a Bíblia é vista como um livro humano, sem inspiração divina. Prega que todos os eventos sobrenaturais podem ser explicados de forma racional. As doutrinas de pecado, depravação total e inferno são rejeitadas pelos liberalistas.

Os neo-ortodoxos negam a inerrância e infalibilidade da Bíblia. A criação do homem, ressurreição de Jesus, o dilúvio são interpretados como sendo mitos. Todos estes fatos aconteceram num nível mitológico, e não na história de fato. Estes “mitos” representavam uma realidade para as pessoas da época, porém não para as pessoas de nossos dias, tais fatos são inaceitáveis hoje.

A nova hermenêutica diz que não devemos tentar achar o sentido dos textos bíblicos, mas sim deixá-los falar conosco, permitir que modifiquem o entendimento que temos de nós mesmos. O verdadeiro sentido da Bíblia  nunca poderá ser desvendado, pois foi escrito a muitos séculos, e nós não temos condições de entender totalmente aquele mundo.

Temos ainda outras linhas de pensamento hoje em dia. A teologia da libertação, muito forte na América Latina, interpreta a Bíblia pela ótica dos excluídos e oprimidos política e economicamente. Teologia feminista, que interpreta a Bíblia a partir do ponto de vista das vítimas de discriminação sexual.

Esta retrospectiva nos mostra que devemos continuar a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos (Judas 1:3), e interpretar a Bíblia histórica, literal e gramaticalmente, dependo da iluminação que o Espírito Santo concede aos crentes. Fazendo da Bíblia a Palavra viva e eficaz de Deus para nossas vidas, única regra de fé e prática.

Categorias:Hermenêutica, História
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