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009 – Introdução ao Livro de Rute – Nem tudo está perdido

Introdução ao Livro de Rute – Nem tudo está perdido

 

A história narrada no livro de Rute se passa na época dos juízes, que, como estudamos anteriormente, foi uma época de apostasia e descaso com Javé e sua aliança. O livro de Rute apresenta o caminho oposto do livro de juízes, pois mostra a lealdade uma moça moabita para com Noemi, sua sogra israelita, e seu Deus.

Os moabitas eram descendentes de Ló, sobrinho de Abraão (Gn. 19:37). Eles ocupavam o território a leste do Mar Morto, e, na época da peregrinação dos hebreus no deserto, eles demonstraram agressividade a Moisés e ao povo (Nm. 21 – 25).

Apesar de Rute constar logo após o livro de juízes em nosso cânon, na Bíblia hebraica este livro situa-se na seção dos Escritos, portanto, não é considerado parte da história deuteronomista.

O livro começa dando a entender que o período dos juízes passara, ou seja, as narrativas se passam no período dos juízes, porém foram escritas durante a monarquia, pois a genealogia, no fim do livro, sugere que os leitores conheciam o rei Davi.

Embora as narrativas nos levem ao tempo dos juízes, não há como ter certeza se  a história de Rute, a moabita, se encaixa neste período. A narrativa em Juízes 3, nos diz que Eúde expulsara os  moabitas de Israel, portanto a história de Rute não cabe nesta época. Logo, se a genealogia está completa, os acontecimentos podem estar situados na época de Jefté, no século XII a.C.

A riqueza de diálogos e a construção dos personagens, levaram alguns estudiosos a classificar o livro de Rute como um conto, o que não elimina o caráter e a precisão histórica do livro.

Estrutura de Rute

 

O livro de Rute está estruturado como um espelho, ou seja, os elementos finais da história espelham os elementos iniciais, trazendo-lhes uma solução.

O livro pode ser dividido da seguinte maneira:

  1. Migração e tragédia da família de Elimeleque – 1:1:5
  2. O retorno para Belém – 1:6-22
  3. Rute encontra Boaz – 2
  4. O plano de Noemi – 3
  5. Casamento de Rute e Boaz – 4:1-17
  6. Genealogia de Davi

De acordo com a estrutura espelho do livro, o capítulo 1 espelha o 4, pois no capítulo 1 o desespero de Noemi se torna em alegria por um filho no capítulo 4. Os capítulos 2 e 3 são correspondentes em virtude dos diálogos entre Rute e Noemi e entre Rute e Boaz. O desfecho no capítulo 4, ao espelhar o capítulo 1, só foi possível graças aos desfechos dos diálogos dos capítulos intermediários.

Propósito e conteúdo

O livro de Rute menciona os seguintes conceitos:

  • A Fidelidade e lealdade de Deus
  • A lealdade em um ambiente de apostasia
  • O legado dos ancestrais do rei Davi
  • O Conceito do Resgatador

O período dos juízes, sem sombra de dúvida, representou um momento muito negativo no que se refere à fidelidade à aliança por parte do povo de Israel. O livro de Rute mostra o contraste entre os grandes heróis do período dos juízes com uma simples família israelita. Foi justamente de uma dessas famílias em apuros que a fé em Javé foi preservada, e de onde veio o maior dos reis de Israel: Davi.

Javé preservara esta família para manter seu nome em Israel, para mostrar sua lealdade e fidelidade à aliança realizada séculos antes.

O resgatador

 

Se um homem morresse sem deixar filhos, seu irmão deveia se casar com a viúva e era obrigado a gerar um filho em nome do seu falecido irmão. Este sistema é chamado de levirato, e é descrito com detalhes em Deuteronômio 25:5-10. Este sistema preservaria as famílias, que não teriam um fim repentino.

O costume do levirato também incluía o direito ao resgate de terras, conforme prescrito em Levítico 25:25-31; 47-55. A terra vendida a alguém poderia ser resgatada, comprada de volta por alguém da família. Estes costumes tinham o propósito de preservar as famílias e a terra, duas questões centrais da aliança.

O resgatador era um intermediário para readiquirir as bênçãos em risco e serve de exemplo para a Graça de Deus. O Novo Testamento aplica este conceito à ação de Cristo para com a Igreja.

Hesed

 

O termo hesed se refere à lealdade de Javé com sua aliança. Algumas traduções da Bíblia usam misericórdia, outras preferem a palavra bondade para designar a hesed de Deus.

No livro de Rute, a hesed de Javé é demonstrada tanto vertical, quanto horizontalmente. No plano horizontal, o compromisso de Rute com sua sogra em 1:16-17 é um exemplo da bondade e misericórida. É justamente esta característica que chama a atenção de Boaz em 2:12 por Rute, onde a hesed que ele também demonstra por Rute é louvada em 2:20.

No plano vertical a hesed de Javé é descrita em 1:8-9, que levará ao casamento de Boaz e Rute no capítulo 4, onde a misericórdia de Javé se manifesta no resgatador de Noemi.

A conclusão do livro é que a misericórdia de Javé se manifesta na misericórdia de uns pelos outros, que culmina em seu louvor e adoração, contrastando com o livro de Juízes pela falta de lealdade à aliança.

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006 – Introdução ao Deuteronômio – A nova geração

Introdução ao Livro de Deuteronômio – A nova geração

 Ao contrário do que o nome, vindo do grego, sugere, Deuteronômio não se trata de uma segunda lei, mas é uma recapitulação, para a nova geração pós-êxodo, sobre os ensinos da lei que Javé dera ao povo hebreu por intermédio de Moisés.

Durante trinta e oito anos os israelitas ficaram em Cades-Barnéia, no deserto de Parã, e puderam entrar na terra da promessa somente quando a primeira geração do Êxodo havia morrido. Escrito pouco antes da morte de Moisés, o livro fornece uma retrospectiva do que acontecera com a geração anterior e adequa os ensinos do Livro da Aliança para a geração atual e possibilita a renovação da aliança.

O livro de Deuteronômio segue a estrutura dos antigos tratados dos povos do Antigo Oriente Médio, logo podemos notar a unidade de conteúdo do livro e estabelecer sua data de composição no período Mosaico, ou seja, o segundo milênio a.C.

A tabela abaixo mostra a estrutura dos antigos Tratados dos povos do Oriente Médio, e a comparação com a Aliança entre Javé e os hebreus.

Tratados Antigos Descrição Aliança Referência
Título Identifica o autor, a parte superior, e seu direito do tratado Título Dt. 1:1-5
Prólogo histórico Mostra o cuidado da parte superior com o subordinado no passado e este relacionamento entre as partes envolvidas Prólogo Dt. 1:6 – 3:29
Leis Obrigações dadas pela parte superior que deveriam ser obedecidas pelo subordinado Leis e estipulações Dt. 4 – 26
Bençãos e maldições Instruções de conservação e leitura pública Garantias/Leitura Dt. 27:2-3
Maldições prescritas contra os que desobedecem e a reação da divindade Bênçãos e Maldições Dt. 28
Deuses convocados para testemunhar o juramento de ambas as partes Testemunhas Dt. 31 e 32

De acordo com a tabela acima, os tratados da antiguidade eram divididos em:

  1. Introdução apresentando o narrador
  2. Prólogo histórico sobre a bondade da parte superior, o senhor e suserano.
  3. Os detalhes do que era esperado do subordinado
  4. Ordens sobre a conservação e armazenagem do tratado e suas leituras periódicas
  5. Lista de testemunhas para o tratado, geralmente alguma divindade
  6. Maldições ou bênção de acordo com a obediência do subordinado

Em Deuteronômio Javé é apresentado como o superior autor da aliança. O prólogo do tratado registra a ação redentora de Javé com os israelitas ao livrá-los da escravidão no Egito. Por isso Javé tem o direito de fazer estipulações ao povo, a parte subordinada do tratado. Estas estipulações estão descritas nos capítulos 4 a 26 abrangendo grande parte do livro. O item do tratado que corresponde à garantia e conservação está registrada no capítulo 27:2-3, que diz ao povo para erguer pedras e escrever a lei nelas assim que chegassem à Terra Prometida. No capítulo 28 estão registradas as bençãos e maldições do tratado, e, nos capítulos 31 e 32 encontram-se as testemunhas, que inclui um cântico de Moisés que servirá de juramento a Javé.

Estrutura de Deuteronômio

O livro de Deuteronômio pode ser dividido em três grandes discursos de Moisés, conforme abaixo:

  • Primeiro discurso de Moisés: Dt. 1:1 – Dt. 4:43
  • Segundo discurso de Moisés: Dt. 4:44 – Dt. 28:68
  • Terceiro discurso de Moisés: Dt. 29 e 30
  • Últimas palavras de Moisés: Dt. 31 a 33
  • Transição para Josué: Dt. 34

Além disso, os capítulos 6 a 26 de Deuteronômio, que tratam sobre as leis para o povo da aliança, podem ser agrupados de acordo com a estrutura dos dez mandamentos, de acordo com a estrutura abaixo:

1º Mandamento – autoridade divina – Dt. 6 – 11

Não terás outros deuses diante de mim

Incentiva o amor e obediência a Deus e apresenta formas de como agir para este fim. A eleição de Israel por Deus o torna digno de respeito.

2º Mandamento – Dignidade divina – Dt. 12

Não farás para ti nenhuma imagem de escultura

O uso de um santuário central impediria os israelitas de usar os santuários cananeus e preservaria sua prática religiosa e ensino. Javé não deveria ser adorado como os deuses cananeus, no qual os cultos eram interesseiros e manipuladores. A adoração a Javé não deveria ser manipuladora e interesseira, mas ser genuína e ter seu lugar devido.

3º Mandamento – Compromisso com a divindade – Dt. 13:1 – Dt. 14:21

Não tomarás em vão o nome do Senhor teu Deus.

A conduta cotidiana reflete o compromisso com a fé em Javé. Por isso os capítulos 13 e 14 dão exemplos concretos de conduta que o israelita que leva Deus a sério teria. Deus não perdoaria quem não o levasse a sério, logo o povo também deveria agir da mesma maneira.

4º Mandamento – Direitos da divindade – Dt. 14:22 – 16:17

            Lembra-te do dia de sábado para santificá-lo

Javé, como libertador do povo de Israel, merece toda honra. Portanto é esperado de seu povo lhe dediquem seus bens e liberdade, que devem ser estendidos a outras pessoas, e vai além do sábado. Este trecho dará exemplos práticos de como isso deve ser feito.

5º Mandamento – Autoridade humana – Dt. 16:18 – 18:22

            Honra teu pai e tua mãe

Este trecho procurar enfatizar a autoridade humana para garantir a preservação da aliança, cujo ensino começa no lar com a autoridade dos pais. Porém o texto coloca outras autoridades no processo de instrução da aliança: juízes, reis, profetas e sacerdotes.

6º ao 8º Mandamentos – Dignidade humana – Dt. 19-21; 22:1-23:14; 23:15 – 24:7

            Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás

Este é o trecho mais difícil de harmonizar com os dez mandamentos. Mas, de forma geral, este trecho trata sobre a dignidade da existência humana, onde as mortes causadas pela guerra não se incluem neste contexto. A essência da natureza do povo também deveria ser preservada, assim como ninguém deveria se misturar no casamento de seu próximo, fios e plantas não deveriam ser misturados. Por último, este trecho trata sobre a dignidade da pessoa. Deuteronômio deixa claro que não se rouba apenas bens materiais, mas o roubo da liberdade ou do amor próprio é tão destrutivo quanto o furto dos bens materiais, pois ameaça e tira a dignidade de uma pessoa.

9º Mandamento – Compromisso com a humanidade – Dt. 24:8-16

Não darás falso testemunho contra teu próximo

Devemos tratar o próximo com sinceridade. A confiança mútua é o resultado de levar o compromisso com a aliança a sério.

10º Mandamento – Direitos humanos – Dt. 24:17 – 26:15

Não cobiçarás coisa alguma que pertença a seu próximo

Este trecho sugere que os direitos individuais devam ser protegidos, pois os hebreus não deveriam desejar nada que fosse do seu próximo.

Propósito e conteúdo

O livro de Deuteronômio abrange os seguintes assuntos:

  • O local de adoração de Javé
  • As leis organizadas de acordo com os dez mandamentos
  • O nome de Deus
  • O amor e obediência a Javé, Deus da aliança.

Lei

No Antigo Oriente Médio, os povos tinham muita dificuldade para entenderem e decifrarem a vontade de seus deuses. Porém, para o hebreu este problema não existia, pois seu Deus decidira se revelar a eles, e usou a lei para mostrar o que se requeria deste povo escolhido. Logo, para o hebreu a lei era a demonstração da graça de Javé. A lei era um prazer, não um fardo. No NT Paulo se coloca contra os judeus que tentaram fazer da lei um meio de salvação  e não de revelação graciosa de Javé.

O Santuário

O tabernáculo, bem como o templo, representava a presença de Deus entre o povo no Antigo Testamento. Os hebreus tinham apenas um único Deus, logo para enfatizar este conceito teológico, o culto foi centralizado para garantir a prática religiosa correta.

Teologia da História

Javé se revelou ao povo hebreu em eventos históricos, isso fica claro no prólogo do tratado da aliança. A revelação de Javé foi histórica e envolvia uma resposta do povo não apenas o conhecimento intelectual. Além disso, os eventos históricos registrados em Deuteronômio tem caráter didático para a nova geração, que deveria aprender com os erros dos seus antepassados antes de entrarem na terra prometida.

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Jesus, o profeta

Antes de mais nada convém dizer que o título de profeta, aplicado a Jesus, não indicava sua profissão, pois, no judaísmo do primeiro século, esta profissão,  organizada e regular, já não existia mais. Muito pelo contrário, pois onde Jesus é identificado como profeta, não o é simplesmente como um profeta, mas como o profeta, que veio cumprir toda a profecia. Israel esperava o profeta escatológico, pois devido à longa tradição profética de Israel a palavra nabi ganhara diversos sentidos. O termo profeta originariamente significava o profeta extático, e ganhou outro significado quando surgiu uma classe de profetas profissionais, que emitiam oráculos; foi a esta classe que a idéia escatológica ficou associada. Este profetismo, que não apenas transmitia visões, mas, sobre tudo as interpretava, havia se extinguido de Israel na época de Jesus. Por conta disso, a volta deste tipo de profetismo era visto sob lentes escatológicas, ou seja, reapareceria somente no fim dos tempos, conforme o texto de Joel 2:28 em diante. É neste contexto que o aparecimento de João Batista é visto. Então, dada esta esperança escatológica, que se cumpriria na vida de um único profeta, João Batista, e depois Jesus, foi considerado profeta.

A idéia judaica de profeta converge para apenas um profeta, encarnado em diferentes homens ao longo da história, que aparece em sua forma definitiva no fim dos tempos para a realização final da profecia. Este pensamento começa no Pentateuco, quando Moisés prediz que Deus levantaria outro profeta semelhante a ele (Dt. 18:15). Nesta linha de pensamento, o profeta mais esperado era Elias, que é identificado como aquele que prepararia o caminho de JAVÉ (Ml. 4:5). Este profeta apareceria e pregaria os últimos mistérios de Deus e a última oportunidade ao arrependimento para salvação, porém ele não seria um mero precursor do Messias, mas seria o próprio Messias. No Novo Testamento João Batista é visto como o profeta anunciado no Antigo Testamento, pois a fórmula que Lucas emprega para referir-se a ele é identica à usada para os profetas veterotestamentários. Jesus inclusive afirma esta posição do judaísmo tardio ao dizer que João Batista era o Elias ressucitado. Quando analisamos os textos que se referem a Jesus com o título de profeta, é necessário fazer uma distinção entre aqueles que tratam de Jesus como um profeta, justamente por terem havido diversos, daqueles onde ele é tatado como o profeta escatológico. Porém, a noção que Israel tinha do profeta escatológico está ligada à idéia do profeta comum.

No texto de Lucas 7:16, que relata o episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim, todos glorificaram a Deus dizendo que um grande profeta havia se levantado entre eles. Neste trecho não há artigo definido indicando o profeta, ou seja, o povo, naquela ocasião não considerou Jesus como o profeta do fim dos tempos, mesmo porque este não precisaria do adjetivo “grande”. Também em Mateus 21:46 os fariseus temeram prender a Jesus pois a multidão o tinha por profeta, ou seja, um profeta, e não o profeta escatológico. Porém, temos os textos que tratam de Jesus como o profeta do fim dos tempos. Em Mc. 6:14, estão registradas as mais antigas crenças sobre Jesus, tais como: Elias, um profeta como os antigos profetas e João Batista. Estas declarações, pela antiguidade do texto, vem antes até mesmo de títulos fundamentais de Jesus como Cristo e Filho do Homem. O fato de comparar Jesus com João, é relevante, pois João foi considerado o profeta do fim dos tempos, logo, nesta passagem, Jesus também é identificado como tal. O curioso aqui é que Jesus não recebe o nome de um profeta do passado, mas de um profeta que vivera recentemente numa época já escatológica.

A comparação com Elias era a mais coerente com aquela época, pois se aguardava o seu retorno escatológico, conforme dito acima. No terceiro caso, segundo o texto ocidental, Jesus não seria comparado com um dos profetas, mas identificado com eles. Ou seja, nos três casos o resultado é o mesmo: trata-se do profeta do fim dos tempos. A úncia diferença é que nos dois primeiros casos da-se um nome para Jesus, enquanto que no último esta nomeação não é feita. Esta proposição é confirmada no trecho de Mc. 8:28, quando os discípulos respondem a Jesus com as três afirmações básicas sobre sua pessoa, ou seja, alguns diziam que ele era João Batista, outros Elias e, ainda alguns, um dos profetas. Observamos que os evangelhos sinóticos trazem as correntes de pensamento mais populares sobre Jesus, e, o que é mais curioso, é que nem Marcos, nem Mateus ou Lucas utilizaram este título para se referir a Jesus em sua crença pessoal, mas relataram a visão popular sobre Jesus.

 Jesus não se considerou o profeta escatológico, mas atribuiu este papel a João Batista, que, segundo Jesus, foi tratado de forma desprezível, de acordo como os registros em Mt. 11:14 e Mt. 17:12. O evangelho de João mostra que a multidão atribuiu a Jesus o título de profeta, como está narrado no episódio da multiplicação dos pães (Jo. 6:14). Na primeira parte do livro de Atos, que trata das tradições judaico-cristãs, Jesus é identificado duas vezes como o profeta predito por Moisés, porém na segunda parte de Atos, bem como nas epístolas, não encontramos esta identificação. A vertente judaico-cristã do cristianismo, baseada no Evangelho dos Hebreus, encarou Jesus como o profeta escatológico. O conhecimento insuficiente deste evangelho, uma vez que apenas alguns fragmentos deste estão disponíveis, é compensado pelo Kerygmata Petrou, onde encontramos uma especulação gnóstica do título “verdadeiro profeta” atribuído a Jesus. Os documentos do Kerygmata Petrou associam o título de “verdadeiro profeta” a Adão, e que, durante a história foi encarnou-se em Enoque, Noé, Abraão, Isaque, Jacó e Moisés. Moisés então aponta para um profeta semelhante a ele, que aboliria os sacrifícios, uma função essencial do verdadeiro profeta. Esta linhagem segue até Jesus, que é a encarnação perfeita do verdadeiro profeta desde Adão.

Esta teoria judaico-cristã carrega em seu âmago a crença de que a história se desenvolve continuamente sob pares antagônicos. Sendo Adão o primeiro “verdadeiro profeta” seu par antagônico é Eva, o princípio da falsa profecia. Isaque, o verdadeiro se opõe a Ismael. Da mesma maneira Jacó, o verdadeiro profeta se opõe a Esaú, o falso profeta. Outrossim, Moisés sofre oposição de Arão. E finalmente Jesus, o “verdadeiro profeta”, o escatológico, tem como par antagônico João Batista, cujos seguidores sofrem crítica implícita no Evangelho de João. Estas ideías do cristianismo judaico primitivo não influenciou a dogmática cistã posterior, porém exerceu grande influência em outra religião monoteísta, na qual o profeta desempenha um papel central: o islamismo. De certa forma o papel de Jesus como profeta representa uma vantagem em relação ao de Messias, pois, na concepção judaica, o Messias instituiria um novo programa de governo em relação ao governo romano instituído além da restauração de Jerusalém aos tempos davídicos, enquanto que o papel de Jesus como profeta dos últimos tempos representa o seu lado humano. Este profeta vem justamente preparar o mundo para a vinda do Reino de Deus, onde o Messias é seu representante máximo. O conceito profético sobre Jesus explica o caráter escatológico de sua mensagem: o Reino de Deus se aproxima. Não devemos reduzir o papel de Jesus apenas ao profeta do fim dos tempos, pois o título de profeta a Jesus explica sua obra terrena, e sua mensagem preparatória sobre a vinda do Reino de Deus.

A remoção do pecado

O Antigo Testamento é muito rico no que se refere à ação que Deus toma em relação ao pecado. Algumas atiudes tomadas por Deus são: 1) Ele o remove, ou joga fora como roupas sujas (Is.6:7); 2) Ele afasta-o (Ex. 34:6-7); 3) Ele o apaga (Is. 44:22); 4) Ele lava e limpa do pecado (Sl. 51:2); 5) Ele o expia (Ez. 16:62); 6) Ele se esquece (Is. 43:25); 7) Ele os lança para trás de si (Is. 38:17); 8) Ele os perdoa (Sl. 103:2-3).

O Antigo Testamento registra muitas formas primitivas que as pessoas tinham para lidar com o problema do pecado e sua remoção. Estas antigas formas eram procedimentos externos para remoção do pecado, tais como: 1) lavagem com água (Nm. 8:7); 2) queimar pelo fogo (Nm. 31:22); 3) um animal levava embora o pecado (Lv. 14:7); 4) nos casos mais sérios o pecador era expulso da comunidade, ou mesmo morto (Lv. 20:6).

Eichrodt, afirma em linguagem jurídica, que a expiação, nos casos mais primitivos tem o sentido de remoção material de um veículo de poder judicial, porém não é caso quando o Antigo Testamento trata deste assunto, pois nos casos de rompimento da aliança, que era uma relação pessoal com Deus, esta deve ser restabelecida por meio da remoção do pecado (EICHRODT, 2004, P. 881).

 O tema do desvio da ira de Deus também é tratado no Antigo Testamento. Este assunto é tratado em I Samuel 26:19, quando Davi pensa em fazer um sacrificio a Deus para que Saul não mais o persiga. A idéia de propiciação ou expiação no Antigo Testamento tem o sentido de “acariciar o rosto” de Deus, enternecê-lo ou abrandá-lo tornando, desta maneira, Deus favorável ao pecador. (1 Sm. 13:12; IRs. 13:6).

 Outro modo das pessoas se livrarem dos pecados era o sacrifício, que, entretanto, não expiava todos os pecados, tais como alguns tipos de assassinato (Nm. 35:31) ou pecados contra a aliança. A expiação não equivale a perdão dos pecados, mas expiação significa salvar alguém da morte merecida.

 Eichrodt diz que a expiação tem um caráter pessoal, pois não apenas é uma forma de remoção dos pecados, mas um método de perdão (EICHRODT, 2004, p. 882). A raiz da palavra expiação, kpr, aparece relacionada com sacrifícios, que se torna na prática uma representação de um relacionamento que se restaura. Eichrodt afirma que toda ação sacrificial foi instituída por Deus, logo é uma atitude graciosa de Deus oferecendo a possibilida de se expiar tudo aquilo que exige expiação, para assegurar seu perdão e misericórdia (EICHRODT, 2004, p. 884).

Segundo Whale, citado por Smith, não existe o conceito de sofrimento vicário ou sacrifício substitutivo, ou seja, a idéia de aplacar a ira de Deus ou oferecer algum pagamento pelo pecado não encontra eco nas escritos do Antigo Testamento, pois é o próprio Deus quem tira ou remove o pecado. No conceito da aliança, Deus queria que seu povo estivesse sem pecado, para usufruir do relacionamento pessoal que fora estabelecido, logo o próprio Deus oferecia um meio de remover estes pecados para que seu relacionamento fosse pleno.

 Avançando na história, os profetas começaram a falar mais em arrependimento e perdão do que nos atos sacrificiais, e ficaram desapontados com a falta de resposta do povo ao arrependimento oferecido por Deus. Nos escritos proféticos da monarquia, muitas passagens são anúncios de condenação por falta de arrependimento, que era apenas o chamado dos profetas para que Israel voltasse para Deus.

Sob a influência dos profetas o arrependimento veio a ter proeminência para a salvação do povo, pois, segundo Eichrodt, o perdão é uma ação pessoal de Deus para com o homem, logo é necessário que este homem corresponda pessoalmente a esta ação de Deus (EICHRODT, 2004, p. 901).

 O arrependimento no Antigo Testamento, segundo Willian Holladay, é originário da raiz shub que significa voltar-se. Expandindo este conceito, Holladay define arrependimento no Antigo Testamento como retomar o caminho ao ponto de partida.

 O arrependimento está ligado à confissão do pecado, conforme atesta o Salmo 32:5, e indica que o pecador está ciente de seus atos e decidido a não mais praticá-los. O pecado é uma ofensa contra Deus, e causa uma ruptura no relacionamento entre Deus e o homem. O pecado só pode ser apagado mediante o perdão que Deus oferece.

 O perdão não pode ser confundido com remissão, pois a remissão requer uma explicação e uma justificativa, portanto o perdão não é a remissão de uma pena, mas a restauração de um relacionamento, muito embora as consequências do pecado permaneçam.

 Em última análise o perdão de Deus no Antigo Testamento permanece um mistério, mas podemos ter uma idéia mais clara a partir do trecho de Isaías compreendido entre 52:13 até 53:12, quando a idéia do sofrimento vicário de um Redentor foi lançada pela morte expiatória do Messias.

O homem é um CTRL+C CTRL+V de Deus?

A relação Criador-criação

É interessante notar que a relação Criador-criação coloca separação entre Deus e a raça humana, mas também cria um elo entre um e outro.

Esta relação não lhe foi acrescentada, mas é a base de sua humanidade.

O ser humano é diferente de toda espécie criada, pois, segundo o salmo 8, Deus fez o ser humano um pouco menor do que os anjos(ou Deus – elohim) e o colocou sobre toda a criação. Algumas Bíblias traduzem por anjos, outras traduções por seres celestiais, porém o termo hebraico original é Elohim, que significa Deus, ou ainda deuses.

No capítulo 2 de Gênesis o autor claramente diferencia o homem das demais criaturas quando enfatiza a transferência direta do sopro divino ao homem. Isso não é citado em nenhum outro ato da criação.

A inquietude e a busca

De acordo com o Salmo 42, o homem está sempre inquieto na busca por Deus, e essa inquietude é uma das razões da religiosidade do homem. Até um ateu faz suas pesquisas para provar que Deus não existe, pois, se não houvesse Deus, não haveria ateus.

A relação de dependência do homem para com Deus é comparada com a dependência dos animais pelo ambiente no qual vivem. Agostinho escreveria sobre esta dependência no início da era cristã.

Um pouco de filologia

A pouca menção, no Antigo Testamento, de que o homem é feito à semelhança de Deus não deve ser o pilar principal deste conceito, pois estas passagens deveriam ser pesadas ao invés de contadas.

A expressão “à imagem [tselem] e semelhança [demût]” ocorre apenas 4 vezes no Antigo Testamento, todas em Gênesis. A palavra tselem significa imagem ou estátua representando um ídolo. Já demût significa representação ou forma de imagem esculpida.

Estas palavras não devem ser interpretadas distintamente, pois o paralelismo entre elas nos dá a noção completa da obra de Deus. Esta expressão não é associada a nenhuma outra criação, além de aplicar-se à mulher de igual forma.

É interessante notar que, apesar dos significados de tselem e demût, o Antigo Testamento nega qualquer tipo de espírito ou sopro divino nos ídolos esculpidos, mas afirma que o homem foi criado como representação de imagem esculpida com o sopro divino [nephesh] nele.

Imagem e semalhança na cultura do Antigo Oriente Próximo

Havia o conceito de um “fluído divino” nas imagens dos deuses na antiguidade, as quais eram esculpidas, ou a própria pessoa viva poderia conter essa substância, geralmente o rei. Qualquer semelhança aqui com dominação e poder não é mera coincidência.

Porém, o Antigo Testamento rejeita fortemente esta idéia – basta ler o profeta Isaías e seu irônica texto sobre os falsos deuses.

Questões importantes sobre a imagem e semelhança de Deus

Quando pensamos sobre “imagem de Deus” no Antigo Testamento vários aspectos estão envolvidos, e seguem abaixo:

– O plural mencionado no verso 26 do capítulo 1 de Gênesis

  • Pode referir-se a um tratamento Majestático – tal qual dispensamos a um juiz por exemplo.
  • Ou ainda pode ser um recurso estilístico de linguagem, o nós editorial, tal qual um pastor que emprega o pronome na primeira pessoa do plural (nós) para referir-se a ele mesmo.

– A própria expressão hebraica betsalmenû kîdemûtenû

  • Tselem e Demut são sinonimos? Se forem se trata então do reforço da idéia de semelhança? Ou, de acordo com os estudiosos mais antigos, tselem significa forma fisica e demut qualidade espiritual?

– O domínio do homem sobre toda a criação

  • Será que o domínio sobre criação é extensão dessa imagem e semelhança de Deus ?

– Tanto o homem quanto a mulher estão incluídos na imagem de Deus

  • Será que a sexualidade é um atributo de Deus?
  • As religiões orientais falam sobre divindades masculinas e femininas
  • No Antigo Testamento o sexo é um atributo da criatura não do Criador. Javé estava acima da polaridade do sexo, logo Israel não deveria considerar o sexo um mistério. Portanto o sexo não deveria fazer parte do culto, pois era pertencente à criatura, não ao Criador. Diferente dos demais povos, que praticavam cultos da fertilidade envolvendo as prostitutas cultuais, pois seus deuses tinham diferenciação por gênero sexual

A transmissão dessa imagem à descendência do homem descrita em Gênesis 5

  • Isso significa que todos continuam portando a imagem de Deus ?
  • Será que Adão transmitiu a imagem divina a Sete pela procriação?
  • De acordo com Henton Davies: o proposito não é mostrar as gerações seguintes com a imagem de Deus, mas sim que a cada geração passada ficavam mais longe da imagem divina.

Por extensão, a vida do homem é sagrada.

  • Pois era a própria imagem de Deus

Historicidade deste conceito

De fato, durante a história, esta doutrina tem sido discutida, de várias maneiras, por muitos teólogos, cada um deles influenciados pelos conceitos religiosos e filosóficos de seu tempo.

O livro apócrifo de Eclesiástico, escrito no século II a.C., tem uma abordagem semelhante à de Gênesis, enquanto que o livro, também apócrifo, Sabedoria de Salomão, escrito no fim do século I a.C. prepara o caminho para o conceito de que a “imagem” do homem não está sujeita à queda.

O Novo Testamento também cita o homem como imagem de Deus, porém Jesus nunca usou a expressão imagem de Deus. Devemos ter o cuidado de não depreendermos uma dogmática sobre a condição inicial do homem a partir da imago Dei, pois não é o propósito do Antigo Testamento fazer isso.

Visão de alguns teólogos sobre este tema

Calvino:

  • Sentido Geral: criatura de Deus no universo, criação mais importante de Deus.
  • Sentido especial: Relação Adão-Eva como modelo da relação Deus-homem. O conhecimento mais acurado desta relação só pode ser ganho por meio da restauração da natureza corrupta em Cristo.

Emil Brunner:

  • Aspecto Formal: O homem não perde a imagem de Deus, mesmo em pecado.
  • Aspecto Material: Segundo o NT o home deve dar a resposta na qual Deus deseja, resposta do seu amor, não apenas em palavras, mas por toda vida.

Strong:

  • Imagem natural:Semelhança natural a Deus, aspecto moral de valorização da vida, mesmo aos não regenerados.
  • Imagem Moral: Quando o homem pecou mudou de direção em relação a Deus. Em sua regeneração volta à direção original.

O primeiro sentido refere-se aos aspectos humanos do homem. É a criatura que reflete a Deus no cosmos.

O segundo refere-se à imagem renovada do homem. Criado para relacionar-se com Deus pecou. Quis, ser o próprio Deus, ao invés de ser apenas o representante dele na terra.

No primeiro século d.C. Ireneu foi o primeiro a separar as várias partes do ser humano com base na expressão imagem e semelhança. Para ele a “imagem” era a racionalidade do ser humano, enquanto que a “semelhança” representava a autodeterminação, que se perdera na queda, mas que era recuperada com a conversão a Cristo.

Este conceito perdurou por quase 1500 anos, até a época de Martinho Lutero, que interpretou esta expressão como um paralelismo do texto hebraico.

Karl Barth afirmou que, na queda, a ligação do homem com Deus foi totalmente rompida.

Podemos concluir dizendo que o ser humano é o único ser criado semelhante a seu criador. Nós o representamos e exercemos parcialmente seu poder na terra. Somos responsáveis pelo modo com agimos perante ele e para com nosso semelhante, pois somos todos feitos à imagem e semelhança de Deus.

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