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Os julgamentos e livramentos de Javé

Introdução

O título hebraico do livro canônico que conhecemos como Números é “no deserto”. Este título traduz corretamente a história do povo eleito em sua jornada rumo à terra da promessa.

O título “Números” é uma herança da Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento. Este título foi dado por conta dos recenseamentos do povo de Israel narrados nos capítulos 1 e 26.

O fato de haver tido um recenseamento prova que Javé cumpriu, até aqui, uma parte de suas promessas dadas a Abraão: ser uma grande nação. Agora, este grande povo deveria percorrer sua jornada no deserto para receber a outra parte da promessa: a terra prometida.

O livro de Números vai destacar as provações e rebeliões do povo escolhido durante o período da formação do seu relacionamento com Javé, relacionamento este que se desenrola durante a jornada no deserto. Logo, Números serve também como um diário dos primeiros dias de relacionamento entre o povo da aliança e seu libertador.

O livro registra, durante 38 anos, os fatos importantes antes da morte de Moisés e da entrada do povo em Canaã, a terra prometida.

Teologia e história

O livro de Números, de forma geral, possui duas mensagens:

  • a paciência e a fidelidade de Javé diante da rebelião e murmuração do povo
  • revelação adicional da natureza e caráter de Javé, o Deus da aliança.

A experiência no deserto dera ao povo provas de que Javé era seu provedor fiel. Inclusive, um dos utensílios do tabernáculo (ver aqui) era a mesa com os pães, que significava exatamente a provisão do Deus da aliança para seu povo escolhido.

Do ponto de vista histórico o livro de Números explica a presença do povo hebreu na terra de Canaã.

Do ponto de vista teológico o livro de Números destaca os seguintes princípios:

  • a santidade de Javé
  • a pecaminosidade do homem
  • a necessidade de obediência a Javé
  • a fidelidade total de Javé à aliança com o povo hebreu

Do ponto de vista sociológico explica a transformação de ex-escravos em uma comunidade unida por Javé, preparada para cumprir as obrigações da aliança.

Incredulidade e rebelião

Nos capítulos 13 e 14 de Números somos informados sobre a incredulidade do povo da aliança, que atingira um patamar altíssimo. Eles escolhem não confiar em Javé, a despeito de todo histórico de milagres a seu favor.

A consequência desta escolha foi a rejeição de Javé à geração do Êxodo.

A rebelião, causada pela incredulidade e desprezo de Israel por Javé, traz a perda irreversível das promessas relativas à terra para a geração do êxodo.

A rebelião e incredulidade chegou a um nível tão alarmante que o povo quis assassinar os espias que tiveram uma reação de fé diante dos obstáculos, de acorco com Números 14:10.

Diante deste quadro Javé tenciona destruir o povo e recomeçar tudo a partir de Moisés. Porém, Moisés intercede a favor do povo remetendo a duas características de Javé:

  • sua reputação – conforme Números 14:13-16
  • seu caráter – conforme Números 14:17-19

Este texto nos mostra que Moisés aprendera a conhecer Javé.

Entretanto, este ato de rebelião foi punido com a morte dos 10 espias por meio de uma praga, e, toda a geração do êxodo morreria no deserto.

Sempre mais do mesmo

38 anos se passam, estamos no capítulo 20 de Números, e a murmuração continua a mesma.

No episódio narrado neste capítulo a murmuração do povo levou Moisés a um orgulho e arrogância pecaminosos, que roubou a glória devida a Javé diante do povo, de acordo com Números 20:10-11.

Em Números 21:5 os israelitas, mais uma vez, mostram desprezo pela provisão de Javé. Por isso, são enviadas serpentes venenosas para matar o povo.

Mais uma vez, pela intercessão de Moisés, o povo recebe um meio de escapar da morte, por um ato de fé em Javé, olhando para o símbolo do seu pecado: uma serpente de metal.

Muitos anos se passam, e esta serpente começou a ser adorada como deus em Israel, e, 700 anos depois de ter sido construída, o rei Ezequias destruiu-a conforme 2 Reis 18:4.

Êxodo – Conhecendo o Deus da aliança

As manisfestações de Deus

Continuando nosso estudo no livro de Êxodo, ainda no episódio que Deus se revela a Moisés, nesta questão da manisfestação vísivel de Deus, temos dois aspectos:

  • Teofania – é a manisfestação visível de Deus acompanhada de sinais
  • Epifania – é a manisfestação visível de Deus sem sinais

Neste trecho, o Anjo do Senhor, é o próprio Deus, que apareceu a Moisés de forma audível e visível sem prejudicar sua santidade, preservando a vida de Moisés. Em diversos trechos da Bíblia somos informados sobre a intervenção do Anjo do Senhor, que pode significar um mensageiro, que é o que a palavra anjo significa, ou então é o próprio Deus manifesto. Nestes casos, somente o contexto poderá nos informar se a expressão “Anjo do Senhor” se refere a Deus propriamente ou a um enviado seu.

Durante a manifestação visível de Deus aos humanos, algumas providências devem ser tomadas por Deus para preservar a vida, do contrário haveria morte, pois não pode-se ver a Deus e continuar vivo. Em outros trechos da Bíblia percebemos o medo das pessoas que viam a Deus “face-a-face”, pois tinham consciência de seu pecado em contraste com a santidade absoluta de Deus.

A linguagem utilizada

Neste diálogo entre Deus e Moisés percebemos o uso de muitas expressões chamadas antropomórficas, ou seja, palavras que descrevem ações ou emoções humanas se referindo diretamente a Deus.

Como foi explicado anteriormente, o fato do uso de tais expressões na Bíblia serve para nós possamos entender o processo de intervenção, e interação, entre Deus e os homens.

Serve também para nos ensinar que Deus, apesar de soberano, todo-poderoso e transcendente, Deus também está presente e interage conosco, ou seja, Deus é também imanente.

Note os verbos que Deus usa na conversa com Moisés:

  • tenho ouvido
  • tenho visto
  • desci
  • para livrar

As desculpas de Moisés

A cada desculpa de Moisés, no capítulo 3, Deus revela algo sobre seu próprio caráter.

No verso 11 Moisés pergunta “Quem sou eu…?”, e a surpreendente resposta de Deus, no verso 14, revela sua identidade, seu nome pelo qual ficaria conhecido pelos séculos vindouros: Eu Sou o que Sou. YHWH (יהוה) – O Eterno. YAHWEH é uma formar arcaica do verbo ser, e pode significar aquele que foi, é, está sendo e será.

A partir deste verso 14, Deus começa a descrever suas credenciais divinas e sa atuação na história.

O verbo utilizado no verso 12, “Eu estarei” é o mesmo usado no verso 14 para “EU SOU” (היה hâyâh). Isso significa que não é promessa temporária ou parcial.

O quadro abaixo nos ajuda a entender a questãp das desculpas de Moisés e a revelação do caráter de Deus em suas respostas.

Desculpas de Moisés Respostas de Deus
Quem sou eu? – Preocupação com sua identidade. Serei contigo – Moisés não precisaria ser ninguém se Deus estivesse com ele
Quem o havia enviado? EU SOU – o Deus de seus antepassados
Não crerão que o Senhor me aparaceu. Sinais diversos para Moisés ver o poder e os milagres de Deus
Não falo bem. Não sou eloquente. Deus criou a boa do homem. Deus ensinaria o que Moisés deveria falar.
Envie outra pessoa. Ira de Deus contra Moisés. Envio de Arão junto com Moisés.

Aqui, neste episódio, Moisés, além de conhecer Deus historicamente, pôde conhecê-lo de forma pessoal, ou seja, Moisés nunca havia conhecido Deus desta maneira apresentada na narrativa em questão.

O Pentateuco

Significa 5 rolos, ou livros, e esta denominação pode ter sido popularizada pelos judeus helenistas de Alexandria, no século I d.C. Os judeus hebreus se referiam a esta parte como Torah, que significa instrução de Deus.

Quando falamos sobre o Pentateuco, temos o costume de automaticamente pensar em um rígido padrão de regras que o povo devia obedecer. Claro que este pensamento não está errado, por;em, devemos pensar no Pentateuco também como a Instrução Divina ao povo de Deus, ou ainda, a orientação de Deus a seu povo.

Foi a primeira literatura inspirada e reconhecidamente canônica¹ da Bíblia.

Em Josué 8:31 temos a confirmação de que Moisés foi o autor destes livros e em Lucas 24:44 temos a confirmação por parte do próprio Jesus, citado pelo evangelista.

Porém, no século XVIII, influenciados pelas idéias do Iluminismo e da Renascença, a ciencia da crítica textual passou a ser aplicada à Bíblia. Este propósito nada tinha de teológico, santo ou espiritual, era puramente científico e literário.

Uma das controvérsias levantadas foi a questão dos nomes de Deus no Pentateuco: Yahweh(Javé) e Elohim.

Alguns críticos dizem que o Pentateuco foi a junção de vários textos já existentes, cada um chamando Deus de Javé ou Elohim. Daí surgiu a teoria  dos documentos JEDP, explicado abaixo:

J – Javista – Documentos que descrevem Deus como Javé (YAHWEH).
E – Eloístas – Documentos que descrevem Deus como Elohim.
D – Documentos relacionados unicamente a Deuteronômio, por causa de seu estilo literário.
P – Sacerdotal (Priest em inglês) – Escritos por sacerdotes no exílio na babilônia.

Logo, para estes críticos, o Pentateuco foi a junção de todos estes documentos em um único volume, negando dessa forma, a autoria mosaica.

Uma das explicações plausíveis, é que Moisés tenha escrito as duas tradições (YAHWEH e ELOHIM), para que nada fosse perdido.

Também não podemos desconsiderar a influência de várias mãos na transmissão do texto. Não há nada de errado ou herético nisso, pois isto não anula a inspiração divina, que não depende de autores humanos; mas temos de reconhecer que houve a intervenção humana na transmissão destes textos.

O Pentateuco como literatura

O Pentateuco como literatura tem duas naturezas:

Histórica
Teológica

É composto de três gêneros literários principais:

Poesias
Leis
Narrativas – é o estilo predominante, com mais de 40 por cento do total.

Narrativas

Uma narrativa pode ser definida como:

Uma história prosaica (que usa prosa)
Relato de eventos em ordem cronológica
Tem personagens que interagem
Tem um propósito específico
Tem um único significado

A narrativa preserva memórias antigas para as novas gerações. Faz muito mais que contar a história de forma cronológica, mas diz como Deus salvou o povo, ou mostra um acontecimento do passado refletindo no futuro:

Exemplo: a narrativa de Abraão e Hagar informa como se originaram os ismaelitas.

Temos, no Pentateuco, diversos estilos de narrativas:

Cômico – evolui do problema para a solução, com um final feliz – Narrativa de José
Heróico – baseado nas lutas e triunfos do protagonista – Narrativa de Abraão e Sara
Épico – história heróica em larga escala, com interesses nacionalistas – Narrativa do Êxodo do Egito
Trágico – descreve mudança de sorte, passando da prosperidade para a catástrofe – Narrativa da queda do homem

Poesias
Nem sempre a Bíblia indica as formas poeticas, pois a poesia hebraica é caracterizada pela forma  e estrutura, e não pela rima.

Um exemplo disso são as palavras de Adão a Eva:

Esta é ossos dos meus ossos e…

O cântico de Moisés em Êxodo 15

Leis

A lei implica em instrução, que em alguns casos equivale à vontade: “tua lei está no meu coração”.

Há duas formas de lei:

Apodíticas ou categóricas : “Não matarás”.
Casuísticas ou condicionais: “Se comprar um escravo…”

Temos no Pentateuco 4 códigos principais:

O decálogo – 10 mandamentos, que é a base de todas as demais leis.
Livro da aliança – Êxodo 21 – 23
Código de santidade – Levítico 17 – 26
Código deuteronomista – releitura da lei para uma nova situação histórica

¹ Veja maiores detalhes na seção “Bibliologia” nas categorias ao lado.

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