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013 – Introdução ao Livro de Esdras-Neemias – De volta para o futuro

Introdução aos Livros de Esdras e Neemias – De volta para o futuro.

 

Esdras e Neemias pertencem à história pós-exílica de Judá. Eles aparecem na história de Judá cerca de 50 anos após os profetas Ageu e Zacarias, e tiveram ofícios complementares em Jerusalém nesta época de reorganização social e religiosa.

Na Bíblia hebraica estes livros formavam um só volume, e apesar do seu conteúdo “histórico” eles estão inseridos na terceira divisão do cânon hebraico,  os “Escritos”. A maioria dos estudiosos atribui a autoria do volume Esdras-Neemias ao mesmo redator-editor do livro de Crônicas. Creem alguns que este cronista seja o próprio Esdras, por ser escriba, outros ainda atribuem uma autoria anônima a estes livros.

A produção de Esdras-Neemias ocorre em épocas distintas e conta com a coleção de partes também distintas para compor o volume todo. Isto é verificável nos capítulos 1 a 6 de Esdras e nos seus grandes trechos escritos em aramaico (Ed. 4:8 a 6:18; 6:12-26). Estas partes em aramaico reproduzem trechos de documentos oficiais do governo persa; portanto o cronista-redator deveria ter acesso a estes documentos, esta evidência dá suporte à autoria de Esdras.

Esdras é reconhecido pelo zelo religioso com o qual inspirou, com a leitura da Torá, todos os judeus que retornaram do exílio para reconstruirem Jerusalém, que ficara arrasada por causa da invasão babilônica em 586 a.C. Neemias foi o administrador habilidoso que organizou os judeus para a reconstrução dos muros de Jerusalém.

Esdras e Neemias eram judeus de muito prestígio em Susã (Ed. 7:1-6; Ne. 1:11), na Pérsia, de onde sairam para a reforma social e religiosa em Jerusalém. Neste tempo quem governava a Babilônia, agora sob domínio persa, era o rei Artaxerxes (464 – 424 a.C.).

A esta altura uma parte da população já voltara para Jerusalém sob o comando de Zorobabel, porém, a reestruturação de Judá e a reconstrução do Templo não correram bem, pois todos aguardavam com muita espectativa o despertar nacional profetizado por Ezequiel (Ez. 37:1-14), que até aquele momento não havia acontecido. Por isso o ânimo dos judeus estava muito abalado.

Além disso muitos judeus estavam passadno por grandes dificuldades financeiras, que se agravaram em consequência da carga de trabalho para a reforma dos muros de Jerusalém. A decisão de Neemias em não cobrar juros dos empréstimos tomados por judeus nessa situação foi uma das medidas da reforma sócio-econômica promovida no pós-exílio.

O zelo para com as tradições judaicas e com o nome de Javé (Ne. 2:3; Ed. 9:1-15), fizeram com que Esdras e Neemias voltassem para liderar a reforma social e religiosa que Judá precisava naquele momento, duas gerações após o profeta Malaquias.

Para fins didáticos, podemos dividir os livros de Esdras-Neemias em dois momentos distintos da repratriação dos judeus após o exílio:

  • o retorno dos exilados e a reconstrução do templo entre 538-516 a.C. (Ed. 1-6)
  • reorganização religiosa com Esdras e a reorganização social com Neemias entre 458 e 420 a.C. (Ed. 7 – Ne. 13)

Estrutura de Esdras-Neemias

 

Os livros de Esdras-Neemias podem ser estruturados da seguinte maneira:

  1. Esdras
  1. Decreto de Ciro até a reconstrução do Templo – Caps.1 a 6
  2. Primeira parte das narrativas de Esdras – Caps. 7 a 10
  3. Chegada de Neemias até as reformas sociais – Caps. 1 a 7
  4. Segunda parte das narrativas de Esdras – Caps. 8 a 10
  5. Repovoamento de Jerusalém até as reformas religiosas de Neemias – Caps. 11 a 13
  1. Neemias

Os dois livros cobrem aproximadamente 100 anos de história, de 538 a.C. até 433 a.C. As narrativas começam pelo decreto de Ciro para a recostrução de Jerusalém (Ed. 1:1-4) até as reformas efetivadas no segundo mandato de Neemias como governador, de acordo com as ordens persas (Ne. 13:6-30).

O conteúdo do livro pode ser resumido da seguinte maneira:

  • O retorno dos judeus do exílio babilônico para Jerusalém com a restauração do templo e do altar
  • A chegada de Esdras e a reforma religiosa baseada na lei de Moisés (provavelmente Deuteronômio)
  • A chegada de Neemias e a reforma social e econômica e a reconstrução dos muros de Jerusalém

O autor dos livros redigiu e coletou material de diversas fontes e gêneros literários, onde podemos perceber 3 grandes blocos de narração:

  • Sesbazar e Zorobabel – Ed. 1-6
  • Os relatos de Esdras – Ed. 7-10; Ne. 7:73 – 10:39
  • Os relatos de Neemias – Ne 1:1 – 7:73; 11:1 – 13:31

Podemos concluir que o autor agiu de forma proposital ao dispor destes materiais conforme o esboço acima, pois tinha uma intenção teológica  relacionada à renovação da aliança de Javé com o povo judeu. Todos estes relatos unidos comprovam a renovação física e espiritual de Jerusalém.

Quanto aos gêneros literários podemos encontrar:

  • Relatos de Esdras e Neemias em primeira pessoa e relatos em terceira pessoa (Ed. 8:35-36)
  • Documentos históricos e correspondência oficial (Ed. 6:3-5; Ed. 5:7-17)
  • Discursos e orações (Ne. 9:5-37)
  • Cânticos (Ed. 3:11)
  • Listas de nomes (Ed. 2:2-70)
  • Inventário de utensílios do templo (Ed. 1:9-11)

Apesar destes materiais estarem reunidos em um só volume, é muito dificil estabelecer o ministério concomitante de Esdras e Neemias, pois, em suas memórias, nenhum deles menciona o outro como cooperador, exceto numa breve nota em Neemias 8:9. Este padrão se repete no ministério de Zacarias e Ageu, onde embora não mencionem um ao outro, profetizaram em Jerusalém no mesmo período de 2 anos.

Propósito e conteúdo

Basicamente o livro de Esdras-Neemias trata dos seguintes assuntos:

  • A restauração de Jerusalém
  • As reformas sociais, econômicas e religiosas no pós-exílio
  • Javé, o Deus que cumpre a aliança
  • A continuidade da comunidade judaica no pós-exílio
  • O templo e a lei como bases de identidade da nova comunidade judaica

O propósito do ponto de vista histórico dos livros de Esdras-Neemias é narrar o retorno dos judeus da Babilônia e preservar a memória do povo da aliança. Estes registros mostram a fidelidade de Javé ao preservar os judeus no decorrer dos diversos governos humanos na história. Estas narrativas também visavam informar ao rei persa as atividades realizadas por ambos como uma espécie de prestação de contas pela confiança depositada no retorno deles ao governo persa.

Sob o ponto de vista teológico os livros de Esdras-Neemias focaliza a renovação da aliança de Javé com o povo judeu no pós-exílio. Javé não havia se esquecido de sua promessa com o povo judeu, e mesmo agora, neste período de incertezas e reconstrução, tanto social quanto espiritual, ele deseja renovar sua aliança com o povo escolhido. Neste momento de reestruturação era importante que o povo soubesse que a obediência às leis da aliança eram o pré-requisito para as bênçãos de Javé. Teologicamente o retorno da Babilônia representa um novo Êxodo para o povo judeu.

Javé como cumpridor da aliança

A fidelidade de Javé à sua aliança (Ne. 9:32) era o motivo principal que levou Esdras e Neemias a executarem as reformas empreendidas por ambos. Esta fidelidade era a causa da esperança de Israel (Ed. 10:2), mesmo em um período tão atribulado.

Os profetas pós-exílicos sustentaram-se neste mesmo fundamento para sua mensagem de estímulo à nova comunidade (Zc. 1:3; Ml. 1:2).

As reformas e as origens do farisaísmo

 

Nas reformas do período pós-exílico houve duas inquietudes importantes:

  • Evitar um novo exílio
  • Preservar a identidade étnica

As medidas abaixo visaram proteger os judeus contra estas preocupações:

  • Cerimônia de renovação da aliança para garantir a posse da terra – Ne. 9:38 – 10:27
  • Restituir o ministério sacerdotal – Ed. 10:18-44
  • Recomeço dos rituais do templo e guarda do sábado – Ne. 8:13-18; 13:15-22
  • Estabelecimento da Lei de Moisés como padrão de vida comunitário – Ne. 8:1-12
  • Reformas sociais e econômicas fundamentadas na lei da aliança – Ne. 11:1-2
  • Pureza cerimonial da população de Jerusalém – Ne. 10:28-39
  • Divórcio e expulsão de estrangeiros dentre o povo –  Ed. 10:1-8; Ne. 9:1-5; 13:1-3

Estas medidas, a longo prazo, remoldaram a sociedade israelita e definiu o que conhecemos como a sociedade judaica do Novo Testamento. O templo e o sacerdócio substituíram o Estado e o rei como instituições fundamentais para a ordem e identidade social, sendo a lei de Moisés a constituição reguladora da comunidade. Com o passar do tempo estas medidas ocasionaram o exclusivismo judaico diante dos povos gentios, que eram vistos como moralmente impuros e corrompidos.

Ademais, Esdras reconfigurou as funções de escriba e sacerdote, fundindo-as numa única atividade: o estudo e a exposição das escrituras hebraicas. Com o fim dos sacrifícios no templo os sacerdotes se tornaram os únicos autorizados a ler e interpretar as leis mosaicas.

Para confirmar a obediência correta à lei da aliança, estes sacerdotes, com o passar do tempo, criaram complementos a esta lei, que foram chamados de tradição dos líderes religiosos (Mt. 15:1-9). Estes acréscimos, feitos por estes sacerdotes à lei primária,  passaram a exercer um papel cada vez maior na sociedade substituindo a lei mosaica.

A fixação com a exclusividade do povo judeu cegou-os quanto à verdadeira missão que tinham de ser luz para as nações (Is. 42:6; Lc. 2:32) sendo duramente criticados por Jesus, que ensinava com autoridade a verdadeira Lei de Moisés (Mc. 1:22).

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012 – Introdução ao Livro das Crônicas – Paz no futuro e glória no passado

Introdução ao Livro das Crônicas – Paz no futuro e glória no passado.

 

Os livros de 1 e 2 Crônicas, assim como os livros de Samuel e Reis, formavam um único volume, e, na Bíblia hebraica vinha logo após os livros de Esdras e Neemias. Isto sugere ao menos 2 coisas:

  • Aceitação posterior no cânon hebraico
  • Crônicas seria considerado um apêndice, ou um complemento das histórias de Samuel e Reis

Nossa Bíblia segue o padrão do AT grego (a Septuaginta), colocando Crônicas após o livro de Reis, antes de Esdras-Neemias.

Quando passamos de Reis diretamente para Crônicas, sentimos certa familiaridade, mas a ênfase dada pelo cronista (chamaremos seu autor desta forma) na história de Judá torna este livro único, e desta maneira, justifica seu estudo separadamente do livro dos Reis.

O cronista não é um historiador no sentido pleno do termo, pois ele entendia que a história dos reinos de Israel e Judá estava carregada de lições morais e espirituais, por isso ele toma como fontes primárias de informação os livros de Samuel e Reis, e não se preocupa com os dados em si mesmos mas com o seu significado. Logo, podemos dizer que este livro tem um conteúdo histórico altamente interpretativo.

E, para interpretar esta história, o cronista abrange os momentos históricos de Israel desde os patriarcas (usando genealogias) até a derrocada do reino do Sul, Judá, pelas mãos da Babilônia.

O cronista registra a história do povo de Israel na monarquia unida desde Adão até Davi com o foco na Aliança de Javé com o povo hebreu, com atenção especial nos patriarcas. Ainda na monarquia unida o autor destaca os acontecimentos ligados à arca da aliança e ao templo, construído por Salomão. Durante a monarquia dividida os relatos de Crônicas praticamente desprezam o Reino do Norte, Israel.

Na época da produção de Crônicas, o povo de Judá estava no período pós-exílico, e era importante reafirmar a fé em Javé. Portanto, o cronista interpreta a história de Israel permitindo que o judeu percebesse que Javé estava no governo da história e que sua aliança ainda era válida.

O fracasso de Zorobabel em instaurar o reino messiânico previsto por Zacarias e Ageu, aliado às breves reformas religiosas propostas por Esdras e Neemias, desafiaram o autor de Crônicas a enxergar esperança para os judeus tomando por base a própria história de Israel. A restauração estava a caminho, e, o segundo êxodo previsto por Zacarias, inaugurando o reino do Messias em Jerusalém, invadiria a história humana (Zc. 8:1-8)

Para reconstruir a história, e dar ao povo judeu a esperança no futuro, o autor de Crônicas selecionou apenas os fatos positivos dos reis de Judá, praticamente excluiu as narrativas do reino do Norte e os pecados de Davi e a apostasia de Salomão. O autor também se utilizou de fatos não narrados em Samuel e Reis (2 Cr. 33:18-20).

O nome do livro em hebraico, tirado dos primeiros versículos, é “as palavras dos dias” e seu nome “Crônicas” vem da sugestão abreviada de Jerônimo que o chamou de “crônica de toda história divina”.

Houve tempo que os estudiosos consideravam Crônicas uma obra do mesmo autor de Esdras-Neemias, mas atualmente esta teoria não encontra mais adeptos. Entretanto, a maioria dos eruditos concordam quanto à data de sua produção em torno do ano 400 a.C., um pouco depois da composição dos livros de Esdras-Neemias e cerca de 100 anos após o profeta Malaquias. O registro cronológico da genealogia de Zorobabel em 1 Cr 3:17-21 apoia este teoria.

Além de recorrer aos livros de Samuel e Reis para compor a história cronista, seu autor também reuniu outras fontes históricas tais como:

  • Registros genealógicos (1 Cr. 4:33; 5:17; 7:9,40; 9:1,22; 2 Cr. 12:15)
  • Cartas e documentos oficiais (1 Cr. 28:11-12; 2 Cr. 32:17-20; 2 Cr. 36:22-23)
  • Poemas, orações, discursos e cânticos (1 Cr. 16:8-36; 1 Cr. 29:10-22; 2 Cr. 29:30; 2 Cr. 35:25)
  • Registros históricos dos reis de Israel e Judá (2 Cr. 16:11; 2 Cr. 25:26; 2 Cr. 27:7; 2 Cr. 28:26; 2 Cr. 32:32; 2 Cr. 36:8)
  • Registros históricos de do rei Davi (1 Cr. 27:24)
  • Comentários sobre dos livros dos reis (2 Cr. 24:27)
  • Literatura profética primitiva, tais como os registros de Samuel, Natã, Gade (1 Cr. 29:29)
  • Literatura profética posterior, tais como os registros de Aías, Ido, Semaías, Jeú e Isaías (2 Cr. 12:15; 20:34; 32:32)

Andrew Hill & J. H. Walton, Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2007.

Estrutura de Crônicas

 

O livro de Crônicas pode ser dividido literariamente da seguinte forma:

  • Genealogia desde Adão até os exilados que retornaram (1 Cr. 1 – 9)
  • Monarquia unida de Davi e Salomão (1 Cr. 10 – 2 Cr. 9)
  • Monarquia dividida de Judá (2 Cr. 10 – 36:16)
  • Exílio de Judá na Babilônia (2 Cr. 36:17-23)

Nesta divisão fica claro que o objetivo do cronista é mostrar o ideal monárquico de Davi e Salomão, afinal são dedicados vinte e nove capítulos a estes reis. Para reanimar a fé do povo judeu que retornara do exílio o cronista compara o apogeu vivido nestes reinados com a realização da Aliança de Javé com seu povo. Do começo ao fim do livro são citadas as intervenções divinas neste período (1 Cr. 10:14; 2 Cr. 10:15).

A estrutura literária do livro também destaca a centralidade do templo como local de adoração único de Javé ao começar o segundo livro com a construção do primeiro templo e terminá-lo com o édito do rei Ciro para a reconstrução deste templo.

As genealogias, longe de serem apenas um enchimento literário, realça a unidade de todo Israel, um assunto primordial em virtude da separação dos reinos e retorno do exílio babilônico. O foco das genealogias são principalmente as tribos de Judá e Levi, isto é, a realeza e o sacerdócio respectivamente.

O incentivo e desafio é amplamente visto durante a exposição da narrativa do cronista. A coroação de Davi (1 Cr. 11 – 12) e as circunstâncias que a envolveram destacam a unidade e o ideal davídico da aliança. O tema fé e confiança foi bem explorado em 2 Cr. 13 a 16, enquanto os capítulos 21 a 23 evidenciam a preservação da dinastia davídica.

A desobediência de Saul é contrastada com a obediência de Davi e seu cuidado para com a arca da aliança, os preparativos para a construção do templo e a organização do culto a Javé.

O livro também enfatiza os reis Ezequias e Josias por suas contribuições ao culto a Javé e sua dedicação à purificação do templo de Jerusalém. A profecia também recebe uma atenção particular ao apresentar as bençãos e maldições previstas no código da Aliança (2 Cr. 36:17-21). Mesmo os casos de reis, cuja avaliação é negativa, tal qual Manassés e Amom, são apresentados como casos de conversão da apostasia (2 Cr. 33:1-9; 33:21-25).

O livro destaca que a rebelião contra Javé trouxe consequências graves para o povo da aliança, a dinastia davídica e o templo de Javé. Além do desterro, que era uma das promessas de Javé ao povo escolhido, o templo, como símbolo do governo teocrático de Javé, foi destruído. Contudo, assim como Javé cumpriu sua palavra acerca do exílio ela também se cumpriu na restauração e retorno dos judeus sob o governo de Ciro (2 Cr. 36:21-22).

Propósito e conteúdo

Com relação ao seu propósito e conteúdo, o livro de Crônicas abrange os seguintes temas principais:

  • Recordação do passado para a esperança no presente
  • A centralidade na adoração no Templo de Jerusalém
  • Os reinados de Davi e Salomão como ideais da aliança
  • Autenticar a liderança dos sacerdotes e levitas

O objetivo do cronista foi mostar que os reinados de Davi e Salomão privilegiaram a adoração correta de Javé, e isso impulsionou a monarquia no período que se manteve unida. Portanto, se a comunidade judaica pós-exílica seguisse o exemplo da monarquia unida da adoração centralizada no templo, a restauração prevista pelos profetas se concretizaria.

A escolha de Israel feita por Javé é refletida nas longas listas genealógicas (1 Cr. 1 – 9) e a repetição dos feitos de Javé na história de Israel, cujo paradigma são os reinados de Davi e Salomão, tornou-se a garantia da sua futura intervenção para o cumprimento de seus propósitos com relação à aliança com os hebreus.

Ao relembrar seu passado, a nova comunidade pós-exílica tomou ciência das bênçãos e maldições referentes à aliança, além de observarem o respeito para com a liderança instituída por Javé, no caso os sacerdotes e levitas. Este parecia ser o caminho para a retomada do sucesso de outrora.

Na recodação histórica feita pelo cronista, Judá torna-se herdeiro das promessas de Javé a “Israel” e chama a todos os israelitas, por meio das genealogias, a unirem-se à aliança com Javé novamente. Desta forma os dias de glória do passado seriam revividos.

A visão cronista também apontava para a esperança que os profetas disseram de que Jerusalém seria o centro político e religioso do mundo, e agiria da mesma maneira como agiu nos reinados de Davi e Salomão (Zc. 14:12-21).

Adoração no Antigo Testamento

 

A adoração de Javé no templo de Jerusalém era o ideal cúltico que o cronista tinha em mente. Exemplos de adoração enfatizados em Crônicas:

  • Adoração comunitária e individual – 1 Cr. 15:29; 2 Cr. 31:20-21
  • Adoração liderada pelos sacerdotes observando o calendário litúrgico – 2 Cr. 35:1-19
  • Resposta espontânea de adoração a Javé quando Ezequias celebra a páscoa duas vezes em um ano – 2 Cr. 30:13-22.
  • Adoração particular – 1 Cr. 16:23-27
  • Adoração pública – 1 Cr. 16:36; 29:9; 2 Cr. 5:2-14; 6:3-11

O cronista enfatizou também que a verdadeira adoração vem do temor ao Senhor (2 Cr. 6:31-33) e do amor a Javé de todo coração (1 Cr. 28:9; 2 Cr. 19:9).

Apesar da ênfase no Templo de Jerusalém, pois representava a própria presença de Javé no meio do seu povo, o cronista também destacou que a verdadeira adoração não pode ser restringida a um tempo ou lugar sagrado (2 Cr. 6:12-23).

Ainda em relacão à adoração o autor de Crônicas destaca o papel dos sacerdotes na vida religiosa da nação de Israel. Quanto aos levitas, após a instituição do templo, eles não precisariam mais carregar o tabernáculo, por isso o livro destaca as seguintes tarefas para estes personagens: cantores, músicos, guardas das portas, professores da lei e juízes (1 Cr. 24 – 26; 2 Cr. 17:7-9; 19:11).

Quando a monarquia em Israel foi extinta, os sacerdotes e levitas ficaram responsáveis pela administração da nação e o cronista pensou que esta classe social restabeleceria a teocracia em Israel, mas não foi o que aconteceu. Por isso Malaquias censura os sacerdotes por não cumprirem com suas funções sagradas (Ml. 1:6 – 2:9).

No Novo Testamento isso fundamentou o papel de Jesus como sacerdote de uma aliança superior (Hb. 7:20-22).

Arrependimento e misericórdia

 

O cronista além de historiador era também teólogo, pois conhecia a misericórdia e graça de Javé diante do arrependimento genuíno de seu povo (compare Êx. 32:11-14 com 2 Cr. 12:6-12). Seu perdão estava continuamente estendido a todos os que se dispunham a mudar suas atitudes e se voltavam para ele (2 Cr. 15:4; 32:26). Antigos habitantes do reino do norte (Israel) experimentariam sua bondade se retornassem aos seus caminhos (2 Cr. 30:6-9). Até mesmo o perverso rei Manassés provou a misericórdia de Javé (2 Cr. 33:12-14).

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011 – Introdução ao Livro de Reis – Um povo, duas nações

Introdução ao Livro dos Reis – Um povo, duas nações

 

Na Bíblia hebraica, tal qual os livros de I e II Samuel, os livros de Reis formam um único volume e se encontram na seção chamada “Profetas Menores” junto com Josué, Juízes e Samuel.

O livro de Reis focaliza as bênçãos e maldições da aliança com Javé registrando os fatos desde a morte de Davi, o trono herdado por Salomão até o esfacelamento dos reinos do Norte e do Sul, isto é, Israel e Judá respectivamente.

A divisão entre os livros de Samuel e Reis não é clara e a divisão ocorreu na tradução do Antigo Testamento em grego (Septuaginta) para que os registros não ficassem tão grandes.

Em Reis fica evidente a apostasia do povo hebreu com o consequente julgamento de Javé.

O livro dos Reis registra a história política de Israel no período da monarquia unida (que começa em torno de 970 a.C.), atravessa a deportação do Reino do Norte, Israel, pela Assíria em 722 a.C., até o exílio para a Babilônia em 586 a.C.

Na história do reino dividido o Reino do Norte, Israel, era politicamente mais instável que o Reino do Sul, Judá. Alguns fatores comprovam isso:

  • Duração mais curta que o Reino do Sul, apenas 209 anos.
  • A violência sempre precedeu a sucessão real.
  • Todos os dezenove reis são considerados maus pelo autor de Reis, pois são acusados de prestarem culto ao bezerro de ouro de Jeroboão.
  • A duração média de um reinado era de 10 anos
  • Nove famílias diferentes reivindicaram o trono de Israel

O Reino do Sul, Judá, ainda sobreviveu por mais um século e meio, chegando a 345 anos de existência, e abaixo estão relacionadas suas principais características:

  • A média de duração do governo de um rei foi de dezessete anos.
  • A família de Davi foi a única a reivindicar o trono de Jerusalém, gerando estabilidade política.
  • O reinado da rainha Atalia (2 Reis 11) foi a única interrupção da sucessão davídica no trono de Judá.
  • Dos dezenove reis de Judá, oito são classificados como bons pelo autor de Reis.

Dois fatos históricos importantes estão registrados no livro dos Reis:

  • Nomeação por Nabucodonosor de Gedalias para o governo de Judá (596 a.C.), e seu assassinato (582 a.C.) – 2 Rs. 25:22-26
  • Libertação do rei Joaquim da Babilônia após a morte de Nabucodonosor (562 a.C. ou 561 a.C.) – 2 Rs. 25:27-30

Em relação à autoria do livro dos Reis, a tradição hebraica atribui ao profeta Jeremias devido às semelhanças entre os relatos de 2 Reis 24 e 25 e Jeremias 52. Além disso, o livro de Reis dá bastante destaque ao papel dos profetas no Antigo Testamento, contudo, analisando-se o propósito, contexto e conteúdo teológico não há evidência suficiente para comprovar esta tese.

Para a produção da história da aliança no livro dos Reis, o autor utilizou ao menos 3 fontes primárias que estão citadas por todo o livro:

  • Registros históricos de Salomão (1 Rs. 11:41)
  • Registros históricos dos reis de Israel (1 Rs. 14:19)
  • Registros históricos dos reis de Judá (1 Rs. 15:23)

Estes documentos provavelmente fazem parte do acervo produzido pelos escribas reais conforme descritos em 2 Sm. 8:16; 20:24-25.

Alguns eruditos ainda acreditam que haja outras fontes para a compilação do livro dos Reis, tais como:

  • As histórias da sucessão de Davi (2 Sm. 9 a 20)
  • A dinastia de Acabe (1 Rs. 16 a 2 Rs. 2)
  • O desenvolvimento profético na era Elias-Eliseu (1 Rs. 17 – 19:21 e 2 Rs. 1 a 13)
  • O profeta Isaías (Isaías 36 a 39 é praticamente idêntico a 2 Rs. 18:13 a 20:19)
  • Os profetas considerados “não literários” (Ex: Aías 1 Rs. 11:29-33; 14:1-16 e Micaías 1 Rs. 22:13-28)

Dadas as evidências histórico-sociais não é errado supor que o livro de Reis tenha sido produzido por volta de 550 a.C. Não é possível ter certeza de que o autor tenha sido algum profeta, mas podemos aferir que ele tinha um amplo conhecimento sobre o teor da aliança entre Javé e Israel, e suas consequências na história.

Estrutura de Reis

 

O livro de Reis está organizado da seguinte maneira:

  • Rei Salomão (1 Reis 1 – 11)
  • Rei Roboão (1 Reis 12:1-22)
  • Reis de Israel e Judá de 931 a.C. a 853 a.C. (1 Reis 12:22 – 16:34)
    • Jeroboão I, Roboão, Abias, Asa, Nadabe, Baasa, Elá, Zinri, Onri, Acabe
  • Elias e Eliseu (1 Reis 17:1 – 2 Reis 8:15)
    • Rei Josafá, rei Acazias, rei Jorão
  • Reis de Israel e Judá de 852 a.C. a 722 a.C. (2 Reis 8:16 – 2 Reis 17:41)
    • Jeorão, Acazias, Jeú, Atalia e Joás, Jeoacaz, Jeoás, Amazias, Jeroboão II, Azarias, Zacarias, Salum, Menaém, Pecaías, Pecal, Jotão, Acaz, Oséias
  • Queda de Samaria (Israel) – 2 Reis 17:4-41
  • Reino de Judá de 729 a.C. a 586 a.C. (2 Reis 18:1 – 24:17)
    • Ezequias (Assíria contra Judá), Manassés, Amon, Josias, Jeocaz, Jeoaquim (Primeira invasão babilônica), Joaquim (Segunda invasão babilônica)
  • Queda de Jerusalém (Judá) – 2 Reis 25:1-21
  • Governador Gedalias (2 Reis 25:22-26)
  • Joaquim no exílio

As narrativas do livro de Reis abrangem o período da ascensão de Salomão ao trono até a queda de Jerusalém em 586 a.C. Estes fatos estão organizados de forma cronológica de acordo com o interesse do autor em mostrar o que ocorrera devido à desobediência do povo hebreu à aliança com Javé.

Os assuntos, organizados de acordo com a seleção do autor, envolvem:

  • A sabedoria de Salomão (1 Reis 3) e um resumo do seu governo (1 Reis 4)
  • As obras de Salomão antes do Templo de Jerusalém (1 Reis 5:1 – 1 Reis 7:12)
  • Alguns eventos do reinado de Jeroboão I e Ezequias (1 Reis 13; 14:1-20 / 2 Reis 18:7 a 2 Reis 19:37 e 2 Reis 20)
  • Resumo das atividades proféticas de Elias e Eliseu

Estas narrativas são contadas simultaneamente de forma intercalada entre os reis do Norte (Israel) e do Sul (Judá). As histórias dos reis são interrompidas apenas pelos relatos dos profetas Elias (reis Onri e Acabe) e Eliseu (rei Jorão).

As narrativas de Elias e Eliseu não são importantes somente como um registro do profetismo israelita não-literário, mas também como um testemunho da fidelidade de Javé para com Israel, mesmo após a adoração a baal ser instituída como religião oficial do Reino do Norte (Israel) pelo rei Acabe, quando se casou com a princesa fenícia Jezabel (1 Reis 21:25-26).

A tabela abaixo representa o drama religioso vivido nessa época em Israel.

Baal (deus cananeu da tempestade) Javé (Deus de Elias e Eliseu)
Baal, deus da tempestade, controla a chuva Elias anuncia o período de seca (1 Rs. 17:1)
Baal garante a fertilidade nas colheitas Israel padece fome e seca, mas Elias e Eliseu distribuem trigo e azeite de forma milagrosa (2 Rs. 4:1-7; 42-44)
Baal controla os relâmpagos e o fogo Elias pede fogo do céu em nome de Javé (1 Rs. 18:38; 2 Rs. 1:10-12; 2:11).
Baal controla a vida e a morte Elias e Eliseu curam doentes e ressucitam mortos em nome de Javé (1 Rs. 17:7-24; 2 Rs. 4:8-37; 5:1-20)

Andrew Hill & J. H. Walton, Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2007.

A narrativa da monarquia de Judá segue o seguinte padrão de estrutura:

  1. Apresentação do rei pelo nome, nome do pai e em que momento ocorreu sua ascensão em relação ao reinado correspondente em Israel (Reino do Norte).
  2. Dados biográficos tais como: idade do rei, duração do seu reinado, avaliação do seu reinado em termos morais e espirituais. Outras informações como o nome da rainha-mãe e Jerusalém como capital do reino são citadas.
  3. Apresentação de fontes adicionais do seu reinado e informações sobre sua morte e sepultamento.

O relato da monarquia israelita seguia o mesmo padrão, exceto pela omissão da capital, Samaria, e do nome da rainha-mãe.

Propósito e conteúdo

O livro de Reis trata basicamente sobre os seguintes assuntos:

  • A avaliação dos reis – mal como Jeroboão e bom como Davi
  • As bençãos no arrependimento e restauração e as maldições no julgamento e exílio
  • O profetismo como voz de Deus para o rei
  • A adoração de Javé X a adoração de baal

O livro dos Reis narram o desenvolvimento da história do povo hebreu no período monárquico unido e posteriormente dividido. Este desenvolvimento é narrado sob a ótica da obediência e desobediência em relação à aliança de Javé com o povo hebreu.

Os personagens principais são os reis e os profestas, que eram os responsáveis pelo cumprimento da aliança por parte do povo. O rei era o representante do povo diante de Deus, e o profeta servia como consciência divina para esse rei. O rei, quando falhava no cumprimento da aliança, gerava tipicamente dois problemas: idolatria e injustiça social. A consequência deste ato de rebelião à aliança incluía a opressão por povos vizinhos, a queda da familia real e, pro fim, o exílio, a perda da terra da promessa.

O propósito literário do livro de Reis é autenticar a dinastia davídica como a herdeira oficial do trono de Jerusalém, conforme profecia de Natã a Davi em 2 Samuel 7:12. O registro de Reis é feito de forma complementar ao livro de Samuel, que mostra a soberania de Deus na história da aliança mesmo em face do livre arbítrio do ser humano com suas responsabilidades e autonomia.

Avaliação de Salomão

O livro de Reis fornece um relato favorável a cerca de Salomão e seus primeiros anos de reinado:

  • Foi amado de Javé – Siginificado de Jedidias em 2 Sm. 12:24-25
  • Dom da sabedoria – 1 Rs. 3
  • Inaugurou a era de ouro de Israel com prosperidade e glória sem precedentes em Israel – 1 Rs. 10:14-29
  • Construtor reconhecido internacionalmente – 1 Rs. 6:1 – 7:12
  • Amante das artes e ciências – 1 Rs. 4:29-34

Entretanto, em seus últimos anos de reinado houve grande declínio político, religioso e moral, pois deixou-se seduzir por suas centenas de mulheres estrangeiras e pelo materialismo (1 Rs. 11:1-3).

O autor de Reis atribui à idolatria de Salomão a divisão de Israel em dois reinos: Norte (Israel) e Sul (Judá), conforme 1 Rs. 11:31-35. Contudo, a derrocada do Império deveu-se aos anos de má administração do Estado pelo rei. Confira na tabela abaixo algumas dessas práticas que levaram à falência a nação de Israel:

Evento Referência
1. Aliança política com nações pagãs por meio do casamento 1 Rs. 3:1-2
2. Sincretismo religioso para agradar os novos parceiros político-econômicos 1 Rs. 11:1-8
3. Reorganização tribal, desconsiderando o pacto de divisão das terras em Números, para obter vantagem econômica 1 Rs. 4:7-19
4. Aumento da burocracia do Estado 1 Rs. 4:22-28
5. Obras monumentais que exigiam trabalhos escravo estrangeiro e hebreu 1 Rs. 5:13-18; 9:15-22; 12:9-11
6. Aceitação das ideias políticas pagãs em consequência do comércio internacional 1 Rs. 9:26-28; 10:22-29 v. 11:1-11
7. Rebeliões sucessivas minaram a força do poder militar de Salomão. Perda de receia das nações estrangeiras 1 Rs. 11:9-25

Andrew Hill & J. H. Walton, Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2007.

Estes eventos trouxeram à tona as antigas desavenças tribais, quando Roboão assume o trono de Jerusalém (1 Rs. 12:16).

Profecia não-literária e literária

Durante o desenvolvimento da história de Israel houve intensa atividade profética que pode ser dividida da seguinte forma:

  • Período profético não-escrito, ou pré-clássico
  • Período profético escrito, ou clássico

No movimento pré-clássico a tendência é descrever a atividade dos profetas por meio de milagres em forma de narrativas históricas, isto é, eles também são personagens dos relatos em Reis. Seu campo de atividade se restringia basicamente à família real.

O movimento clássico, ou literário, ações simbólicas são escritas em forma de oráculos ao invés de milagres. A mensagem dos profetas literários (p. ex: Amós, Isaías, Oséias) atingiam os líderes políticos e religiosos, a população, bem como outras nações.

Dinastia monárquica e liderança carismática

O sistema de governo do Reino de Judá é considerado uma monarquia dinástica, ou seja, o trono passa de pai para filho. No caso de Judá, esta dinastia era divinamente estabelecida (2 Sm. 7).

No Reino do Norte, Israel, ao contrário de Judá, a sucessão ao trono não era realizada de maneira hereditária, mas o modelo de sucessão seguia o padrão carismático, semelhante ao período dos juízes, quando Javé escolhia um líder dentre o povo e capacitava-o com o Espírito Santo. Esta capacitação temporária se manifestava externamente de diversas maneiras e tinha o objetivo de inspirar o povo hebreu a viver o padrão de santidade de Javé, o soberano absoluto de Israel.

Ao contrário de Judá, a sucessão dinástica, ou de pai para filho, em Israel estava condicionada à obediência do rei aos mandamentos de Javé (1 Rs. 11:37-38). Esta condição não foi respeitada pelos reis do reino do Norte, então houve o anúncio da tragédia que se abateria sobre Israel (1 Rs. 14:10-11).

Após a derrocada do rei desobediente, havia a ordem para o rei seguinte executar o anterior. Este procedimento, muitas vezes, terminava em um golpe político de caráter violento (1 Rs. 16:3-4; 11-12).

O bezerro de ouro

O bezerro era tido no Egito como símbolo da fertilidade, e era mais conhecido como Boi Ápis, o mesmo que Israel construiu no deserto (Ex. 32). Ápis era adorado no Egito como símbolo da fertilidade e vida. Provavelmente Jeroboão recolocou Ápis como símbolo religioso de Israel por causa da influência que recebeu durante seu exílio no Egito, onde permaneceu até a morte de Salomão (1 Rs. 11:40).

Quando Jeroboão retornou a Israel, misturou práticas religiosas dos cananeus no culto ao Boi Ápis. Este procedimento de Jeroboão foi premeditado para conquistar a lealdade dos israelitas e impedi-los de ir às festas religiosas em Jerusalém, que estava sob o controle do Reino do Sul, Judá.

Isto gerou uma prática e ideologia bem diferente da adoração a Javé, e serviu apenas para Jeroboão consolidar seu poder no Reino do Norte. Mais tarde o profeta Oséias referiu-se às estas estátuas como ídolos, não Deus (Os. 8:4-5), que estavam também relacionadas aos rituais de fertilidade de baal (Os. 10:5; 11:1-2; 13:1-2).

Esta atitude não apenas tirou a dinastia de Jeroboão do trono, como acabou com o Reino do Norte, sendo consumido por Javé em sua ira (2 Rs. 17:18).

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Para entender a história do povo de Israel

A história do povo de Israel, no Antigo Testamento, é vista da perspectiva da lealdade do povo hebreu à aliança com Javé.

De acordo com Deuteronômio capítulo 28 a obediência à aliança traria bençãos e prosperidade, enquanto que a apostasia traria maldições.

Devemos ter especial atenção a algumas expressões que se repetem nos livros históricos, tais como:

  • “Fizeram o que o Senhor reprova” – Livro dos Juízes
  • “Naqueles dias não havia rei em Israel e cada um fazia o que achava certo” – Livro dos Juízes
  • “Andaram nos caminhos de Jeroboão” – acusação contra os reis do Reino do Norte nos livros dos Reis

No decorrer das narrativas dos reis os seguintes padrões são adotados:

  • Todos os reis do Reino do Norte são reprovados por não terem abandonado o pecado de Jeroboão I, que instituiu o paganismo no Reino do Norte como forma de concorrer religiosamente com o Reino do Sul.
  • Os reis do reino do Sul que fizeram o que o Senhor aprova são comparados com seu ancestral Davi, com quem Javé havia feito uma aliança incondicional.

Observaremos que a quantidade de profetas enviados por Javé foi extensa, desde o profetismo extático, passando pelo profetismo da corte e até os profetas literários, que sugere que Javé dera ao povo da aliança ampla oportunidade de arrependimento.

Sua paciência e fidelidade à aliança com o povo foram comprovadas.

Na leitura dos livros históricos devemos:

  • ter como foco a aliança de Javé com o povo, não pessoas e acontecimentos
  • analisar causa e efeito históricos a partir do papel de Javé, não da ação das pessoas

Toda intervenção de Javé na história foi com vistas à execução do seu plano redentor.


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