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009 – Introdução ao Livro de Rute – Nem tudo está perdido

Introdução ao Livro de Rute – Nem tudo está perdido

 

A história narrada no livro de Rute se passa na época dos juízes, que, como estudamos anteriormente, foi uma época de apostasia e descaso com Javé e sua aliança. O livro de Rute apresenta o caminho oposto do livro de juízes, pois mostra a lealdade uma moça moabita para com Noemi, sua sogra israelita, e seu Deus.

Os moabitas eram descendentes de Ló, sobrinho de Abraão (Gn. 19:37). Eles ocupavam o território a leste do Mar Morto, e, na época da peregrinação dos hebreus no deserto, eles demonstraram agressividade a Moisés e ao povo (Nm. 21 – 25).

Apesar de Rute constar logo após o livro de juízes em nosso cânon, na Bíblia hebraica este livro situa-se na seção dos Escritos, portanto, não é considerado parte da história deuteronomista.

O livro começa dando a entender que o período dos juízes passara, ou seja, as narrativas se passam no período dos juízes, porém foram escritas durante a monarquia, pois a genealogia, no fim do livro, sugere que os leitores conheciam o rei Davi.

Embora as narrativas nos levem ao tempo dos juízes, não há como ter certeza se  a história de Rute, a moabita, se encaixa neste período. A narrativa em Juízes 3, nos diz que Eúde expulsara os  moabitas de Israel, portanto a história de Rute não cabe nesta época. Logo, se a genealogia está completa, os acontecimentos podem estar situados na época de Jefté, no século XII a.C.

A riqueza de diálogos e a construção dos personagens, levaram alguns estudiosos a classificar o livro de Rute como um conto, o que não elimina o caráter e a precisão histórica do livro.

Estrutura de Rute

 

O livro de Rute está estruturado como um espelho, ou seja, os elementos finais da história espelham os elementos iniciais, trazendo-lhes uma solução.

O livro pode ser dividido da seguinte maneira:

  1. Migração e tragédia da família de Elimeleque – 1:1:5
  2. O retorno para Belém – 1:6-22
  3. Rute encontra Boaz – 2
  4. O plano de Noemi – 3
  5. Casamento de Rute e Boaz – 4:1-17
  6. Genealogia de Davi

De acordo com a estrutura espelho do livro, o capítulo 1 espelha o 4, pois no capítulo 1 o desespero de Noemi se torna em alegria por um filho no capítulo 4. Os capítulos 2 e 3 são correspondentes em virtude dos diálogos entre Rute e Noemi e entre Rute e Boaz. O desfecho no capítulo 4, ao espelhar o capítulo 1, só foi possível graças aos desfechos dos diálogos dos capítulos intermediários.

Propósito e conteúdo

O livro de Rute menciona os seguintes conceitos:

  • A Fidelidade e lealdade de Deus
  • A lealdade em um ambiente de apostasia
  • O legado dos ancestrais do rei Davi
  • O Conceito do Resgatador

O período dos juízes, sem sombra de dúvida, representou um momento muito negativo no que se refere à fidelidade à aliança por parte do povo de Israel. O livro de Rute mostra o contraste entre os grandes heróis do período dos juízes com uma simples família israelita. Foi justamente de uma dessas famílias em apuros que a fé em Javé foi preservada, e de onde veio o maior dos reis de Israel: Davi.

Javé preservara esta família para manter seu nome em Israel, para mostrar sua lealdade e fidelidade à aliança realizada séculos antes.

O resgatador

 

Se um homem morresse sem deixar filhos, seu irmão deveia se casar com a viúva e era obrigado a gerar um filho em nome do seu falecido irmão. Este sistema é chamado de levirato, e é descrito com detalhes em Deuteronômio 25:5-10. Este sistema preservaria as famílias, que não teriam um fim repentino.

O costume do levirato também incluía o direito ao resgate de terras, conforme prescrito em Levítico 25:25-31; 47-55. A terra vendida a alguém poderia ser resgatada, comprada de volta por alguém da família. Estes costumes tinham o propósito de preservar as famílias e a terra, duas questões centrais da aliança.

O resgatador era um intermediário para readiquirir as bênçãos em risco e serve de exemplo para a Graça de Deus. O Novo Testamento aplica este conceito à ação de Cristo para com a Igreja.

Hesed

 

O termo hesed se refere à lealdade de Javé com sua aliança. Algumas traduções da Bíblia usam misericórdia, outras preferem a palavra bondade para designar a hesed de Deus.

No livro de Rute, a hesed de Javé é demonstrada tanto vertical, quanto horizontalmente. No plano horizontal, o compromisso de Rute com sua sogra em 1:16-17 é um exemplo da bondade e misericórida. É justamente esta característica que chama a atenção de Boaz em 2:12 por Rute, onde a hesed que ele também demonstra por Rute é louvada em 2:20.

No plano vertical a hesed de Javé é descrita em 1:8-9, que levará ao casamento de Boaz e Rute no capítulo 4, onde a misericórdia de Javé se manifesta no resgatador de Noemi.

A conclusão do livro é que a misericórdia de Javé se manifesta na misericórdia de uns pelos outros, que culmina em seu louvor e adoração, contrastando com o livro de Juízes pela falta de lealdade à aliança.

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006 – Introdução ao Período Histórico – Senta que lá vem história

Introdução aos livros históricos do povo da aliança

 Até este momento, estudamos, no Pentateuco, as ações de Deus desde a criação do mundo até a iminência da entrada do povo hebreu na terra prometida.

Na Bíblia hebraica os livros de Josué, Juízes, I e II Samuel e I e II Reis pertencem à divisão dos “Profetas Anteriores”, ou seja, os hebreus consideram muito mais seu conteúdo teológico do que seu perfil histórico. Este conjunto de livros abrangem sete séculos de história do povo a aliança, começando pelo chamado de Josué (Js.1:1-2) até a libertação do rei Joaquim de Judá (2 Rs. 25:27).

O restante dos livros, Rute, I e II Crônicas, Esdras, Neemias e Ester estão na divisão chamada de “Escrituras”.

A história deuteronomista

Alguns estudiosos identificaram que os padrões que se repetem nos livros considerados históricos (Josué a II Reis) seguem as determinações do livro de Deuteronômio a respeito do local de culto, forma de culto, modo de vida e, sobretudo a fidelidade do povo com relação à aliança entre Javé e o povo de Israel. Por isso, costumam chamar este período de história deuteronomista.

A obediência à aliança traria bençãos (Dt. 28), porém a desobediência levaria o povo à perda da terra prometida (Dt. 30).

Veja abaixo algumas expressões que se repetem nos livros que conhecemos por históricos:

  • “os israelitas fizeram o que o Senhor reprova” – em Juízes;
  • “andaram nos caminhos de Jeroboão” – em Reis

Os discursos que relembrar a redenção do povo do Egito e as obras de Deus entre o povo também são recorrentes em todos estes livros. Observe o padrão em cada um dos  textos relacionados abaixo:

  • Deuteronômio 4;
  • Josué 23;
  • Juízes 2:11-23;
  • 1 Samuel 12;
  • 2 Samuel 7;
  • 1 Reis 8;
  • 2 Reis 17:7-23

Portanto, podemos verificar que a mensagem deuteronomista se repete em diferentes momentos da história do povo de Israel, onde a padrão de reprovação é dado por Jeroboão, que não fez o que Javé estipulara na Aliança. Em contrapartida, o padrão de aprovação é o rei Davi, que centralizou o local de adoração em Jerusalém, de acordo com Dt. 12 e seguiu as estipulaç!oes da aliança.

Durante este período houve intensa atividade profética, que mostram a paciência e fidelidade de Javé à aliança estabelecidade com os hebreus.

História teológica

Nós costumamos estudar história de um ponto de vista linear, ou seja, um principio, meio e fim. Porém, no Antigo Oriente Médio o tempo cronológico não parecia ser importante, pois os povos antigos costumavam marcar a história por eventos cíclicos, que se repetiam. Tudo era visto com uma visão sobrenatural dos fatos, por isso era muito comum a estes povos viverem presos a rituais e encantos, pois seus deuses eram inconstantes e vingativos. Portanto, para afastar maus presságios ou eventos ruins, estes povos praticavam a magia e encantamentos, já que tudo em sua história era visto sob o prisma sobrenatural pela ação dos seus deuses.

Os israelitas estavam proibidos de praticar a magia e encantamentos, já que seu Deus, Javé, era constante e imutável e, portanto nenhuma surpresa atingiria os israelitas. Todo o padrão estava definido pela aliança e pela lei, ou seja, a obedi6encia gera benção e a desobediência gera maldição. Além disso, os eventos climáticos eram controlados por Javé, o Deus único, logo os israelitas não precisariam de nenhum ritual para que ele mandasse chuva, ou ventos ou sol.

Desta forma, teologia e história de unem no estudo do Antigo Testamento baseados na aliança entre Javé e seu povo, este é o fundamento da teologia e hsitória deuteronômica.

Aplicação para a Igreja contemporânea

Devemos ler a história de Israel sob o ponto de vista teológico, ou seja, a ação de Deus entre seu povo com fim de instrução e auto-revelação de Deus.

Muito embora sermões e lições citando os bons exemplos das pessoas que viveram neste período sejam válidos, na realidade a ênfase deve ser dada a Deus, pois ele é a figura central, não os personagens apresentados. A revelação apresentada nos livros que cobrem este período é de Deus e não a de Davi, Sansão, Elias ou Josias.

Não devemos tentar buscar ensinamentos com base na vida de Saul ou de Eliseu, mas procurar os padrões de Deus para seu povo com base na aliança estabelecida entre eles. Então, nos próximos estudos, que abrangerão os livros históricos, passaremos a observar o seu prisma teológico e não apenas histórico. Estudaremos também o papel de Deus na história e não a ação das pessoas separadas da revelação de Deus entre o povo  da aliança.

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005 – Introdução ao Números – Com quantos escravos se faz uma nação?

Introdução ao Números – Com quantos escravos se faz uma nação?

O livro de Números registra a peregrinação do povo de Israel no deserto, após o Êxodo do Egito rumo à Terra Prometida, tal qual um diário dos primeiros dias da aliança entre Javé e os hebreus. O nome hebraico do livro é “No deserto”, tirado do primeiro versículo. O livro destaca a rebelião do povo e as provações durante a jornada no deserto. O nome “Números” vem da tradução grega do Antigo Testamento referente ao recenseamento do povo mencionados nos capítulos 1 e 26.

Como acontece em Levítico, a expressão “O Senhor falou a Moisés”, aparece em todos os capítulos do livro, o que leva os estudiosos a presumirem a autoria mosaica. Porém, alguns trechos narrando Moisés em terceira pessoa (Nm. 12:3; 15:22-23) sugerem que houve alguma edição posterior à morte de Moisés. Os trechos legislativos de Números procedem de Moisés durante os 38 anos no deserto (Nm. 33:38; Dt. 1:3), mas não se sabe ao certo se ele transcreveu as palavras de Deus, ou se um escriba o ajudou. Parece razoável supor que o Pentateuco foi compilado num livro de cinco volumes durante o tempo de Josué (Js. 24:31) e de Samuel (1 Sm. 3:19-21).

Ao que parece Moisés redigiu um diário onde anotava os eventos importantes (Nm. 33:2), o que torna o livro de Números histórico, com certa característica pessoal.

A narrativa da peregrinação pelo deserto abrange três momentos distintos:

  • No Sinai – 1:1 a 12:16 – Desde o término do tabernáculo até o aparecimento da nuvem que os guiaria
  • Em Cades – 13:1 a 22:1 – Os 38 anos de peregrinação pelo deserto. Primeira geração de hebreus após o Êxodo que vai do Sinai a Cades.
  • Em Moabe – 22:2 a 36:13 – Os seis meses finais dos 38 anos de peregrinação. Segunda geração pós êxodo que vai das planícies de Cades às planícies de Moabe.

Estrutura de Números

 A divisão literária do livro de Números é a mais dificil do Antigo Testamento devido aos seus diversos padrões e formas literárias. Nem sempre é possível estabelecer uma unidade coesa para identificação da ordem e estrutura. O livro possuí, além dos amplos trechos narrativos, muitas outras formas literárias, tais como:

  • Listas de censos – 1:5-46; 3:14-39; 4:34-49; 26:5-51
  • Manual de organização do acampamento – 2:1-31
  • Regras religiosas – 3:40 a 4:33; 8:5-26; 18:1-32
  • Leis para sacrifícios e rituais – 5:1 a 7:89; 9:1 a 10:10; 15:1-41; 19:1-22; 28:1 a 30:16
  • Instruções para conquista a divisão da terra – 32:33-42; 34:1 a 35:34;
  • Leis sobre herança – 36:1-12
  • Poesia – 21:14-15; 21:17-18; 21:27-30
  • Oráculos proféticos – 23:7-10, 18-24; 24:3-9, 15-24

Ainda que haja esta diversidade literária a conquista da terra prometida é o elemento unificador do livro.

O quadro abaixo mostra uma proposta de divisão do livro:

I. A organização de Israel para a conquista da terra prometida 1:1 – 10:10
II. A rejeição da promessa divina de terra 10:11 – 14:45
III. A peregrinação fora da terra prometida: a jornada nas planície de Moabe 15:1 – 22:1
IV. A luta contra os obstáculos à terra prometida 22:2 – 25:18
V. Uma nova preparação para a conquista 26:1 – 36:13

Propósito e conteúdo

O livro de Números, num primeiro momento, revela a fidelidade e misericórdia de Javé ante a rebeldia dos israelitas, além de revelar mais da sua natureza e caráter.

As narrativas históricas de Números explica a presença dos hebreus em Canaã, servindo como continuação de Êxodo e Levítico, além de fazer uma ponte entre as leis dadas no Sinai e a ocupação da Terra Prometida.

Na preservação dos registros da fase  inicial da aliança entre os hebreus e Javé, o livro também destaca os seguintes pontos:

  • A santidade de Javé
  • A pecaminosidade do homem
  • A necessidade da obediência a Javé
  • As consequências da desobediência
  • A fidelidade à aliança estabelecida no Sinai
  • A presença de Javé entre o povo da aliança
  • Soberania de Javé entre as nações

O livro de Números apresenta uma espécie de treinamento divino para que um povo, formado por ex-escravos, se tornasse a nação de sacerdotes estipulada na aliança (Ex. 19). Javé usou as dificuldades  no deserto para que o povo se habituasse às batalhas que enfrentariam na conquista da terra prometida e se organizassem em um exército ordenado e poderoso. Além disso, o livro narra a dura experiência de desobeder às ordens do seu Rendentor, servindo como material didático às futuras gerações de hebreus.

Números também destaca que, durante este treinamento, Javé foi o provedor fiel dos israelitas ao guiá-los pelo deserto como a coluna de nuvem e fogo, ao suprí-los materialmente e protegê-los (10:11 – 14:45; caps. 16 e 17; 20 a 25; 27:12-23; 31:1-33:49).

Os recenseamentos

 Os recenseamentos eram muito comuns no Antigo Oriente Médio para fins de:

1) Contar os homens aptos para a guerra – Nm. 1:3

2) Distribuição das tarefas do clã e no serviço religioso – Nm. 3:4

3) Cobrança de impostos – Ex. 30:11-16

Com relação ao número de israelitas contados, tendo por base apenas os homens com mais de 25 anos, numa interpretação literal, a população de Israel chegaria ao montante de 2 a 3 milhões de pessoas. Esta quantidade é sustentada pelo fato da população de Israel crescer numa taxa muito maior que os egípcios e também à promessa feia a Abraão sobre sua grande descedência (Gn. 12:2). Porém, o ambiente pouco propício do deserto para a reprodução humana e a incapacidade dos israelitas expulsarem todos os cananeus nos levam a interpretar estes de forma não literal. Alguns estudiosos sugeriam que se tratava da lista de recenseamento de Davi colocada no lugar errado, mas este teoria já não conta com tanto apoio. Outros ainda sugerem que se trata de uma figura de linguagem épica exaltando os feitos de Javé. A hipótese mais provável hoje é que devido à falta dos sinais vocálicos na escrita hebraica traduziu-se erroneamente a palavra clã, grupo ou tribo para milhares. Logo, ao invés de lermos milhares o correto seria grupos de pessoas, o que reduz a estimativa da população para algo em torno de 400 mil indivíduos, que ainda torna a narrativa coerente com o relato bíblico sobre o tamanho de Israel ante as outras nações (Ex. 23:29; Dt. 7:1-7).

As provações

 A provaçao é um tema exaustivamente repetido no Pentateuco. Desde o Éden até Abraão, de Jacó a José, Javé sempre testou a fé de seus escolhidos. Em Números, o propósito de Javé, ao testar o povo, era humilhar e ensinar os hebreus a depender totalmente dele, além da obediência aos mandamentos da aliança. O ensinamento consistia sobretudo em mostrar-lhes a verdadeira condição de seus corações e o quanto Javé era misericordioso.

Segundo o Novo Testamento, Jesus também foi provado em todas as áreas que somos tentados, para que pudesse ser o sumo sacerdote que se identifica conosco (Hb. 4:14-16). Tiago confirma este ensino ao escrever que Deus prova os seres humanos com o objetivo de aprovar a fé e desenvolver um caráter santo (Tg. 1:2-4), e não para reprovar a fé ou direcionar para o mal (1:12-15).

A revelação de Deus e a cultura

 O livro de Números registra a tratativa de Javé com a cultura humana. Ao estabelecer as cidades de refúgio, por exemplo, os culpados de homicídio não intencional tinham uma alternativa para fugir da ameaça de vingança que o parente mais próximo do morto pudesse realizar (Nm. 35:9-28). Este conceito era um avanço ético considerável para as sociedades do Antigo Oriente Médio.

Outro exemplo de ética e moral elevados da sociedade israelita em relação às outras culturas, foi a decisão de Moisés sobre a herança das filhas de Zelofeade (Nm. 27:1-11). Ele havia morrido sem deixar herdeiros masculinos, e apenas homens, até aquele momento, também em outras culturas, poderiam ser herdeiros de bens e terras. Esta lei elevou a posição das mulheres na sociedade hebraica, algo inédito na cultura oriental, indicando a fidelidade de Javé com relação à terra prometida (Nm. 33:50 – 36:1).

Por outro lado, Javé procurou condicionar sua revelação aos padrões culturais humanos ao utilizar sua linguagem e padrão dos documentos legais e ao realizar o recenseamento, que eram modelos culturais antigos já estabelecidos. Estes casos demonstram que Javé respeita a cultura humana e não a anula, porém existem casos que não dependem da cultura quando a obediência à aliança está em jogo.

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004 – Introdução ao Levítico – A parte legal da Bíblia

Introdução ao livro de Levítico –  A parte legal da Bíblia

 O povo de Israel, prestes a se transformar em uma nação, era o povo escolhido por Javé no Antigo Testamento. Javé escolhera este povo sem nenhum tipo de critério ou merecimento e os libertara da escravidão do Egito para os encaminhar para a terra que prometera aos seus antepassados. Esta terra seria o local onde o povo escolhido deveria servir de testemunho para outras nações (Gn. 12:3), e não o deserto.

Portanto, este povo, formado por ex-escravos, precisava, além da terra prometida, de uma lei, um código de conduta, pois nesta terra eles teriam contato com as práticas de povos pagãos. O livro de Levítico contém este código para o povo da aliança, pois reflete a vida santa que este povo deveria ter por causa desta aliança (Lv. 20:26), confrontando estas práticas pagãs com a maneira correta de adorar ao único Deus.

O livro do Êxodo descreve a revelação e a construção do lugar de adoração do povo da aliança, o Tabernáculo (Ex. 25 – 31); o livro de Levítico descreve os detalhes da forma de adoração que este povo deveria prestar a Javé no tabernáculo.

O nome Levítico vem do grego, e significa “o que é relativo aos levitas”. O nome hebraico do livro é “E chamou”, tirado das primeiras palavras do primeiro versículo.

Moisés não é mencionado como autor humano no livro, porém seu nome aparece mais de 25 vezes, quase em todos os capítulos na expressão “O Senhor disse a Moisés”, exceto 2, 3, 9, 10 e 26, o que leva judeus e cristãos tradicionais a atribuir a autoria do livro a Moisés.

Contexto cultural

 Não eram apenas os hebreus que tinham um sistema religioso composto de sacrifícios e sacerdotes no antigo Oriente Médio. Povos egípcios e cananeus realizavam holocaustos, ofertas de comunhão, tinham lugar próprio de adoração das divindades e demais rituais semelhantes aos israelitas.

Porém, algumas diferenças mantinham o povo de Israel distinto do sistema religioso de outros povos, tais como:

  • A revelação direta da palavra divina
  • A manifestação visível de Javé
  • A compreensão do pecado humano e suas consequências
  • A natureza ética do culto a Javé comparado com o culto da fertilidade de outros povos
  • O caráter santo e justo de Javé em contraste com os deuses “humanizados” dos pagãos
  • A proibição de sacrifícios humanos

Estrutura de Levítico

 O livro de Levítico deve ser lido como uma continuação dos capítulos 25 a 40 de Êxodo, pois a primeira expressão do livro “e chamou o Senhor a Moisés” sugere esta estrutura, que na realidade vai até o livro de Números 10:10, narrando o primeiro ano do nascimento da nação de Israel.

As leis são discursos que Javé diz a Moisés, para que ele transmita ao povo. Estas leis eram para todo povo, pois tratava sobre os procedimentos de culto, festas solenes, instruções para os sacrifícios e diretrizes gerais para que a vida religiosa não fosse desassociada da vida civil.

O quadro abaixo mostra as divisões principais do livro:

I. Regulamentos para oferecimento de sacrifícios 1:1 – 7:38
II. Descrições da ordenação de Arão e seus filhos e os primeiros sacrifícios no tabernáculo 8:1 – 10:20
III. Leis regulamentando a pureza ritual 11:1 – 15:32
IV. Liturgia e calendário para o Dia da Expiação 16:1-34
V. Leis com exortações à vida santa 17:1 – 26:46
VI. Leis sobre dízimos e ofertas 27:1-34

Propósito e conteúdo

 

O propósito do livro de Levítico é expresso pela ordem dada no capítulo 11 versos 44 e 45: “…consagrem-se, sejam santos porque eu sou santo…”, uma vez que o povo de Israel fora chamado para cumprir uma missão (ser benção a todas as famílias da terra), por causa do ato redentor de Javé ao executar o Êxodo dos descendentes de Jacó do Egito (Lv. 22:32-33).

Portanto, Levítico é um manual de santidade pelo qual o povo escolhido, o futuro reino de sacerdotes e nação santa (Ex. 19:6), deveria adorar a Javé para usufruir as bênçãos prometidas (Lv. 26:1-13).

O livro de Levítico aborda ainda conceitos sobre:

  • A santidade de Deus
  • O princípio da mediação sacerdotal
  • A pureza do povo da aliança
  • A remissão do tempo pelo calendário litúrgico
  • O princípio de substituição no ritual do sacrifício

A primeira parte deste manual, que abrange os capítulo 1 a 10, prescreve os procedimentos de adoração a Javé, enquanto que a segunda parte, que vai do capítulo 11 ao 27, descreve a prática da santidade no dia-a-dia do povo.

Santidade

 Com base na lei levítica, todas as coisas eram divididas em sagrada e comum. O comum poderia ser dividido em puro e impuro. O puro tornava-se sagrado mediante a santificação e o impuro pela contaminação. O sagrado poderia ser profanado a tornava-se comum, ou mesmo impuro. O que era impuro poderia ser purificado e posteriormente consagrado para tornar-se sagrado.

O apóstolo Paulo recorreu a estes conceitos quando escreveu que todos os seres humanos são impuros por consequência do pecado de Adão (Rm. 5:6-14). Mas o sacrifício redentor de Jesus purifica e santifica o pecador (1 Co. 6:9-11).

Sacrifício

Embora os sistemas sacrificiais entre os povos antigos tivessem a idéia de aplacar a ira dos deuses, o sistema dos hebreus era diferente, pois era revelado divinamente. Além disso, o sistema sacrificial dos hebreus apontava para a uma ética pessoal e comunitária elevada, e também para uma vida de santidade.

De acordo com Levítico 17:11, a vida está no sangue, portanto o sangue no altar simbolizava a purificação da presença de Deus (Hb. 9:21-22). O propósito era preservar a santidade da presença de Deus no meio do povo. A descontaminação realizada por meio do sacrifício de sangue tornava o ofertante puro e permitia a reconciliação com Deus.

Os sacrifícios de animais não eram realizados para a salvação dos pecados das pessoas, mas preservavam a santidade da presença de Deus no meio do povo e permitiam um relacionamento saudável entre Javé e o povo, pois o ritual era simbólico que revelava a atitude interna do ofertante. O propósito dos sacrifícios era também adorar a Deus pela sua presença entre o povo da aliança, e representava a santidade de Deus em contraste com o pecado humano.

O ritual do sacrifício é a base do entendimento da obra redentora de Jesus, tendo sido reconhecido como o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo. 1:29-34). Em outros trechos, a morte de Jesus foi entendida como o sacrifício oferecido de uma vez por todas pelos pecados da humanidade (Rm. 5:6-11; Hb. 10:10-12). O livro de Hebreus traz uma comparação entre o Dia da Expiação com a morte de Jesus (Lv. 16 <-> Hb. 9-10).

Um destaque importante é que todos os sacrifícios de expiação mencionados em Levítico são para pecados cometidos “sem intenção”, pois não havia qualquer sacrifício específico para pecados premeditados ou rebelião maliciosa.

Descanso sabático

 A santidade do povo hebreu seria refletida também no calendário. Para facilitar o entendimento dos israelitas quanto à provisão de Javé suas festas seguiam o calendário agrícola (Lv. 23:4-44), mas a guarda do sábado introduziu o calendário religioso (Lv. 23:1-3).

A guarda do sábado lembraria a Israel que Javé era o Criador (Ex. 20:8-11), além de santificar um tempo de adoração ao Senhor. O sábado lembraria ao povo a aliança com Javé e testificaria que a santidade se baseava em Deus e não na lei ou nos rituais (Ex. 31:12-17; Lv. 26:2). Na época de Jesus este conceito havia se perdido, pois o legalismo obscurecera seu verdadeiro significado (Mt. 12:1-4; Mc. 7:1-13). No diálogo com a mulher samaritana (Jo. 4:21-24) Jesus relembra o verdadeiro significado de um tempo separado de adoração ao Senhor, que não se restringe a lugares ou tempo, mas a hora é sempre agora.

O princípio do sábado era aplicado também à terra, pois a cada 6 anos de plantio e colheita, a terra deveria descansar no sétimo ano. Isso simbolizava que Javé era o provedor de Israel, além do caráter social, pois os pobres poderiam colher livremente dos frutos da terra não cultivada (Ex. 23:11).

De acordo com o profeta Jeremias foi o desrespeito às leis sabáticas que causaram a queda de Jerusalém e o exílio para a Babilônia (Jr. 25:8-14; 2 Cr. 36:17-21). O exílio foi castigo de Javé ao separar da Terra da Promessa o povo escolhido, justamente por negligenciar as leis relativas à terra que o próprio Deus dera a este povo.

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002 – Introdução ao Gênesis – A promessa corre perigo

O estudo do livro de Gênesis é importante, pois fundamenta o ensino teológico de todo o Antigo Testamento.

Não se trata de um livro científico, nem tampouco é uma obra biográfica ou histórica, mas é legítimo investigar suas afirmações, assim como podemos aprender sobre homens e mulheres que se deixaram ser usados por Deus e que segue os mesmos rumos da história da humanidade.

O nome Gênesis vem da tradução grega do Antigo Testamento (chamada septuaginta), e significa origem. O nome no original hebraico era “No princípio”.

Autoria

A tradição atribui a Moisés a autoria de Gênesis, mas não se encontra no livro nenhuma evidência conclusiva. Como o Pentateuco, na tradição judaica, era visto como uma única obra, e Moisés é descrito como o compilador dos outros livros, logo ele foi cogitado como o mais provável escritor de Gênesis.

Estrutura de Gênesis

Gênesis está dividido literariamente em onze partes que começam por “…esta é a história de…“. Isso sugere que alguém antes de Moisés já havia separado este material que foi usado para compor o livro todo.

Estas seções não servem apenas para dividir o livro, mas demonstram a graça e misericórdia de Deus em preservar a raça humana mesmo com todo pecado produzido pela humanidade. Além disso a história destas gerações mostra que o plano redentor de Deus estava sendo executado.

Abaixo está o quadro que apresenta esta estrutura:

Ordem Geração Referência
1 Dos céus e terra 2:4 – 4:26
2 Adão 5:1 – 6:8
3 Noé 6:9 – 9:29
4 Sem, Cam e Jafé 10:1 – 11:9
5 Sem 11:10-26
6 Terá 11:27 – 25:11
7 Ismael 25:12-18
8 Isaque 25:19 – 35:29
9 Esaú 36:1-8
10 Esaú 36:9 – 37:1
11 Jacó 37:2 – 50:26

Propósito e conteúdo

Alguns temas de Gênesis giram em torno da boa criação de Deus, da desobediência que separou o homem de Deus e de sua revelação progressiva ao povo escolhido por meio da aliança.

O livro de Gênesis explica a razão da escolha de Abraão e sua família para realização da aliança com Javé. A aliança é o tema que unifica as histórias contidas em Gênesis e narra os perigos do não cumprimento desta aliança. No decorrer desta história Deus envia seus julgamentos à humanidade, que se opoe ao pecado estabelecido em todos os aspectos.

Ao contrário das demais histórias da origem do universo, Gênesis mostra que Javé não apenas organizou o universo, mas deu origem ao mesmo mediante o poder de sua palavra. As demais histórias da criação de outros povos mostram que o universo não foi criado, mas apenas organizado mediante lutas entre as divindades. Gênesis mostra que o universo foi criado pelo poder do Deus soberano, pois os povos ao redor de Israel personificavam as forças da natureza como deuses, e Gênesis mostra Javé como o criador destas forças.

Outro aspecto importante é que as histórias da criação dos outros povos mostram que a humanidade foi uma ideia posterior dos deuses, porém Gênesis deixa claro que o propósito da criação foi gerar um ambiente no qual o homem pudesse viver. Algumas narrativas da criação mostram que o homem foi criado para fazer o trabalho que os deuses estavam cansados de fazer, portanto era uma ferramenta de dominação dos escravos, já que os reis e governantes eram considerados deuses.

O texto de Gênesis não esconde os problemas e erros dos patriarcas, mas a despeito disso Javé manteve-se fiel à aliança que havia estabelecido com Abraão e sua descendência. Estes episódios demonstram que não foi por mérito que ele havia escolhido esta família.

Estrutura narrativa

 Criação (1:1 – 2:3)

O registro da criação está estruturado de forma a demonstrar a progressão do sem forma e vazio para o pleno preenchimento, adequando-se ao homem.

A narrativa conta como o homem decaiu da alta posição a que fora colocado na criação para a expulsão do jardim que Javé criara para ele. O assassinato de Abel por Caim mostra que a nova ordem do pecado havia se instalado nas raízes da humanidade. O registro posterior das genealogias do livro de Gênesis provam que o pecado viera para ficar definitivamente nos fundamentos da humanidade.

O relato do pecado culmina no dilúvio, atraindo o julgamento de Javé sobre a humanidade, mas ao mesmo tempo representou sua graça, ao poupar Noé e sua família. Aqui temos outro contraste com as narrativas de outros povos sobre o dilúvio, pois, nestas narrativas, os deuses não desejaram poupar ninguém, antes a salvação de uma família foi a traição de um dos deuses que avisou sobre a destruição iminente do mundo.

Após o dilúvio Javé renova sua aliança com a humanidade, a mais abrangente da Bíblia, pois envolve a todos com a promessa de não destruir mais a Terra com água.

Seu julgamento é visto mais uma vez, ao impedir os homens de se unirem em rebelião confundindo suas línguas, gerando a expansão geográfica. Porém, sua graça é renovada ao se revelar a um homem e sua família.

Os patriarcas na Palestina (11:27 – 37:1)

O texto a seguir não pretende demonstrar a continuidade da fé da humanidade, e Abraão não é apresentado como um homem diferente dos demais, pelo contrário, pois o texto de Josué 24:2 mostra que Abraão e sua família eram politeístas, não adoravam a Javé. Concluímos, portanto, que Javé escolhera a Abraão do nada, sem nenhum tipo de mérito.

Após o estabelecimento da aliança com Abraão todo enredo gira em torno do suspense em relação ao cumprimento das promessas feitas por ocasião da aliança. O primeiro deles é a incapacidade de Sara de gerar filhos. Nestas narrativas está incluída também a história de Abraão e Sara no Egito, que, para escapar da fome acabam se envolvendo com o perigo do faraó se apossar de Sara com sua esposa. Outro obstáculo ao cumprimento da promessa fica por conta do problema entre Abraão e seu sobrinho Ló. Outro episódio envolvendo Abraão e seu sobrinho foi o resgate que Abraão realizou de Ló.

Outros empecilhos ao cumprimento da promessa são apresentados, tais como no capítulo 15, apresentado Eliezer, um empregado de Abraão, como um possível herdeiro, e, no capítulo 16 com a entrada em cena de Hagar e Ismael. Javé havia, no entanto estipulado que o herdeiro seria um filho legítimo de Abraão e Sara.

A narrativa prossegue, e, mais uma vez, o cumprimento da promessa está em risco quando Sara quase foi levada para o harém de Abimeleque. Se ela fica lá, mesmo que por pouco tempo, poderia haver dúvidas sobre a filiação de Abraão, pois seu nascimento estava previsto para dali um ano. A ameaça é removida por meio de um sonho que o rei teve orientando-o a devolver Sara.

No capítulo 21 temos o nascimento de Isaque e tudo tende a ficar bem, porém o pedido de Javé para Abraão sacrificar Isaque coloca o risco de volta à história. Entretanto todos os riscos anteriores decorreram de algum erro humano, mas este risco ao cumprimento da promessa vinha do próprio Deus. Esta prova tinha o objetivo de Abraão demonstrar seu temor a Javé, pois não era uma obediência apenas para ganhar algo em troca, neste caso Abraão perderia! Eliminado mais este obstáculo Javé renova suas promessas a Abraão (Gênesis 22:16-18).

Após estas narrativas os obstáculos continuam, pois era necessário que Isaque também se casasse e tivesse filhos. Após a história sobre o arranjo do casamento entre Isaque e Rebeca, surge outra amaeaça ao cumprimento da promessa: Rebeca também era estéril. O texto relata mais uma vez a graça de Deus ao permitir que Rebeca tivesse filhos, eliminando outra ameaça à promessa. A partir daí o texto relata as dificuldades de relacionamento entre família da aliança, que novamente põe em risco o cumprimento da promessa. O texto também tem a intenção de mostrar que Jacó, o escolhido de Javé para continuar a promessa não tinha a mesma estratura espirtual que Abraão seu avô, o que em si mesmo representa outro obstáculo ao cumprimento da promessa.

Os patriarcas no Egito (37:2 – 50:26)

Neste ponto o narrador introduz a José, filho preferido de Jacó. A narrativa de José é perfeitamente estruturada, exceto pelo capítulo 38 de Gênesis, que narra a história isolada de Judá, que teria grande importância para a história posterior do povo de Israel.

O objetivo principal da história de José é explicar a razão de o povo ter vivido no Egito durante tanto tempo, explicando os motivos do Êxodo do povo, o grande evento fundador do povo de Israel no Antigo Testamento.

Apesar do tema da aliança ser pouco comentado, fica evidente a ação de Javé em guardar seu povo para o cumprimento pleno das promessas feitas a Abraão décadas antes.

 

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A remoção do pecado

O Antigo Testamento é muito rico no que se refere à ação que Deus toma em relação ao pecado. Algumas atiudes tomadas por Deus são: 1) Ele o remove, ou joga fora como roupas sujas (Is.6:7); 2) Ele afasta-o (Ex. 34:6-7); 3) Ele o apaga (Is. 44:22); 4) Ele lava e limpa do pecado (Sl. 51:2); 5) Ele o expia (Ez. 16:62); 6) Ele se esquece (Is. 43:25); 7) Ele os lança para trás de si (Is. 38:17); 8) Ele os perdoa (Sl. 103:2-3).

O Antigo Testamento registra muitas formas primitivas que as pessoas tinham para lidar com o problema do pecado e sua remoção. Estas antigas formas eram procedimentos externos para remoção do pecado, tais como: 1) lavagem com água (Nm. 8:7); 2) queimar pelo fogo (Nm. 31:22); 3) um animal levava embora o pecado (Lv. 14:7); 4) nos casos mais sérios o pecador era expulso da comunidade, ou mesmo morto (Lv. 20:6).

Eichrodt, afirma em linguagem jurídica, que a expiação, nos casos mais primitivos tem o sentido de remoção material de um veículo de poder judicial, porém não é caso quando o Antigo Testamento trata deste assunto, pois nos casos de rompimento da aliança, que era uma relação pessoal com Deus, esta deve ser restabelecida por meio da remoção do pecado (EICHRODT, 2004, P. 881).

 O tema do desvio da ira de Deus também é tratado no Antigo Testamento. Este assunto é tratado em I Samuel 26:19, quando Davi pensa em fazer um sacrificio a Deus para que Saul não mais o persiga. A idéia de propiciação ou expiação no Antigo Testamento tem o sentido de “acariciar o rosto” de Deus, enternecê-lo ou abrandá-lo tornando, desta maneira, Deus favorável ao pecador. (1 Sm. 13:12; IRs. 13:6).

 Outro modo das pessoas se livrarem dos pecados era o sacrifício, que, entretanto, não expiava todos os pecados, tais como alguns tipos de assassinato (Nm. 35:31) ou pecados contra a aliança. A expiação não equivale a perdão dos pecados, mas expiação significa salvar alguém da morte merecida.

 Eichrodt diz que a expiação tem um caráter pessoal, pois não apenas é uma forma de remoção dos pecados, mas um método de perdão (EICHRODT, 2004, p. 882). A raiz da palavra expiação, kpr, aparece relacionada com sacrifícios, que se torna na prática uma representação de um relacionamento que se restaura. Eichrodt afirma que toda ação sacrificial foi instituída por Deus, logo é uma atitude graciosa de Deus oferecendo a possibilida de se expiar tudo aquilo que exige expiação, para assegurar seu perdão e misericórdia (EICHRODT, 2004, p. 884).

Segundo Whale, citado por Smith, não existe o conceito de sofrimento vicário ou sacrifício substitutivo, ou seja, a idéia de aplacar a ira de Deus ou oferecer algum pagamento pelo pecado não encontra eco nas escritos do Antigo Testamento, pois é o próprio Deus quem tira ou remove o pecado. No conceito da aliança, Deus queria que seu povo estivesse sem pecado, para usufruir do relacionamento pessoal que fora estabelecido, logo o próprio Deus oferecia um meio de remover estes pecados para que seu relacionamento fosse pleno.

 Avançando na história, os profetas começaram a falar mais em arrependimento e perdão do que nos atos sacrificiais, e ficaram desapontados com a falta de resposta do povo ao arrependimento oferecido por Deus. Nos escritos proféticos da monarquia, muitas passagens são anúncios de condenação por falta de arrependimento, que era apenas o chamado dos profetas para que Israel voltasse para Deus.

Sob a influência dos profetas o arrependimento veio a ter proeminência para a salvação do povo, pois, segundo Eichrodt, o perdão é uma ação pessoal de Deus para com o homem, logo é necessário que este homem corresponda pessoalmente a esta ação de Deus (EICHRODT, 2004, p. 901).

 O arrependimento no Antigo Testamento, segundo Willian Holladay, é originário da raiz shub que significa voltar-se. Expandindo este conceito, Holladay define arrependimento no Antigo Testamento como retomar o caminho ao ponto de partida.

 O arrependimento está ligado à confissão do pecado, conforme atesta o Salmo 32:5, e indica que o pecador está ciente de seus atos e decidido a não mais praticá-los. O pecado é uma ofensa contra Deus, e causa uma ruptura no relacionamento entre Deus e o homem. O pecado só pode ser apagado mediante o perdão que Deus oferece.

 O perdão não pode ser confundido com remissão, pois a remissão requer uma explicação e uma justificativa, portanto o perdão não é a remissão de uma pena, mas a restauração de um relacionamento, muito embora as consequências do pecado permaneçam.

 Em última análise o perdão de Deus no Antigo Testamento permanece um mistério, mas podemos ter uma idéia mais clara a partir do trecho de Isaías compreendido entre 52:13 até 53:12, quando a idéia do sofrimento vicário de um Redentor foi lançada pela morte expiatória do Messias.

Os efeitos do pecado

 

O estudo do pecado no Antigo Testamento nos leva necessariamente aos efeitos que o pecado causou em Adão e seus descendentes, porém o Antigo Testamento nada diz sobre os efeitos deste acontecimento.

Segundo Eichrodt, o profetismo passa pelos efeitos de Gênesis 3 sem prestar muita atenção, pois interessava a eles que seus ouvintes, atentos à proclamação do juízo, pudessem decidir e despertar seu sentido de responsabilidade, afinal estavam sob ameaça imediata, logo não havia necessidade de olhar para origem do problema naquele momento (EICHRODT, 2004, p. 849).

Gênesis 3 não diz nada sobre as consequências do pecado de Adão sobre seus descendentes, mas mostra as consequências para os envolvidos no primeiro pecado. A serpente é amaldiçoada, e o primeiro casal sofre os efeitos do seu pecado. À mulher coube ter seus filhos mediante dores no parto, o desejo ao seu marido e a submissão a ele; ao homem restou tirar o sustento da terra por meio da força física excessiva e a terra foi amaldiçoada. Deus expulsa do jardim o casal e o impede de entrar usando uma espécie de “guarda angelical”. Agora ninguém mais teria acesso ao jardim, onde ficava a árvore da vida; restava aos homens a morte, conforme o relato de Gênesis 3:22-23.

Para Eugene Merril, o fato da mulher ter provado o fruto primeiro, e ter oferecido a seu marido, sugere uma iniciativa de liderança sobre a familia criada, para a qual a mulher não fora feita. Portanto, a partir deste momento, seu desejo seria para seu marido, pois esta iniciativa de auto governo é o próprio âmago da queda (MERRIL, 2009, p. 206).

 Eichrodt vai além nesta meditação e diz que não se proclama simplesmente a morte como castigo do pecado, mas uma escravidão de uma vida inteira sob o poder da morte por meio do sofrimento, da dor e da fadiga, conforme o Salmo 90:7, onde o resultado não é a morte em si, mas o rápido passar da vida (EICHRODT, 2004, p. 847).

Smith, citando Victor Hamilton, diz que a morte não é tida como a consequência do pecado de Adão, mas o resultado do pecado é o trabalho árduo por toda a vida.

O Antigo Testamento não explica o pecado de um ponto de vista didático, entretanto mostrará toda a história subsequente como uma história de pecado. No episódio entre Caim e seu irmão Abel, o pecado não estava na exteriorização violenta de Caim contra seu irmão, mas na ira e inveja que sentiu dele. A consequência do pecado de Caim não foi a morte, mas sua alienação da sociedade.

À época de Noé, a terra estava corrompida (Gn 6:11-12), e Deus viu que toda intenção do homem era má (Gn. 6:5), por isso enviou o dilúvio para castigar a humanidade por seus pecados. Porém, mesmo após o dilúvio, Deus observou que as intenções do homem continuaram más, indicando que o pecado era universal (Gn 8:12). A família de Noé não foi poupada porque não tinha pecado, apesar de Noé ser chamado de justo e íntegro, porém a palavra tāmîm (direito, perfeito) não significa “sem pecado”, mas saudável ou inteiro.

 O Antigo Testamento não é dogmático no sentido do pecado original, porém mostra a tendência natural do ser humano para praticá-lo, além de referir-se aos efeitos do pecado sobre as gerações seguintes, conforme Ex. 20:5; Lv. 26:39; Nm.14:18. Estas passagens podem ser explicadas partindo-se do princípio do coletividade na visão israelita. Ou seja, o indivíduo estava subordinado a um grupo e as consequencias de seus pecados nunca eram individuais, mas atingia todo o grupo.

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