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004 – Introdução ao Levítico – A parte legal da Bíblia

Introdução ao livro de Levítico –  A parte legal da Bíblia

 O povo de Israel, prestes a se transformar em uma nação, era o povo escolhido por Javé no Antigo Testamento. Javé escolhera este povo sem nenhum tipo de critério ou merecimento e os libertara da escravidão do Egito para os encaminhar para a terra que prometera aos seus antepassados. Esta terra seria o local onde o povo escolhido deveria servir de testemunho para outras nações (Gn. 12:3), e não o deserto.

Portanto, este povo, formado por ex-escravos, precisava, além da terra prometida, de uma lei, um código de conduta, pois nesta terra eles teriam contato com as práticas de povos pagãos. O livro de Levítico contém este código para o povo da aliança, pois reflete a vida santa que este povo deveria ter por causa desta aliança (Lv. 20:26), confrontando estas práticas pagãs com a maneira correta de adorar ao único Deus.

O livro do Êxodo descreve a revelação e a construção do lugar de adoração do povo da aliança, o Tabernáculo (Ex. 25 – 31); o livro de Levítico descreve os detalhes da forma de adoração que este povo deveria prestar a Javé no tabernáculo.

O nome Levítico vem do grego, e significa “o que é relativo aos levitas”. O nome hebraico do livro é “E chamou”, tirado das primeiras palavras do primeiro versículo.

Moisés não é mencionado como autor humano no livro, porém seu nome aparece mais de 25 vezes, quase em todos os capítulos na expressão “O Senhor disse a Moisés”, exceto 2, 3, 9, 10 e 26, o que leva judeus e cristãos tradicionais a atribuir a autoria do livro a Moisés.

Contexto cultural

 Não eram apenas os hebreus que tinham um sistema religioso composto de sacrifícios e sacerdotes no antigo Oriente Médio. Povos egípcios e cananeus realizavam holocaustos, ofertas de comunhão, tinham lugar próprio de adoração das divindades e demais rituais semelhantes aos israelitas.

Porém, algumas diferenças mantinham o povo de Israel distinto do sistema religioso de outros povos, tais como:

  • A revelação direta da palavra divina
  • A manifestação visível de Javé
  • A compreensão do pecado humano e suas consequências
  • A natureza ética do culto a Javé comparado com o culto da fertilidade de outros povos
  • O caráter santo e justo de Javé em contraste com os deuses “humanizados” dos pagãos
  • A proibição de sacrifícios humanos

Estrutura de Levítico

 O livro de Levítico deve ser lido como uma continuação dos capítulos 25 a 40 de Êxodo, pois a primeira expressão do livro “e chamou o Senhor a Moisés” sugere esta estrutura, que na realidade vai até o livro de Números 10:10, narrando o primeiro ano do nascimento da nação de Israel.

As leis são discursos que Javé diz a Moisés, para que ele transmita ao povo. Estas leis eram para todo povo, pois tratava sobre os procedimentos de culto, festas solenes, instruções para os sacrifícios e diretrizes gerais para que a vida religiosa não fosse desassociada da vida civil.

O quadro abaixo mostra as divisões principais do livro:

I. Regulamentos para oferecimento de sacrifícios 1:1 – 7:38
II. Descrições da ordenação de Arão e seus filhos e os primeiros sacrifícios no tabernáculo 8:1 – 10:20
III. Leis regulamentando a pureza ritual 11:1 – 15:32
IV. Liturgia e calendário para o Dia da Expiação 16:1-34
V. Leis com exortações à vida santa 17:1 – 26:46
VI. Leis sobre dízimos e ofertas 27:1-34

Propósito e conteúdo

 

O propósito do livro de Levítico é expresso pela ordem dada no capítulo 11 versos 44 e 45: “…consagrem-se, sejam santos porque eu sou santo…”, uma vez que o povo de Israel fora chamado para cumprir uma missão (ser benção a todas as famílias da terra), por causa do ato redentor de Javé ao executar o Êxodo dos descendentes de Jacó do Egito (Lv. 22:32-33).

Portanto, Levítico é um manual de santidade pelo qual o povo escolhido, o futuro reino de sacerdotes e nação santa (Ex. 19:6), deveria adorar a Javé para usufruir as bênçãos prometidas (Lv. 26:1-13).

O livro de Levítico aborda ainda conceitos sobre:

  • A santidade de Deus
  • O princípio da mediação sacerdotal
  • A pureza do povo da aliança
  • A remissão do tempo pelo calendário litúrgico
  • O princípio de substituição no ritual do sacrifício

A primeira parte deste manual, que abrange os capítulo 1 a 10, prescreve os procedimentos de adoração a Javé, enquanto que a segunda parte, que vai do capítulo 11 ao 27, descreve a prática da santidade no dia-a-dia do povo.

Santidade

 Com base na lei levítica, todas as coisas eram divididas em sagrada e comum. O comum poderia ser dividido em puro e impuro. O puro tornava-se sagrado mediante a santificação e o impuro pela contaminação. O sagrado poderia ser profanado a tornava-se comum, ou mesmo impuro. O que era impuro poderia ser purificado e posteriormente consagrado para tornar-se sagrado.

O apóstolo Paulo recorreu a estes conceitos quando escreveu que todos os seres humanos são impuros por consequência do pecado de Adão (Rm. 5:6-14). Mas o sacrifício redentor de Jesus purifica e santifica o pecador (1 Co. 6:9-11).

Sacrifício

Embora os sistemas sacrificiais entre os povos antigos tivessem a idéia de aplacar a ira dos deuses, o sistema dos hebreus era diferente, pois era revelado divinamente. Além disso, o sistema sacrificial dos hebreus apontava para a uma ética pessoal e comunitária elevada, e também para uma vida de santidade.

De acordo com Levítico 17:11, a vida está no sangue, portanto o sangue no altar simbolizava a purificação da presença de Deus (Hb. 9:21-22). O propósito era preservar a santidade da presença de Deus no meio do povo. A descontaminação realizada por meio do sacrifício de sangue tornava o ofertante puro e permitia a reconciliação com Deus.

Os sacrifícios de animais não eram realizados para a salvação dos pecados das pessoas, mas preservavam a santidade da presença de Deus no meio do povo e permitiam um relacionamento saudável entre Javé e o povo, pois o ritual era simbólico que revelava a atitude interna do ofertante. O propósito dos sacrifícios era também adorar a Deus pela sua presença entre o povo da aliança, e representava a santidade de Deus em contraste com o pecado humano.

O ritual do sacrifício é a base do entendimento da obra redentora de Jesus, tendo sido reconhecido como o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo. 1:29-34). Em outros trechos, a morte de Jesus foi entendida como o sacrifício oferecido de uma vez por todas pelos pecados da humanidade (Rm. 5:6-11; Hb. 10:10-12). O livro de Hebreus traz uma comparação entre o Dia da Expiação com a morte de Jesus (Lv. 16 <-> Hb. 9-10).

Um destaque importante é que todos os sacrifícios de expiação mencionados em Levítico são para pecados cometidos “sem intenção”, pois não havia qualquer sacrifício específico para pecados premeditados ou rebelião maliciosa.

Descanso sabático

 A santidade do povo hebreu seria refletida também no calendário. Para facilitar o entendimento dos israelitas quanto à provisão de Javé suas festas seguiam o calendário agrícola (Lv. 23:4-44), mas a guarda do sábado introduziu o calendário religioso (Lv. 23:1-3).

A guarda do sábado lembraria a Israel que Javé era o Criador (Ex. 20:8-11), além de santificar um tempo de adoração ao Senhor. O sábado lembraria ao povo a aliança com Javé e testificaria que a santidade se baseava em Deus e não na lei ou nos rituais (Ex. 31:12-17; Lv. 26:2). Na época de Jesus este conceito havia se perdido, pois o legalismo obscurecera seu verdadeiro significado (Mt. 12:1-4; Mc. 7:1-13). No diálogo com a mulher samaritana (Jo. 4:21-24) Jesus relembra o verdadeiro significado de um tempo separado de adoração ao Senhor, que não se restringe a lugares ou tempo, mas a hora é sempre agora.

O princípio do sábado era aplicado também à terra, pois a cada 6 anos de plantio e colheita, a terra deveria descansar no sétimo ano. Isso simbolizava que Javé era o provedor de Israel, além do caráter social, pois os pobres poderiam colher livremente dos frutos da terra não cultivada (Ex. 23:11).

De acordo com o profeta Jeremias foi o desrespeito às leis sabáticas que causaram a queda de Jerusalém e o exílio para a Babilônia (Jr. 25:8-14; 2 Cr. 36:17-21). O exílio foi castigo de Javé ao separar da Terra da Promessa o povo escolhido, justamente por negligenciar as leis relativas à terra que o próprio Deus dera a este povo.

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003 – Introdução ao Êxodo – Um povo dentro da Lei

Introdução ao livro do Êxodo – Um povo dentro da lei

O nome do livro vem do Grego Exodos, que significa saída, pois o tema principal do livro é a saída do povo de Israel do Egito. O nome em hebraico significa “Estes são os nomes”, pois o mundo antigo nomeava seus escritos com as primeiras palavras do livro.

O livro do Êxodo continua a narrativa do povo hebreu no Egito, onde ficaram os descendentes de Jacó durante a fome na Palestina. O livro conta o processo de formação da nação de Israel, ou seja, de uma família ao nascimento do povo de Israel por meio da aliança no Monte Sinai, de acordo com a narrativa dos capítulos 19 a 24.

A aliança é o eixo do livro, que mostra o ato redentor de Javé para com o povo que havia escolhido. A saída do povo de Israel no Egito mostra a fidelidade de Javé para com sua própria palavra, e é o ponto máximo da redenção no Antigo Testamento juntamente com o pacto estabelecido no Monte Sinai.

Estrutura do livro

Baseado na geografia o livro do Êxodo pode ser dividido em três partes:

1. Israel no Egito: 1:1 – 13:16

2. Jornada de Israel no deserto: 13:18 – 18:27

3. Israel no Sinai: 19:1 – 40:38

O livro do Êxodo liga Gênesis, que nos conta a razão da Aliança, com Levítico, o livro das leis da Aliança para o povo eleito. A repetição dos nomes dos integrantes da familia de Jacó no capítulo 1 faz a ponte entre os relatos do livro com Gênesis, assim como o final do livro descreve a glória de Javé enchendo o tabernáculo (40:34-38) associando a saída do povo de Israel do Sinai liderado pela nuvem (Nm. 10:11-35).

A primeira parte narra o livramento do povo da escravidão no Egito por intermédio de Moisés, que teve como porta voz seu irmão Arão. Moisés é incumbido e equipado para realizar esta tarefa, por meio de sinais miraculosos. Este trecho também destaca a paciência de Javé com o povo e a obediência devida às suas ordens. Esta libertação foi realizada com o envio de 10 sinais tanto para os egípcios como os hebreus e terminou com a instituição da páscoa como memorial para as futuras gerações.

A segunda parte explica como Javé converteu ex-escravos em seu povo particular (19:1-6). Para isso ele estabeleceu sua aliança, um tratado com este povo, de acordo com o antigo modelo do povo hitita conforme abaixo:

Prefácio

20:2a

Prólogo histórico

20:2b

Condições:

20:3-17(10 mandamentos) e 20:21 – 23:19

Leitura pública

24:7

Lista de testemunhas:

24:1-11

Bênçãos e maldições

23:20-33

A terceira parte esclarece os detalhes do tabernáculo e como Javé estabeleceu sua presença entre o povo por meio deste tabernáculo. O trecho também determina a ordenação do sacerdócio de Arão e seus descendentes, que explica a inclusão na genealogia do capítulo 6, legitimando o sacerdócio. A idolatria e a rebelião de Israel são julgados por Javé (32: 1:10), que tem sua ira retira pela intercessão de Moisés. Neste episódio a misericórdia de Javé é demonstrada, o que tornou a renovação da aliança possível (32:11 – 34:17). Este será o comportamento padrão do povo durante todo o Antigo Testamento.

Propósito e conteúdo

O livro do êxodo é permeado pelos seguintes temas principais:

  • A soberania de Javé sobre as divindades pagãs
  • A lei como padrão religioso e social para Israel
  • O Êxodo como evento significativo da Redenção de Israel no Antigo Testamento
  • A presença de Deus simbolizada pelo tabernáculo

A mensagem do livro ainda inclui o julgamento do opressor de Israel, o Egito, o livramento da escravidão pelo poder miraculoso de Javé, o estabelecimento de Israel como nação sacerdotal para os os outros povos.

Propósitos do livro do êxodo:

Histórico

Preservação do registro histórico do povo de Israel, seu livramento e presença no deserto. (6:4)

Teológico

Auto revelação divina. Deus, além de lembrar-se das promessas feitas aos patriarcas, agora revela-se aos seus descendentes (6:2-3)

Didático

Importância do relacionamento de aliança com Javé e a importância da lei como instrumento desta aliança para moldar a identidade de Israel como povo escolhido (23:20-23)

Javé

O livro de êxodo mostra como Javé se auto-revelou ao povo escolhido de forma progressiva. O nome é geralmente traduzido por “EU SOU”, mas tem implicações muito mais profundas, pois este nome carrega o radical do verbo hebraico ser e pode apontar para a eternidade e auto existência de Deus. Além do seu próprio nome Javé se revelou por outros meios, chamados de teofanias, tais como: o Anjo do Senhor (Ex. 3:2; 14:19), Milagres (Ex. 8:16-19), a sarça ardente (3:2), Sinais da natureza (19:18-20), voz (24:1), nuvem da glória (16:10), coluna de fogo (40:34-38), face a face com Moisés (33:11).

Estas manifestações eram acompanhadas do conteúdo que revelavam a própria essência e caráter de Javé: se lembrava das obrigações da aliança (19:10-15; 25:1-9), Juiz e Salvador (12:27), governa as nações em benefício do povo eleito (15:4-6), santo, mais poderoso que os deuses das nações vizinhas (15:11; 18:10-12), gracioso e misericordioso (32:11-14).

Os dez sinais

O texto dos dez sinais apresenta, na verdade, a luta cósmica entre Javé e os deuses egípcios, por isso o livro menciona que Javé havia colocado Moisés por “deus” para os egípcios, pois este era tido como uma divindade (Ex. 7:1). O texto, além de sinais, traz também a palavra maravilhas, que pode significar tanto a idéia de milagre como a intensificação dos fenômenos naturais.

Esta série de sinais também serviu para evidenciar a predisposição de faraó em não crer em Javé (Ex. 3:19-20), agravado ainda mais pelo endurecimento de seu coração por Deus (Ex. 9:8-12). Após o sexto sinal, aparentemente ele não tinha mais a opção de se arrepender para obedecer à ordem de Javé. É possível que isto seja semelhante ao pecado de blasfêmia contra o Espírito Santo (Mc. 3:2-30), onde Jesus condena os fariseus por atribuir a belzebu os milagres que ele operava.

O quadro anexo compara os sinais com os deuses egípcios. Mas atenção é apenas um quadro comparativo do panteão egipicio, e não deve ser tomado de forma conclusiva.

A páscoa

As gerações futuras receberam a ordem de celebrar a páscoa comemorando o grande livramento dado por Javé ao povo escolhido (Ex. 12:13-14). A festa dos pães sem fermento os faria lembrar da grande pressa com que sairam da escravidão (12:11). A dedicação dos primogênitos os lembrariam da misericórdia de Javé, quando poupou os primogênitos hebreus do anjo da morte (12:23).

O NT interpreta a páscoa hebraica como um tipo da morte sacrificial de Jesus pelos pecadores (Jo. 1:29; I Co. 5:7). A ceia do Senhor é fundamentada no ritual da páscoa tanto como memorial (Lc. 22:7-30), quanto a expiação feita pelo cordeiro pascal (Ap. 5:6-14).

Os dez mandamentos

Estão registrados em Êxodo 20:1-17, onde Moisés não é mencionado como mediador, diferentemente do restante da lei. Talvez, para destacar o caráter eterno e perfeito da lei que Javé dava ao povo da aliança, o livro de Êxodo narra que Deus fala diretamente do céu, e não do monte Sinai. Oito, dos dez mandamentos, estão na forma negativa, ou seja, proibições. Isso ressalta o caráter absoluto da lei divina para o povo.

Os dez mandamentos podem ser considerados atos da graça divina para com seu povo, pois trouxeram um sentido religioso, ético e social a um imenso grupo que, pouco tempo antes, era apenas escravo. A lei representava o conjunto de regras da aliança firmada entre Javé o povo escolhido. No NT Jesus reduz estas leis a duas dimensões básicas e descata que a essência da lei era justiça, misericórdia e fé (Mt. 23:23).

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Levítico – A parte legal da Bíblia

As dificuldades para entender o livro de Levítico

Se há um livro nas Escrituras que definitivamente não é um campeão de biblheteria é Levítico. À exceção de pouquíssimos manuais acadêmicos perdidos nos sebos, há pouco material disponível na internet.

Este post é uma tentativa de resgatar sua utilidade para os dias de hoje.

Existem pelo menos 5 mitos que impedem os cristãos, de forma geral, de estudarem as leis do povo hebreu:

  • Mito ritualista – as leis são ritos sem sentido que foram abolidos pela cruz.
  • Mito histórico – as leis foram dadas em um contexto de uma cultura tão antiga e distante que apenas os museus podem estar interessados
  • Mito ético – as leis não refletem o padrão ético do Novo Testamento
  • Mito literário – as leis são escritas sob uma forma obsoleta, que se torna incompreensível nos dias de hoje.
  • Mito teológico – as leis refletem um deus de ira e julgamento, então a sensibilidade do mundo moderno não consegue atinar com um deus assim.

Ora, mas se a lei ainda é válida para nós hoje, como justificar o sacrifício de animais? Seríamos, no mínimo, presos por crueldade com animais. Além disso, Jesus disse que nenhum til da lei passaria até que tudo se cumprisse.

Diretrizes iniciais para a compreensão de Levítico

Nossa compreensão acerca da lei começa mudar quando inciamos o estudo pela origem da palavra em hebraico: tôrâh, que originariamente significa direção, orientação ou instrução.

A tradução do termo tôrâh na Septuaginta (tradução do AT em grego) para nomos – lei – desvirtuou este significado. A partir daí houve uma compreensão da direção e orientação de Javé, para uma condição legal.

Abaixo estão discriminadas seis diretrizes iniciais para a compreensão do relacionamento entre o cristão e a lei do AT.

A lei do AT é uma aliança – A aliança no AT é baseada em um contrato chamado suserano-vassalo. Este contrato, ou aliança, previa a proteção pelo suserano (um chefe poderoso) e a lealdade do vassalo, mais fraco e dependente. O suserano protegia o vassalo, e o vassalo prometia obediência e lealdade absoluta ao senhor. Esta lealdade era demonstrada seguindo as regras ou orientações estipuladas pelo senhor. A lei de Javé para o povo hebreu seguia este modelo conhecido no mundo antigo.

O AT não é nosso testamento – Não estamos mais obrigados a guardar a forma da antiga aliança, a não ser que sejam explicitamente renovadas pela nova aliança. A lealdade ainda nos é requerida, porém sob outra forma.

Algumas estipulações da antiga aliança não foram renovadas – Duas categorias principais de leis que não se aplicam aos cristãos são: 1) as leis civis israelitas e 2) as leis rituais israelitas. Tais leis aplicavam-se somente aos cidadãos antigos de Israel. Porém devemos tomar cuidado aqui, pois embora as formas não se aplicam mais à igreja, ainda podemos extrair as normas para nossa vida.

Parte da antiga aliança é renovada na nova aliança – O aspecto ético da lei do AT ainda se aplica aos cristãos de hoje. Basta lembrar que Jesus resumiu a lei em duas condições básicas, das quais dependem toda a lei e os profetas.

Toda a lei ainda é Palavra de Deus para nós mesmo que não continue tendo uma forma aplicável para nós hoje – A bíblia contém muitos mandamentos que Deus quer que saibamos, mas que não são necessariamente dirigidos para nós. Um exemplo no NT é o mandamento de Jesus em Mateus 11:4, onde ele manda anunciar a João o que estava acontecendo. Este mandamento não é para nós hoje, embora o fosse para os ouvintes originais.

Somente aquilo que foi explicitamente renovado no NT pode servir de lei para os cristãos hoje – Os 10 mandamentos são o exemplo clássico desta abordagem, pois estes são mencionados de diversas maneiras no NT.

Não perca os próximos posts, onde estudaremos alguns aspectos teológicos e como isso influencia nossa vida.

O CARÁTER DA BÍBLIA

De onde veio a Bíblia?

Como podemos ter certeza de que só os livros inspirados foram incluídos na Bíblia?

A Bíblia contém erros?

Quais são as cópias mais antigas da Bíblia de que dispomos?

O que constitui o caráter inusitado da Bíblia?

Como foi foi que ela se originou?

Quando e como assumiu sua forma atual?

O que significa inspiração da Bíblia?

Estrutura da Bíblia

A palavra Bíblia(Livro) passou a fazer parte da língua moderna por meio do francês, passando primeiro pelo latim biblia, com origem no grego biblos. Originalmente era o nome que se dava à casca do papiro do século XI a.C. Por volta do século II d.C. , os cristãos começaram a usar a palavra para designar seus escritos sagrados.

Os dois testamentos da Bíblia

Compõe-se de duas partes principais:

  • Velho Testamento
  • Novo Testamento

Velho Testamento: escrito pela comunidade judaica e preservado por mais de mil anos antes de Jesus.

Novo Testamento: escrito pelos discípulos de Jesus ao longo do século I d.C.

Testamento: melhor traduzido por aliança. Veio de vocábulos gregos e hebraicos que significam “pacto” ou “acordo” celebrado entre duas partes.

As seções da Bíblia

Divide-se normalmente em 8 partes: quatro no Velho Testamento e quatro no Novo Testamento.

A divisão em quatro seções do Antigo Testamento está baseada em sua tradução para o grego, tambem conhecida como Septuaginta(LXX). A Bíblia hebraica não segue essa divisão tópica dos livros. Na Bíblia hebraica emprega-se uma divisão em 3 partes.

A Lei (Torá) Os profetas(Nebhiim) Os escritos(Kethubhim)
GênesisÊxodo

Levítico

Números

Deuteronômio

A. Profetas anterioresJosué

Juízes

1 e 2 Samuel

1 e 2 Reis.

B. Profetas posteriores

Isaías,

Jeremias

Ezequiel

Os Doze Profetas Menores

A. Livros poéticosSalmos

Provérbios

B. Cinco Rolos(Megilloth)

Ester

Cantares de Salomão

Rute

Lamentações

Eclesiastes

C. Livros Históricos

Daniel

Esdras

Neemias

1 e 2 Crônicas

A junção das primeiras letras de cada uma destas divisões (T, N e K) formam o nome da bíblia hebraica completa: Tanak.

O Novo testamento faz uma alusão a esta divisão em 3 partes da Bíblia Hebraica, quando Jesus disse: “…era necessário que se cumprimisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24:44).

Mesmo a Bíblia Hebraica, ainda hoje manter esta divisão em 3 partes, a Vulgata Latina, de Jerônimo, e as Bíblias posteriores a esta seguiriam o formato tópico das quatro partes que hoje conhecemos. Se combinarmos essa divisão com outra, também largamente aceita, de quatro partes do Novo testamento, a Bíblia pode ser dividida na estrutura geral e cristocêntrica apresentada no quadro abaixo:

Antigo Testamento LeiHistória

Poesia

Profecia

Fundamento da chegada de CristoPreparação para chegada de Cristo

Anelo pela chegada de Cristo

Certeza da chegada de Cristo

Novo Testamento EvangelhosAtos

Epístolas

Apocalipse

Manifestação de CristoPropagação de Cristo

Interpretação e aplicação de Cristo

Consumação em Cristo

Capítulos e versículos da Bíblia

Não existiam nos originais.

Foram feitas para facilitar a tarefa de citar as escrituras.

Stephen Langton, professor da Universidade de Paris, e mais tarde, arcebispo da Cantuária (Reino Unido), dividiu a Bíblia em capítulos em 1227.

Robert Stephanus, impressor parisiense, acrescentou a divisão em versículos em 1551, na Reforma Protestante.

A inspiração da Bíblia

A característica mais importante da Bíblia não é sua estrutura ou forma, mas o fato de ter sido inspirada por Deus.

Quando falamos de inspiração, não estamos tratando de inspiração poética, mas da autoridade Divina.

A Bíblia é um livro singular, foi literalmente “soprada por Deus”.

Definição de inspiração

Embora a palavra inspiração seja usada apenas uma vez no NT (2 Tm 3:16) e outra no VT (Jó 32:8), o processo pelo qual Deus transmite sua mensagem autorizada ao homem é apresentado de muitas maneiras.

Descrição bíblica de inspiração

2 Timóteo 3:16 – Literalmente “soprado por Deus” (do grego theopneustos), por isso dotado da autoridade divina.

1 Coríntios 2:13 – Quaisquer palavras ensinadas pelo Espírito Santo são palavras divinamente inspiradas.

2 Pedro 1:21 – As mensagens anunciadas não eram fruto da imaginação dos homens, mas foram “sopradas pelo Espírito”.

1 Pedro 1:11 – Deus é o fato de eles sondarem seus próprios escritos.

Combinando as passagens que nos ensinam sobre a inspiração divina, podemos concluir que:

Homens, movidos pelo Espírito, escreveram palavras sopradas por Deus, as quais são a fonte de autoridade para a fé e para a prática cristã.

Definição teológica da inspiração

Na única vez que a palavra inspiração é usada, ela se aplica aos escritos e não aos escritores. Ou seja, o produto final – Bíblia é inspirada, mas não seus escritores. Todavia, seus autores foram movidos pelo Espírito Santo a escrever as palavras que o próprio Deus queria que escrevessem. Por exemplo: Paulo escreveu mais uma carta à Igreja de Corinto, porém a mesma não está em nossa Bíblia atual.

a) Por Deus:  At 1:16; 2Tm 3:16-17; Hb 10:15-17; 2Pd 1:20-21.

b) Verbal: (= palavra por palavra, e não apenas os pensamentos principais): Mt 4:4-5; 5:17-18; 1Co 2:13

c) Plenária: (= toda ela, de capa a capa, sobre todo e qualquer assunto): 2Tm 3:16-17.

d) Infalível e inerrável: (= não contém nenhum erro, é incapaz de errar e de falhar): Mt 5:18; Jo 10:35b.

Temos 3 elementos essenciais no processo de inspiração:

Causalidade divina: Deus é a fonte primordial da inspiração da Bíblia. O elemento divino estimulou o elemento humano. Deus falou aos profetas e, em seguida, aos homens, mediante esses profetas. Deus revelou a estes homens as verdades da fé, e estes homens de Deus as registraram.

Mediação profética: Os profetas não eram robôs que ouviam um ditado de Deus e escreviam. Cada autor teve seu próprio estilo de escrita, suas personalidades não foram anuladas. Deus usou suas personalidades humanas para nos transmitir suas verdades.

Autoridade escrita: A Bíblia é a última palavra no que concerne a assuntos doutrinários e éticos. Todas as controvérsias teológicas e morais devem ser tratadas sob a luz da Bíblia. As escrituras receberam sua autoridade do próprio Deus, que falou por meio dos profetas. No entanto são os escritos dos profetas, e não os profetas que retêm a resultante da autoridade divina. Todos os profetas morreram, porém os escritos proféticos permanecem. Jesus disse que suas palavras não passariam. Entretanto Jesus nunca escreveu nada, mas sim os apóstolos. Como Jesus mesmo predisse: as palavras dele (Deus) permanecem para sempre, embora os apóstolos já tenham morrido.

Distinções importantes

Inspiração – Revelação e Iluminação

Revelação: exposição da verdade. Deus revelou seus pensamentos aos profetas.

Inspiração: Transmissão da verdade. Deus inspirou os profetas a escreverem essas verdades.

Iluminação: Compreensão da verdade. Deus nos ilumina a entender o que a Bíblia diz. (1 Co 2:14)

Inspiração dos originais, não das cópias

A rigor apenas os escritos originais foram realmente inspirados. Porém temos a ação preservadora de Deus para que cópias fossem feitas deste originais sem alterar a mensagem de Deus para os homens.

A isto chamamos de inspiração derivada, uma vez que foram cópias fiéis dos autógrafos.

Para fins práticos, a Bíblia em nossa língua e época, por ser transmissão exata dos originais, é a Palavra de Deus inspirada.

Alguns perguntam como é possível afirmar  que os originais não continham erro, se não podem ser examinados. A resposta é que a inerrância bíbl;ica não um fato que pode ser comprovado, mas uma crença baseadano ensino da Bíblia e respeito de sua inspiração, bem como baseada na natureza altamente precisa da grande maioria das Escrituras transmitidas e na ausência de qualquer prova em contrário. Afirma a Bíblia ser a declaração de um Deus que não pode cometer erros.

NOTA ARQUEOLÓGICA: Os pergaminhos achados no Mar Morto, revelaram a exatidão de trechos do profeta Isaías com os textos da época. Isto nos fornece base para crermos que a Bíbia é realmente a palavra preservada de Deus até nossos dias.

Inspiração do ensino

O que a Bíblia nos ensina foi inspirado e não apresenta erro. Porém, devemos ressaltar que na Bíblía estão registrados eventos que ela mesma condena, pois são de fato, pecado, e não devem ser imitados ou seguidos.

A Bíblia narra por exemplo algumas mentiras de Satanás. O que a inspiração divina nos garante é que se trata de um registro verdadeiro de uma mentira satânica, uma perversidade real de Satanás.

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