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Jesus, o sumo sacerdote

A figura do sumo sacerdote é muito importante no judaísmo, e encontramos no judaísmo tardio uma relação entre o Messias-Rei e o sumo sacerdote. Lemos em Gênesis sobre o misterioso sacerdote Melquisedeque, diante do qual Abraão prestou reverência e entregou o dízimo. No Salmo 110 este sacerdote também é citado, atribuindo ao rei as funções sacerdotais. Jesus cita este salmo, conforme Mc. 12:35 dizendo que o Messias, além da linhagem davídica também é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.

O judaísmo conhecia a figura do sacerdote que deveria completar o sacerdócio judaico num tempo escatológico, pois este sacerdote, dentro de seu contexto cultural poderia satisfazer as necessidade do povo de contato com Deus, uma vez que o sacerdote comum causava decepção. Logo, a esperança de um sacerdote do fim dos tempos representava renovação.

A princípio, quando Jesus profere as palavras contra o templo parece-nos improvável que Jesus tenha atribuído a si mesmo funções sacerdotais. Porém, o evangelho de João dá uma conotação diferente a este episódio, quando afirma ser ele mesmo, Jesus, aquele que substitui o templo. Falar de Jesus como sumo sacerdote é ter a epístola aos Hebreus como foco de estudo, cujo centro é o capítulo 7 tendo como base Gênesis 14 e o Salmo 110. O autor da carta busca resolver a questão do sacerdócio temporário do Antigo Testamento e que deve ser substituído pelo sacerdote do novo pacto.

Temos também uma relação direta entre Isaías 53:12 e Hebreus 9:28, onde lemos que Cristo foi sacrificado de uma vez por todas para tirar os de muitos homens. Neste trecho a dependência da noção judaica de sumo sacerdote ampara a idéia do sacrifício oferecido pelo mediador em prol da expiação dos pecados do povo. A concepção judaica de sumo sacerdote enriquece a cristologia ao destacar a soberania de Cristo como sumo sacerdote quando se sacrificou. A carta aos Hebreus destaca outro ponto fundamental: Jesus leva a humanidade à perfeição, tornando-se ele mesmo perfeito (Hb. 7:28; Hb. 10:14), pois, para conduzir a humanidade à perfeição o sumo sacerdote deve passar por todas as etapas da vida humana. Hebreus menciona a ausência do pecado em Jesus, mas presume a possibilidade de pecar, e, aqui nessa carta, isso tem um papel muito maior do que nos evangelhos sinóticos, pois, é justamente a possibilidade de pecar que torna sua impecablidade notória. Esta é a afirmação mais ousada de todo Novo Testamento e que realça todo aspecto da humanidade de Jesus.

É necessário que Jesus sofra com os homens, para poder sofrer por eles. A obra sacerdotal de Jesus envolve o aspecto de sua glorificação, ou seja, quando “penetrou mais além do véu” levou consigo os seus em sua ressurreição. O papel de sumo sacerdote de Jesus engloba dois fatores importantes: o sacrifício expiatório realizado de uma vez por todas e a eternidade deste sacrifício. A encarnação de Jesus não foi apenas para realizar o seu sacrifício eterno, mas para interceder em nosso favor ainda hoje, pois foi humano como nós e pode se solidarizar conosco. A doutrina cristológica de sumo sacerdote une os três aspectos da sua obra terrena, e expressa mais claramente a idéia que o Novo Testamento faz de Jesus.

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Jesus, o servo sofredor

O título “Servo Sofredor” é um dos mais antigos dados a Jesus, e está ligado à idéia de uma substituição progressiva que começou na criação. Este é também um título tipicamente judaico, que nos remete aos textos de Isaías 42:1-3 e Isaías 52:13- 53:12.

Estes textos trazem bastante informação sobre sua obra e até sua morte, mas não traz nenhuma informação sobre sua identidade, que parece ter sido conhecida de seus leitores, mas são um enigma para os estudiosos de hoje.

Alguns deduzem este servo como o próprio povo de Israel, de acordo com o trecho de Isaías 49:3. Outros deduzem ser uma parte do povo de Israel, chamada de remanescente. E, por fim, alguns reduzem o Servo da coletividade para um indivíduo. Seguindo o princípio da substituição na história da salvação, uma redução progressiva acontece: da criação ao povo de Israel, do povo de Israel ao remanescente, e do remanescente a um só homem, Jesus. A característica essencial da substituição é o sofrimento. O Servo é aquele que sofre, e seu sofrimento substitui o sofrimento de muitos homens. Esta obra substitutiva do Servo restaura a aliança com Deus, ou seja, o Servo é o mediador entre os homens e Deus.

Os teólogos liberais costumam dizer que Jesus nunca atribuiu à sua morte um valor expiatório, pois, segundo a abordagem liberal, foi o apóstolo Paulo que entendeu desta maneira. De certa forma isso é verdade, porém devemos entender que Jesus se pôs a viver esta obra expiatória a ensiná-la. Além disso, Jesus falou muito sobre seu sofrimento e morte como parte integrante de sua obra terrena, sem sombra de dúvida, para cumprir o plano da salvação.

Nos textos da instituição da Ceia (Mc. 14:24; Mt. 26:28; Lc. 22:20; 1 Co. 11:24) Jesus deixa muito claro seu sofrimento e morte por muitos homens. Nestes textos estão presentes os conceitos de aliança e substituição, que são duas idéias chaves, segundo o Antigo Testamento, da obra que o Servo de Deus deveria realizar. Ao restabelecer a aliança entre Deus e seu povo, segundo os textos de Is. 42:6 e 49:8, o Servo se torna a própria aliança em pessoa. Nos evangelhos encontramos poucas referências que estabelecem uma relação direta entre Jesus e o Servo Sofredor de Isaías. Em Mt. 8:16, o evangelista estabelece como o cumprimento da profecia de Isaías as curas realizadas por Jesus, e não seu sofrimento substitutivo. Enquanto o profeta diz que, por meio do seu sofrimento e morte, o Servo toma as enfermidades dos outros, o evangelista diz que Jesus levou embora as enfermidades. Na teologia cristã primitiva, de certo modo, este pensamento é correto, pois as curas feitas por Jesus previam sua obra definitiva realizada por seu sofrimento.

João, ao narrar o episódio do batismo de Jesus, é o único que liga a idéia da missão do Servo Sofredor de Isaías com a vocação e chamado de Jesus, ao compará-lo com o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O cristianismo primitivo herdou uma concepção muito antiga de Jesus como Servo de Deus, provavelmente vinda do apóstolo Pedro. Observamos este padrão em sua primeira carta, onde com insistência cita trechos do livro do profeta Isaías que tratam sobre o Servo de Deus, conforme 1 Pe. 2:21 ss.

Em Paulo, apesar de não haver o emprego da expressão Servo de Deus, a morte expiatória de Jesus ocupa o lugar central. Depreendemos isso pelos textos de 1Co. 15:3 e Fl. 2:6 que foram herdados da tradição da igreja, já que ele mesmo declara tê-la recebido. O título Servo de Deus, ao contrário do título de profeta, explica a razão da missão de Jesus no mundo, pois foi por meio do seu sofrimento e morte que Jesus veio em sua missão de salvar o mundo na história da salvação. O título de profeta está restrito à atuação presente de Jesus, mas o Servo de Deus provê um caráter definitivo da redenção, e que representa o ponto máximo da história da salvação.

Jesus, o profeta

Antes de mais nada convém dizer que o título de profeta, aplicado a Jesus, não indicava sua profissão, pois, no judaísmo do primeiro século, esta profissão,  organizada e regular, já não existia mais. Muito pelo contrário, pois onde Jesus é identificado como profeta, não o é simplesmente como um profeta, mas como o profeta, que veio cumprir toda a profecia. Israel esperava o profeta escatológico, pois devido à longa tradição profética de Israel a palavra nabi ganhara diversos sentidos. O termo profeta originariamente significava o profeta extático, e ganhou outro significado quando surgiu uma classe de profetas profissionais, que emitiam oráculos; foi a esta classe que a idéia escatológica ficou associada. Este profetismo, que não apenas transmitia visões, mas, sobre tudo as interpretava, havia se extinguido de Israel na época de Jesus. Por conta disso, a volta deste tipo de profetismo era visto sob lentes escatológicas, ou seja, reapareceria somente no fim dos tempos, conforme o texto de Joel 2:28 em diante. É neste contexto que o aparecimento de João Batista é visto. Então, dada esta esperança escatológica, que se cumpriria na vida de um único profeta, João Batista, e depois Jesus, foi considerado profeta.

A idéia judaica de profeta converge para apenas um profeta, encarnado em diferentes homens ao longo da história, que aparece em sua forma definitiva no fim dos tempos para a realização final da profecia. Este pensamento começa no Pentateuco, quando Moisés prediz que Deus levantaria outro profeta semelhante a ele (Dt. 18:15). Nesta linha de pensamento, o profeta mais esperado era Elias, que é identificado como aquele que prepararia o caminho de JAVÉ (Ml. 4:5). Este profeta apareceria e pregaria os últimos mistérios de Deus e a última oportunidade ao arrependimento para salvação, porém ele não seria um mero precursor do Messias, mas seria o próprio Messias. No Novo Testamento João Batista é visto como o profeta anunciado no Antigo Testamento, pois a fórmula que Lucas emprega para referir-se a ele é identica à usada para os profetas veterotestamentários. Jesus inclusive afirma esta posição do judaísmo tardio ao dizer que João Batista era o Elias ressucitado. Quando analisamos os textos que se referem a Jesus com o título de profeta, é necessário fazer uma distinção entre aqueles que tratam de Jesus como um profeta, justamente por terem havido diversos, daqueles onde ele é tatado como o profeta escatológico. Porém, a noção que Israel tinha do profeta escatológico está ligada à idéia do profeta comum.

No texto de Lucas 7:16, que relata o episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim, todos glorificaram a Deus dizendo que um grande profeta havia se levantado entre eles. Neste trecho não há artigo definido indicando o profeta, ou seja, o povo, naquela ocasião não considerou Jesus como o profeta do fim dos tempos, mesmo porque este não precisaria do adjetivo “grande”. Também em Mateus 21:46 os fariseus temeram prender a Jesus pois a multidão o tinha por profeta, ou seja, um profeta, e não o profeta escatológico. Porém, temos os textos que tratam de Jesus como o profeta do fim dos tempos. Em Mc. 6:14, estão registradas as mais antigas crenças sobre Jesus, tais como: Elias, um profeta como os antigos profetas e João Batista. Estas declarações, pela antiguidade do texto, vem antes até mesmo de títulos fundamentais de Jesus como Cristo e Filho do Homem. O fato de comparar Jesus com João, é relevante, pois João foi considerado o profeta do fim dos tempos, logo, nesta passagem, Jesus também é identificado como tal. O curioso aqui é que Jesus não recebe o nome de um profeta do passado, mas de um profeta que vivera recentemente numa época já escatológica.

A comparação com Elias era a mais coerente com aquela época, pois se aguardava o seu retorno escatológico, conforme dito acima. No terceiro caso, segundo o texto ocidental, Jesus não seria comparado com um dos profetas, mas identificado com eles. Ou seja, nos três casos o resultado é o mesmo: trata-se do profeta do fim dos tempos. A úncia diferença é que nos dois primeiros casos da-se um nome para Jesus, enquanto que no último esta nomeação não é feita. Esta proposição é confirmada no trecho de Mc. 8:28, quando os discípulos respondem a Jesus com as três afirmações básicas sobre sua pessoa, ou seja, alguns diziam que ele era João Batista, outros Elias e, ainda alguns, um dos profetas. Observamos que os evangelhos sinóticos trazem as correntes de pensamento mais populares sobre Jesus, e, o que é mais curioso, é que nem Marcos, nem Mateus ou Lucas utilizaram este título para se referir a Jesus em sua crença pessoal, mas relataram a visão popular sobre Jesus.

 Jesus não se considerou o profeta escatológico, mas atribuiu este papel a João Batista, que, segundo Jesus, foi tratado de forma desprezível, de acordo como os registros em Mt. 11:14 e Mt. 17:12. O evangelho de João mostra que a multidão atribuiu a Jesus o título de profeta, como está narrado no episódio da multiplicação dos pães (Jo. 6:14). Na primeira parte do livro de Atos, que trata das tradições judaico-cristãs, Jesus é identificado duas vezes como o profeta predito por Moisés, porém na segunda parte de Atos, bem como nas epístolas, não encontramos esta identificação. A vertente judaico-cristã do cristianismo, baseada no Evangelho dos Hebreus, encarou Jesus como o profeta escatológico. O conhecimento insuficiente deste evangelho, uma vez que apenas alguns fragmentos deste estão disponíveis, é compensado pelo Kerygmata Petrou, onde encontramos uma especulação gnóstica do título “verdadeiro profeta” atribuído a Jesus. Os documentos do Kerygmata Petrou associam o título de “verdadeiro profeta” a Adão, e que, durante a história foi encarnou-se em Enoque, Noé, Abraão, Isaque, Jacó e Moisés. Moisés então aponta para um profeta semelhante a ele, que aboliria os sacrifícios, uma função essencial do verdadeiro profeta. Esta linhagem segue até Jesus, que é a encarnação perfeita do verdadeiro profeta desde Adão.

Esta teoria judaico-cristã carrega em seu âmago a crença de que a história se desenvolve continuamente sob pares antagônicos. Sendo Adão o primeiro “verdadeiro profeta” seu par antagônico é Eva, o princípio da falsa profecia. Isaque, o verdadeiro se opõe a Ismael. Da mesma maneira Jacó, o verdadeiro profeta se opõe a Esaú, o falso profeta. Outrossim, Moisés sofre oposição de Arão. E finalmente Jesus, o “verdadeiro profeta”, o escatológico, tem como par antagônico João Batista, cujos seguidores sofrem crítica implícita no Evangelho de João. Estas ideías do cristianismo judaico primitivo não influenciou a dogmática cistã posterior, porém exerceu grande influência em outra religião monoteísta, na qual o profeta desempenha um papel central: o islamismo. De certa forma o papel de Jesus como profeta representa uma vantagem em relação ao de Messias, pois, na concepção judaica, o Messias instituiria um novo programa de governo em relação ao governo romano instituído além da restauração de Jerusalém aos tempos davídicos, enquanto que o papel de Jesus como profeta dos últimos tempos representa o seu lado humano. Este profeta vem justamente preparar o mundo para a vinda do Reino de Deus, onde o Messias é seu representante máximo. O conceito profético sobre Jesus explica o caráter escatológico de sua mensagem: o Reino de Deus se aproxima. Não devemos reduzir o papel de Jesus apenas ao profeta do fim dos tempos, pois o título de profeta a Jesus explica sua obra terrena, e sua mensagem preparatória sobre a vinda do Reino de Deus.

A EXTENSÃO DO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO

Assim como o Velho Testamento havia livros do cânon Neotestamentário que foram aceitos por todos, livros rejeitados por todos, livros aceitos por alguns e livros questionados por alguns.

Os livros aceitos por todos – Homologoumena

Assim como no Velho Testamento a maioria dos livros foi aceita pela Igreja logo no início. Em geral, 20 dos 27 livros do Novo Testamento pertencem a esta classificação. Incluem-se todos exceto: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. Os outros três foram omitidos em algumas épocas. Como os livros desta classe foram aceitos por todos não trataremos mais deles e concentraremos nossos estudos nas outras classes de livros.

Os livros rejeitados por todos – Pseudepígrafos

Entre os séculos II e III surgiram numerosos livros heréticos, que receberam o nome de pseudepígrafos, ou escritos falsos. Eusébio os classificou de “totalmente absurdos e ímpios”.

Praticamente nenhum pai da Igreja, nenhum cânon ou concílio declarou apoio a estes escritos, pois em sua maioria eram gnósticos, heréticos e registravam supostos fatos misteriosos não narrados nos evangelhos canônicos (por exemplo a infância de Jesus). Tinham uma desmedida fantasia religiosa. As seitas que mais adotaram este livros foram os:

  • Gnósticos – Ensinavam que a matéria era má e negavam a encarnação de Jesus.
  • Docetas – Ensinavam a divindade de Jesus e negavam sua humanidade; diziam que era apenas uma aparência de humano.
  • Monofisistas – Ensinavam que Jesus tinha uma única natureza, uma fusão da humana e divina.

O interesse destes livros por parte dos cristãos é puramente histórico.

O número dos pseudepígrafos

Até o século XIX haviam sido achados 280 obras desta natureza. Abaixo relacionamos as principais e as mais tradicionais neste quesito.

Evangelhos
1. O Evangelho de Tomé (século I) é uma visão gnóstica dos supostos milagres da infância de Jesus.
2. O Evangelho dos ebionitas (século II) é uma tentativa gnóstico-cristã de perpetuar as práticas do Antigo Testamento.
3. O Evangelho de Pedro (século II) é uma falsificação docética e gnóstica.
4. O Proto-evangelho de Tiago (século II) é uma narração que Maria faz do massacre dos meninos pelo rei Herodes.
5. O Evangelho dos egípcios (século II) é um ensino ascético contra o casamento, contra a carne e contra o vinho.
6. O Evangelho arábico da infância (?) registra os milagres que Jesus teria praticado na infância, no Egito, e a visita dos magos de Zoroastro.
7. O Evangelho de Nicodemos (séculos II ou V) contém os Atos de Pilatos e a Descida de Jesus.
8. O Evangelho do carpinteiro José (século IV) é o escrito de uma seita monofisista que glorificava a José.
9. A História do carpinteiro José (século V) é a versão monofisista da vida de José.
10. O passamento de Maria (século IV) relata a assunção corporal de Maria e mostra os estágios progressivos da adoração de Maria.
11. O Evangelho da natividade de Maria (século VI) promove a adoração de Maria e forma a base da Lenda de ouro, livro popular do século XIII sobre a vida dos santos.
12. O Evangelho de um Pseudo-Mateus (século V) contém uma narrativa sobre a visita que Jesus fez ao Egito e sobre alguns dos milagres do final de sua infância.
13-21.Evangelho dos doze, de Barnabé, de Bartolomeu, dos hebreus (v. “Apócrifos”), de Marcião, de André, de Matias, de Pedro, de Filipe.

Atos
1. Os Atos de Pedro (século II) contêm a lenda segundo a qual Pedro teria sido crucificado de cabeça para baixo.
2. Os Atos de João (século II) mostram a influência dos ensinos gnósticos e docéticos.
3. Os Atos de André (?) são uma história gnóstica da prisão e da morte de André.
4. Os Atos de Tomé (?) apresentam a missão e o martírio de Tomé na Índia.
5. Os Atos de Paulo apresentam um Paulo de pequena estatura, de nariz grande, de pernas arqueadas e calvo.
6-8. Atos de Matias, de Filipe, de Tadeu.

Epístolas
1. A Carta atribuída a nosso Senhor é um suposto registro da resposta dada por Jesus ao pedido de cura de alguém, apresentado pelo rei da Mesopotâmia. Diz o texto que o Senhor enviaria alguém depois de sua ressurreição.
2. A Carta perdida aos coríntios (séculos II, III) é falsificação baseada em 1Coríntios 5.9, que se encontrou numa Bíblia armênia do século V
3. Às (Seis) Cartas de Paulo a Sêneca (século IV) é falsificação que recomenda o cristianismo para os discípulos de Sêneca.
4. A Carta de Paulo aos laodicenses é falsificação baseada em Colossenses 4.16. (Também relacionamos essa carta sob o título “Apócrifos”).

Apocalipses
1. Apocalipse de Pedro (também relacionado em “Apócrifos”).
2. Apocalipse de Paulo.
3. Apocalipse de Tomé.
4. Apocalipse de Estêvão.
5. Segundo apocalipse de Tiago.
6. Apocalipse de Messos.
7. Apocalipse de Dositeu.

Os três últimos são obras coptas do século III de cunho gnóstico, descobertas em 1946, em Nag-Hammadi, no Egito.

Outras Obras
1. Livro secreto de João
2. Tradições de Matias
3. Diálogo do Salvador

Visto que a rejeição a estes livros foi unânime, e em razão das heresias e erros grosseiros apresentados são adequadamente chamados de pseudepígrafos. Seja qual for a verdade contida nestes livros, perdeu-se em virtude das fantasias apresentadas e tendências heréticas. Não acrescentam nem mesmo valor devocional, a não ser histórico, pois revelam a crença de seus autores.

Os livros questionados por alguns – Antilegomena

Houve sete livros cuja autenticidade foi questionada por alguns dos pais da Igreja, e por isso, ainda não tinham tido reconhecimento até volta do século IV. Estes livros foram: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. O fato destes livros não terem sido universalmente reconhecidos não significa que não houvesse aceitação dos mesmos por parte da Igreja. O fato também de que houve algum questionamento sobre estes livros não quer dizer que sua canonicidade esteja diminuída, de forma alguma! O problema principal do questionamento de alguns livros se referia muito mais à dificuldade de comunicação entre as comunidades cristãs do Oriente e Ocidente. A partir do momento que todos os fatos envolvidos no reconhecimento destes livros ficaram evidentes para ambas as comunidades, o total dos 27 livros foi imediatamente reconhecida como tendo autoridade divina.

O número dos antilegomena

Vamos examinar cada um dos livros que sofreram algum tipo de objeção com relação ao reconhecimento de sua autoridade divina.

Hebreus – A principal questão envolvendo o não reconhecimento deste livro por parte da Igreja do Oriente foi o autor não se identificar. O autor também não toma para si a qualidade de apóstolo(Hb. 2:3). Porém, os cristãos do Oriente não sabiam que os cristãos do Ocidente já haviam reconhecido sua autenticidade. Outro fato que contribuiu para o não reconhecimento foi o fato de alguns grupos heréticos terem usado Hebreus para apoio de algumas de suas heresias. Já no século IV, com a ajuda de Jerônimo e Agostinho, a carta aos Hebreus foi definitivamente incorporada ao cânon do Novo Testamento. O conteúdo do livro é altamente confiável, bem como sua reivindicação de deter autoridade divina (1:1; 13:22)

Tiago – Assim como Hebreus, a veracidade da carta de Tiago foi questionada. Principalmente pelo fato do autor não afirmar ser apóstolo. Porém, os primeiros leitores e aqueles que se seguiram, puderam atestar que este Tiago pertencia ao círculo apostólico, era o irmão de Jesus. Contudo, a Igreja Ocidental não teve acesso a esta informação. Também havia a questão da justificação pela fé e as obras que Tiago cita em sua carta. A princípio pareceu conflitante com os ensinos de Paulo sobre a justificação pela fé somente. Até Martinho Lutero chamou Tiago de “carta de palha”, colocando-a no fim do Novo Testamento. Então, com os esforços de Orígenes, Eusébio (que pessoalmente recomendava a carta), Jerônimo e Agostinho a veracidade desta carta foi reconhecida pela Igreja Ocidental.

Segunda carta de Pedro – Nenhuma outra carta do Novo Testamento gerou tantas dúvidas quanto a segunda epístola de Pedro. As dúvidas surgiram em decorrência da diferença de estilos entre esta e a Primeira carta do apóstolo. Descobertas demonstram que cristãos coptas (Egito) usavam esta carta em épocas bem antigas. Clemente de Roma, e a obra “Pseudo-Barnabé”, dos séculos I e II  citam a segunda carta de Pedro. Há também, evidências internas (doutrinas) de que se trata de uma carta do Apóstolo Pedro. As diferenças de estilos podem ser explicadas, pois em sua primeira carta houve o emprego de um escriba (1 Pe. 5:12) o que não aconteceu em sua segunda epístola.
Segunda e terceira cartas de João – Por causa de sua identificação como “O Presbítero” e sua limitada circulação, não foi amplamente aceita como a sua primeira carta, porém eram mais aceitas do que a segunda carta de Pedro. Policarpo e Irineu haviam aceito como confiável e inspirada. Por causa de semelhança de estilo com a primeira carta, que havia sido amplamente aceita, mostrou-se óbvio que estas duas também vieram do mesmo escritor. João era íntimo dos crentes asiáticos, ao ponto de escrever-lhes sob o título afetuoso de “O presbítero”. este título era usado pelos outros apóstolos(1 Pe. 5:1), enquanto que Apóstolo era usado para especificar seu dom (Ef. 4:11)
Judas – Esta carta também foi posta em dúvida por alguns devido às citações de livros que não se encontram no Cânon do Velho Testamento. Nos versículos 14 e 15 há uma citação do livro de Enoque  e uma possível citação do livro Assunção de Moisés no versículo 9. Porém, os primeiros pais da igreja, Irineu e Clemente de Alexandria haviam recebido esta carta como autorizada. O problema das citações pode ser entendido da mesma forma que Paulo faz menção de poetas não cristãos em Atos 17:28, 1 Cor. 15:33 e Tt 1:12. Não necessariamente há aprovação do que está sendo dito ou então tirou-se um fragmento de verdade dessas obras, e isso, não necessariamente desqualifica ou desautoriza o escrito Apostólico.
Apocalipse – Embora tendo sido aceito pelos primeiros pais da igreja no século I, no início do século IV o mesmo foi questionado devido à doutrina do Milênio, em Apocalipse 20. O debate acerca de Apocalipse foi o que mais durou entre os livros do Novo Testamento. Por volta do século III começaram a surgir ensinos heréticos tomando por base este livro. Dionísio, que era bispo de Alexandria, no século III, se ergueu contra o livro de Apocalipse. Porém, Jerônimo, Agostinho e Atanásio defenderam a autenticidade e confiabilidade de Apocalipse, no século IV. Quando houve o esclarecimento de que o livro estava sendo mal interpretado pelas seitas heréticas, Apocalipse ganhou lugar definitivo no Cânon.
Os livros aceitos por alguns – Apócrifos
Tiveram grande estima entre os pais da igreja primitiva, porém nunca ninguém os considerou canônico.
Epístola do Pseudo-Barnabé (c. 70-79) –  Teve ampla circulação no século I, seu estilo é parecido com o de Hebreus, porém mais alegórico. A antiguidade da carta está confirmada porém sua confiabilidade é extremamente questionável. O autor é um leigo que não reivindica autoridade divina (cap. 1) e obviamente não é o mesmo Barnabé encontrado em Atos.
Epístola aos Coríntios (c. 96) –  Esta carta de Clemente de Roma havia sido lida publicamente em Corinto e outros lugares.  Provavelmente o escritor tenha sido Clemente citado em Filipenses 4:3, porém a carta não reivindica autoridade divina. Emprega narrativa fantasiosa do velho Testamento e o livro apócrifo “Livro da Sabedoria” é citado como Escritura no cap. 27. O tom da carta é evangélico porém a igreja nunca o reconheceu como canônico.
O pastor – Hermas (c. 140) –  Foi o livro não-canônico mais popular da igreja primitiva. Tem grande valor ético e devocional, mas nunca foi reconhecido como inspirado pela igreja.
Didaquê – ou ensino dos doze apóstolos (c. 100-120) – Teve grande importância e prestígio na igreja primitiva. Foi o elo entre  os apóstolos e os pais primitivos, pois tinha muitas referências aos evangelhos e às cartas de Paulo até ao Apocalipse. Porém jamais foi considerado como inspirado divinamente pela igreja primitiva.
Apocalipse de Pedro (c. 150) –  Um dos mais antigos Apocalipses não-canônicos que circulou em larga escala na igreja primitiva. Suas narrações realísticas do mundo espiritual exerceram forte influência na Idade Média. A igreja nunca o reconheceu como canônico.
Carta aos Laodicenses (séc. IV?) –  Obra forjada, conhecida por Jerônimo. Aparece em muitas Bíblias do século VI ao XV. Mostra um punhado de frases de Paulo sem nenhum elo entre si, sem nenhuma linha de raciocínio lógica. Não tem ensino nenhum ensino doutrinário. Jamais obteve reconhecimento canônico.
Epístola de Policarpo aos Filipenses (c. 108) –  Foi discípulo do apóstolo João e mestre de Irineu. Foi o elo entre os apóstolos e os pais da Igreja do início do século II. Não defendeu inspiração divina para sua obra, apenas ensinava o que havia aprendido com os apóstolos. Não há muita originalidade nesta obra, visto que foi tirado dos escritos do Novo Testamento. Embora não seja canônica é uma rica fonte sobre os livros do Novo Testamento, que ele cita como canônicos.
Sete epístolas de Inácio (c. 110) –  Inácio, diz a tradição, foi também discípulo do Apóstolo João. Não reivindicou inspiração divina a seus ensinos. Tem muita familiaridade com os ensinos do Novo Testamento, de modo especial com as cartas de Paulo. Sem dúvida são cartas autênticas, porém não-canônicas.
Podemos resumir dizendo que os escritos do novo Testamento jamais sofreu polêmicas quanto à sua inspiração. O que houve sim, foi a dificuldade de comunicação e distância entre as comunidades do Oriente e Ocidente no sentido de estudarem em conjunto e dar um parecer favorável aos escritos do Novo Testamento, os quais temos até os dias de hoje.

O DESENVOLVIMENTO DO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO

A história do cânon do Novo Testamento foi bem diferente do Velho Testamento. Não havia uma entidade ou organização que colecionassem os livros inspirados. Desde o começo a Igreja sempre foi uma comunidade internacional, então não havia como ter um único lugar de coleção destes livros considerados sagrados.

Os escritos sagrados eram copiados e colecionados nas diversas comunidades espalhadas. Por isso o processo para canonização dos escritos do Novo testamento levou alguns séculos. Uma vantagem foi que após haver o consenso sobre os livros realmente inspirados não houveram mais tentativas de inserir ou eliminar livros do cânon formado e aceito.

Os estímulos para que se colecionassem oficialmente os livros

Três fatores contribuíram para que se providenciasse o reconhecimento oficial dos livros do Novo Testamento: fator eclesiástico, fator teológico e o fator político.

O estímulo eclesiástico à lista dos canônicos

  • A necessidade de saber quais livros deveriam ser lidos em seus cultos, conforme a prática recomendada pelos apóstolos (1 Ts. 5:27).
  • A necessidade de saber quais livros deveriam ser traduzidos para as línguas estrangeiras dos convertidos.
  • A combinação destas forças exerceu pressão nos pais da igreja para que houvesse o reconhecimento dos livros inspirados.

O estímulo teológico à lista dos canônicos

Visto que toda escritura é útil para a doutrina (2 Tm. 3:16-17), tornou-se necessário definir os limites do que era a escritura, qual era o legado doutrinário dos apóstolos. Por causa da multiplicação dos livros heréticos (cânon de Marcião), foi de extrema urgência e importância definir quais livros seriam aplicados para o ensino da doutrina dos apóstolos.

O estímulo político à lista dos canônicos

As duas forças anteriores culminaram na pressão política sobre a Igreja para que se definissem os livros que eram realmente inspirados. Houve também a perseguição aos cristãos e a ordem para queimar quaisquer escritos dos mesmos. Então era necessário definir quais livros deveriam ser preservados e escondidos desta perseguição.

A compilação e o reconhecimento progressivo dos livros canônicos

Há fortes evidências de que os livros do Novo testamento foram colecionados e preservados, e sem dúvida alguma foram copiados e distribuídos pelas igrejas existentes na época.

Evidências neotestamentárias de um cânon crescente

O Novo testamento foi escrito na segunda metade do século I. A maior parte dos livros foi escrita para alguma igreja em particular (a maior parte das cartas de Paulo) e outras foram redigidas para pessoas em particular (Filemon, 2 e 3 João). Outros livros tinham o objetivo de atingir regiões inteiras: Ásia Oriental (1 Pedro), Ásia Ocidental (Apocalipse) e até mesmo Europa (Romanos). Algumas dessas cartas tiveram origem em várias regiões distintas: Jerusalém (Tiago); Roma, nos confins do Ocidente (1 Pedro). Desta forma é compreensível que a Igreja não tivesse todos os livros à sua disposição de imediato. Junte-se a isso a dificuldade com transporte e comunicação, e veremos que seria preciso algum tempo até que houvesse a coleção completa destes livros e a conseqüente canonização dos mesmos. Porém, apesar destas dificuldades a Igreja começou de imediato a coleção de todos estes escritos apostólicos.

A seleção dos livros fidedignos

Desde o início da era cristã houveram vários escritos falsos, ou não condizentes com os verdadeiros fatos sobre a vida de Cristo. Compreendemos isso lendo os primeiros versos do livro de Lucas (Lc. 1:1-4). Paulo advertiu os tessalonicenses sobre falsas cartas atribuídas a ele (2 Ts. 2:20). Paulo sempre assinava suas cartas de modo particular (2 Ts. 3:17).

O apóstolo João nos afirma que existiram muitas outras coisas que Jesus fez, que não estavam escritos nos evangelhos (Jo 20:30; Jo 21:25). Desta maneira começaram a surgir muitas crendices sobre a vida de Jesus. Enquanto as testemunhas oculares da morte e ressurreição de Jesus ainda estivessem vivas, tudo poderia passar pela autoridade oral dos apóstolos (1 Ts. 2:13; 1 Co. 11:2). Há quem acredite que estas tradições orais dos apóstolos originou o kerigma (proclamação) que funcionava como um cânon dentro do cânon. Quer o kerigma fosse o critério, ou não, fica claro que a igreja apostólica também tinha que ser seletiva e apurar os fatos sobre a vida e ensinos de Jesus. João, em seu evangelho, destrói uma heresia que se havia se tornado comum naquele tempo: que ele jamais morreria (Jo 21:23-24). Ele também escreveu outra advertência dizendo para não crer em qualquer espírito que diga ser vindo de Deus (1 Jo 4:1).

Diante disso concluímos que na igreja primitiva já havia um processo de seleção canônica em operação. Quaisquer palavras, fossem orais ou escritas, eram submetidas ao ensino apostólico. Se tal palavra não pudesse ser comprovada pelas testemunhas oculares(Lc. 1:2;At. 1:21-22), era rejeitada. Os apóstolos eram o tribunal pelo qual os ensinos eram testados e confrontados (1 Jo. 1:3; 2 Pe. 1:16). O próprio Deus deu testemunho aos apóstolos (Hb. 2:3-4).

A leitura de livros autorizados

Outra evidência do processo de canonização do Novo Testamento era a leitura pública das cartas que os apóstolos enviavam às igrejas. Paulo ordena aos tessalonicenses que sua carta seja lida a todos (1 Ts. 5:27). Paulo faz o mesmo com os colossenses (Cl. 4:16). Na realidade este era um costume antigo da comunidade judaica, a leitura das escrituras publicamente.

  • Moisés e Josué o praticaram (Ex. 24:7;Js. 8:34)
  • Josias pediu para que se lesse a Bíblia em seus dias (2 Rs. 23:2)
  • Esdras o reinstituiu (Ne. 8:8)

Isto indica que as cartas apostólicas tinham por objetivo serem lidas em várias comunidades, e não apenas no lugar para o qual eram destinadas. À medida que iam recebendo e lendo também colecionando estes escritos. Mais tarde este costume teria importância vital para a canonização do Novo Testamento.

A circulação e a compilação dos livros

No início da Igreja nenhuma comunidade cristã tinha a coleção completa dos escritos apostólicos, mas a coleção foi crescendo à medida que as igrejas iam recebendo as cartas e fazendo cópias autenticadas pela assinatura dos apóstolos ou seus emissários. Conforme foram crescendo as igrejas cristãs, novas cópias eram necessárias para que fossem lidas e estudadas nestas novas comunidades.

Conforme vemos em Colossenses já havia o costume da circulação das cartas.

O apóstolo João foi orientado a escrever seu ultimo livro, o Apocalipse, e envia-lo às sete igrejas pela Ásia Menor (Atual Turquia). Ou seja, teria de haver a circulação deste livro entre estas igrejas (Ap. 1:11).

Outros livros seguem o mesmo padrão. Tiago havia escrito às doze tribos da Dispersão (Tg 1:1). Pedro também escreveu a várias comunidades distintas (1 Pe. 1:1).

Todas essas cartas-circulares revelam o início do processo de canonização. As cartas eram obviamente primeiro endereçadas à Igreja para qual era destinada, mas depois essas igrejas deveriam fazer cópias e enviar a outras comunidades.

E não deveriam ser apenas lidas uma vez, mas Paulo orienta a leitura continuada destas cartas (1 Tm. 4:11-13).

Existe evidência no Novo Testamento desta coleção crescente dos escritos. Basta analisarmos o texto de 2 Pe. 3:15-16. Pedro possuía um conjunto dos escritos de Paulo, que colocava ao lado “das outras escrituras”. Ora, se as cartas foram endereçadas às igrejas específicas o que levou Pedro a ter uma cópia destas cartas de Paulo? Isto demonstra que realmente havia coleções dos escritos dos apóstolos sendo feitas.

Desta forma, notamos que desde o início da Igreja a formação do cânon do Novo Testamento estava em pleno andamento.

No final do século I, todos os escritos apostólicos já haviam sido recebidos pelas igrejas.

Porém, pelo fato da dificuldade de locomoção e comunicação, demorou-se alguns séculos até que todos estes escritos fossem reunidos e formalmente agrupados num único livro. Além da seleção dos falsos escritos que também circulavam entre a comunidade neo testamentária, o que levou a um acréscimo do tempo necessário para o reconhecimento dos escritos inspirados.

A confirmação da compilação oficial dos livros canônicos

O testemunho dos pais da Igreja sobre o cânon

Logo após a primeira geração de cristãos, todos os livros do Novo Testamento já haviam sido citados nas obras dos primeiros pais da Igreja. Esta geração havia convivido com os apóstolos diretamente. Devemos ter o cuidado de não achar que, por um determinado pai da Igreja não ter citado algum livro do Novo Testamento, este não seja dotado de autoridade divina, afinal isto não é um pré-requisito de sua canonicidade. Basta fazer um exercício consigo mesmo: qual foi a última vez que você mencionou o livro de Filemom? O mesmo princípio se aplica aos pais da Igreja. O importante a ser destacado é que todos os livros do Novo Testamento, já no segundo século, havia sido citado por todos os pais da Igreja na época.

O testemunho das listas primitivas e das traduções do cânon

Outras confirmações sobre o cânon do Novo Testamento estão claras em algumas traduções mais antigas e listas canônicas entre os séculos II e IV. Não poderia haver uma lista, ou uma tradução, sem antes reconhecer-se serem estes livros dotados de autoridade divina.

Antiga tradução Siríaca (Síria) – Uma antiga tradução circulou na Síria no fim do século IV. Continha todos os livros do Novo Testamento exceto: 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. Isto é explicado pelo fato dos livros omitidos serem dirigidos a igrejas no Ocidente, a igreja siríaca ficava no Oriente. A distância e falta de comunicação atrasaram o processo de reconhecimentos destes livros por parte da Igreja Oriental. Esta versão da Bíblia foi editada antes desta confirmação ser aceita por todos.

Antiga Latina – O Novo Testamento já havia sido traduzido para o latim antes do ano 200. Continha todos os livros do Novo Testamento exceto: Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro. A omissão a estes livros são o oposto da tradução siríaca. Estas cartas haviam sido escritas a princípio para as igrejas orientais, então devido aos mesmos problemas relatados anteriormente, demorou até que as igrejas no Ocidente tivessem o reconhecimento destes livros.

Cânon Muratório (170 d.C.) – Além do cânon herético de Marcião, a lista canônica mais antiga se encontra no fragmento muratório. É idêntico à Antiga Latina, excluindo-se Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro. Porém os estudiosos acreditam que houve uma falha nos manuscritos, pois Hebreus e 1 Pedro estavam ausentes, ao passo que livros menos frequentes como Filemom e 3 João estavam incluídos.

Códice barocócio (206 d.C.) – Outro testemunho do cânon primitivo vem de um códice intitulado “Os sessenta livros”. Esta obra continha 64 dos 66 livros da Bíblia atual, exceto Ester no Velho Testamento e Apocalipse no Novo Testamento. A canonicidade de Apocalipse está bem atestada em outras obras, entre elas o Códice Muratório. Teve também o apoio de Justino Mártir, Ireneu, Clemente de Alexandria e Tertuliano.

Eusébio de Cesaréia (c. 340 d.C.) – A situação do Novo Testamento no século IV já estava bem definida. Em sua obra “História Eclesiástica” ele mencionou como totalmente aceitáveis os livros do Novo Testamento, exceto: Tiago, Judas, 2 Pedro e 2 e 3 João, pois este livros eram questionados por alguns ainda. Havia também o Apocalipse que ele próprio rejeitava. Desta forma, todos os livros do Novo Testamento, exceto Apocalipse tinham o reconhecimento da autoridade divina.

Atanásio de Alexandria (c. 373) – Nos cinqüenta anos seguintes a Eusébio, Atanásio relaciona todos os 27 livros do Novo Testamento como canônicos. Mais tarde, na geração seguinte, tanto Jerônimo quanto Agostinho teriam confirmado a mesma lista de livros canônicos, de modo que os mesmos permaneceram no cânon do Novo Testamento (Da Doutrina Cristã).

Concílios de Hipo (393) e Cartago (397) – Os testemunhos de apoio não se limitaram apenas a indivíduos. Estes dois concílios também reforçaram o apoio ao reconhecimento da autoridade divina aos 27 livros do Novo Testamento.

Então, desde o século V a Igreja tem aceito esses 27 livros como canônicos.

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Categorias:Cânon do NT

A INSPIRAÇÃO DO NOVO TESTAMENTO

O Novo Testamento reivindica inspiração divina

Temos 2 fatores que comprovam a inspiração divina do Novo Testamento:

  • A promessa de Jesus de que o Espírito Santo guiaria os discípulos a toda verdade.
  • Cumprimento disso no ensino apostólico e nos escritos do Novo Testamento.

A promessa de Jesus a respeito da inspiração

Jesus nunca escreveu um livro. Porém confirmou a autoridade divina do Velho Testamento (Aula passada) e deu promessas sobre a autoridade e inspiração do Novo Testamento.

l A comissão dos doze – Quando Jesus enviou os doze, prometeu a direção do Espírito Santo (Mt. 10:19-20; Lc. 12:11-12). A proclamação que os discípulos fizessem de Jesus, viria do Espírito Santo.

l O envio dos setenta – Esta promessa não se limitava aos Doze. Jesus deu a cada um autoridade dele mesmo (Lc. 10:16)

l O sermão do Monte das Oliveiras – Jesus reafirmou a promessa de que o Espírito Santo falaria por meio dos seus discípulos.(Mc. 13:11)

l Os ensinos durante a última ceia – A promessa da orientação do Espírito Santo fica mais clara aqui (Jo. 14:26). Por isso Jesus não escreveu seus ensinos, pois o Espírito Santo faria com que os seus discípulos se lembrassem de tudo o que Jesus ensinara. E temos também promessa de que o Espírito os guiaria a toda verdade. (Jo. 16:13)

l A grande comissão – Quando Jesus enviou seus discípulos fez-lhes também a promessa de que teriam toda autoridade nos céus e na terra. (Mt. 28:19-20). A palavra dos discípulos seria a Palavra de Deus.

A promessa de Jesus reivindicada pelos discípulos

Os discípulos não se esqueceram da promessa de Cristo. Eles pediram que seus ensinos tivessem a autoridade de Deus para continuarem a realizar o que Jesus realizara.

l A afirmação de estarem dando prosseguimento ao ensino de Jesus – Lucas diz que apresentou um relato exato de tudo quanto Jesus fez e ensinou em  seu evangelho. Em Atos ele dá a entender que Jesus continuou a fazer por meio dos apóstolos. (At. 1:1; Lc. 1:3-4). A Igreja estava baseada no ensino dos apóstolos (At. 2:42). Até os ensinos de Paulo que vinham diretamente de Deus(Gl. 1:11-12), passava pela aprovação dos apóstolos (At. 15). A Igreja foi edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef. 2:20; 3:5)

l Não existe ensino apostólico nos dias de hoje – O Novo testamento é o único registro autêntico de ensino apostólico que temos. O apóstolo deveria ser testemunha ocular do ministério e ressurreição de Jesus (At. 1:21-22), isso elimina a sucessão apostólica nos dias de hoje que não passaria do século I. O fato de não existir ensino apostólico nos dias de hoje limita todo ensino apostólico ao Novo testamento. Disto temos que apenas o Novo Testamento pode reivindicar para si a natureza de autoridade dos ensinos de Cristo.

l Comparação entre o Novo e o Velho Testamento – Temos, por enquanto, dois indícios da inspiração do Novo testamento:

  • A promessa de Cristo, de que o Espírito Santo inspiraria os apóstolos.
  • Comparação direta com o Velho Testamento.

Paulo reconhecia claramente a autoridade do Velho Testamento (2 Tm. 3:16) – chamou-o “Escrituras”.

Pedro classificou as cartas de Paulo como escrituras, ao lado das demais (2 Pe. 3:16)

Paulo menciona o evangelho de Lucas, chamando-o de Escritura. (1 Tm. 5:18 citando Lc. 10:7)

Hebreus menciona que Deus falara por meio dos profetas, e, neste últimos tempos tem falado pelo Filho(Hb 1:2).

Os livros apostólicos são colocados em igualdade com os livros proféticos. Os escritos apostólicos reivindicam para si a natureza de proféticos.

Em Ap. 22:18-19, João chama seu livro de profecia e se classifica entre os profetas.

Em Ef. 3:3-5 Paulo diz que os escritos proféticos do Novo Testamento revelam o mistério de Cristo predito nos escritos proféticos do Velho Testamento.

l Reivindicação direta de inspiração nos livros do Novo Testamento – No Novo testamento há numerosos indícios de sua autoridade divina. Podem ser implícitos e explícitos.

  • Os evangelhos apresentam-se como registros autorizados do cumprimentos das profecias do Velho Testamento (Mt. 1:22; 2:15-17; Mc. 1:2)
  • Lucas escreveu para que o leitor soubesse dos fatos que se cumpriram (Lc. 1:1-2)
  • João disse que seu testemunho é verdadeiro (Jo. 21:24)
  • Atos se apresenta como registro dos fatos que Jesus continuou a fazer e ensinar por meio dos apóstolos. (At. 1). Também se apresenta como cumprimento de profecia do Velho Testamento(At. 2:16). Como Paulo, citou o evangelho de Lucas como Escritura (1 Tm 5:18), torna-se claro que tanto o apóstolo quanto Lucas consideravam o relato da continuação do Evangelho um texto autorizado.
  • Todas as cartas paulinas reivindicam inspiração divina. Em Romanos, Paulo ainda comprova sua vocação divina para o apostolado(Rm. 1:1-3) e encerra dizendo que se trata de texto profético (Rm. 16:26)
  • Em 2 Co. Paulo defende seu apostolado de forma mais completa do que em qualquer outra carta. (2 Co 10-13)
  • Em Gálatas ele apresenta a mais forte defesa de suas credenciais ao falar sobre a revelação feita a ele (Gl. 1:12)
  • Em Efésios ele declara que tinha recebido a revelação de Deus e a tinha escrito. (Ef. 3:3)
  • Em Filipenses Paulo diz a todos seguirem o modelo apostólico de vida (Fl. 3:17; 4:9)
  • Em Colossenses Paulo diz que seu ofício de apóstolo foi dado diretamente por Deus (Cl. 1:25)
  • Em Tessalonicenses Paulo diz havia dito palavras de Deus e não de homens (1 Ts. 2:13)
  • Na outra carta aos Tessalonicenses, Paulo diz para não se misturar com quem não obedecer às palavras desta carta (2 Ts. 3:14)
  • Em 1ª Timóteo Paulo coloca seus escritos no mesmo nível que o Velho Testamento.(1 Tm. 4:11-13)
  • Em 2ª Timóteo temos o clássico  texto sobre a inspiração das Escrituras (2 Tm 3:16)
  • Hebreus 2:3-4 deixa claro que este livro baseia-se na autoridade de Deus dada aos apóstolos
  • Tiago escreve com autoridade apostólica (Tg. 1:1)
  • A 1ª Carta de Pedro afirma ser do “apóstolo de Jesus Cristo” (1 Pe. 1:1)
  • Em 2ª Pedro diz que o ensino dos apóstolos tem a mesma autoridade que os escritos dos profetas (2 Pe. 3:2)
  • A 1ª Carta de João é de alguém que viu, ouviu ,contemplou a Cristo e tocou em suas mãos (1 Jo. 1:1). Afirma que a comunidade apostólica é vinda de Deus.(1 Jo. 2:19). Segundo e terceira cartas são do mesmo apóstolo, portanto, tem a mesma autoridade.
  • O Apocalipse traz a declaração mais evidente que se trata da inspiração da parte de Deus. (Ap. 1:10-11) , além de conter uma advertência sobre a profanação destas palavras.

Apoio à reivindicação de inspiração do Novo Testamento

Apoio à reivindicação de inspiração dentro do Novo Testamento

A Igreja no século I não aceitou qualquer escrito como sendo inspirado.

  • Jesus advertiu a igreja sobre os falsos mestres que viriam em seu nome.
  • Paulo exortou os tessalonicenses para que não aceitassem determinados escritos como sendo seus. (2 Ts. 2:2)
  • João advertiu com bastante intensidade para não crer em qualquer coisa, mas que provassem se os espíritos vinham de Deus (1 Jo. 4:1)
  • Todo livro sem a assinatura apostólica deveria ser recusado. (2 Ts. 3:17)

l Leitura pública dos livros do Novo Testamento – Como era costume judaico ler as Escrituras aos sábados, a Igreja também adotou este costume no dia do Senhor. A leitura em público dessas cartas é prova da aceitação, deste o início pela Igreja do Novo Testamento, de sua autoridade divina.

  • Persistir em ler, ensinar e exortar (1 Tm. 4:13)
  • As cartas de Paulo deveriam ser lidas entre todos (Cl. 4:16)

l Circulação dos livros do Novo Testamento – O texto acima expõe outro fato importante: a troca de cartas entre as igrejas. É possível também que esta troca tenha dado inicio às primeiras cópias dos escritos do Novo Testamento. Que por serem cópias dos originais eram igualmente aceitos e tidos por inspirados.

l A coleção de livros do Novo Testamento – Os livros que circulavam entre as igrejas também eram possivelmente colecionados, conforme nos indica o apóstolo Pedro. (2 Pe. 3:15-16). Nos parece que ele próprio possuía uma coleção dos escritos de Paulo que ele põe em pé de igualdade com os escritos do Velho Testamento.

l Citação dos livros do Novo Testamento – Os livros do Velho Testamento foram escritos num período de tempo muito maior do que o período de tempo nos qual foram escritos os livros do Novo Testamento. Por isso há mais citações do Velho testamento do que ao Novo. Porém alguns autores sagrados citam outros, apoiando assim a autoridade divina daqueles escritos.

  • Judas cita com clareza 2 Pe. 3:2-3 em Jd. 18
  • Lucas faz referência à sua obra anterior (At. 1:1)
  • João faz alusão ao seu próprio evangelho. (1 Jo 1:1)
  • Paulo ainda menciona uma outra carta que ele havia escrito aos Coríntios (1 Co. 5:9)

Ainda que estes exemplos não nos forneçam citações formais, ajudam a ilustrar que os autores sagrados reconheciam os escritos uns dos outros como tendo autoridade divina.

Apoio à reivindicação de inspiração dentro da Igreja Primitiva

l Os primeiros pais da Igreja – Todos os autores do Novo testamento são mencionados pelos patriarcas da igreja primitiva que viveram até duas gerações após o Novo Testamento ser escrito, isto é, até por volta do ano de 150 d.C. Estes patriarcas da igreja representam o vínculo ininterrupto desde o tempo dos apóstolos, passando pela fundação da Igreja até os dias de hoje.

Os escritos mais antigos do Cristianismo fazem menção aos escritos apostólicos. Muitas destas citações são semelhantes às encontradas no Novo Testamento quando fazem citações relativas ao Velho Testamento.

  • Epístola de Barnabé (Autor desconhecido – 70 – 130 d.C.) – Cita o evangelho de Mateus como “Escritura”
  • Epístola aos Coríntios (Clemente de Roma – 95-97 d.C.) – chama os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) de Escrituras. Cita também passagens do Velho Testamento, cartas de Paulo e palavras de Jesus.
  • Inácio de Antioquia (110 d.C.) – Escreveu sete cartas (Epístola a Policarpo de Esmirna, Epístola aos Efésios, Epístola aos Esmirniotas, Epístola aos Filadélfos, Epístola aos Magnésios, Epístola aos Romanos, Epístola aos Tralianos) nas quais faz inúmeras citações ao Novo Testamento.
  • Policarpo (110-116 d.C.) – foi discípulo do apóstolo João, fez muitas citações dos Livros do Novo Testamento em sua Epístola aos Filipenses. Ele é um importante elo entre a Igreja recém nascida no século I com a Igreja no segundo século da era cristã.
  • O Pastor (Hermas 115 – 140 d.C.) Escrita em estilo de visões, como o Apocalipse, faz inúmeras referências ao Novo Testamento.
  • Didaquê (100-120 d.C.) – Importante obra do primeiro século quanto aos valores teológicos. A Didaquê cita diretamente ou faz menção indireta a diversos livros do novo testamento: sendo Mateus, Lucas, I Epístola aos Coríntios, Hebreus, I Epístola da Pedro, Atos dos Apóstolos, Romanos, Efésios, Carta aos Tessalonicenses e Apocalipse.
  • Epístola a Diogneto (150 d.C.) – faz muitas alusões ao Novo Testamento sem um título.

Com tudo isto vemos que os escritos dos pais da Igreja (Patrística) fizeram amplo uso do Novo Testamento, que à semelhança do Velho, era tido como inspirado por Deus.

l Pais da Igreja de época posterior – A partir da segunda metade do século II, ainda encontramos forte apoio para a reivindicação da autoridade divina do Novo Testamento.

  • Justino Mártir – Grande escritor e defensor cristão do século II, considerava os evangelhos (ele os chamava de Memórias dos Apóstolos, pois provavelmente ainda não conhecia a divisão em 4 evnagelhos distintos) como a voz de Deus.
  • Taciano, discipulo de Justino, cita Jo. 1:5 como Escritura.
  • Irineu, que havia conhecido Policarpo, afirma claramente a divisão em quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), fazendo numerosas citações desses evangelhos, únicos evangelhos reconhecidos como autênticos e lidos na Igreja.
  • Clemente de Alexandria  – classifica tanto o Velho como o Novo Testamento sendo inspirados por Deus, com a mesma autoridade divina.
  • Orígenes (185-254 d.C.), discípulo de Clemente de Alexandria – professor da escola em Alexandria, teólogo e escritor cristão com mais de 600 obras. Entre os seus numerosos comentários bíblicos devem ser realçados: “Comentário ao Evangelho de Mateus”; “Comentário ao Evangelho de João”.  Algumas de suas obras trazem escritas : “não ensinada pelos Apóstolos e não sustentada pela Escritura”. ( “Comentário ao Evangelho de Mateus” XIII, 1, 46–53).

Como vimos havia amplo apoio dos pensadores e teólogos da Igreja Primitiva do século II com relação à autoridade do Novo Testamento.

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